Até o final do século XIX o Brasil tinha uma produção direcionada para os bens de consumo primário (itens como trigo, café e arroz) e dependia quase totalmente do estrangeiro no que concerne a produtos manufaturados. No ano de 1850 o país contava com cerca de 50 estabelecimentos industriais, sendo 10 indústrias de alimentação e sete de produtos químicos137 138. Diversos aspectos atrapalhavam a industrialização do país, entre eles o trabalho escravo, a
baixa densidade demográfica, o mercado interno escasso e o sistema de transporte e escoamento de mercadorias precário.
137 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 45.
138 A categoria “produtos químicos” é naturalmente ampla, englobando desde produtos como óleos de origem
vegetal, sabão, perfumes e combustíveis, até resinas sintéticas, materiais plásticos e tintas, esmaltes e vernizes, categoria que nos interessa nesse estudo. A indústria responsável pela fabricação de tintas faz parte do conjunto das indústrias de bens secundários ou finais de transformação.
Como alternativa para a proibição do trabalho escravo, os programas de imigração iniciados no fim do século XIX e no início do XX alteraram significativamente esse quadro, que alcança seu ápice com a Lei Áurea (1888), um ano antes de ser proclamada a República (1889). Nesse momento, o Brasil já contava com 636 empresas industriais, sendo aproximadamente 95 voltadas para alimentação e 64 para produtos químicos139. Como veremos
nos próximos tópicos, os imigrantes trouxeram também novas ocupações para o mercado nacional, sendo o setor das tintas um dos privilegiados.
As diferentes ondas migratórias da Europa dirigiam-se preferencialmente para São Paulo, alterando o cenário exposto no Censo Industrial de 1907, no qual o Distrito Federal (até o ano de 1960 com a capital no Rio de Janeiro) aparecia com 30% da produção industrial nacional, seguido por São Paulo com 16%, Rio Grande do Sul com 7% e Minas Gerais com 4%. A partir de 1910, a capital paulista lidera o ranking, sendo seguida por Distrito Federal, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Posteriormente, os Recenseamentos Gerais de 1920, 1940 e 1950 registrariam um total de 13.336, 58.000 e finalmente 89.086 empresas industriais, respectivamente140. Em 1950 o Brasil contava com aproximadamente 2.648 estabelecimentos
industriais no ramo de atividades de origem “Química e Farmacêutica” 141.
A vinda de empresas internacionais ligadas ao setor automobilístico (FIGURA 22 e 23), como a Ford em 1919, constituída Ford Motors Co. of Brazil e posteriormente Ford Motors Co. Exports, e também a General Motors (FIGURA 24), que passa a operar na década de 1920, construindo uma fábrica em São Caetano (SP) em 1929, marcam as primeiras ocorrências de investimentos estrangeiros no Brasil142.
139 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 45.
140 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 45.
141 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 52.
142 SUZIGAN, Wilson; SZMRECSÁNYI, Tomás. Os Investimentos Estrangeiros no Ínício da Industrialização do
Brasil. in SILVA, Sérgio S.; SZMRECSÁNYI, Támas (org.). História Econômica da Primeira República. Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, p. 277.
FIGURA 22 e FIGURA 23 – Anúncios de automóveis no Brasil durante a década de 1920. Fonte: O Jornal (RJ), Edição 03362(1), 03/11/1929, p. 3 e Correio da Manhã, Edição 09701(1), 05/09/1926, p. 25.
Ainda nos idos de 1920 empresas internacionais da indústria químico-farmacêutica passaram a investir no mercado brasileiro, que “já tinha dimensões significativas na época para vários produtos químicos de uso industrial (como soda cáustica, anilinas, corantes e ácidos)”143.
Entre os investimentos diretos de capital mais importantes temos a Rhodia144, subsidiária das
Usines Chimiques du Rhône (depois Rhône-Poulenc) da França; a Bayer alemã, da Merck & Co.; a Parke-Davis e Colgate-Palmolive dos EUA; a Unilever e a ICI (Imperial Chemical Industries) de origem britânica145. Para além dos aportes externos a indústria nacional teve sua
143 SUZIGAN, Wilson; SZMRECSÁNYI, Tomás. Os Investimentos Estrangeiros no Ínício da Industrialização do
Brasil. in SILVA, Sérgio S.; SZMRECSÁNYI, Támas (org.). História Econômica da Primeira República. Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, p. 278.
144 A empresa opera no Brasil desde 1919 e tem uma fábrica construída em Santo André (SP) passando a iniciar a
produção químico-farmacêutica em 1921. A Rhodia, juntamente com a Matarazzo e a Cia. Nitro-Química Brasileira (fundada em 1935 por um consórcio brasileiro em associação com capital norte-americano) dominavam no final da década de 1930 o mercado brasileiro dos fios de raiom (SILVA, SZMRECSÁNYI, 1993, p. 279).
145 SUZIGAN, Wilson; SZMRECSÁNYI, Tomás. Os Investimentos Estrangeiros no Ínício da Industrialização do
Brasil. in SILVA, Sérgio S.; SZMRECSÁNYI, Támas (org.). História Econômica da Primeira República. Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, p. 278.
produção incentivada por “tarifas aduaneiras e outras políticas governamentais [que] ofereciam uma margem de proteção à fabricação local desses produtos e, na maior parte dos casos, também (...) uma disponibilidade local de matériais-primas.”146
FIGURA 24 – Anúncio da General Motors. Fonte: Correio da Manhã, Edição 15651(1), 08/11/1945, p.5.
146 SUZIGAN, Wilson; SZMRECSÁNYI, Tomás. Os Investimentos Estrangeiros no Ínício da Industrialização do
Brasil. in SILVA, Sérgio S.; SZMRECSÁNYI, Támas (org.). História Econômica da Primeira República. Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, p. 278.
Durante as décadas de 1910, 1920 e 1930, a introdução de capital estrangeiro para a industrialização do Brasil através de empresas internacionais seguiu uma estratégia específica. De modo geral, as empresas inicialmente forneciam seus produtos para revendedores locais a fim de consolidar o mercado interno. Em seguida, a empresa se estabelecia no país, constituía fábricas e produzia seus próprios produtos.147
A ocorrência de conflitos internacionais como as duas Guerras Mundiais (a primeira entre 1914-1919 e a segunda entre 1939-1945) também influenciam positivamente o desenvolvimento da manufatura e indústria química nacional, uma vez que as matérias-primas internacionais deixam de ser oferecidas com a mesma frequência, obrigando a economia brasileira, principalmente a industrial, a uma produção mais autônoma148. No contexto da I
Guerra, “a partir das dificuldades de importar (...) houve impulso para a instalação de unidade produtoras de insumos e de produtos utilizados por outras indústrias; a indústria química começou a produzir anilinas, (...) tintas e vernizes”149. Dessa forma, os dois conflitos
possibilitaram a formação de “autênticas barreiras protecionistas e se constituem como o mais forte setor de estímulo para os nossos empreendimentos fabris.”150
Entretanto, se em países como os EUA, Inglaterra e Alemanha o término da I Guerra permite o aprimoramento e crescimento da indústria química, no Brasil o mesmo não ocorre. Em uma avaliação da situação da indústria química brasileira no ano de 1939, Nabuco de Araújo Jor, presidente do Sindicato dos Químicos do Rio de Janeiro, esclarece que duas situações contribuem para isso: “os direitos baixos, que a Tarifa das Alfândegas de 1934 instituiu para os produtos químicos e, principalmente, a apatia e o desinteresses dos nossos industriais pela pesquisa química e científica.”151 Jor ainda afirma que “excetuando-se as organizações
estrangeiras e uma ou outra nacional podemos dizer que 95% das nossas indústrias não possuem um químico e muito menos um pequeno laboratório para ensaios.” Esse tipo de investimento era visto como algo “supérfluo [que] representa despesas inúteis. [Os industriais do país]
147 SILVA, SZMRECSÁNYI, 1993, p. 263.
148 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 46.
149 NASCIMENTO, José Leonardo do. Trabalho e prestígio social: os Espanhóis em São Paulo. in SILVA, Sérgio
S.; SZMRECSÁNYI, Támas (org.). História Econômica da Primeira República. Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, p. 350.
150 DI PIERRO, Mário F.. O papel de São Paulo no desenvolvimento do Brasil in Capítulos da História da
Indústria Brasileira. Fórum Roberto Simonsen, Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, Vol XI, São Paulo, 1959, p. 98.
151 JOR, Nabuco de Araújo. A indústria química no Brasil. ROSA, Jaime Sta. (red.). Revista de Química Industrial
preferem viver à custa da proteção tarifária e com o emprego de processos manufatureiros empregados no século passado.”152
Entretanto, ainda que o país não tenha seguido os investimentos industriais de outros países, o estímulo do progresso industrial no Brasil, iniciado na década de 1930, seria descrito por muitos economistas como “excepcional” 153. A fase coincide com o governo de Getúlio
Vargas (1930-1945), que foi um momento de grande transformação social, econômica e industrial. No governo do rio-grandense, o Brasil desenvolveria uma forte dependência da economia norte-americana, deixando para trás parte da influência exercida pela cultura francesa e pela economia britânica. Esse quadro seria intensificado com o apoio do Brasil aos Aliados (EUA, França, Inglaterra) durante a II Guerra Mundial e os acordos, tratados e concessões realizadas nesse período. Com o término da II Guerra Mundial, Vargas retorna à presidência em 1950, permanecendo até 1954. Getúlio Vargas enfrentou as oligarquias dominantes no país, os latifundiários e banqueiros para investir nas indústrias básicas para o desenvolvimento nacional (siderurgia, metalurgia, mecânica, cimento, química, farmacêutica e de papel). Como resultado, de 1933 a 1939, o crescimento industrial foi de 11,2%154. Esse panorama só seria
possível com a adoção de medidas protecionistas estatais, as quais, como veremos, impactarão na disponibilidade de materiais para a produção artística/cultural do país. A Comissão de Desenvolvimento Industrial (CDI) criada em 1951, institui o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia) e a subcomissão de “Jeeps, tratores, caminhões e automóveis”, facilitando assim o investimento dessa indústria no Brasil.
Em 1955, o mineiro Juscelino Kubitschek assume o governo, dando continuidade ao desenvolvimento industrial e econômico iniciado pelo antecessor até o fim do mandato em 1960. Foi durante esse período que JK estabeleceu o “Plano de Metas” (1956), principal pilar para sua política desenvolvimentista (“50 anos de desenvolimento em 5”), e finalizou a construção da capital Brasília (1956-1960). Esse plano consistiu em um conjunto de 30 objetivos (metas) que contemplava investimentos em cinco áreas principais: energia, transporte, indústrias de base, alimentação e educação. Dessas, as duas primeiras seriam privilegiadas com
152 JOR, Nabuco de Araújo. A indústria química no Brasil. ROSA, Jaime Sta. (red.). Revista de Química Industrial
– RQI, n° 92, Ano VIII, dez. 1939, p. 11.
153 BERENHAUSER JUNIOR, Carlos. Possibilidades industriais na Bacia Paraná-Uruguai. Evolução Industrial
do Brasil e da Bacia – Histórico. Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai, São Paulo, 1956, p. 55.
154 TELLES, Carlos Queiroz. ABRAFATI. Cem Anos de Cor & História. Editora CL-A Comunicações S/C Ltda.,
aproximadamente 70% dos investimentos155. O governo de Kubitschek seria determinante para
a vinda de montadoras e de investimentos de capital estrangeiro, particularmente no setor dos automóveis, fato que justifica uma grande variedade de produtos para esse uso entre 1955 a 1960 (FIGURA 25 e 26). O Brasil deixaria sua condição de país essencialmente agropecuário para começar a se tornar uma economia industrial.
Em 1961 Jânio Quadros é empossado, mas renuncia no mesmo ano e o vice-presidente, João Goulart, passa a governar até 1964, quando passa a vigir no Brasil a ditadura militar, que acabaria somente em 1985.
FIGURA 25 – Anúncio da Mesbla para a venda de tinta automobilística. Fonte: O Observador Econômico e Financeiro, 1956, Ed. 00250(1), p. 75.
155 BAUMANN, Renato; GONÇALVES, Samo S.. Manual de economia. Fundação Alexandre de Gusmão,
FIGURA 26 – Anúncio da Sherwin-Williams para a venda de tinta automobilística. Fonte: O Cruzeiro (Revista), Edição 0049(3), 17/09/1960, p. 62.