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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.4 Interdisciplinaridade e transdisciplinaridade: abordagem na Ciência

3.4.3 O contexto brasileiro: transdisciplinaridade

Voltamo-nos agora à produção dos autores brasileiros sobre a transdisciplinaridade, também focalizando artigos de periódicos nacionais — neste caso, publicados entre 1990 e 2009 — que refletem os principais aspectos da discussão realizada. Também aqui, buscamos contextualizar cada discussão e evitar a simples justaposição fragmentária de menções ao tema.

Vale registrar menção histórica a um artigo de há mais de 25 anos no qual Vieira (1983),34 35 professora da então Escola de Biblioteconomia da UFMG, chamou de transdisciplinares os caminhos que propôs para a formação dos bibliotecários, ao delinear um modelo curricular orientado para um perfil profissional adequado a um mundo em transformação. As menções à interdisciplinaridade e à transdisciplinaridade ocorrem num contexto no qual a biblioteca é vista como agência de transformação social e o bibliotecário, como profissional da informação a ser formado para uma participação engajada nesse processo.

Chama também a atenção o ponto de vista manifestado por Braga (1999), sobre que a área apresenta um caráter “consiliente”. O termo consiliência foi criado por William Whewell, em 1840, “para indicar um ‘salto conjunto’ do conhecimento entre e através das disciplinas, por meio da ligação de fatos e de teorias, para criar novas bases explanatórias” (WILSON 36 apud BRAGA, 1999, p.9). A visão de Braga parece aproximar-se das construções interconceituais com as quais Wersig (1993) propõe balizar o perfil da área. É também notável a aproximação da noção de

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Nosso levantamento na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI) recuperou, para o período cobrindo da década de 1970 em diante, apenas 3 artigos de periódicos nacionais com ocorrência, no título, do termo transdisciplinaridade e variações: Vieira (1983), Souza e Crippa (2009) e Pereira e Meireles (2009).

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Conforme indicado no capítulo 6, Anna da Soledade Vieira está entre os pesquisadores brasileiros convidados a participar — juntamente com Aldo Barreto e Lena Vania Ribeiro Pinheiro — de uma recente pesquisa em forma de painel internacional sobre a Ciência da Informação organizada pelo pesquisador israelense Chaim Zins — cf. Zins, 2007.

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consiliência com a conceituação de transdisciplinaridade proposta por Nicolescu

(1999), referindo-se àquilo que está “ao mesmo tempo entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de qualquer disciplina” (p. 46).

Souza e Crippa (2009) discutem a questão do patrimônio cultural, apresentando uma revisão bibliográfica sobre o percurso brasileiro em sua abordagem e considerações ensaísticas relacionando aspectos inerentes a ela com temas centrais da Ciência da Informação, tais como o conceito de documento, o tratamento documental, a mediação e a apropriação cultural. Para tanto, buscam conjugar referenciais teóricos desenvolvidos pela Ciência da Informação com outros provenientes de áreas em constante diálogo com esse campo. Acompanham Rabello (2009)37 no pressuposto de que a Ciência da Informação é marcada pela transdisciplinaridade, com influências da Documentação, Biblioteconomia, Museologia, Direito, História, dentre outras áreas, o que permitiria uma diversidade de conceituações de documento, “que cobrem desde a noção de ‘textos escritos’ de Ranganathan à ‘informação-como-coisa’ de Buckland” (p. 208).

Os autores também consideram que “os estudos sobre o patrimônio cultural são marcados pela transdisciplinaridade” (p. 216), por serem um tema que, antes discutido principalmente por arquitetos, “hoje é pesquisado também por historiadores, sociólogos, antropólogos e outros profissionais das Ciências Humanas” (p. 217). Assim, manifestam a expectativa de que áreas como a Ciência da Informação possam vir a oferecer maiores contribuições. Entretanto, como não há uma discussão conceitual sobre a transdisciplinaridade, essas menções não diferenciam adequadamente as situações aludidas das outras modalidades de relações disciplinares.

Pereira e Meireles (2009) discutem a aplicação à Ciência da Informação de abordagens metodológicas que consideram transdisciplinares, focalizando, mais especificamente, técnicas de investigação utilizadas pelo método de Análise de Redes Sociais. As menções à transdisciplinaridade, no entanto, soam informais e apresentam dificuldades. O recurso à teoria do conhecimento, na tentativa de fundamentar filosoficamente a discussão sobre novas tecnologias de informação e comunicação, não torna suficientemente clara a associação do adjetivo

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RABELLO, Rodrigo. A face oculta do documento: tradição e inovação no limiar da Ciência da Informação. 2009. 331 f. Tese (doutorado em Ciência da Informação) – Universidade Estadual Paulista, Marília, 2009.

transdisciplinar a substantivos referentes a aspectos que vão desde aspectos mais

fluidos, tais como perspectivas, pontos de vista e posturas, até outros supostamente mais formais, tais como abordagens, métodos e metodologias. A afirmação generalizada de todos eles como transdisciplinares parece baseada no pressuposto de que haja consenso a respeito. Se isso não é algo evidente no tocante ao primeiro conjunto de aspectos, torna-se ainda mais problemático em relação ao segundo. De fato, a discussão do que é que atribui caráter transdisciplinar a abordagens, métodos e metodologias não produziu ainda resultados pacificamente aceitos, seja aqui ou em outras partes do mundo.

A tentativa de interrelação entre aspectos conceituais da Análise de Redes Sociais e perspectivas decorrentes do pensamento complexo moriniano traz menções a uma suposta “metodologia da complexidade” em relação à qual também nos parece arriscado pressupor que já exista suficiente consenso, a despeito dos louváveis esforços que principiam com o próprio Edgar Morin e suas proposições sobre o tema. Nesse contexto, a alusão a métodos e projetos de cunho transdisciplinar parece novamente pretender tomar como recurso já disponível construções cujo caráter ainda provisório talvez demande muito mais uma atitude de engajamento problematizador.

Com efeito, parece-nos que inferir a ocorrência de “processos transdisciplinares fortes” nas interações academia-sociedade, propiciadas pelas abordagens metodológicas em tela, pode implicar o risco de equívocos que levem a subvalorizar oportunidades de passar de vivências multidisciplinares a projetos interdisciplinares, com sua carga já bastante desafiadora de implicações, no que se refere a mudanças interrelacionadas em sujeitos sociais e gramáticas disciplinares. O exemplo referente às redes de vigilância distribuída certamente aponta interfaces academia-sociedade dignas de toda a atenção, mas que devem ser caracterizadas, do ponto de vista das modalidades de relações disciplinares, com o cuidado e a parcimônia que exigem as construções epistemologicamente consistentes.

Seja em relação a conceitos ou técnicas, é possível apreciar o valor da convergência buscada pelas autoras com a discussão sobre a tópica (ou topologia) de redes característica da produção contemporânea do saber (DOMINGUES, 2005; POMBO, 2004b), cuja presença é marcante nas discussões sobre transdisciplinaridade. No artigo, entretanto, não se encontra uma diferenciação conceitual e epistemológica convincente entre a perspectiva transdisciplinar e

aquelas relacionadas às modalidades interdisciplinar e mesmo multidisciplinar. Assim, o uso preferencial que é feito de termos ligados à transdisciplinaridade dá margem a imprecisões, implicando o risco de uma extensão ainda maior da imprecisão que costuma acompanhar o termo interdisciplinaridade no campo da Ciência da Informação.

Dumont e Bruno (2003) propõem uma reflexão sobre a oportunidade aberta, na contemporaneidade, à busca de diálogo com outras áreas pela Ciência da Informação, discutida como campo de conhecimento emergente, com características de transição. Os autores sugerem uma perspectiva de complementaridade dialógica entre racionalismo e relativismo na formulação e na busca de respostas às questões de cuja abordagem essa área participa, considerando que ela emerge em condições potenciais favoráveis de promoção do diálogo, ao compartilhar objetos de estudo com outras disciplinas.

A discussão visita questões teóricas ligadas à reflexão sobre a transdisciplinaridade, ainda que uma menção direta ocorra somente ao se incluir o

texto científico transdisciplinar (ou intertemático) entre as características do

paradigma emergente na contemporaneidade. A interdisciplinaridade é mencionada com maior frequência, ora como característica típica — ou natural — da Ciência da Informação, ora ao se apontar a pertinência de sua participação em estudos que requerem destacada interdisciplinaridade.

Os autores aplicam a metáfora dialógica tanto às perspectivas filosóficas abordadas — racionalismo/relativismo — quanto às relações entre áreas do conhecimento. Refere-se mais diretamente a este caso a “oportunidade de diálogo intertemático” aludida no título: a abordagem de um objeto de estudo pulverizado por todo o mapa das disciplinas e a possibilidade de fomentar o diálogo entre os corpos do saber dotariam a Ciência da Informação de “uma boa condição de promover e praticar a intertematicidade” (p. 34). Essa noção deriva das discussões de uma especialidade emergente chamada Socialização da Informação, onde é considerada “com maior poder de alcance em relação à dinâmica e flexibilidade dos processos informacionais do que a interdisciplinaridade” (p. 34, nota 14, trecho).

Assim, os autores não apenas afirmam a interdisciplinaridade da área, mas também introduzem um elemento de conflito em sua abordagem, ao destacar o diálogo intertemático como caminho valioso a buscar. Talvez esse elemento possa mesmo contribuir para estabelecer pontes com a perspectiva transdisciplinar, que

remete à constituição do paradigma emergente. Mas essa questão fica a sugerir aprofundamentos e esclarecimentos capazes de articular a intertematicidade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade numa compreensão mais ampla das possibilidades e das dificuldades de diálogo com as quais se depara a Ciência da Informação no panorama contemporâneo.

Nesse contexto de possibilidades dialógicas, vale mencionar o trabalho do Grupo de Estudos Cognitivos em Ciência da Informação (GECCI), integrado por pesquisadores da Escola de Ciência da Informação da UFMG. O grupo assume como necessário um esforço de hibridização do conhecimento científico e explora conexões com teorizações sobre a cognição que apontam para um horizonte de investigação interdisciplinar e transdisciplinar, ao considerar o aprender humano um processo complexo e vivenciado a todo instante por seres que fundem dimensões individuais e sociais (BORGES et alii, 2003, 2004). Integrante do GECCI, Dumont (2006) busca entrelaçamentos entre o ato da leitura e os processos cognitivos, com vistas a contribuir para a consolidação de abordagens teóricas ainda incipientes da Ciência da Informação. Para tanto, articula complementaridades entre diversas áreas humanísticas (Letras, Educação, História, Comunicação e Sociologia), a partir do pensamento de Piaget, Gardner, Belkin, Shera, Vakkari, Barreto e outros, bem como de subsídios baseados numa associação das concepções cognitivistas de Morin e Maturana, entre as quais identifica significativos trespassamentos.

Também Alvarenga (2003) aborda interfaces dos fenômenos cognitivos com a ciência da informação, numa discussão preliminar sobre componentes do processo de representação do conhecimento presentes em distintos momentos do percurso cognitivo-informacional e cuja consideração é necessária à teorização sobre arquivos e bibliotecas digitais. A autora vê a ciência cognitiva como apenas um dos novos campos interdisciplinares a lidar com os múltiplos ângulos implicados pela complexidade dos processos cognitivos. Menciona também a psicologia comportamental, a psicologia cognitiva e a sociologia do conhecimento — com especial destaque para o método hermenêutico —, cujas abordagens, igualmente fronteiriças aos interesses da ciência da informação, podem favorecer os estudos sobre os estágios anterior, simultâneo e posterior à inclusão de determinado item num sistema de informação.

A teoria do conceito é também citada como construção que lança pontes entre o universo da cognição e o mundo dos documentos, articulando, num território epistemológico interdisciplinar, conhecimentos de linguagem, psicologia cognitiva, comunicação e ciência da informação, para abarcar a representação, a comunicação e a preservação de conhecimentos. Nesse cenário de multiplicidade, a autora considera urgente o desenvolvimento de pesquisas transdisciplinares, que articulem essas diversas abordagens em iniciativas capazes de superar isolamentos indesejáveis e improdutivos, a fim de gerar resultados cientificamente valiosos e tecnologicamente úteis nos ambientes digitais vigentes agora e no futuro.

Campos e Venâncio (2007) apresentam um panorama histórico e epistemológico das abordagens físicas, cognitivistas e emergentes presentes no campo da Ciência da Informação. Acompanham Wersig na opção pelo conceito de

abordagem — em vez de “paradigma” —, caracterizada pela transdisciplinaridade,

pela ênfase em um modelo ou esquema e pela focalização dos problemas práticos da área, das soluções adotadas e dos estudos empíricos. Os autores discutem as distintas conceituações de informação — da visão de “coisa” às noções mais fluidas, que incorporam aspectos sociais, comunicacionais, vivenciais e situacionais — e os distintos modos pelos quais os problemas práticos do campo foram tratados ou seus temas de pesquisa foram desenvolvidos, em cada abordagem, com base nos modelos adotados e nas conexões transdisciplinares realizadas. A discussão ilustra a abordagem física com os experimentos de Cranfield e passa pela virada cognitivista, com a abordagem que ensejou a proposição por Belkin dos estados anômalos do conhecimento, para chegar à virada pragmática e às abordagens emergentes, exemplificadas com a análise de domínio e a cognição situada. Uma é apontada como intrinsecamente transdisciplinar e a outra, como integrada.

No caso da análise de domínio, a consideração dos aspectos sociais, históricos e epistemológicos das comunidades discursivas é apontada como forte característica. Linhas particulares surgem da modificação de métodos tradicionais — guias de literatura especializada, tesauros e classificações, estudos bibliométricos, pesquisa em indexação e recuperação de informação —, com base em estudos de linguagem, de gênero, históricos, epistemológicos e críticos capazes de determinar as especificidades dos novos domínios. Os autores mencionam a expectativa de Hjørland quanto a que as pesquisas fundamentadas em combinações dessas

abordagens contribuam para reforçar a identidade da área, produzir uma aproximação teoria/prática e promover exercícios de interdisciplinaridade.

A descrição feita da cognição situada leva a supor que os autores não a considerariam menos “transdisciplinar”. Porém, não é explicado o que diferencia o qualificativo “integrada”. Em outro ponto, menciona-se que o final do artigo trará uma crítica ao tratamento precário dos conceitos “multidisciplinares” no campo da Ciência da Informação. Nas considerações finais, os autores de fato criticam a disparidade e a eventual falta de rigor dos conceitos usados no agregado diverso de problemas, soluções e modelos presente no campo. Porém, é à transdisciplinaridade que se referem, afirmando que ela é convertida, por vezes, numa “incorporação acrítica de teorias de outros campos, sem efetiva coerência ou entrosamento, ou mesmo sem uma saudável atitude de renovação” (p. 116). O termo volta a figurar na proposta de encaminhamento para a situação, referindo-se ao caráter evolucionário, sinóptico e

transdisciplinar do trabalho com modelos e interconceitos preconizado por Wersig.

Assim, os autores reconhecem necessárias tradução e fundamentação de conceitos no contexto discutido, que envolve integração de abordagens, diversificação metodológica e articulação dos problemas comuns e das soluções adotadas no campo, contemplando os aspectos sociais, históricos e epistemológicos vigentes nos diversos domínios. Com isso, aderem a sinalizações valiosas para a pesquisa na área. Contudo, a terminologia adotada com referência às modalidades de relações disciplinares parece envolver ambiguidades que é importante rever, para que as reflexões apresentadas alcancem ainda maior consistência epistemológica.

Ao considerar implicações do debate sobre a modernidade, González de Gómez (1990) analisa questões referentes a aspectos da pesquisa na área. Em relação aos sistemas de recuperação da informação, discute sua legitimidade formal e sua eficácia técnico-normativa como atributos relativos a processos sociais de construção cognitivo-comunicacional. Nesse sentido, a comunicação interativa direta em diversos contextos e situações — incluindo produção de conhecimento científico, tecnológico, político, prático, artesanal etc. — constituiria, no campo fenomenológico dos estudos de informação, a base propedêutica e transdisciplinar sobre a qual seriam construídos novos conhecimentos, agora referentes à comunicação indireta e visando a potencializar funções informacionais e comunicacionais.

Na discussão sobre novas tecnologias de comunicação e informação, a autora aponta o forte impacto de questões filosóficas e sociológicas referentes a

linguagem e cognição. Explorando caminhos assinalados pelo pensamento de Habermas, desloca a ênfase das tecnologias em si para suas relações com os quadros instituidores da instrumentalização. Identifica um dos problemas centrais não tanto no distanciamento entre ato de enunciação e produto semiótico- informacional, pela via tecnológica, mas sim na ruptura das regras pragmáticas que constituem o contrato de direitos e obrigações recíprocos a observar nas práticas e ações de informação. A legitimidade destas pressupõe atenção à pragmática social da circulação da informação, sejam quais forem os meios tecnológicos.

No tocante à modernização dos meios e à ampliação das alternativas, são apontados os dilemas de inclusão/exclusão historicamente produzidos pela própria modernidade para realização da equidade social: o capitalismo industrial restringe a alguns segmentos a efetivação da racionalidade "meios-fins", além de gerar políticas técnicas com impactos sociais e ambientais de dimensão global. O alargamento dos espaços de experimentação e transformação disponíveis ao conhecimento e à tecnologia ligados à informação depende da vontade dos quadros institucionais de construir um cenário de geração e acesso mais equitativo e democrático.

A ênfase produtivista na informação científico-tecnológica não é diretamente criticada pela autora, mas o contexto da discussão proposta é condizente com uma relativização desse tipo de abordagem e sua integração numa perspectiva mais ampla. Rejeitando a ideia de informação como coisa ou essência, a autora busca uma abordagem mais aprofundada da contextualidade dos fenômenos de informação, capaz de contemplar os aspectos da existência social para além das primeiras abordagens cognitivistas. Por esse caminho, a identidade da Ciência da Informação seria definida não pela instituição de uma classe de fenômenos de informação como objeto de estudo, mas sim pela instauração de um ponto de vista capaz de organizar um domínio transdisciplinar com dimensões físicas, comunicacionais, cognitivas e sociais ou antropológicas.

Assim, a autora privilegia uma perspectiva relacional entre a pragmática social da informação — ou meta-informação — e os mundos de vida, ação e conhecimento, com implicações para a construção de valores e sistemas de informação. As ações de segundo grau sobre a informação contemplariam as aplicações especializadas, mas não se reduziriam a essa perspectiva, envolvendo questões que vão muito além dos pacotes fechados fornecidos como produtos pela indústria da informação.

É no contexto de uma construção democrática ampla dos valores informacionais que a autora vê sentido para a pesquisa em Ciência da Informação no Brasil. Face à pressão por uma orientação voltada para a indústria da informação, ela sugere que a universidade seja um espaço aberto aos desdobramentos da informação, situando-se em campos de orientação

interdisciplinar e transdisciplinar que ofereçam, por meio da pesquisa, oportunidades

teóricas e instrumentais às definições alternativas de valor de informação, acolhendo as propostas dos múltiplos atores sociais.

Retomando e aprofundando a abordagem feita no artigo anterior, González de Gómez (2003) propõe uma discussão sobre o escopo e a abrangência da Ciência da Informação, na perspectiva de uma ancoragem social da informação, cujo sentido é dado por ações de informação caracterizadas pelos estratos — ou dimensões — semântico-pragmático, metainformacional e infraestrutural. Discute as assimetrias e as interfaces desses estratos, detalhando as modalidades de ações de informação que os integram — mediadora, formativa, relacional — e suas respectivas subjetividades — funcional, heurística e articulatória —, contextualmente designadas na divisão social do trabalho, além de tecer considerações sobre os encaixes e enfeixamentos entre ações e regimes de informação.

A autora aponta que os estratos e as modalidades das ações de informação estabelecem novas zonas de vizinhança e solidariedade entre a Ciência da Informação e outros conhecimentos. Mesmo historicamente, a construção do conhecimento disciplinar incluiu abertura interdisciplinar e transdisciplinar. Nas últimas décadas, intensificaram-se ainda mais os processos de hibridação, tradução e deslocamentos envolvendo migrações de dados, conceitos, argumentos, modelos teóricos e procedimentos metodológicos entre áreas do conhecimento, em encontros

interdisciplinares que, muitas vezes, geram novas especialidades. Por outro lado, a

demanda de conhecimentos científico-tecnológicos na abordagem de problemas nas zonas de ignorância, no contexto das atividades sociais, implica formas de articulação de saberes e práticas mais compatíveis com a transdisciplinaridade.

O valor epistêmico foi progressivamente associado à representação político-institucional nesses processos, numa aproximação entre ciência e economia de mercado. Especialmente nas configurações científico-tecnológicas mais complexas surgidas no pós-guerra, agências de avaliação, fomento, regulação e fiscalização constituem poderes fáticos de demarcação, presentes num cenário de

conjugação da tendência endógena à interdisciplinaridade com a tendência exógena, movida por demandas respondidas por movimentos tais como a pesquisa orientada por problema ou por missão.

Nesse contexto, a autora adota uma diferenciação entre programas de pesquisa e programas disciplinares, que seguem orientações e objetivos distintos: no primeiro caso, compete-se para definir o regime de verdade; no segundo, compete-se pela definição da sociedade, em cada domínio de intervenção. Entretanto, os dois tipos de programas partilham as dinâmicas e as regras do campo científico e implicam-se mutuamente, estabelecendo uma complexa ecologia de