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3.4. A aliança político-matrimonial com a nobreza castelhana

3.4.1. Os casamentos de D. Afonso e de suas filhas

Para que possamos compreender as estratégias políticas que pesaram para o estabelecimento dos casamentos do infante D. Afonso com D. Violante e de suas filhas com D. Juan, o Torto, D. Nuño Gonzalez de Lara e D. Tello Alfonso de Meneses, é preciso compreender o estatuto sócio-político e econômico que cada um desses nobres experimentou no seio de suas linhagens, assim como a atuação política desses grupos de consanguíneos no decorrer do reinado de Alfonso X – marcadamente após o aprofundamento do conflito régio-nobiliárquico, a partir de 1272, e na guerra civil que marcou os últimos anos do reinado do Sábio. Tarefa que, apesar de demandar um tratamento por vezes exaustivo desse contexto, será essencial para o entendimento da problemática em questão.

D. Violante foi uma dama de elevadíssimo estatuto social no contexto de finais do século XIII na Península Ibérica, fruto de dupla descendência régia, concretizada pela união entre o infante D. Manuel – filho do rei Fernando III de Castela – e D. Constança – filha de

diplomática, a caballo entre los siglos XIII y XIV, y por sus notables intereses señoriales en Portugal, Castilla y Aragón bien merecen estudios individualizados” (GARCÍA FERNÁNDEZ, 1998, p. 919).

Jaime I de Aragão –, como anteriormente apontado. Ao predicado oferecido pelo sangue régio somou-se ainda o poderio econômico, representado pelos senhorios de Elda e Novelda a ela doados pelo pai, conjunto de atributos que faziam dela uma consorte dotada de alto valor matrimonial, condição ratificada por sua pertença à prestigiada linhagem dos Manuéis, fundada por seu pai.

Nascido por volta de 1234, D. Manuel foi o filho mais novo de uma extensa prole gerada pela união entre Fernando III e Beatriz da Suábia, filha de Felipe da Suábia – descendente direto de Frederico I, imperador do Sacro Império Romano Germânico – e Irene – progênita de Isaac II, imperador bizantino641. A dupla condição prestigiante dos sangues dinásticos régio e imperial que se fundiam no corpo do infante ficou expressa em seu nome642, mas também, marcadamente, no símbolo heráldico adotado por ele e característico de sua linhagem – como comprova sua presença na arca tumular de D. Constança, anteriormente analisada.

FIGURA X – BRÃSÃO DE ARMAS DOS MANUÉIS

FONTE: retirado de SEIXAS; GALVÃO-TELLES (2012)

O brasão643 é esquartelado, sendo duas partes preenchidas pela figura do leão, configuração que surgiu como reprodução das insígnias de Fernando III. Contudo, diferentemente desse rei, seu filho abandonou a imagem do castelo para substituí-la pela mão alada empunhando espada, em alusão aos antepassados maternos – os Ângelos, imperadores

641 GIMÉNEZ SOLER, 1932, p. 1; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 13-16; LOMAX, 1982, p. 163-165.

642 Os nomes atribuídos por Fernando III e Beatriz de Suábia aos seus descendentes expressaram a adoção de patronímicos referentes a antepassados tanto paternos quanto maternos. Alfonso, Fernando, Sancho e Berenguela remetem à parentela antecessora do rei de Castela, enquanto Fadrique e Felipe fazem alusão aos ascendentes germânicos da rainha. Enrique era um nome comum a ambos os troncos ascendentes. Manuel, contudo, se destaca por figurar como único nome a aludir à parcela sanguínea bizantina de sua mãe, fazendo referência ao tio dela, Manuel Ângelo, filho de Isaac II (LOMAX, 1982, p. 165).

643 SEIXAS; GALVÃO-TELLES, 2012, p. 424.

bizantinos –, ou, como sugere outra possibilidade interpretativa, uma representação visual da pronúncia do nome do infante castelhano: mano-ala644.

Além desses fatores de ordem simbólica inerentes ao seu sangue, D. Manuel gozou de profunda privança junto ao irmão, o rei Alfonso X, tendo ocupado os cargos de alferes, entre 1258 e 1277, mordomo-mor, de 1279 a 1282, e tenente da Múrcia, de 1262 a 1280645. O infante desempenhou ainda o papel de conselheiro do monarca castelhano, figurando como confirmante de todos os privilégios régios entre 1252 e 1282646. Essa extensa atuação política demonstra o estreito laço de confiança entre os irmãos, fator que se refletiu na atuação de D.

Manuel a favor de causas caras aos interesses do Rei Sábio, tanto no âmbito externo quanto no interno.

Em meio aos esforços de Alfonso X para sagrar-se imperador romano-germânico647, o rei de Castela enviou D. Manuel a Roma, em 1260, para que intercedesse a seu favor junto à Santa Sé648. No ano de 1274, quando o rei castelhano viajou a Roma para tratar da questão com Gregório X, o infante acompanhou o irmão, estando também presente na reunião entre papa e monarca, ocorrida no início de 1275649.

Ainda atuando a favor dos interesses externos de Alfonso X, D. Manuel serviu como instrumento político do monarca por ocasião de seus dois matrimônios. O primeiro casamento, firmado em 1256 com D. Constança de Aragão, ocorreu como parte dos acordos firmados em Sória, os quais visavam solucionar o conflito aragonês-castelhano iniciado pela revolta nobiliárquica de D. Diego López de Haro650. Desse enlace nasceram Alfonso Manuel, morto em 1275, e D. Violante651.

644 SEIXAS; GALVÃO-TELLES, 2012, p. 424-425; MENENDEZ PIDAL, 1982, p. 100.

645 BECEIRO PITA, 1987, p. 84; LOMAX, 1982, p. 168; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 271-272; 279.

646 LOMAX, 1982, p. 166.

647 A morte do imperador Frederico II, em 1250, e a de seu filho, Conrado II, quatro anos depois, findaram a linhagem imperial dos Staufen, abrindo um período de interregno na governança do Sacro Império. Em 1256, Alfonso X recebeu uma embaixada da república de Pisa que, conferindo seu apoio ao monarca castelhano, convenceu-o a concorrer àquele cargo, possibilidade a ele conferida por sua descendência dos Staufen por via de sua mãe, Beatriz da Suábia. Tinha início o assim chamado fecho del Imperio, que passou a ser o eixo de atuação do rei de Castela e foi determinante para sua postura política no âmbito interno e externo até o ano de 1275, quando se encontrou com o papa Gregório X para tratar da questão, reunião esta que ratificou o malogro dos seus planos de ocupar o trono Romano-Germânico, entregue a Rodolfo de Habsburgo dois anos antes (KRUS, 2011, p. 123-125; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 73-88; 142-149).

648 AYALA MARTINEZ, 1986, p. 283; LOMAX, 1982, p. 170.

649 CAX, p. 170-171; LOMAX, 1982, p. 173.

650 AYALA MARTINEZ, 1986, p. 141; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 73; LOMAX, 1982, p. 169. A primeira sublevação nobiliárquica enfrentada por Alfonso X se deu quando, em 1254, D. Diego López de Haro – até então seu alferes – e outros nobres castelhanos abandonaram o reino de Castela para se colocar a serviço do monarca aragonês, alegando o favorecimento do Rei Sábio ao seu privado, D. Nuño Gonzalez de Lara. No ano seguinte, com o falecimento de D. Diego, foi seu filho, D. Lopes Díaz de Haro, quem firmou o pacto com Jaime I de Aragão, tendo a eles se juntado o infante D. Enrique – irmão de Alfonso X. Os conflitos, iniciados em 1255, terminaram com a vitória do suserano castelhano, provocando o exílio do infante D. Enrique, após ser derrotado

Tendo em vista o falecimento de sua esposa e de Alfonso Manuel, seu primogênito, D.

Manuel contraiu segundo casamento, dessa vez com Beatriz de Sabóia, impulsionado pela necessidade de gerar um novo varão que pudesse dar prosseguimento a sua linhagem, expectativa concretizada no ano de 1282, quando nasceu D. Juan Manuel. Derek Willian Lomax entende este último enlace também como uma manobra de Alfonso X, que visava o fortalecimento de suas alianças políticas com os condes de Sabóia, a fim de angariar apoio para sua causa imperial652.

No âmbito da política interna castelhana, D. Manuel contribuiu para a defesa das causas régias ao longo da quase totalidade do reinado de Alfonso X, marcadamente quando atuou como representante do poder régio, buscando defender os interesses do monarca castelhano diante das revoltas nobiliárquicas que marcaram seu reinado653. A privança do infante junto ao irmão não resistiu, contudo, ao avanço dos conflitos entre o Rei Sábio e o futuro Sancho IV em torno da sucessão dinástica – assunto anteriormente abordado.

O primeiro indício de desacordo entre D. Manuel e Alfonso X pode ser constatado nas Cortes de Burgos, ocorridas em 1276, ocasião na qual o infante castelhano se pronunciou abertamente a favor dos direitos sucessórios de D. Sancho654. Todavia, esse ato não implicou no rompimento de suas relações com o Rei Sábio, haja vista que em 1281 ainda aparece apoiando o monarca de Castela655.

O rompimento entre o infante e o rei ocorreu em 1282, quando, por ocasião do simulacro de Cortes realizado em Valladolid, se deu a leitura da sentença de deposição de Alfonso X, anunciada pelo próprio D. Manuel, atitude que buscava conferir legitimidade ao ato656. Segundo interpretação de Manuel Gonzalez Jimenez, os atores sociais presentes naquela reunião ainda mantiveram um posicionamento político dúbio naquele ano, tendo em vista que muitos deles seguiram figurando como confirmantes em diplomas régios alfonsinos – inclusive o pai de D. Violante657.

Admitindo a possibilidade de D. Manuel ter mantido um posicionamento pendular entre o apoio a Alfonso X ou ao futuro Sancho IV, esse comportamento não deve ter durado

por D. Nuño Gonzalez. No ano seguinte, a paz entre os dois reinos foi firmada em Sória, acordo do qual fez parte o casamento do infante D. Manuel com D. Constança (CAX, p. 23; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 66-73).

Para uma análise mais ampla dos acordos firmados em Sória, veja: AYALA MARTINEZ, 1986, p. 137-141.

651 CAX, p. 188; BENAVIDES, 1860, t. I, p. 675; GIMÉNEZ SOLER, 1932, p. 1; LOMAX, 1982, p. 173.

652 LOMAX, 1982, p. 174.

653 CAX, passim; LOMAX, 1982, p. 166; 173.

654 CAX, p. 190-191; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 167.

655 CAX, p. 212-213.

656 CAX, p. 223; GONZALEZ JIMENEZ, 1999, p. 187-188.

657 GONZÁLEZ JIMÉNEZ, 1999, p. 187-188.

para além de 1282. No ano seguinte, as outorgas de domínios senhoriais feitas por D. Sancho ao tio serviram para garantir seu apoio a suas pretensões ao trono, aceitando-o como senhor, conforme evidencia o testamento de D. Manuel – conteúdo que logo será analisado.

A estreita relação que manteve com o poder régio rendeu a D. Manuel uma ampla quantidade de domínios espalhados pelo território castelhano. Sendo o irmão mais favorecido por Alfonso X, recebeu dele extensos domínios nas regiões da Andaluzia – um castelo em Córdoba; seis casas, uma mesquita e uma zona agricultável em Jerez de la Frontera; as aldeias de Heliches e Umbrete em Sevilha –, da Múrcia – vastas propriedades nas cidades da Múrcia e Lorda; os senhorios de Villena, Elche, Elda e Novelda – e do centro-norte do reino – Agreda, Cuellar, Santa Olalla e Escalona. O apoio às pretensões do sobrinho se mostrou vantajoso, possibilitando o incremento dessas posses por meio das doações outorgadas por D.

Sancho: Beas, Chinchilla, Aspe, Jorquera e Almansa, além de garantir a doação do castelo e vila de Peñafiel, ao escolher o futuro Sancho IV como padrinho de batismo de seu filho, D.

Juan Manuel658.

O prestígio sanguíneo de linhagens reais e imperiais, a privança junto ao poder régio, o poderio econômico formado por ampla quantidade de bens e domínios senhoriais: todos esses fatores compunham o estatuto nobiliárquico de D. Manuel, colocando-o em posição cimeira no âmbito da sociedade castelhana da segunda metade do século XIII; predicados estes que o infante buscou assegurar a seus descendentes – D. Juan Manuel e D. Violante Manuel – por meio de suas disposições testamentárias.

Objetivando legar ao seu herdeiro o prestígio que ostentava junto ao poder régio, D.

Manuel fez registrar em seu testamento seu pedido expresso a D. Sancho para que guardasse e defendesse suas determinações testamentárias, assim garantindo a outorga de tudo que havia deixado como herança ao seu único filho, D. Juan; e mais, exorta seu sobrinho – a quem chama de senhor – a criar e manter bem o continuador da linhagem dos Manuéis, requerimento endossado pela lembrança dos muitos serviços prestados ao futuro rei de Castela659.

Também buscando garantir a vinculação de sua linhagem a D. Sancho, D. Manuel reiterou o dever de seus descendentes – marcadamente D. Juan –, sua esposa e seus testamenteiros de reconhecer a autoridade de seu sobrinho e senhor, servindo-o com toda a

658 BECEIRO PITA, 1987, p. 82-83; LOMAX, 1982, p. 167; TORRES FONTES, 1981, p. 11-12.

659 TORRES FONTES, 1981, p. 16; 20-21.

força de seus castelos e vassalos, na guerra ou na paz, sempre que seus serviços fossem requeridos660.

A transmissão de bens ocupa espaço privilegiado no testamento de D. Manuel, por meio do qual ele buscou garantir a transferência de seus predicados econômicos ao elemento masculino responsável pela continuação de sua linhagem. Assim, D. Juan é o alvo predileto das determinações testamentárias, favorecido com a quase completude dos bens de seu pai, excetuados os senhorios doados a sua mãe, D. Beatriz, e a sua meia-irmã, D. Violante.

À sua única filha, fruto de seu primeiro casamento, D. Manuel deixou os já mencionados senhorios de Elda e Novelda, assim como a martiniega661 de Peñafiel, ao passo que o domínio senhorial dessa localidade foi legado a seu meio-irmão662. As doações à filha foram acompanhadas por uma série de determinações voltadas para o favorecimento de D.

Juan sobre aquelas posses, dessa maneira buscando garantir a permanência da posse dos bens da linhagem sob o mando do elemento masculino e, com isso, as possibilidades de continuidade e prosperidade da estirpe dos Manuéis.

Os senhorios recebidos por D. Violante estavam condicionados ao jugo de hereditariedade, sendo vedados a ela ou a seus descendentes a alienação de Elda e Novelda, assim como o uso desses senhorios para interesses contrários aos de D. Juan. Para isso, D.

Manuel determinou que sua filha ou seus herdeiros não usassem aqueles senhorios

[…] contra meu filho D. Juan, meu herdeiro maior, nem contra aqueles que dele vierem que herdarem o senhorio de Elche e de Villena e de todos os outros lugares que tenho no reino da Murcia. E estes lugares de Elda e Novelda com seus castelos não os podem dar, nem vender, nem transferir a ordem ou homem de religião, nem a homem que seja mais poderoso que D.

Juan, meu filho, ou dos que dele vierem […].663

Ainda buscando fortalecer os direitos de posse do herdeiro masculino sobre os domínios de sua meia-irmã, D. Manuel estabeleceu que, se porventura D. Violante ou seus

660 TORRES FONTES, 1981, p. 16-21.

661 No reino de Castela, martiniega é como se convencionou chamar, a partir dos séculos XIII e XIV, o tributo anual devido pelos vilãos pelo uso da terra de outrem; seu nome advém da data estipulada para seu pagamento: o dia de São Martinho (ESTAPÉ RODRIGUEZ, 1952, p. 420). Em períodos anteriores àquelas centúrias, aquele mesmo encargo era conhecido por infurción, sendo igualmente pago em espécie todos os anos ao rei ou senhor pela habitação e usufruto dos espaços de terras que integravam o domínio régio ou o senhorial (LOSCERTALES, 1952, p. 45).

662 TORRES FONTES, 1981, p. 17-18.

663 “[…] contra mio fijo don Johan, mio heredero mayor, nin contra aquellos que del uenieren que heredaren el segnorio de Elche et de Uillena et de los otros logares que yo e en el regno de Murcia. Et questos logares de Elda et de Nouella con sus castiellos non los puedan dar nin uender nin enagenar a orden nin a ome de religion nin a otro ninguno que sea de fuera del sennorio de los regnos de Castiella et de tierra de Murcia nin a omne que sea mas poderoso que don Johan, mio fijo, o de los que del uenieren […]” (TORRES FONTES, 1981, p. 17).

herdeiros quisessem se desfazer de seus domínios, não poderiam vendê-los a ninguém além de seu meio-irmão ou daqueles que dele viessem. E mais, em caso dela ou dos seus não prestarem homenagem a D. Sancho, determinou que D. Juan ou os seus tomassem Elda e Novelda, retendo o senhorio dessas localidades, mas revertendo as rendas daí provenientes aos seus antigos detentores664.

D. Manuel não descuidou tampouco da possibilidade de um de seus filhos morrer, prevendo as medidas a serem adotadas nesse caso: “E se por ventura falecesse a linhagem de D. Violante, que tornem estes lugares a D. Juan, meu filho, ou a seus herdeiros. E se falecesse a linhagem de D. Juan, que torne tudo aos herdeiros de D. Violante”665.

Apresentada a partilha do patrimônio de D. Manuel, constata-se o contraste entre a ampla quantidade de bens herdados por D. Juan e aqueles recebidos por D. Violante, sobre os quais pesavam ainda os direitos do meio-irmão. Embora desfavorecida pelas disposições testamentárias do pai, o domínio de Elda e Novelda, somado ao prestígio da vinculação à linhagem régia e da filiação ao mais favorecido infante castelhano no reinado de Alfonso X figuram enquanto predicados caros aos interesses dos membros da nobreza, e que fizeram de D. Violante um destacado trunfo matrimonial conquistado pelo senhor de Portalegre, Marvão e Arronches.

Em termos sociais, o enlace de D. Afonso não o associou a um elemento de estatuto social similar ao seu – ou seja, uma infanta –, fato este que não habilita, contudo, o entendimento dessa união enquanto de todo desprestigiante, pois D. Violante partilhava dos mesmos pressupostos do grupo no qual o infante português se inseria, aquele dos descendentes da linhagem régia – embora ele tivesse um rei como pai, e ela, um como avô.

Não se pode desconsiderar, contudo, que a filha de D. Manuel detinha uma dupla condição de consanguinidade régia, por via de seu pai e de sua mãe, D. Constança de Aragão.

Quanto observado o fator político, a dupla ascendência régia de D. Violante significava que, ao se casar com ela, D. Afonso estabeleceu uma aliança matrimonial não apenas com a linhagem régia de Castela, mas também com a de Aragão. Ora, este fator não é mero apetrecho de prestígio ao infante português, mas implicava a abertura de oportunidades de atuação régio-nobiliárquica em uma escala geográfica que cobria a quase completude do espaço da Península Ibérica – excetuando apenas o reino de Navarra.

664 TORRES FONTES, 1981, p. 17-18.

665 “Et si por auentura fallesesse el linage de donna Yolante que tornen estos logares a don Johan, mio fijo, o a sus herederos. Et si fallizesse el linage de don Johan que torne todo a los herederos de donna Yolante” (TORRES FONTES, 1981, p. 18).

No que toca às questões econômicas, o casamento com D. Violante rendeu a D.

Afonso o controle de tudo que ela havia herdado de D. Manuel. Embora nos escape qualquer documentação relativa às arras ou ao dote envolvido nos acordos matrimoniais entre as partes, é possível conjecturar, considerando a admitida posição superior do homem em relação à mulher na sociedade medieval, que no momento em que o infante português contraiu núpcias com sua esposa passou a ser o senhor de seu corpo e de seus bens. Assim sendo, o dominus de Portalegre, Marvão e Arronches passou a sê-lo também de Elda e Novelda.

A assimilação dos bens herdados por D. Violante à autoridade de D. Afonso constituiu uma significativa vantagem para o incremento de seus domínios territoriais, mas o mesmo não se pode dizer do aspecto estratégico, prejudicado pela vasta distância geográfica que separava os conjuntos senhoriais situados em Portugal e em Castela: Portalegre, Marvão e Arronches estavam concentrados na fronteira luso-castelhana, na região noroeste do Alentejo666, enquanto Elda e Novelda localizavam-se no reino da Múrcia, nas proximidades da fronteira aragonês-castelhana. Ainda que a aquisição de novas terras tenha sido favorável ao estatuto nobiliárquico do infante, essa incorporação não gozava das potencialidades sociais, políticas, econômicas e militares que existiriam caso esses domínios compusessem um bloco coeso de terras.

A posse desses dois senhorios murcianos, garantida pelo casamento com D. Violante, não deve ter sido o único interesse de D. Afonso, a quem estava aberta a possibilidade de estender seus domínios por sobre tudo aquilo que havia pertencido a seu falecido sogro. Em que pesem as determinações testamentárias de D. Manuel no sentido de garantir a concentração de bens nas mãos de D. Juan, havia um importante aspecto de que o pai era incapaz de proteger o filho: sua morte.

Admitindo-se que o matrimônio entre o infante português e a nobre castelhana se deu em 1284, D. Juan Manuel não teria na época idade superior a dois anos, ou seja, não havia superado os cinco primeiros anos de vida, período mais perigoso da vida na Idade Média667. Uma doença, um descuido da ama, um tropeço ou qualquer outra fatalidade poderia causar a morte do único herdeiro de D. Manuel, fazendo com que – como fora estipulado em testamento – seus bens fossem transferidos para o domínio de D. Violante e, por consequência, para o de seu esposo. Ora, o casamento de D. Afonso havia lhe conferido de imediato os senhorios de Elda e Novelda, mas ainda carregava a possibilidade de lhe render a imensa quantidade de bens móveis e de raiz que seu sogro havia reunido. Caso realmente D.

666 Veja mapa na página seguinte.

667 BECEIRO PITA; CORDOBA DE LA LLAVE, 1990, p. 110-111.

Afonso tenha jogado com essa possibilidade, viu seus desejos frustrados; D. Juan Manuel viveria ainda muito.

MAPA III – DOMÍNIOS TERRITORIAIS DA LINHAGEM DE D. AFONSO E D. VIOLANTE

FONTE: O autor (2016)

O alinhamento de D. Afonso à nobreza de Castela, efetivado pela via social, política e senhorial proporcionada pelas núpcias com D. Violante, foi por ele reforçado com o enlace de suas três primeiras filhas com nobres castelhanos. Assim como em relação ao casamento do

O alinhamento de D. Afonso à nobreza de Castela, efetivado pela via social, política e senhorial proporcionada pelas núpcias com D. Violante, foi por ele reforçado com o enlace de suas três primeiras filhas com nobres castelhanos. Assim como em relação ao casamento do