3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.4 Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade: abordagem na Ciência
3.4.2 O contexto brasileiro: interdisciplinaridade
Destacamos agora a produção dos autores brasileiros, focalizando especialmente um conjunto de artigos publicados em periódicos nacionais entre 1995 e 2009,23 que refletem os principais aspectos da discussão teórica sobre a interdisciplinaridade. Optamos por dedicar a cada texto e autor o espaço necessário à adequada contextualização da discussão do tema, a fim de propiciar uma visão de conjunto mais completa e evitar o aspecto fragmentário que decorreria do mero destaque de afirmações pontuais sobre o tema.
Observam-se, nessa produção, posicionamentos teóricos que vão da afirmação convicta da interdisciplinaridade a um questionamento ponderado sobre a realidade e as possibilidades da Ciência da Informação, nesse aspecto. Abordagens
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teóricas e empíricas articulam-se na composição desse panorama. Eventualmente, também se verifica uma ou outra referência esparsa à transdisciplinaridade.
Antes de dedicar atenção a essa produção teórica, parece-nos valioso registrar, a modo de preâmbulo, uma consideração que reforça a importância do debate latente nos pontos e contrapontos da produção aqui focalizada. As observações críticas de Samuel Sá (1987b) anteriormente destacadas, a propósito da publicação Avaliação & perspectivas, do CNPq, sugerem a necessidade de uma reflexão sobre o cuidado com que devem ser atribuídos significados ao fato de certos documentos oficiais apresentarem a Ciência da Informação como área interdisciplinar, ou “interdisciplinar por natureza” (CNPq, 1978, 1982). O caráter de construção histórica e social desse tipo de menção torna importante um melhor entendimento dos processos envolvidos em sua produção e das bases epistemológicas que constituíram — ou não — o sustentáculo dessa afirmação.
Consideramos que tomar como ponto pacífico ou supervalorizar o significado desse tipo de chancela oficial implicaria dificuldades para problematizar o significado de outros posicionamentos “oficiais”, tais como aquele expresso, pelo mesmo CNPq, ao classificar a Ciência da Informação como subárea da Comunicação em versões anteriores da Tabela de Áreas do Conhecimento (cf. SOUZA, 2008). Quando houve alteração desse quadro, isso provavelmente contou com a interveniência de atores ligados à Ciência da Informação, que contribuíram para questionar aquela posição “oficial”. Um entendimento mais completo desses fatos históricos pode contribuir para a percepção de que é possível e necessário discutir e, eventualmente, rever e relativizar argumentos sobre a interdisciplinaridade e outras formas de relação disciplinar. Principalmente quando tiverem lastro em figuras de autoridade, isso contribuirá para que alcancem o desejável equilíbrio com outros aspectos a ponderar, tais como as questões epistemológicas. Nesse e em outros sentidos, é fundamental o papel dos debates teóricos.
Passando aos artigos dos pesquisadores nacionais e começando pelo lado mais afirmativo do espectro de posicionamentos, encontramos Braga (1995) discutindo o conceito de informação e assinalando a busca de aproximações analógico-conceituais da Ciência da Informação com as discussões científicas sobre caos e sistemas complexos. A tendência, seguida à época também por outras áreas, é evidenciada pelo tema da reunião anual de 2006 da American Society for
uma área emergente e interdisciplinar, com a exploração da complexidade. A interdisciplinaridade da área figura, no artigo, como uma característica exemplificada pela análise dos Special Interest Groups — SIGs — da ASIS e relacionada à contratação de renomados professores estrangeiros para a criação do mestrado em Ciência da Informação do IBICT, bem como à diversidade das origens disciplinares e geográficas dos estudantes. A autora aponta também o alargamento e a recontextualização dos contornos da área no Brasil, desde então, com a agregação de novos profissionais e a introdução de novas propostas epistemológicas e metodológicas, compondo “um quadro complexo e difuso, idealmente sem fronteiras demarcadas de forma nítida, sem núcleos constritores e preestabelecidos multi, trans e interdisciplinares na intenção e na prática” (p. 6).
Targino (1995)24 assume uma posição claramente afirmativa da interdisciplinaridade na área, que decorreria da importância central da informação no mundo contemporâneo e das relações mantidas pela Ciência da Informação com diversos campos, em vista disso, ao lidar “com a metainformação, que ultrapassa fronteiras rigidamente demarcadas para interagir com outras áreas” (p. 3). A autora considera essa interdisciplinaridade algo irrefutável e percebe também aspectos transdisciplinares nos movimentos realizados pela área, que emergiria como uma metaciência ou supraciência, devido à amplitude do escopo assumido por sua abordagem. Entretanto, num contraponto com esse amplo horizonte de possibilidades, ela também aponta uma série de dificuldades críticas referentes à pesquisa na área, no contexto brasileiro, ligadas a deficiências na formação dos pesquisadores, a diversos fatores institucionais — seleção de temas, acompanhamento e avaliação, financiamento, comunicação de resultados — e a questões de visibilidade social da área e dos profissionais ligados a ela.
Nesse cenário, a autora exorta os profissionais da área a pautarem-se por parâmetros de cientificidade propostos por Pedro Demo e preceitos de ética acadêmico-profissional enunciados por Merton, bem como a aterem-se ao caráter dialético-interativo da relação entre ciência e sociedade. Faz também um alerta quanto ao cuidado necessário, frente às possibilidades interdisciplinares, com a diferenciação entre um pluralismo metodológico salutar e uma diversificação de modelos proveniente de fragilidade teórica.
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Freire e Araújo (2001) consideram a interdisciplinaridade intrínseca e o foco na solução de problemas duas características definidoras da área, conforme propõe Saracevic. Para enfrentar o desafio de preencher espaços entre os recortes disciplinares, propõem uma visão metafórica da Ciência da Informação como um “tear interdisciplinar, onde se pode tecer uma rede com fios conceituais de outros campos científicos para capturar o sentido de uma dada problemática na perspectiva da informação” (não paginado). As autoras acompanham a metáfora do pássaro tecelão e a proposta de construir um sistema de navegação conceitual, formulada por Wersig (1993), para as abordagens científicas pós-modernas, que não se restringem mais a enunciados e conceitos, mas devem se ampliar até a proposição de estratégias para lidar com os problemas — neste caso, referentes à informação. Nessa linha, Freire e Araújo propõem uma articulação da rede conceitual de Wersig — construída via redefinição de conceitos científicos amplos, reformulação de interconceitos científicos e entrelaçamento de modelos e interconceitos — com o paradigma indiciário, de Carlo Ginzburg, “caracterizado pela capacidade de, a partir de dados aparentemente irrelevantes, descrever uma realidade complexa que não seria cientificamente experimentável” (não paginado). As autoras destacam que essa capacidade de tessitura narrativa — tal como na tapeçaria ou na tecelagem — contribuiu para modelar as ciências humanas, estabelecendo padrões epistemológicos distintos daqueles valorizados nas ciências naturais e potencialmente valiosos no campo de estudo ligado aos problemas da informação.
Pinheiro e Loureiro (1995) declaram-se “parte da corrente que reconhece a ciência da informação como área do conhecimento autônoma e com seu próprio estatuto científico e cuja natureza interdisciplinar é evidenciada com distintos campos" (p. 2). Mencionando a descrição das relações interdisciplinares feita por Saracevic (1992), destacam a liderança da Ciência da Computação nas pesquisas sobre recuperação da informação e o interesse da relação com a Ciência Cognitiva para a Ciência da Informação, como fonte de teorizações sobre a cognição. Mas dão mostras de reconhecer o confronto entre a afirmação e o questionamento das possibilidades multi, inter e transdisciplinares existente no âmbito internacional: mencionam tanto autores que creditam o surgimento da área à fertilização cruzada de ideias com origens diversas (Foskett) e ressaltam a complexidade e a multidimensionalidade do objeto de estudo (Borko) quanto aqueles que apontam o caráter multi e interdisciplinar como empecilho ao seu desenvolvimento (Boyce e
Kraft; Heilprin), e ainda perspectivas tais como a de Wersig, que não assumem o padrão da ciência clássica como modelo de consolidação.
No Brasil, Pinheiro e Loureiro afirmam haver consenso quanto à interdisciplinaridade da área e destacam a visão de dirigentes do IBBD (atual IBICT) à época da criação do primeiro mestrado brasileiro. Mas registram também o movimento tendente a reavaliar a flexibilização curricular implantada no doutorado do IBICT/UFRJ, no início da década de 1990, frente à apreciação de que, em se tratando de uma “ciência interdisciplinar emergente, mas não consolidada, na qual atuam profissionais das mais diversas formações, é fundamental transmitir o seu conteúdo básico e contornos atuais, ainda que se reconheçam, também, as múltiplas correntes de pensamento existentes” (p. 13).
Os autores apresentam um conhecido diagrama das relações interdisciplinares da Ciência da Informação, evidenciada pela experiência da pós- graduação do IBICT. Fazem uma breve menção a princípios e reflexões de Japiassu (1976) e Gusdorf (1976) que teriam guiado esse mapeamento, mas não detalham as bases metodológicas. Em outro texto, Pinheiro (1999) admite a possibilidade de equívocos entre interdisciplinaridade e aplicação nessa categorização, citando especificamente os casos da Arquivologia e da Museologia.
Pinheiro (2005) também discute a evolução histórica e as tendências atuais da Ciência da Informação, com base nos 5 artigos de revisão sobre história, teoria e epistemologia publicados no Annual Review of Information Science and
Technology (ARIST) de 1966 a 2003. Além de mencionar precedentes históricos
ligados a Otlet e Mikhailov, divide a história atual da área em três fases e traça um panorama de contribuições referentes a aspectos teórico-metodológicos, terminológicos e conceituais, abordando esparsamente também a questão da interdisciplinaridade, objeto de nossa atenção mais direta nesta tese.
A primeira fase evolutiva (1961-1969) envolveu o reconhecimento do campo e as discussões iniciais sobre origem, denominação, definições e interdisciplinaridade. Pinheiro menciona o artigo de Borko25 e esclarece que o reconhecimento da interdisciplinaridade dá-se “desde os [...] primórdios sem, no entanto, haver aprofundamento desta discussão na fase inicial” (p. 2). A segunda fase (1970-1989) é marcada pela busca de princípios, metodologias e teorias
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próprios, para a delimitação epistemológica, e também pelas transformações decorrentes das tecnologias baseadas no computador. É mencionado um artigo que localiza a origem da área em 1950, paralelamente aos novos campos interdisciplinares,26 além do livro de Machlup e Mansfield.27 Na terceira fase (1990 em diante), a autora destaca a consolidação da denominação, de princípios, métodos e teorias, bem como o aprofundamento dos debates sobre a natureza e as relações interdisciplinares. A esse propósito, menciona duas posições antagônicas apresentadas na conferência de Tampere, em 1992: Hoel manifesta sua preocupação, ao longo dos anos 1980, com os fundamentos conceituais da área e quanto a se ela seria uma disciplina científica, com estatuto próprio e leis gerais, ou uma atividade interdisciplinar que se utilizaria de outras disciplinas científicas, para concluir que, desde então, nada realmente importante teria acontecido, quanto à primeira possibilidade. Brier defende que a área é interdisciplinar por incluir aspectos tanto das ciências quanto das humanidades e das ciências sociais e ver-se desafiada a integrar o pensamento científico com as perspectivas sociais e psicológicas, na teoria e na prática. Ao lado de Mikhailov e Wersig, a autora dá especial destaque à discussão de Saracevic (1992) sobre a natureza interdisciplinar e o mapeamento das relações estabelecidas pela área.
Pinheiro afirma a independência científica da Ciência da Informação em relação à Biblioteconomia, mas aponta a existência de relações interdisciplinares com esta e com outras disciplinas, num cenário em mutação no qual, por exemplo, "a Ciência da Informação, a Comunicação e a Ciência da Computação formam um triângulo disciplinar altamente dependente da nova ordem tecno-cultural, [...] o que poderá, no futuro, levar à formação de uma disciplina com características transdisciplinares, do tipo Infocomunicação" (p. 17).
No contexto brasileiro, a autora destaca iniciativas ligadas ao estudo da interdisciplinaridade no âmbito do PPGCI/IBICT, apontado como espaço onde se concentram as investigações teóricas sobre a área no país. Considera que a exigência de conhecimentos e fundamentos filosóficos para estudos com esse enfoque talvez expliquem tal cenário. Recomenda que a pós-graduação brasileira da área invista em disciplinas tais como a Epistemologia, "para possibilitar o
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GOFFMAN, W. Information Science: discipline or disappearance. Aslib Proceedings, v. 22, n. 12, p. 589-596, dez. 1970.
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desenvolvimento dessa linha de pesquisa, fundamental para a compreensão do domínio epistemológico da Ciência da Informação e sua interdisciplinaridade e, portanto, de sua história como campo científico" (p. 17).
Mendonça (2008) apresenta um mapeamento de 57 teses de doutorado produzidas no PPGCI/IBICT-UFRJ, ao longo de 10 anos, por pesquisadores oriundos de 20 disciplinas distintas, abarcando 7 áreas do conhecimento. Uma análise de conteúdo desse material revelou formas de colaboração com a Ciência da Informação classificadas nas modalidades paralelismo, interdependência e
interseção — aprofundamento crescente —, que a autora associa, respectivamente,
às categorias linear, auxiliar e unificada de relações interdisciplinares.28 29 São incluídas em cada uma das modalidades 13, 30 e 14 das teses, respectivamente, com prevalência das interações com disciplinas das áreas de Ciências Sociais Aplicadas (35 teses) e Ciências Humanas, Letras e Artes (13 teses). No primeiro caso, 20 teses são associadas à interdisciplinaridade auxiliar e 6, à unificada, contemplando Biblioteconomia (4) e Comunicação Social (2). No segundo caso, há 6 teses em cada classificação, sendo Letras (3), História (2) e Sociologia (1) associadas à interdisciplinaridade unificada. A autora discute alguns aspectos da distribuição temática das teses, destaca o caráter pioneiro do estudo e sua expectativa de que a abordagem possa ser útil tanto em outros estudos sobre a pós-graduação brasileira quanto na compreensão de fragilidades teórico- conceituais que transparecem na tentativa de identificação do campo interdisciplinar da Ciência da Informação.
Em posição de maior questionamento na discussão do tema, Mostafa (1996) discute o contraponto entre a natureza interdisciplinar e o caráter disciplinar da Ciência da Informação, derivado da incontornável necessidade de recortar a realidade ao estudá-la. Considerando os espaços que sobram entre os recortes “contraditórios por natureza, isto é, por nascimento” (p. 1), propõe a interdisciplinaridade não como “um a priori a que aspiram os homens de boa vontade”, nem como “um ato de boa vontade dos espíritos cosmopolitas” (p. 1), mas
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Do ponto de visa metodológico, a autora informa ter realizado uma análise temática das partes pré- textuais das teses (título, resumo, sumário), mas não esclarece, de modo satisfatório, se também abordou os textos e como essa abordagem teria sido feita.
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A autora relaciona tais categorias a Japiassu (1976), mas as denominações transitam entre as classificações propostas por Michaud e por Heckhausen, conforme registradas no livro de Japiassu.
como consequência da inevitável “contradição entre a continuidade do mundo e a descontinuidade do saber” (p. 2).
É nesse sentido que a autora interpreta a afirmação de Saracevic sobre a presença “natural” da interdisciplinaridade na área — “It does not have to be
searched for. It is there.” —,30 estendendo as causas de seu nascimento (natureza,
naturalidade) a todas as ciências, como fruto da contradição todo-parte produzida pela própria ciência moderna. Mostafa aponta a Ciência da Informação como uma nova configuração temática nascida e em desenvolvimento nas condições estabelecidas “no entremeio contraditório entre as disciplinas sociais e tecnológicas e no espaço deixado por recortes já instituídos pela biblioteconomia e demais ciências sociais” (p. 2) — num processo análogo ao de outras áreas surgidas a partir dos anos 1950 — e como ocupante de espaços deixados pela Comunicação, quanto aos processos internos da comunicação científica — a problemática das revistas —, assim como geradora de novos espaços a ocupar.
Frente à visão otimista de Saracevic quanto ao surgimento de mais cooperações interdisciplinares em resposta às pressões sobre a área, Mostafa manifesta não entender a interdisciplinaridade como cooperação, uma vez que a relação entre os campos não é de complementação ou cooperação, mas de ruptura. Faz um alerta sobre as dificuldades impostas por uma visão equivocamente expansionista à definição do perfil epistemológico da área e à passagem da condição emergente ao período de aprofundamento demandado pela condição de recorte disciplinar. Nesse sentido, a autora afirma que as frequentes listas de áreas e ciências afins, conquanto úteis, não ampliam o espaço ocupado pela Ciência da Informação nem dão conta da especificidade dos espaços do meio, sempre tensos, plenos de contradições gerando rupturas que produzem, por sua vez, novos campos de atuação, negando demarcações anteriores. Diante da necessidade de interpretar as novas configurações e suas relações, Mostafa convida a conhecer melhor esses espaços nos quais as áreas de concentração são também áreas de contradição.
Em face da crescente especialização que marca a história das disciplinas, Gomes (2001) aborda os movimentos de reversão desse processo fragmentário, destacando esforços macroinstitucionais (UNESCO) e proposições teóricas ligadas a um paradigma emergente (Boaventura Santos). Aponta os projetos interdisciplinares
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como fontes de oportunidades de rompimento de fronteiras disciplinares e de intercâmbio cooperativo, modificando os sujeitos envolvidos e as “gramáticas” das disciplinas e, eventualmente, produzindo um novo campo disciplinar.
A autora considera que, por ter surgido nesse contexto e lidar com problemas complexos ligados à informação, circulando em regiões fronteiriças a outras áreas, a Ciência da Informação passa por uma experiência desafiadora, entre o disciplinar e o interdisciplinar. Faz, entretanto, um alerta pungente sobre a importância de evitar confusões entre interdisciplinaridade e a mera incorporação unilateral de conceitos, teorias e métodos, ou as migrações temporárias de pesquisadores em qualificação. Aponta ser necessário garantir a definição do núcleo básico e orientador das ações investigativas da área, para assegurar que, a partir dessas condições potencialmente favoráveis, sejam de fato produzidos verdadeiros diálogos interdisciplinares, que se atualizam na conjugação de trocas teórico- metodológicas mútuas com uma intervenção social. Gomes aponta que a aferição da mutualidade exige averiguar as contribuições da Ciência da Informação às teorizações e também às ações das áreas com as quais ela busca dialogar. Para os estudos teóricos e empíricos sobre a interdisciplinaridade da Ciência da Informação, a autora sugere “certa cautela em afirmações no que tange a definições muito positivas quanto à indicação de disciplinas fronteiriças como integrantes do seu núcleo principal” (não paginado), indicando que mesmo um novo paradigma não prescindirá dessa definição disciplinar.
Exemplificando a importância dos diálogos para a interdisciplinaridade, Paim et alii (2001) apresentam o registro de uma conversação real entre pesquisadores da UFMG, de áreas que trabalham com a informação — Ciência da Informação, Comunicação, Letras e Educação —, a propósito da construção de um referencial conceitual para pensar a informação e o conhecimento na ótica da Ciência da Informação. Na introdução, mencionam-se o desenvolvimento teórico aquém do desejável vigente na área e o uso frequente de conceitos importados, em apropriações feitas, muitas vezes, “de forma acrítica, superficial, inadequada”, em decorrência de modismos (p. 19). Apontam-se, como consequências, constantes deturpações ou distorções de conceitos (termos, noções, categorias, metáforas) originais, falta de organicidade conceitual, de consistência e de pertinência” (p. 19). Assim se caracteriza um processo que não contribui para o desenvolvimento teórico da Ciência da Informação e não prevê acompanhamento da evolução teórica dos
conceitos no campo de origem. Registra-se a existência de esforços válidos de esclarecimento de conceitos importados, mas também seu caráter ainda insuficiente.
Nessa linha, os autores consideram que, apesar de a Ciência da Informação constituir-se na convergência de várias disciplinas, possuir vocação interdisciplinar e prestar-se efetivamente à realização da interdisciplinaridade, esta se resumiria, “da forma como é proposta e discutida” na área, “à prática multidisciplinar ou pluridisciplinar, na melhor das hipóteses” (p. 20). Ao final, avalia- se que o exercício dialógico realizado mostra a potencialidade e o desafio de reunir saberes na discussão da informação, ao desafiar cada um a buscar seu ponto de vista sobre o tema, explicitar complementaridades e diferenças, e produzir ideias frutíferas, articulando novas possibilidades e construções já existentes.
González de Gómez e Orrico (2004) introduzem, na discussão sobre iniciativas de horizonte interdisciplinar, o conceito de política epistemológica, que caracteriza uma das três modalidades teorizadas por Bruno Latour, ao analisar as relações entre ciência e política. A expressão denomina uma forma desequilibrada de relação na qual as teorias do conhecimento são distorcidas, com vistas à legitimação de políticas, sem respeito aos procedimentos de coordenação próprios à ciência e à política.31 Nessa linha teórica, apontam a necessidade de problematizar a tendência à universalização de critérios de excelência científica adotados pelas agências oficiais ligadas ao contexto da produção do conhecimento, fazendo um alerta sobre que a identificação, a avaliação e o reconhecimento do desempenho de práticas interdisciplinares sofrem interferência direta de processos que, ao longo do tempo, constituíram práticas unidisciplinares.
As ingerências que as políticas epistemológicas institucionais podem produzir são Ilustradas com a focalização de aspectos avaliativos de cursos que