1. CAPÍTULO I: GUERRA SANTA, CRUZADA E OS ESTADOS LATINOS DO
1.2 O chamado à cruzada
1.2.1 O contexto oriental
Em 1054, devido a divergências de ordem política, eclesiástica e teológica, entre a Igreja romana e a Igreja oriental, ocorreu o denominado Grande Cisma.45 Embora o evento tenha afetado a relação entre as Igrejas, isso não impediu, que relações entre o Ocidente e o Oriente no campo comercial quanto no militar e até mesmo no religioso continuassem existindo. “O cisma de Fócio (867) e o cisma de Miguel Cerulário (1054) marcam etapas de grande relevância no distanciamento paulatino entre Roma e Constantinopla, mas em nenhum caso levaram à cisão definitiva entre ambas as cristandades”.46
Em virtude das recorrentes disputas – e derrotas – contra os turcos seldjúcidas nas fronteiras do império, Aleixo I Comneno enviara um pedido ao papa Urbano II em março de 1095, para que este o auxiliasse com tropas contra o inimigo muçulmano. Em 1074, Gregório
44 Ibidem, p. 274
45 CROSS, F. L. (ed.) Great Schism. In: The Oxford Dictionary of the Christian Church. New York: Oxford
University Press. 2005, p. 706
46 RIVEROS, José Marin. Bizancio, Cruzada y Guerra Santa. Tiempo y espacio, n. 11-12, 2001/2002, pp. 77-101,
VII planejara socorrer os cristãos bizantinos, mas seu projeto de campanha militar no Oriente nunca se concretizou.
Urbano teria visto nesse pedido uma oportunidade de reaproximar as Igrejas oriental e ocidental de seu meio século de afastamento. Peter Frankopan aponta que até poucos anos antes de 1095, seria extremamente improvável o envio de ajuda a Constantinopla a partir do Ocidente, sobretudo a partir de um pedido de Urbano, cuja posição política na Igreja se encontrava débil. O autor defende, então, que a alteração na postura do papa reside em sua preocupação em controlar a Igreja como um todo e, em particular, fortalecer sua posição no Ocidente.47
Aqui se vê a importância da Reforma para a realização da cruzada, uma vez que se nota o interesse da Santa Sé em expandir sua influência sobre toda a cristandade. Após a cruzada, pode-se perceber também a intenção do papado em impor sua autoridade sobre o Oriente por meio da estruturação dos Estados Latinos do Oriente, dos quais falaremos adiante. Se analisarmos o evento a partir da ótica dos orientais, encontraremos outras informações interessantes. Para isso, um texto que se pode dispor é a Alexíada de Ana Comneno, filha de Aleixo. Por meio de seu relato, nota-se que os bizantinos tinham diversas reticências em relação ao apoio vindo do Ocidente48:
Precedeu à chegada de tão numerosos exércitos uma praga de gafanhotos, que respeitava os trigais, mas devorava sem compaixão os vinhedos. Isso era realmente um presságio49 (...). E tal confluência de homens e mulheres tomou lugar como nunca
ocorrido na memória humana: aqueles mais simples eram impulsionados pelo real desejo de adoração em nosso Sepulcro do Senhor, e de visita aos lugares sagrados; mas os mais astutos, especialmente homens como Boemundo e outros de mente como a sua, tinham outra razão secreta, nomeadamente a esperança de que durante suas viagens eles pudessem, de alguma forma, conquistar a própria capital, olhando para isso como uma espécie de corolário.50
47 Tal fragilidade se encontra na disputa entre Urbano e o antipapa Clemente III, influente líder cristão que ameaçou
severamente a posição de Urbano e era apoiado pelo imperador germânico Henrique IV. “Quando se tornou papa, Urbano estava vivamente atento que ele estava sendo ludibriado por Clemente III e seu protetor Henrique IV; ele foi forçado a construir pontes onde pôde. Um de seus primeiros passos foi se conciliar com Constantinopla.” FRANKOPAN, Peter. The first crusade: the call from East. Cambridge: Harvard University Press, 2012, pp. 16-19.
48 “Era notório o contraste, que os cronistas bizantinos fizeram notar, com os rudes cavaleiros ocidentais, cujas
diversões consistiam na caça e na guerra, e que pouco entendiam de refinamento e protocolo. Para os bizantinos não eram nada mais que bárbaros desprezíveis (...) que ameaçavam querer se apoderar da Cidade.” RIVEROS, José Marin. Bizancio, Cruzada y Guerra Santa. p. 86.
Ao mesmo tempo, principalmente após a cruzada, a imagem de Aleixo seria aviltada no Ocidente a partir de crônicas como a Gesta Francorum e autores como Baldrico de Dol, Guiberto de Nogent e Roberto o Monge. Tal imagem negativa do imperador persistiu por séculos na historiografia. FRANKOPAN, Peter. The first crusade... p. 198.
49 Ana Comneno faz em seu texto diversas referências aos francos beberem em demasia e a alegoria ao fim dos
vinhedos é clara nesse sentido.
50 ANA COMNENO. The Alexiad of the Princess Anna Comnena, Livro X, Cap. V, 7-10. Trad. Elizabeth A. S.
Dawes, 1928. Disponível em: < http://legacy.fordham.edu/halsall/basis/AnnaComnena-Alexiad.asp> Acesso em 03 de Março de 2016.
Embora pareça um contrassenso – o imperador solicita apoio ocidental e, ao recebê- lo, reluta no que se refere à “boa intenção” da ajuda –, se forem analisados dois elementos, o aparente paradoxo se desconstrói. O primeiro deles se dá na relação de Aleixo com alguns líderes militares francos, nomeadamente Boemundo. A relação entre ambos não era positiva há anos e quando Aleixo soube da vinda do normando, considerou que sua intenção não era auxiliar os cristãos, mas sim ameaçar o império bizantino.51
O segundo refere-se ao tipo de ajuda solicitada pelo imperador. De acordo com Peter Charanis, o pedido de Aleixo visava apenas conseguir algumas tropas para o combate em suas fronteiras; o pedido não chegaria nem perto da dimensão que as expedições da cruzada tiveram.52 Então, ao ver chegar tropas com milhares de pessoas em seu território, ele teria ficado apreensivo e cogitado uma invasão ocidental em seu império. Além disso, outro indicativo da desconfiança em relação ao tamanho da empresa cruzada reside no fato de que, para os bizantinos, não havia a ideia de guerra santa tal como elaborada no Ocidente.53 Assim, toda guerra – por mais que motivos sagrados a sustentassem – ainda era completamente humana e, portanto, passível de ambições humanas. Ou seja, temia-se que o propósito inicial dos ocidentais, de ajuda aos bizantinos e recuperação da Terra Santa, fosse deturpado pelos combatentes durante sua viagem ao Oriente. Ana Comneno divide ainda os cruzados de 1096 em dois grupos, conhecidos na historiografia do século XIX como partícipes da Cruzada dos Nobres e da Cruzada popular, liderada por Pedro o Eremita. Na Alexíada, apenas o grupo dos populares se encontrava verdadeiramente motivado a recuperar o Sepulcro; contudo, por sua inexperiência militar, o grupo foi massacrado.54
A primeira cruzada, portanto, ocorreu em meio à insegurança dos bizantinos em relação às intenções dos ocidentais. Esta insegurança se revelou fundamentada, uma vez que latinos entraram em conflito com bizâncio pouco após a conquista dos territórios do Levante. Entretanto, independentemente da hesitação de Aleixo em relação ao Ocidente, nos importa
51 RIVEROS, José Marin. Bizancio, Cruzada y Guerra Santa. p. 60.
52 CHARANIS, Peter. Aims of the medieval crusades and how they were viewed by Byzantium. Church History,
Vol. 21, No. 2. Jun., 1952, pp. 123-134, p. 128.
53 Embora não seja consenso na historiografia a inexistência da noção de guerra santa em Bizâncio, pode-se
considerar que, ao menos na formulação entendida por Flori – da qual comungamos aqui –, a guerra santa foi um fenômeno eminentemente ocidental. E mesmo ao considerar a ideia de guerra sacralizada anterior à Cruzada, com recompensas espirituais e a garantia do martírio para os combatentes, tem-se que: em Bizâncio, “caso se possa perceber entre os séculos VII e X uma mentalidade favorável à ideia de ‘guerra santa’, ela restou afogada e asfixiada, sem possibilidades de se difundir, seja pelo rigor imperial ou eclesiástico, ou pelo forte trauma que tal tipo de ações – as cruzadas – ocasionaram na população bizantina.” RIVEROS, José Marin. Bizancio, Cruzada y Guerra Santa. p. 90. PARTNER, Peter. Holy war, Crusade and Jihad. In: BALARD, Michel (org). Autour de la première croisade. Actes du Colloque de la Society for the Study of the Crusades and the Latin East (Clermont-Ferrand, 22-25 juin 1995), Paris 1996, pp. 333-344, p. 334.
mais aqui as motivações do papado ao convocar a cruzada. O primeiro deles foi estabelecido: a aproximação com a Igreja – e império – do Oriente. O segundo, talvez mais relevante para os fiéis do que para a Santa Sé, era a importância da liberação dos lugares santos. A seguir analisaremos a importância de tais locais para os cristãos.