Após a confecção do relatório “Nosso futuro comum” (Our Common Future) ou
“Relatório de Brundtland”, de 1987 (ONU), pela primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland, definiu-se o conceito mundial de “desenvolvimento sustentável”, inclusive adotado pela Constituição Brasileira de 1988 em seu art. 225. Firmou-se então como sendo “desenvolvimento sustentável” o desenvolvimento que satisfaz as necessidades da presente geração sem o comprometimento das necessidades das gerações futuras.
De fato, a expressão desenvolvimento sustentável (DS) tem se pautado no tripé que representa a conjugação de desenvolvimento econômico (DE) com equidade social (ES) e com proteção ambiental (PA); logo: DS = DE + ES + PA.
Aqui afirmo supletivamente que só se pode conceber a ideia de desenvolvimento sustentável mediante prévio e concomitante respeito aos direitos humanos; é o que tem inspirado a comunidade jurídica ocidental (tanto nas Constituições quanto no Direito Internacional Público Humanitário)19 após as discussões e estudos partidos do Relatório de Brundtland e a doutrina que se solidificou, de modo que o novo paradigma do Desenvolvimento Humano Sustentável (DHS) surgiu como contraposição àquele conceito isolado de desenvolvimento enquanto sinônimo exclusivamente de crescimento econômico. O DHS é um conceito amplo, multidimensional e interrelacional que abrange meios e fins tais como: justiça social e desenvolvimento econômico; bens materiais e o bem-estar humano; investimento social e o empoderamento (empowerment) das pessoas; atendimento das necessidades básicas e estabelecimento de redes de segurança; sustentabilidade ambiental para as gerações atuais e futuras; e a garantia dos direitos humanos — civis, políticos, sociais, econômicos e ambientais. Dentre as medidas utilizadas pela ONU para mensurar o DHS, encontram-se o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e o IDH Municipal (IDHM), o Índice de Pobreza Humana (IPH), o Índice de Desenvolvimento Humano ajustado por Gênero (IDG) e a Medida de Empoderamento de Gênero (MEG). Os
19 PAGLIARINI, Alexandre Coutinho; DIMOULIS, Dimitri. Direito constitucional internacional dos direitos humanos. Belo Horizonte: Fórum, 2014.
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) vêm complementar o paradigma, ao oferecer uma agenda social integrada para sua execução num horizonte temporal identificado, e com o acompanhamento da performance dos governos ao longo do processo.
Ficam então nestes breves parágrafos inter-relacionados desenvolvimento e direitos humanos.20
5 CONCLUSÕES
A dimensão do dano socioambiental causado pela Mineradora Samarco, em Mariana, é uma amostra perversa da sociedade de risco, consoante ilações de Ulrich Beck.
Nessa sociedade, o risco deixou de ser previsível e mensurável, passando a designar a probabilidade de ocorrência de uma verdadeira catástrofe ambiental com efeitos, em geral, coletivos e de grande magnitude.
A Samarco Mineração S.A., Vale S.A. e BHP Billiton Brasil deverão arcar com pesados custos para reparar os danos ambientais e sociais que geraram. É necessário, no entanto, repensar o modelo de negócios e os processos produtivos de todo o setor de mineração brasileiro.
Se ainda dependemos da extração de minério para produzir bens necessários, uma empresa realmente responsável deve investir em pesquisa para extrair cada vez menos recursos naturais, eliminar processos que geram rejeitos e não se acomodar na mera melhoria contínua de modelos insustentáveis.
A tragédia de Mariana revela que os padrões atuais da responsabilidade social corporativa não são suficientes para proteger a sociedade. Em sociedade democrática, carecemos de negócios que tenham processos e modelos que impliquem impacto positivo, regenerem a natureza e compartilhem o valor produzido.
REFERÊNCIAS21
BECK, Ulrich. La sociedad del riesgo global. Tradução de Jesús Alborés Rey.
Madrid: Siglo Veintiuno de España Editores, 2002:22.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional Ambiental Português:
20 PFERSMANN, Otto. Positivismo Jurídico e justiça constitucional no século XXI. Tradução e Coordenação: Alexandre Coutinho Pagliarini. Prefácio: Jorge Miranda. Apresentação: Francisco Rezek. São Paulo: Saraiva/IDP, 2014.
21 Todos os livros indicados ao final, na bibliografia referencial, são os marcos teóricos que vêm influenciando o pensamento dos autores do presente texto. Alguns mereceram expressa citação.
Outros, apesar de não terem sido citados, continuam a servir como fundamentos doutrinários indispensáveis ao que aqui se defende e denuncia.
tentativa de compreensão dos 30 anos das gerações ambientais no direito constitucional português. In: A responsabilidade civil por dano ambiental e o caso Samarco: desafios à luz do paradigma da sociedade de risco e da complexidade ambiental. LEITE, José Rubens Morato; CANOTILHO, José Joaquim Gomes (Org.).
Direito constitucional ambiental brasileiro. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.
DIAS, José de Aguiar. Da responsabilidade civil. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1994, v. 1:1.
FRANCISCO (Papa). Laudato si´ – Louvado sejas: sobre o cuidado da Casa Comum. São Paulo: Paulus/Loyola, 2015.
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole – O que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.
MACHADO, Jónatas, E. M. Direito internacional do paradigma clássico ao pós-11 de setembro. 4. ed. Coimbra: Coimbra Editora, 2013.
MIRANDA, Jorge. Curso de direito internacional público. Cascais: Principia, 2002.
PAGLIARINI, Alexandre Coutinho; DIMOULIS, Dimitri (Coord.). Direito constitucional internacional dos direitos humanos. Belo Horizonte: Fórum, 2014.
PELLET, Alain; et al. Droit international public. 8. ed. Paris: LGDJ, 2009.
PFERSMANN, Otto. Positivismo jurídico e justiça constitucional no século XXI.
Tradução e Coordenação: Alexandre Coutinho Pagliarini. Prefácio: Jorge Miranda.
Apresentação: Francisco Rezek. São Paulo: Saraiva/IDP, 2014.
REZEK, Francisco. Direito internacional público: curso elementar. 14. ed. São Paulo:
Saraiva, 2013.
SOARES, Mário Lúcio Quintão. Teoria do Estado. São Paulo: Atlas, 2014.
ŽIŽEK, Slavoj. Violência. Trad. Miguel Serras Pereira. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2014.
Alexandre Reis de Carvalho1 Rebecca Aguiar Eufrosino da Silva de Carvalho2
1 INTRODUÇÃO
Em recente pesquisa científica descritiva realizada pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados da Justiça Militar da União (ENAJUM, 2015) – com a finalidade de conhecer com maior profundidade os crimes militares de maior incidência naquela Justiça, suas principais características e o perfil dos envolvidos – revelou que o número de delitos relativos ao “tráfico ou posse de substâncias entorpecentes ou de efeito similar” (art. 290 do Código Penal Militar) encontra-se entre os 04 mais recorrentes e teve expressiva elevação no período compreendido entre 2002 a 2012. A taxa de crescimento nacional foi da ordem de 18,45% ao ano; enquanto o aumento percentual, nesse período, totalizou 200%. Ao se incluir, nesse estudo, os anos de 2013 e 2014, verifica-se a tendência exponencial desse crescimento, alcançando aumento de 337,5%, nos últimos 12 anos (2003- 2014), consoante revelou Stochero (2015).
As maiores incidências desse tipo de delito (tráfico ou posse de substância entorpecente) encontram-se nas organizações militares localizadas nas regiões Sul (35%) e Sudeste (35%) do Brasil. A região Sul e, em especial, os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina (índices mais altos do país), apresentam tendência de crescimento superior às observadas nas demais regiões.
Um esboço do perfil dos envolvidos nesse tipo de injusto penal revelou que:
99% são homens; 98% são cabos ou soldados; 85% têm no máximo 21 anos; e 52%
têm no máximo o ensino fundamental completo.
Além dos já conhecidos malefícios que o tráfico e uso de substância entorpecente ou de efeito similar (drogas)3 podem causar à economia, segurança pública e saúde (pessoal e pública), a referida pesquisa ainda constatou que, em 36% dos casos (ações penais militares), os envolvidos estavam de serviço no momento do crime e, em 20% das ocorrências, os militares estavam armados, no momento do flagrante e apreensão da droga ilícita, o que tem sido motivo de
1 Promotor de Justiça Militar em Curitiba/PR Coordenador do projeto social “Mais que Vencedores”.
Diretor-Geral do Instituto Brasileiro de Direito Militar e Humanitário.
2 Advogada Pós-graduada em Direito Militar, Administração Pública e Docência do Ensino Superior.
3 O “Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas” alterou a nomenclatura (desatualizada)
“substância entorpecente ou que determine dependência física ou química” para “drogas”.
enorme preocupação para os comandos militares e consequente incremento nas ações fiscalizatórias e repressivas.
No campo jurídico, após a vigência da Lei nº 11.343/2006, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD), houve a despenalização da posse (e condutas congêneres) de drogas para consumo pessoal. Todavia, a ocorrência dessas mesmas condutas (posse de drogas, ainda que de pequena quantidade), em local sujeito à administração militar ou por militar de serviço, configuram crime de natureza militar, consoante consolidada jurisprudência do Superior Tribunal Militar4 e Supremo Tribunal Federal.
Portanto, os “institutos despenalizadores” contidos na referida lei geral sobre drogas (Lei nº 11.343/06) não prevalecem sobre as hipóteses configuradoras do crime militar (art. 9º e 290 do Código Penal Militar), uma vez que os bens jurídicos tutelados pela referida norma penal militar extrapolam a incolumidade pública, alcançando e protegendo a hierarquia e disciplina militar, assim como a regular organização, preparo e emprego das Forças Armadas (STF. Órgão Pleno. Habeas Corpus nº 103.684/DF).
Em consequência, o militar que for imputado da prática do delito militar de
“posse de entorpecente”5 estará sujeito à “pena de reclusão, de 01 a 05 anos”; que, independente do quantum fixado na pena definitiva, não será convertida em pena restritiva de direito, por ausência de previsão legal e amparo jurisprudencial. Além disso, é comum a autoridade militar promover a desincorporação ou licenciamento do militar como sanção disciplinar.
A partir desse cenário, de contínuo crescimento da prática do delito de “posse de drogas” por jovens militares e consequente responsabilização penal (condenação à pena de reclusão), o presente artigo – caracterizado metodologicamente como qualitativo, de revisão bibliográfica e documental, acerca de “políticas públicas” e seus pressupostos teóricos – analisará o exercício da profissão militar como atividade laboral especial e fará a correlação dos fundamentos da psicodinâmica do trabalho (utilizados no projeto social “Mais que Vencedores”) como ferramenta apta a promover saúde mental, realização dos direitos humanos, prevenção criminal e eficácia na gestão dos profissionais das armas (disciplina, liderança e comando da tropa).
Após, abordará o papel da Justiça Militar, Ministério Público Militar, Ministério da Defesa e Comandos Militares como corresponsáveis pela tutela e difusão dos direitos humanos nas relações jurídico-sociais-castrenses e, consequentemente, como instituições legitimadas a atuar na indução de políticas públicas (setoriais) de
4 STM. “Súmula 14: Tendo vista a especialidade da legislação militar, a Lei nº 11.343 (Lei Antidrogas), de 23 ago. 2006, não se aplica à Justiça Militar da União.”
5 Código Penal Militar (Decreto-Lei nº 1.001/1969). Tráfico, posse ou uso de entorpecente ou substância de efeito similar. Art. 290. Receber, preparar, produzir, vender, fornecer, ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, ainda que para uso próprio, guardar, ministrar ou entregar de qualquer forma a consumo substância entorpecente, ou que determine dependência física ou psíquica, em lugar sujeito à administração militar, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena — reclusão, até cinco anos.
construção e afirmação dos direitos fundamentais, em especial, na prevenção ao crescente uso de drogas por jovens militares.
A seguir, discorrerá acerca de algumas medidas e atividades desenvolvidas pela Procuradoria de Justiça Militar em Curitiba/PR (PJM/Curitiba), como agência parceira na realização de ações resolutivas e de “projeto social (local) de prevenção” ao tráfico, posse e uso de drogas por jovens militares, do efetivo da Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina (2015 e 2016) e da Base Aérea de Florianópolis (2016), com a participação direta da sociedade civil organizada, em Florianópolis/SC, e de voluntários (colaboradores e apoiadores).
Por fim, apresentará alguns resultados alcançados com essas medidas de cidadania, psicodinâmica do trabalho e prevenção criminal, correlacionando-os com as metodologias e abordagens empregadas, no âmbito castrense, a fim de que possam subsidiar ações resolutivas congêneres e estimular/multiplicar a adoção de políticas públicas sobre drogas de âmbito setorial (Forças Armadas).
2 PROFISSÃO MILITAR COMO ATIVIDADE LABORAL ESPECIAL