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CAPÍTULO II A REFORMA DO PENSAMENTO

2.1 O conhecimento fragmentado

É necessário excluir a ilusão de que tenhamos chegado à Era do conhecimento. Por mais que de fato a sociedade esteja à mercê de tecnologias avançadas, é necessária a interligação dos conhecimentos para resolver os problemas fundamentais em nossas vidas, sendo que o que unifica o conhecimento é a razão, a qual ordena e une o mundo, constituindo-se em uma organização.

Segundo Marques (1993, p. 42),

[...] o conhecimento não se funda na interpretação intelectual dos fenômenos, mas na determinação de transformá-los para dominá-los. Realiza-se o conhecimento do fenômeno à medida que ele é produzido pelo homem com o recurso da dupla instrumentalidade: da hipótese conceitual e do instrumento científico que a encarna e materializa. Os fenômenos são tecnicamente constituídos; não são dados, mas resultados; não se descrevem, mas se produzem. No experimento combinam-se a observação metódica indutiva com o uso dos instrumentos adequados como é o cálculo matemático, indispensável à explicação ou interpretação.

É preciso retrair os fantasmas ilusórios em que nosso conhecimento, incluindo o científico, disporia da plena racionalidade, pois segundo Morin (2008b, p. 15),

Quando o pensamento descobre o gigantesco problema dos erros e das ilusões que não cessaram (e não cessam) de impor-se como verdades ao longo da histórica humana, quando descobre correlativamente que carrega o risco permanente do erro, então ele deve procurar conhecer-se.

Mesmo quando as verdades são comprovadas cientificamente como tal, devemos evitar a precipitação da realização do pensamento concretizado em si, fazendo um levantamento completo e amplo dessas verdades, para que nada seja omitido correndo o risco de erro.

São necessários novos olhares sobre as ilusões e erros relacionados aos mitos, religiões, crenças e tradições do passado que ainda encontram-se presentes, principalmente, segundo Morin (2008b, p. 15), “[...] ao subdesenvolvimento das ciências, da razão e da educação [...]”.

Conforme Morin (2008b), a ciência chegou a um progresso magnífico diante do conhecimento, mas ao mesmo tempo a física desafia os limites cognitivos, a lógica e a inteligência, criando uma barreira ao aproximar-se do desconhecido; a razão que se encontrava segura ao conhecimento, descobre uma sombra cega sobre ela.

Devemos nos situar na vida, refletir e interrogar-nos novamente diante de nossas verdades, transformando-as em novas perguntas em busca da investigação da natureza de tal conhecimento e sua validade, pois, assim, teremos a noção se deveremos ou não abandonar a ideia de verdade. Segundo Morin (2008b, p. 16), “a noção de conhecimento parece-nos una e evidente. Mas, desde que a questionamos,

ela se fragmenta, diversifica-se, multiplica-se em inúmeras noções, cada uma gerando uma nova interrogação”.

Na ideia de conhecimento encontramos a ignorância, o desconhecido e a sombra, e apesar deste pensamento ser tão familiar e vivenciado diariamente, acaba se encontrando estranho e distante quando desejamos conhecê-lo. De acordo com o pensamento de Morin (2008b, p. 18):

Se a noção de conhecimento diversifica-se e multiplica-se quando a consideramos, podemos legitimamente supor que comporta diversidade e multiplicidade. Desde então, o conhecimento não seria mais passível de redução a uma única noção, como informação, ou percepção, ou descrição, ou ideia, ou teoria; deve-se antes concebê-lo com vários modos ou níveis, aos quais corresponde cada um desses termos.

O nosso conhecimento comporta uma competência, um saber e uma atividade cognitiva, e é nessa arma bio-física-química que o espírito humano se desenvolve e organiza o seu conhecimento em seu meio cultural. Conforme Morin (2008a, p.18), o “conhecimento é, portanto, um fenômeno multidimensional, de maneira inseparável, simultaneamente físico, biológico, cerebral, mental, psicológico, cultural, social”.

Segundo Morin (2008b), o conhecimento cognitivo envolve diversos fatores: como o pensamento, a percepção, a memória, a linguagem, o raciocínio, relacionando o estágio de aprendizagem numa parte do desenvolvimento intelectual. Esse conhecimento é também composto por caminhos que seguem em direção ao prazer, pois o homem não se satisfaz com qualquer conhecimento. Precisamos compreender o “como” e o “porquê” de um determinado contexto, atribuindo razão ao pensamento, uma vez que somos animais em constante evolução de ideias e significados numa inquietação para a novidade.

O homem por natureza sente a necessidade da razão do porquê das coisas, das causas e dos princípios. Ao ver algo que não compreendemos, a estranheza é o mal- estar da razão privada do seu objeto, e diante desta necessidade que nasceu a Ciência.

Morin (2008b) salienta que o conhecimento do conhecimento somente permanece no núcleo da linguagem, da consciência e do pensamento. Distancia-se da metalinguagem, da metaconsciência e do metapensamento, e instaura o sistema de metapontos, de modo que introduz todo o conhecimento no objeto e na objetividade

fazendo trocas em disciplinas diferentes, utilizando o conhecimento como um objeto de conhecimento. Conforme Morin (2008b, p. 26):

[...] o conhecimento não é insular, mas peninsular, e, para conhecê-lo, temos de ligá-lo ao continente do qual faz parte. O ato de conhecimento, ao mesmo tempo biológico, cerebral, espiritual, lógico, linguístico, cultural, social, histórico, faz com que o conhecimento não possa ser dissociado da vida humana e da relação social. Os fenômenos cognitivos dependem de processos infracognitivos e exercem efeitos e influências metacognitivos. Também o espírito deve tomar consciência das condições não espirituais da sua existência assim como das consequências não espirituais da sua atividade.

Todo esse processo relaciona o bio-antropo-sócio-cultural através do conhecimento do conhecimento, atingindo e problematizando a relação entre o homem, a vida, a sociedade, e o mundo em que o ser se encontra.

Caminhamos incansavelmente entre o risco da asfixia e da dissolução de problemas gerais e sobre os conhecimentos mais diversos, num campo amplo e infinito, pelo qual o conhecimento deve ser aprimorado e estruturado de forma hologramática, ligando todos os saberes.

A reforma do pensamento gera a formação de outras ideias no contexto, enfrentando a incerteza da certeza, numa visão hologramática da explicação à compreensão dos fenômenos humanos.

Tudo o que podemos diagnosticar como fonte de erros, de insuficiências, de mutilações de pensamento, tenderá a repercutir na conduta de nosso próprio pensamento e no exercício de nosso próprio conhecimento. [...] Nesse sentido, o conhecimento do conhecimento poderia ser uma incitação a bem pensar (isto é, de não ser bem pensante) (MORIN, 2008b, p. 33-34).

O conhecimento deverá submeter-se a uma revisão em relação à complexidade do real, para conhecer-se, problematizar-se e situar-se, pois não há conhecimento sem o estudo do conhecimento humano. Segundo Morin (2008b, p. 28),

Pode-se e deve-se definir filosofia e ciência em função de dois pólos opostos do pensamento: a reflexão e a especulação para a filosofia; a observação e a experiência para a ciência. Mas seria uma loucura crer que não há reflexão nem especulação na atividade científica, ou que a filosofia desdenha por princípio a observação e a experimentação. As características dominantes numa são dominadas na outra e vice-versa. Por isso, não há fronteira “natural” entre elas.

De resto, o século de ouro do desabrochar de uma e do nascimento da outra foi o século dos filósofos-cientistas (Galileu, Descartes, Pascal, Leibniz). De fato, como bem observou Popper, por mais separadas que estejam hoje, ciência e filosofia fazem parte da mesma tradição crítica, cuja perpetuação é indispensável à vida de ambas.

O conhecimento científico sempre buscou pela unidade simples explicar a realidade. Esse conhecimento levou-o a descobertas magníficas, como a descoberta do átomo, da partícula, da molécula, do gene, da célula, mas a procura do elementar tornou-se uma obsessão da elementariedade. Tudo que era relacionado à realidade e não correspondesse ao esquema simplificador, ou era eliminado ou era abafado, e essa redução carregou um empobrecimento do conhecimento, deixando de lado uma parte considerável da realidade.

Segundo Fortin (2007, p. 23),

A procura de compreensão e de sentido, que sempre caracterizou o saber, transformou-se no seu contrário. Ao especializar-se, o saber retraiu-se, e ao perder contacto com a realidade, ele tornou-se cada vez mais irreal e impessoal (anónimo).

Todas as disciplinas deram lugar à subdisciplinas, completamente fechadas e arrogantes. A Biologia que tratava o ser vivo como integral, já não faz mais isso, assim como a Psicologia, que deixou de reconhecer-se em sua totalidade, explicando apenas o conjunto dos comportamentos do ser. Essa disjunção tornou o saber que se encontrava em continentes, em pequenos arquipélagos.

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