3 CONSEQUÊNCIAS DA EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE
5 A POSSIBILIDADE DE JULGAMENTO DE CONFLITOS AMBIENTAIS PELA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITO HUMANOS
A necessidade pelo desenvolvimento a qualquer custo ainda está presente nas sociedades atuais, quer seja justificada para melhorar as desigualdades sociais quer seja por motivos de conforto e bem-estar.
Assim, a produção em massa de bens de consumo pode gerar conflitos, haja vista que são necessários grandes investimentos que, muitas vezes, podem afetar diretamente o meio ambiente, a exemplo do ocorrido em Rondônia-Brasil, com a construção das usinas Jirau e Santo Antônio, para produzir energia elétrica em grande escala por meio de hidroelétricas.
Com efeito, não só a população ribeirinha do Rio Madeira no Brasil foi afetada, como parte da Bolívia, em razão da grande área de alagamento que foi necessária para garantir a formação do lago capaz de produzir a energia elétrica planejada.
Há impactos de toda ordem, citando-se como exemplos, a erosão das margens dos rios, alteração no fluxo de correntezas, remoção de pessoas ribeirinhas, modificação na fauna e flora, dentre tantos outros.
Assim, tendo em vista que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e, sendo ele considerado um direito fundamental, e mais, um direito que está intimamente ligado à dignidade da pessoa humana, haja vista que há uma dimensão ecológica, que abrange a ideia de bem-estar ambiental, é possível sustentar que os impactos produzidos pelo desenvolvimento tecnológico podem gerar conflitos
37 SARLET, Ingo Wolfganf; FENSTERSEIFFER, Tiago. Direito constitucional ambiental. p. 51.
que envolvam, inclusive, mais de um país.
Nesses casos, a resolução dos conflitos depende de como se interpreta os danos produzidos.
Cada país, com fundamento em sua soberania deve ser responsável pelo julgamento daquilo que afeta o seu território?
As decisões produzidas individualmente em cada país poderiam ser eficazes para reparar o dano ou, mais do que isso, sinalizar que ele não deva ocorrer novamente?
E se houver falha ou omissão na aplicação da lei em um dos países?
Quem deve pagar essa conta, o meio ambiente?
Assim, considerando a evolução do conceito de dignidade da pessoa humana, que abriga também uma dimensão ecológica, pode-se concluir que, em casos de falha ou omissão de um Estado em conhecer e julgar um conflito com origem ambiental, que afete mais de um país, a Corte Interamericana de Direitos Humanos seria o órgão supranacional com legitimidade para julgamento deste tipo de conflito.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos, de acordo com seu Estatuto,38
“é uma instituição judiciária autônoma cujo objetivo é a aplicação e a interpretação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos” e tem competência jurisdicional e consultiva. No que se refere à competência jurisdicional, atua de acordo com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, visto que as principais características são as seguintes:39
- Somente os Estados-Partes e a Comissão têm direito de submeter caso à decisão da Corte (art. 61, 1)
- A Corte tem competência para conhecer de qualquer caso relativo à interpretação e aplicação das disposições da Convenção que lhe seja submetida, desde que os Estados-Partes no caso tenham reconhecido ou reconheçam a referida competência, seja por declaração especial ou por convenção especial (art. 62, 3);
- Quando a Corte decide que houve violação de um direito ou liberdade protegidos na Convenção, determina que se assegure ao prejudicado o gozo do seu direito ou liberdade violados. Determina, também, a reparação das consequências da medida ou o pagamento de indenização (art. 63, 1);
- Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se fizer necessário evitar danos irreparáveis às pessoas, nos assuntos que estiver conhecendo, pode tomar as medidas provisórias que considerar pertinentes (art. 63. 2);
Levando-se em conta a argumentação realizada até aqui, é possível concluir que,
38 CIDH. Estatuto da Corte Interamericana de Direito Humanos. Disponível em: <http://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/v.Estatuto.Corte.htm>. Acesso em: 18 abr. 2016.
39 CIDH. Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Disponível e m :
<https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm>. Acesso em: 18 abr.
2016.
tendo havido uma releitura do aspecto constitucional relacionado ao meio ambiente, que além de reafirmá-lo como direito fundamental, reconheceu sua vinculação estreita aos direitos humanos, de forma concreta e não apenas formal, é possível sustentar que a Corte Interamericana de Direitos Humanos pode incluir em sua competência a análise de conflitos que envolvam a violação de direitos ligados ao meio ambiente, especialmente se eles afetam mais de um país.
Também é possível defender a competência da mencionada Corte, para os casos de falha ou omissão na aplicação da lei em um dos países que teriam sido afetados pela agressão ao meio ambiente.
Respeitadas as regras já existentes para fixação da competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da mesma forma que já funciona para os casos de violação de direitos humanos, não há motivos que justifiquem o não conhecimento dessas novas questões, que afetam diretamente os seres humanos que hoje habitam o planeta Terra, inclusive em respeito às gerações futuras que poderão vir a habitá-lo.
A ferramenta de utilização de medidas provisórias em casos de extrema gravidade e urgência, se bem utilizada, pode evitar que grandes acidentes voltem a acontecer, o que é um benefício sem tamanho no que se refere à proteção de toda a natureza.
É imprescindível reconhecer, também, que uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos tem reais condições de sensibilizar as nações quanto à necessidade premente de proteção ao meio ambiente.
Por todos esses motivos, é oportuno que o debate acerca dessa questão entre na agenda mundial, mas em especial na dos governantes das Américas, onde a Corte localiza-se e exerce sua competência e onde está situada uma das mais importantes florestas tropicais do mundo, a Floresta Amazônica, com elevado quantitativo de espécies e árvores, para que com os argumentos aqui expostos e outros que venham a ser levantados, ainda que em sentido contrário, possa se chegar a um resultado que seja favorável à manutenção da vida no homem sobre a Terra.
6 CONCLUSÃO
Desde a fixação do homem a um local de moradia, com a criação da cidade, busca-se o desenvolvimento para obtenção de melhores condições de vida.
Com o incremento da população, é forçoso concluir que o conforto não é experimentado de igual forma por todos e, além disso, tem sido conseguido à custa de riscos tão graves que põe em perigo, inclusive, a existência humana na Terra.
O empenho em reduzir desigualdades sociais e mesmo garantir o bem-estar de parcela da população acaba por gerar danos ao meio ambiente, danos esses que muitas vezes carecem da devida restauração, tanto em relação à indenização, quanto em relação à reparação daquilo que foi danificado.
O Estado, no exercício de seu monopólio de determinar faculdades e obrigações à sua população, por si só, não tem sido eficiente em evitar que grandes catástrofes sejam evitadas e, muitas vezes, não consegue que a compensação ocorra de forma a realmente recuperar aquilo que foi danificado.
O controle estatal, a gana por desenvolvimento, a saga daqueles que defendem o meio ambiente, seja de maneira antropocêntrica (moderadamente) seja de maneira biocêntrica (de forma mais radical), geram conflitos de toda ordem, podendo chamar esses conflitos de ambientais.
Assim, se o homem vive em constante conflito e ainda provoca danos ao meio ambiente, necessário que esses conflitos, principalmente quando aconteçam em lugares que gerem consequências para mais de um país, sejam decididos por um órgão supranacional, que seja capaz de identificar os reais impactos ocorridos, bem como responsabilizar aqueles que o causaram, inclusive com a fixação de indenização e reparação, se for o caso.
Com efeito, a defesa de modificação da interpretação da competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos para também atuar nos casos de violação do direito a um ambiente ecologicamente equilibrado, como consequência de sua caracterização como direito fundamental e vinculado à dignidade da pessoa humana é medida que vai ao encontro da minimização dos riscos que o desenvolvimento provoca.
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2016.
SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFFER, Tiago. Direito constitucional ambiental.
4. ed. São Paulo: RT, 2014.
Ana Helena Karnas Hoefel Pamplona1
1 INTRODUÇÃO
Passaram-se anos para se chegar à forma de estado atual. A hoje chamada República Federativa do Brasil chegou, de um quase completo descaso estatal no que tange aos direitos sociais,2 a um protecionismo considerado, por muitos, exacerbado.3 Todavia, a insatisfação é geral.4 Os que possuem maiores recursos financeiros reclamam que contribuem para o sustento do Estado sem obter nada em troca. Os menos afortunados mantêm a insatisfação em relação à qualidade ou até mesmo inexistência do cumprimento de seus direitos. Entre o completo
1 Mestre em Direto Público e Privado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul;
Especialista em Direito Público pela Escola Superior da Magistratura Federal; Subcoordenadora do Curso de Direito de Capão da Canoa da Universidade de Santa Cruz do Sul; Profª Departamento de Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul. E-mail: [email protected]
2 Os direitos fundamentais sociais constituem exigência inarredável do exercício efetivo das liberdades e garantia de igualdade de chances (oportunidades), inerentes à noção de uma democracia e um Estado de Direito de conteúdo não meramente formal, mas guiado pelo valor da justiça material. SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 9. ed., Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 71.
3 “O reconhecimento da insuficiência do mercado em prover bem-estar e reduzir desigualdades impõe ao Estado uma agenda positiva que, antes de representar mera concessão do aparelho estatal às pressões sociais, significa um início de transformação do Estado para além da representação dos interesses de uma determinada classe”. BERCOVICI, Gilberto; MASSONETTO, Luís Fernando.
Os Direitos Sociais e as Constituições Democráticas Brasileiras: Breve Ensaio Histórico. In:
RÚBIO, David Sánchez; FLORES, Joaquín Herrera; CARVALHO, Salo de. Direitos humanos e globalização: fundamentos e possibilidades desde a teoria crítica. 2. ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2010. p. 512
4 Esse cenário de divergência não é novidade. Qual o nível de intervenção do Estado quais os direitos e deveres mínimos do cidadão e consequentemente, qual a melhor interpretação a ser dada para a Constituição Federal são temas eternamente em pauta. A tendência do ser humano, em regra, é dar a interpretação que melhor lhe convém. Keith E. Whittington, como exemplo, lembra que liberais acusam os conservadores de realizarem uma leitura objetivando a manutenção da riqueza e dos privilégios, enquanto os conservadores acusam os liberais de interpretarem de forma a satisfazer seus interesses de redistribuição de riqueza. WHITTINGTON, Keith E. Constitutional Interpretation: textual meaning, original intent, and judicial review. Lawrence: University Press of Kansas, 1999. p. 08
individualismo,5 pautado tão somente pela meritocracia e o império da solidariedade social extrema, com redistribuição de riquezas existe um meio do caminho, onde o esforço individual é recompensado e valorizado e o mínimo existencial6 7 é garantido sem representar um desestímulo ao desempenho do cidadão de seus deveres fundamentais.
Sem delongas no assunto, algumas considerações sobre deveres fundamentais8
9 são relevantes, posto que esses configuram condição sine qua non para viabilizar a efetividade dos direitos fundamentais. José Casalta Nabais10 defende que deveres fundamentais, em verdade, são direitos a uma repartição universal ou geral dos encargos comunitários, fruto da existência e funcionamento do Estado. Dessa forma, é possível concluir que impor-se-ia11 12 a todos os cidadãos também os custos de infortúnios existentes na sociedade.
5 “[...] não são poucos os que, ainda aferrados à ideologia individualista, mostram-se refratários a qualquer forma de solidarismo social custeado com recursos públicos [...]” MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 714-715.
6 “[...] todos (princípio da universalidade) têm um direito fundamental a um núcleo básico de direitos sociais (minimum core of economic and social rights)”. CANOTILHO, José Joaquim Gomes.
Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed., 17. Reimpressão. Portugal: Almedina. p.
518.
7 “[...] são verdadeiros direitos sociais originariamente derivados da constituição sempre que eles constituam o standard mínimo de existência indispensável à fruição de qualquer direito”.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed., 17.
Reimpressão. Portugal: Almedina. p. 518.
8 9 “As políticas para aliviar a pobreza têm servido, algumas vezes, para estimular a relutância ao trabalho e o ócio de pessoas perfeitamente capazes e saudáveis” (grifo próprio). VON MISES, Ludwig. Ação humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil.
2010.
10 NABAIS, José Casalta. O dever fundamental de pagar impostos. Almedina: Coimbra, 2004. p. 139.
11 Sobre a imposição de deveres, mister referir seu fundamento de legitimidade. Cristina Pauner Chulvi destaca duas teorias. A primeira delas é baseada no poder sancionador do Estado enquanto a segunda decorre da existência do pacto social. CHULVI, Cristina Pauner. El deber constitucional de contribuir al sostenimiento de los gastos público. Castelló de la Plana: Jaume, 2001, Tese de doutorado apresentada na Facultad de Ciencias Jurídicas e Económicas da Universitat Jaume I.
p. 53.
12 José Casalta Nabais diferencia os fundamentos dos deveres fundamentais em lógico e jurídico. O fundamento lógico reconhece os deveres fundamentais como expressão da soberania fundada na dignidade da pessoa humana, enquanto o fundamento jurídico explica os deveres fundamentais como resultado de previsão constitucional. NABAIS, José Casalta. A face oculta dos Direitos fundamentais: os deveres e o custo dos Direitos. Disponível em:
<http://www.egov.ufsc.br:8080/portal/sites/default/files/anexos/15184-15185-1-PB.pdf>. Acesso em:
12 dez. 2016. p. 06 e 07.
Vive-se, hoje, em uma sociedade onde o sentimento reivindicativo, oposto à ideia de dever, cresce intensamente. Esse fenômeno, como assevera Gregorio Robles,13 traduz-se em um decréscimo da solidariedade e em uma justificação do hedonismo.
Tal situação vai ao encontro de um dos objetivos da República Federativa do Brasil:
construir uma sociedade livre, justa e solidária.
O cenário descrito e as divergências existentes podem ser identificados em determinadas áreas de forma mais clara. A Seguridade Social, mais precisamente a Assistência Social, e as diversas prestações por ela garantidas têm gerado polêmica entre governantes, governados, governantes e governados, tendo em vista que a
“obrigação de prestar a assistência social independe de contribuição à seguridade social, daí o caráter solidário e redistributivo de tal prática”.14
As discussões são infindáveis e parecem terminar em dois polos: defensores das “bolsas” concedidas pelo Estado e seus ferrenhos opositores. Ocorre que os diversos programas governamentais, especialmente na área assistencial, têm razões de existência distintas, e se analisados com o devido cuidado, muitos deles seriam motivo de consenso e não de discórdia. “São conhecidas as manifestações de espírito social que contrapuseram ao individualismo alguma forma de caridade ou mesmo de solidariedade entre pessoas ou grupos”.15
O Benefício de Assistência Social de Prestação Continuada, também conhecido como Benefício Assistencial, LOAS, Benefício de Amparo Social ou BPC é um excelente ponto de partida para uma análise doutrinária e jurisprudencial. Ainda, o exame quantitativo e qualitativo de decisões judiciais da Justiça Federal de Capão da Canoa, pequeno Município do litoral gaúcho, evidenciarão o cenário de contradições no que tange à benesse assistencial.