CAPÍTULO III UMA PEDAGOGIA VOLTADA À COMPLEXIDADE DA
4.3 Outra visão da educação: a transdisciplinaridade
O modelo da educação atual é fundada pela lógica da divisão, sendo impossibilitado de perceber a distância entre os conhecimentos, e também de arquitetar e considerar o humano como um todo inseparável.
Os professores se formam a partir de uma simplificação do mundo, alimentados por uma visão linear de pesquisa, onde estes acreditam que esta redução do
conhecimento é o caminho a ser compreendido e absorvido pelos alunos com facilidade. Os profissionais da área da educação não imaginam a dimensão de barreiras impostas sobre as gerações com seus livros didáticos, com apenas uma visão singular da realidade.
A trandisciplinaridade gera diversas conclusões frente a sua importância em significados, assim como as capazes de estimular a reflexão, pesquisa investigativa e reações de resistência e desconfiança, principalmente quando consideramos a perspectiva polissêmica pela qual o seu estudo é capaz de inspirar.
O sentido com o qual iremos tratar a transdisciplinaridade é de expressar que o trabalho é aquele que potencializa as ideias de caminhar, de destruir as fronteiras entre as disciplinas e transitar por elas. A relação do passado e do presente sobre o desenvolvimento transdisciplinar se alicerçam na correlação, na autenticidade e na articulação dos saberes.
A transdisciplinaridade surge como uma possibilidade para um saber crítico, refletido, compreendido e bem pensado, instigando a tomarmos a consciência da gravidade do momento, colocando em complexus as capacidades de pensar os conhecimentos diversos, a fim de reaprendermos a ler o mundo e a reescrevê-lo de forma dialógica, problematizadora e participativa.
Ser histórico e compreender-nos historicamente não quer dizer somente ao entendimento de uma lógica, apenas por uma razão crítica relacionada a explicações econômicas e conjunturais, mas sim reconhecendo o trans-histórico com responsabilidade de um pensamento de si, do contexto e da complexidade.
Temos uma missão de nos transformarmos em visionar a modalidade de refazer o ser humano, de uma necessidade de reaprender a religar nossos conhecimentos, problematizando o contexto, pronunciando todo o saber para a vida, reformando o nosso pensamento capaz de fundir a capacidade de integração entre a vida, o conhecimento e a conduta.
Enquanto indivíduo, o ser se perde de si mesmo, ignorando sua espiritualidade, seus medos, desejos e seus anseios ameaçando a si mesmo, caindo cada vez mais em um abismo, como a ansiedade, obesidade, a depressão, e a solidão, dentre vários outros transtornos severos da vida planetária.
Através de uma educação planetária, devemos nos proteger como espécie, enquanto indivíduos e ser social. A escola deve contemplar todos esses aspectos nos planos curriculares, nas atividades cotidianas e na didática, dissolvendo antigas relações fixas, rígidas e estáticas entre as diversas áreas do conhecimento.
A transdisciplinaridade nasce de uma necessidade de explicitar o diálogo entre os campos dos saberes, sem que cada um perca sua autonomia, nem se impondo um sobre o outro, de modo a fornecer orientações entre profissionais e seus conhecimentos.
De acordo com Morin (2011d, p. 58-59),
Devemos pensar, em termos planetários, a política, a economia, a demografia, a ecologia, a salvaguarda dos tesouros biológicos, ecológicos e culturais regionais – na Amazônia, por exemplo, simultaneamente as culturas indígenas e a floresta –, as diversidades animais e vegetais, as diversidades culturais – frutos de experiências multimilenares que são inseparáveis as diversidades ecológicas etc. Mas não é suficiente inscrever todas as coisas e acontecimentos em um ‘contexto’ ou ‘horizonte’ planetário. Trata-se de procurar sempre a relação de inseparabilidade e de inter-retroação entre todo fenômeno e seu contexto e de todo contexto com o contexto planetário.
A transdisciplinaridade implica o desenvolvimento de práticas educativas ampliando a capacidade de reflexão dos alunos, à capacidade de interiorização e harmonização, facilitando o processo de construção de novas ideias para o conhecimento voltadas para o desenvolvimento do ser humano.
Nutrida pela complexidade, a transdisciplinaridade exige de cada docente a criação de ambientes e contextos de aprendizagem mais flexíveis e dinâmicos, solidários e cooperativos. Necessitamos de companheirismo, de um diálogo de uma busca constante de ideias, solucionando os problemas diários, bem como respeito às diferenças, o reconhecimento da diversidade cultural, da diferença de estilos de vida, de aprendizagem, das experiências individuais e coletivas, experiências que embelezam nossas vidas.
CONCLUSÃO
Após o estudo e pesquisa realizados para a presente dissertação, é possível fazer uma análise acerca da necessidade de reconstrução do pensamento, que tendo em vista as mudanças ocorridas com o decorrer do tempo, a educação também necessita mudar, assim como o indivíduo e a sociedade.
O mundo já não é mais o mesmo e é necessário evoluir juntamente com ele, pois a era planetária exige um entrosamento cada vez maior de todos os indivíduos em todos os setores, não havendo mais espaço para o isolamento das ideias, pois tudo interage e faz parte de um todo.
A transdisciplinaridade é um dos caminhos para a conscientização da educação, junto com a teoria da complexidade, gerando uma contribuição voltada para os aspectos noológicos (teóricos e ideológicos), em um aspecto epistêmico além de estar voltado apenas à prática. Os princípios e paradigmas que comandam as ações do ser beneficiarão toda a coletividade e o comportamento social de uma mente submissa ao concretismo do seu pensar, combatendo a alienação cultural dos tempos atuais.
Atualmente não há mais espaço para o sistema fechado de pensamento, para o individualismo e sistemas metódicos, ao contrário, a era planetária fez com que surgissem outros comportamentos que acabaram com as barreiras e fronteiras, unindo os povos e interesses.
Assim, torna-se necessária uma mudança de pensamento, ou seja, a reconstrução do pensamento existente, visando o desenvolvimento dos indivíduos assim como houve o desenvolvimento do mundo. Em razão de tanto conhecimento, é necessário pensar além das fórmulas e sistemas, em quem está por trás de tudo isso e nas necessidades humanas na compreensão do todo e de cada parte.
Não se trata de impor um novo modelo a ser seguido por todos, mas de introduzir uma ideia, instigar o debate, repensar o que existe e o que não atinge o objetivo, buscando melhores soluções e criando condições para que as mudanças aconteçam.
É um processo lento e difícil, mas necessário, pois os paradigmas da educação não são mais os mesmos. O sistema educacional atual foi desenhado e estruturado para uma época diferente, concebido na cultura intelectual do iluminismo e na circunstância econômica da revolução industrial. Esse modelo trouxe o caos definindo dois tipos de pessoas como: (acadêmicos e não acadêmicos), uns com inteligência e outros desprovidos desta inteligência. Isso provocou um mau ressentimento de pessoas com pouco conhecimento se auto-julgando como um nada, assim como muitas outras brilhantes são julgadas por essa base existente da cadeia genética da educação pública.
A ênfase do presente estudo está não na organização de um ideal a ser seguido, assim como métodos tradicionais inequívocos para a educação, mas em fornecer um caminho flexível e orientado para uma abertura da teoria da complexidade, adequando- a de acordo com as reais necessidades do mundo atual.
Inúmeros estudos estão sendo realizados para uma tomada de consciência do sistema educacional defasado em razão das mutações do mundo, assim como o presente trabalho, que buscou resgatar a complexidade da condição humana e do pensamento para melhor entender o que é necessário para alcançar um caminho mais efetivo na educação.
Não é necessário criar novas disciplinas de ensino escolar, nem novos departamentos e secretarias. A missão da teoria da complexidade e da transdisciplinaridade é a de reformar o pensamento, fazendo com que os indivíduos passem a repensar outras formas de estabelecer relações entre os diversos campos do conhecimento.
A transdisciplinaridade pode ser incluída de forma gradativa no âmbito escolar, iniciando-se pelos educadores, que poderão instigar os estudantes a relacionar os conteúdos ministrados nas aulas com as demais disciplinas, de modo a fazer parte de um processo natural na sociedade, pois quando aceito e praticado, passa a ser utilizado em todos os setores da vida, e não só na escola, o que beneficia toda a coletividade.
Trata-se de um processo cujo benefício será percebido ao longo do tempo, de forma gradativa, pois os seres humanos passarão a pensar de modo diferente acerca daquilo que pensavam anteriormente, repensando as condutas e os modelos utilizados
até então, buscando a melhor forma de refletir o pensamento às exigências do mundo, desenvolvendo o sistema educacional, qualificando a educação e profissionalizando o professor.
Durante o estudo da complexidade com a realização do presente trabalho, foi possível entender a sua importância esclarecendo que os professores são movidos por desejos, sonhos e por possibilidades concretas de formação, fazendo-nos entender que a reforma do pensamento é necessária e urgente na sociedade em que vivemos.
Os princípios expostos deixam mensagens de que precisamos colocar as noções de ordem e de desordem sempre em relação, e não como alternativa, pois onde há ordem, há também a desordem; de que a complexidade e organização devem gerar-se e alimentar-se uma à outra; de reconhecer na natureza a ordem, sistemas, organização e seres dotados de auto-organização; e de que não há separação de sujeito e objeto, conhecedor e conhecido, na construção do conhecimento.
A importância do estudo da complexidade está na necessidade de compreensão do universo, de integrar e ligar o que está desunido ou reduzido, apresentando as disciplinas de forma hologramática, fazendo com que o estudante expanda os seus conhecimentos e pense de forma mais ampla, ligando os conhecimentos.
Tal proposta não pode ser apresentada à parte, isolada ou em oposição às demais. Não podemos negar as diferenças, e o complexo é o caminho para a aproximação das ideias já constituídas, adotando como ponto crucial, a religação.
Devemos tecer as ideias simultaneamente em inéditos princípios, para que a oposição, o simples, o real e a diversidade estejam juntos sobre esta teia em busca de novos olhares e noções de mundo.
O conhecer está muito além do que absorver algo da realidade. As certezas devem ser seguidas, questionadas e encontradas em diálogo com as incertezas do mundo, da natureza e da vida. Conclui-se que as disciplinas são necessárias, mas insuficientes, e tais disciplinas precisam ser rigorosamente aprofundadas no seu caráter disciplinar, e ao mesmo tempo, interligadas a outros saberes, a fim de reaproximar questões que se encontram além de seus limites.
A educação escolar poderia ser repensada em uma perspectiva relacionada à complexidade, para que ela nos conduza à aprendizagem, com processos
hologramáticos, recursivos, auto-eco-organizadores, autopoiéticos, emergentes e dialógicos. Todas essas dimensões traduzem o quão é complexa a educação, necessitando de uma postura com extrema cautela para pesquisar acerca dessa realidade.
Não podemos esquecer-nos de exercer a clareza a partir de verdades prontas e de dogmas, mas reconstruir um pensamento com racionalidade e conceito amplo, em sua rigorosidade e investigação, acolhendo novos pensamentos.
O pensamento complexo estimula a um aprimoramento do diálogo, da tolerância, do rigor, da humildade e da pluralidade, instigando-nos a sermos cautelosos acerca das diferentes interpretações da realidade e sua tradução sobre as diversas leituras de mundo. Contudo, na escola, as ideias, os planos e estratégias são posicionadas e interligadas com as certezas e incertezas da vida, com novas perguntas para construir um conhecimento pertinente.
“Finalizo” esta dissertação refletindo que sou grato por todo conhecimento e questionamentos, pelos momentos de inspiração e reflexão da vida, da alma e do meu ser; pela oportunidade de estudar o paradigma da complexidade e platonicamente ao lado de Morin, da problemática do conhecimento, trazendo consigo seus ideais, ideias e pensamentos.
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