3 CUSTOS SOCIAIS NA ANÁLISE ECONÔMICA DA
3.5 O IMPACTO DAS INFORMAÇÕES E DO DIMENSIONAMENTO
3.5.2 O dimensionamento do dano e sua influência na expectativa das
A expectativa das perdas desempenha papel importante nos modelos teóricos apresentados, pois a valoração do dano interfere no resultado do custo total do acidente (custo social) e no benefício social, com efeitos na definição dos níveis ótimos de precaução e de atividade.
Diante disso, o dimensionamento a menor do dano tende a provocar o desincentivo à adoção das medidas de precaução e a integralização incompleta dos custos gerados pelos acidentes, enquanto o dimensionamento a maior tende a fazer com que as empresas adotem medidas de prevenção excessivas e desnecessárias, internalizem custos não gerados e diminuam o nível de atividade. Ambas as situações geram desperdício de recursos e, portanto, são ineficientes.
A ausência de critérios objetivos para quantificação do dano, especialmente em relação ao dano moral, dificulta o dimensionamento dos prejuízos e da identificação da expectativa das perdas.
Diogo Naves Mendonça ressalta que “a ausência de parâmetro seguro permite insatisfazer, a um só tempo, o condenado à indenização e
a vítima beneficiária, cada qual interessada por um montante diverso daquele fixado judicialmente”484.
Steven Shavell afirma que as partes tendem a agir no nível ótimo quando, pelas regras de responsabilidade, a extensão da responsabilidade for equivalente às perdas causadas. Nesse caso, a responsabilidade esperada é igual à perda esperada485.
No entanto, o comportamento das partes tende a não ser ótimo quando a sua responsabilização é definida com base na probabilidade dos prejuízos. Steven Shavell analisa quatro situações distintas em que a responsabilização do ofensor é definida com base na probabilidade, que são: (i) a limitação da responsabilização por danos incomuns; (ii) a
responsabilização por danos altamente prováveis; (iii) a
responsabilização real por danos improváveis; (iv) a responsabilização real por danos altamente prováveis486.
De acordo o referido autor, a limitação da responsabilidade para danos incomuns tende a gerar redução do nível de precaução, pois a expectativa do ofensor quanto à sua responsabilização será inferior às prováveis perdas. Nessa hipótese, o ofensor levará em consideração a expectativa de responsabilização, e não a possível perda produzida com o acidente, o que pode induzir a uma prevenção inadequada. Portanto, quando o custo de prevenção do ofensor for superior à sua expectativa de ser responsabilizado, a tendência é que ele adote nível de precaução inferior ao ótimo.
No caso da responsabilização por danos improváveis, Steven Shavell esclarece que a maioria dos sistemas jurídicos estabelece que a responsabilidade deve ser equivalente aos prejuízos causados, mesmo que os danos não sejam prováveis. Todavia, há sistemas, como o anglo- americano, que adotam exceção a essa regra, excluindo a responsabilidade do ofensor em relação aos danos que, por meio de análise razoável, não possam ser previstos487.
Nos danos altamente prováveis de ocorrer, em que a responsabilização do ofensor, isto é, o valor imputado à reparação, é superior às perdas reais, as partes tendem a adotar medidas de prevenção superiores às perdas, visando, assim, à redução dos riscos. Supondo a
484 MENDONÇA, Diogo Naves. Análise econômica da responsabilidade civil:
o dano e sua quantificação. São Paulo: Atlas, 2012, p. 85-86.
485 SHAVELL, Steven. Economic Analysis of Accident Law. Cambridge:
Harvard University Press, p. 128.
486 Idem, ibidem, p. 129-131. 487 Idem, ibidem, p. 130.
certeza de ocorrência de um acidente com perdas estimadas em 100, caso o ofensor seja obrigado ao pagamento de 150, ou seja, que sua responsabilização seja maior do que as perdas reais, a sua tendência será
adotar medidas de prevenção com custo inferior a 150488.
A responsabilização do ofensor em valor superior às perdas esperadas tem natureza qualitativa, e se justifica como medida de coibição de práticas abusivas pelo ofensor. Nesse sentido, quando o causador do dano opta por violar o direito de outrem, “a aplicação da regra de responsabilidade pode ensejar ineficiência quando não acompanhada de um fator qualitativo”489.
Eugênio Battesini ressalta que a correspondência valorativa entre o dano e a indenização é definida como regra da simetria, porém a observância dessa regra não é obrigatória, existindo situações que justificam o pagamento de indenização maior ou menor ao dano sofrido490.
Na responsabilidade real por danos altamente prováveis de acontecer, a alta probabilidade de ocorrência, por si só, não implica a responsabilização superior às perdas efetivas.
Outra questão abordada por Steven Shavell, que influencia o dimensionamento do dano, refere-se à incerteza quanto à definição do nível das perdas pelos tribunais. Nas situações em que o tribunal, embora não possa determinar a perda com precisão, faz estimativas corretas, a expectativa das perdas é equivalente à expectativa quanto à responsabilização, o que incentiva o ofensor a agir no nível ótimo, segundo as regas de responsabilidade. Todavia, se o tribunal faz estimativas baixas acerca das perdas, o incentivo das partes para redução dos riscos tende a ser inadequado, da mesma forma que, se a estimativa for frequentemente superior às perdas, as partes tendem a adotar nível excessivo.
Os problemas relacionados à dimensão dos danos, especialmente no que se refere às expectativas da responsabilização e das perdas efetivas, encontram-se principalmente presentes nos danos morais. Caso a responsabilização do ofensor não reflita o dano moral efetivamente sofrido, os incentivos para redução do risco tendem a ser inadequados.
488 SHAVELL, Steven. Economic Analysis of Accident Law. Cambridge:
Harvard University Press, p. 131.
489 MENDONÇA, Diogo Naves. Análise econômica da responsabilidade civil:
o dano e sua quantificação. São Paulo: Atlas, 2012, p. 85.
490 BATTESINI, Eugênio. Direito e economia: novos horizontes no estudo da
Diante disso, Steven Shavell sugere que, quando a extensão dos danos morais for pequena, os tribunais não devem estimá-los, hipótese em que os custos administrativos serão evitados e os incentivos para redução dos riscos terão pequena alteração. No entanto, quando os danos morais forem de grande monta, eles devem ser estimados pelos tribunais; caso contrário, os incentivos à redução dos riscos de acidentes restarão
comprometidos491.
Para Diogo Naves Mendonça:
[...] a criação de incentivos acima ou abaixo do nível desejado (overdeterrence e underdeterrence) provoca resultados socialmente perniciosos no que se refere à probabilidade de ocorrência dos eventos danosos e ao grau de engajamento na atividade geradora de risco492.
Os problemas referentes ao dimensionamento dos danos também estão presentes no assédio moral no âmbito da relação de emprego, principalmente nas questões relacionadas ao dano moral. A ausência de critérios que permitam uma estimativa precisa dos prejuízos sofridos altera a percepção do empregador quanto aos riscos, o que pode provocar a utilização de níveis de precaução inadequados.
Contudo, a dificuldade de dimensionamento do dano moral não invalida a utilização da Análise Econômica do Direito como método investigativo. A análise da responsabilidade civil sob a perspectiva econômica possibilita, por meio do estudo dos custos sociais e do mecanismo de compliance, a avaliação dos incentivos à adoção de medidas para redução dos riscos relacionados ao assédio moral na relação de emprego. Diante disso, impõe-se o estudo do compliance no contexto da relação de emprego.
491 SHAVELL, Steven. Economic Analysis of Accident Law. Cambridge:
Harvard University Press, p. 134.
492 MENDONÇA, Diogo Naves. Análise econômica da responsabilidade civil:
4 O COMPLIANCE COMO MECANISMO DE REDUÇÃO DOS