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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.4 Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade: abordagem na Ciência

3.4.1 O contexto internacional: alguns marcos importantes

São bastante comuns indicações de que a interdisciplinaridade é mencionada desde as primeiras tentativas de definição da área. Com efeito, Borko (1968) considera-a uma ciência interdisciplinar originada de e relacionada a uma vasta gama de campos do conhecimento e com características tanto de ciência pura quanto de ciência aplicada. Entretanto, previne o leitor quanto a que o caráter possivelmente complicado da definição decorre de sua tentativa de ser abrangente perante uma questão complexa e multidimensional.

Na obra The study of information: interdisciplinary messages, Machlup e Mansfield (1983) apontam ter verificado, à época do estudo, quatro usos principais para o termo “ciência da informação”: num sentido mais amplo, ligado ao estudo sistemático da informação e incluindo qualquer combinação das disciplinas mencionadas no livro; na expressão computer and information science, indicando o estudo dos fenômenos de interesse para quem lida com computadores como processadores de informação; na expressão library and information science, indicando o envolvimento com a aplicação de novos procedimentos e tecnologias às

práticas biblioteconômicas tradicionais; num sentido mais restrito, para nomear uma área em desenvolvimento a partir da interseção das outras três possibilidades mencionadas, talvez com especial interesse no aprimoramento da comunicação de informação científica e tecnológica e na aplicação de métodos de pesquisa bem estabelecidos ao estudo dos sistemas e serviços de informação.

Diante do quadro complexo mapeado pelos autores, sua investigação consiste num esforço de esclarecer o significado do termo “informação” nas diversas áreas dedicadas aos “estudos de informação”, com base num painel interativo de artigos promovido a partir dos pontos de vista registrados por pesquisadores representativos. Nesse contexto, o adjetivo “interdisciplinary” é usado num sentido amplo, para refletir todas as possíveis relações entre disciplinas ou campos percebidas pelos pesquisadores convidados. Assim, qualquer referência à obra em relação à interdisciplinaridade e à Ciência da Informação deve levar em conta a complexidade desse cenário.19

Na célebre Conferência de Tampere (Finlândia), realizada em 1992, nomes expressivos da área dedicaram-se à discussão da área de Biblioteconomia e Ciência da Informação (library and information science), como disciplina e campo de investigação, em termos de perspectivas históricas, empíricas e teóricas. Destacamos aqui as participações de Linda Smith, Tefko Saracevic e Gernot Wersig, considerando suas contribuições originais e eventuais trabalhos ulteriores correlatos. Smith (1992) faz uma revisão dos estudos voltados à caracterização da interdisciplinaridade no campo, identificando os métodos de mapeamento e os principais resultados. Diante do detalhamento metodológico insuficiente que encontra e do caráter limitado das conclusões possíveis, a autora aponta a necessidade de aprofundar os estudos e ampliar o entendimento de aspectos tais como a discrepância entre as listas de disciplinas consideradas relevantes e o montante pouco expressivo de empréstimo de ideias indicado pela análise de citações. Com base em Klein (1990), Smith aponta problemas que são frequentes nos empréstimos e sugere, como meio de evitá-los, buscar um entendimento básico do contexto original de uso do elemento em questão. Considerando ainda outros aspectos que marcam o complexo universo das relações interdisciplinares, a autora

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No capítulo dedicado à análise qualitativa dos artigos do ENANCIB, é possível apreciar que essa questão pode remeter a um dos pontos sensíveis do debate brasileiro sobre interdisciplinaridade relacionado à consistência do diálogo com autores estrangeiros.

indica — novamente com base em Klein (1990) — certos pontos do tema que devem ser problematizados pela área, algumas linhas teóricas e metodológicas relevantes e uma agenda de pesquisa a ser observada.

Saracevic (1992, 1995) discute a evolução histórica da área, com especial atenção à vertente ligada ao movimento americano da recuperação da informação e com ênfase nos problemas abordados pelo campo, considerando, inclusive, a paulatina mudança de foco, dos sistemas para os usuários. Desse ponto de vista, o autor afirma o campo como interdisciplinar e passa em revista as relações estabelecidas entre a Ciência da Informação e a Biblioteconomia, a Ciência da Computação, a Ciência Cognitiva e a Comunicação. Discute também os desafios para a evolução da área, ligados ao imperativo tecnológico, ao movimento da sociedade da informação e à reconfiguração das relações interdisciplinares. A partir de reflexões sobre a necessidade de aprimorar as relações homem-tecnologia, de rediscutir o papel da noção de eficácia nos novos contextos informacionais e de desenvolver uma visão ecológica das relações entre os diversos atores envolvidos com os problemas informacionais, o autor reafirma a importância e a necessidade da Ciência da Informação no mundo atual.

Ao retomar a discussão da história e da evolução do campo, Saracevic (1999) reitera o panorama traçado nos trabalhos anteriores, agrega algumas discussões adicionais — definição de informação, estrutura temática da área, problemas focalizados, tendências da pesquisa em recuperação da informação — e volta à questão das relações interdisciplinares, com destaque para duas das áreas antes citadas. No caso da Biblioteconomia, o autor aponta a existência de um papel social como característica em comum com a Ciência da Informação, mas as considera áreas distintas ligadas por laços interdisciplinares. Admite, porém, que esse ponto de vista é controverso. No caso da Ciência da Computação, considera uma relação de aplicação dos computadores e da computação à recuperação da informação como base da relação com a Ciência da Informação, além de mencionar o trabalho mais recente com as bibliotecas digitais e apontar a complementaridade entre a manipulação de símbolos e de conteúdos que articula as duas áreas, ao tempo em que as diferencia. Considerações relacionadas a esse aspecto levam o autor a destacar a necessidade de integrar a abordagem voltada aos sistemas e aquela voltada aos usuários.

Vale observar que Saracevic caracteriza explicitamente cada um desses trabalhos como ensaio,20 subentendendo pretensões não definitivas para as discussões apresentadas e explicitando a percepção do caráter não consensual de algumas das posições assumidas. É importante levar em conta essa caracterização relativizadora e as eventuais limitações dela decorrentes ao realizar inferências e extrair conclusões a partir desses textos. Isso pode ser especialmente necessário no caso de um autor com o renome de Saracevic e que, no contexto brasileiro, teve influência seminal na implantação da área. Em face dessa posição de ascendência, parece-nos recomendável observar cuidados metodológicos que, na relação com o autor, ajudem a evitar o risco assinalado por Demo (2005), de o argumento de autoridade tomar o lugar da autoridade do argumento.

Desse ponto de vista, é importante perceber que a classificação “interdisciplinar” não é especificamente problematizada pelo autor. Em defesa dessa classificação, Saracevic não parece apontar mais do que indícios ligados ao escopo supradisciplinar dos problemas enfrentados e à origem diversificada dos colaboradores. O uso do termo parece assumir um sentido amplo, possivelmente englobando diversas possibilidades que seria necessário diferenciar, a partir de uma análise epistemológica. Convém notar, a propósito, que o artigo de 1999 traz a discussão das relações com a Biblioteconomia e a Ciência da Computação numa seção cujo título — “Disciplinary Relations” — parece apontar para essa flexibilidade nas menções à interdisciplinaridade. Em outros pontos, entretanto, o autor afirma a interdisciplinaridade da área como algo que não precisa ser procurado, por ser evidente, e sugere percebê-la como uma marca passada, presente e futura.

Parece-nos que tanto esse ponto de vista quanto a afirmação de uma “natureza interdisciplinar” precisariam ser problematizados, com vistas a uma discussão mais clara sobre se, além dos aspectos que dizem respeito ao nascimento de uma nova disciplina — possibilidade que se enquadra, de fato, entre as consequências de eventuais relações interdisciplinares “parentais” —, seria também possível atribuir à área uma interdisciplinaridade de cunho genético, que produziria manifestações presentes e futuras de caráter inexorável. Em se tratando de processos científico-sociológicos e da verificação a posteriori de enquadramento

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Ensaio: prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade. (HOUAISS; VILLAR, 2001)

em critérios epistemológicos, parece-nos uma questão delicada qualquer afirmação ligada a uma formulação de cariz naturalizador.

Wersig (1992, 1993) discute, num contexto de mutações do papel do conhecimento, as relações entre despersonalização, credibilidade, fragmentação e racionalização do conhecimento e, respectivamente, tecnologias de comunicação, observação, apresentação e informação. A informação é vista como conhecimento em ação e a Ciência da Informação — ao lado da Ecologia —, como um tipo novo de ciência, correspondendo não ao perfil clássico, mas a um protótipo do que poderá ser a ciência pós-moderna. Seu papel será central no desenvolvimento de meios teórico-práticos necessários a um tratamento promissor dos problemas ligados às condições pós-modernas de uso da informação. O autor propõe três abordagens para as formulações teóricas voltadas a esse fim: desenvolver modelos básicos, por meio da redefinição de conceitos científicos amplos (sistema, comunicação etc.); reformular interconceitos científicos de potencial transdisciplinar (conhecimento, imagem etc.); entrelaçar (interweave) esses modelos e interconceitos. Tais abordagens fariam frente ao desafio de desenvolver um sistema de navegação conceitual capaz de lidar com as interconexões cada vez mais numerosas e complexas que ocorrem, por exemplo, no campo da informação científica. Nessa proposição, a estrutura da Ciência da Informação decorreria não do desenvolvimento de uma única grande teoria, tal como na ciência clássica, mas seria entrelaçada a partir da base multirreferencial de conceitos e modelos científicos reformulados que o autor propõe construir.

Conquanto Wersig não focalize especificamente a interdisciplinaridade nessas discussões, ele invoca uma perspectiva transdisciplinar, relacionada ao caráter transversal das conexões que os interconceitos podem estabelecer entre áreas e campos distintos. Mas o trabalho de elaboração dessas estruturas é apontado como algo ainda incipiente e dependente de esforços individuais, em condições geralmente pouco favoráveis.

Numa linha teórica que encontra eco entre os pesquisadores brasileiros, Jacob e Albrechtsen (1999) contribuem para aprofundar a discussão sobre perspectivas ecológicas na Ciência da Informação, com uma abordagem pós- estruturalista dos sistemas de classificação organizacionais. Recorrendo a teorizações de Bakhtin e Foucault, assim como a propostas de filósofos pragmatistas americanos, as autoras propõem pensar os sistemas classificatórios

como infraestruturas que, ao mesmo tempo, estabelecem possibilidades e limitações para a interação entre comunidades discursivas. Nesse sentido, a informação é considerada não uma essência intangível, mas vislumbrada como propriedade emergente nos contextos de diálogo presentes nas e entre as estruturas representacionais construídas pelas comunidades humanas.

Na conferência proferida V ENANCIB, realizado na Escola de Ciência da Informação da UFMG, em 2003, Capurro (2003) discute a relação entre Epistemologia e Ciência da Informação e propõe um panorama no qual esta é mapeada em três grandes paradigmas: físico, cognitivo e social. O autor produz seu esquema teórico a partir da visão de paradigma como um modelo para construção de analogias e dos limites dessas analogias como a raiz da crise paradigmática. Tal esquema facilita a compreensão global do desenvolvimento epistemológico da área, mas Capurro pondera que, mesmo tomando por suporte o conceito kuhniano — que envolve crise e mudança paradigmática —, seu esquema não preconiza uma sucessão histórica linear dos paradigmas físico, cognitivo e social. Com isso, o autor abre espaço à possibilidade de coexistirem esses paradigmas, bem como à reflexão sobre os desafios teórico-epistemológicos que isso implica. Vale observar que Matheus21 (2005) sugere uma alternativa à visão de Capurro a tal propósito: em lugar da vigência exclusiva de um paradigma hermenêutico no atual campo da Ciência da Informação, vigoram programas de pesquisa interdisciplinares, reunidos em torno de problemas ou temas, favorecendo a coexistência prolífica de abordagens filosóficas, teóricas e práticas. Capurro reconheceu mérito à contribuição, referenciando o trabalho em seu sítio-web.22

O caso exemplifica como as perspectivas teóricas propostas por autores de âmbito internacional têm sido objeto de atenção por parte dos pesquisadores brasileiros, que buscam, de diversos modos, estabelecer pontes e conexões.

As discussões de âmbito internacional sobre interdisciplinaridade e transdisciplinaridade foram também sondadas com base nos artigos publicados no

Annual Review of Information Science and Technology (ARIST) no período 2002-

2009. Verifica-se um quadro majoritário de menções esparsas e quase exclusivas à interdisciplinaridade. Apenas um dos 45 artigos recuperados refere-se também à transdisciplinaridade. Às baixas frequências de ocorrência dos termos que denotam

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O autor é doutorando em Ciência da Informação pelo PPGCI/UFMG.

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esses temas, correspondem discussões nas quais predominam afirmações breves e pouco fundamentadas da interdisciplinaridade como modalidade típica das relações com outras áreas do conhecimento estabelecidas a partir de disciplinas integrantes da Ciência da Informação, ou de abordagens ligadas à área.

No entanto, aspectos valiosos são tratados em alguns artigos. Capurro e Hjørland (2003) apontam o conceito de informação como interdisciplinar, pela presença em muitas áreas. Defendem que as controvérsias geradas pelas diferentes significações desse termo tornam a discussão conceitual da informação um desafio multidisciplinar e interdisciplinar. Palmer e Cragin (2008), ao discutir a atividade acadêmica e as práticas disciplinares, mencionam discussões conceituais e métodos da Ciência da Informação presentes na investigação de relações interdisciplinares no âmbito da pesquisa e da produção do conhecimento em áreas diversas. Veem como de especial interesse o estudo de domínios com atividade interdisciplinar, com vistas a uma oferta mais consistente de subsídios às práticas informacionais típicas desses modos de organizar a pesquisa. Sonnenwald (2007) destaca a importância de considerações sobre interdisciplinaridade e modalidades correlatas, inclusive a transdisciplinaridade, no estudo da colaboração científica. Momentos essenciais a um projeto colaborativo — aprendizagem, comunicação, disseminação de resultados — possuem peculiaridades que é necessário conhecer para obter maior êxito.