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O direito ao meio ambiente equilibrado como direito

2. DIREITOS FUNDAMENTAIS EM CONFLITO – MEIO AMBIENTE E

2.2 Direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e

2.2.1 O direito ao meio ambiente equilibrado como direito

Como o presente trabalho tem em vista avaliar a conflituosidade do direito ao meio ambiente equilibrado com o direito fundamental à defesa nas ações civis públicas, pela perspectiva da atribuição de ônus probatório, é necessário desde logo indicar que, mesmo considerando o direito ao meio ambiente saudável um direito fundamental, não se entende tal direito como absoluto e superior a outros direitos fundamentais.

A Declaração da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), ocorrida entre 5 e 16 de junho de 1972, pontua que o meio ambiente adequadamente preservado é um direito fundamental, com a liberdade e a igualdade, devendo os recursos naturais ser preservados de forma a garantir benefícios às presentes e futuras gerações.143

Nesse aspecto, vale mencionar que a doutrina brasileira vem, ao longo dos anos, atribuindo extrema importância ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, conferindo-lhe caráter excepcional e inerente ao direito à vida. Ainda que sujeitas a críticas, conforme se verá ao longo deste item, diversos são os autores que classificam o direito ao meio ambiente em categoria superior a outros direitos fundamentais, sem a avaliação necessária sobre a teoria dos princípios e a regra da proporcionalidade na solução de colisão de direitos fundamentais.

Para José Afonso da Silva, desde a Declaração do Meio Ambiente adotada pela Conferência das Nações Unidas de junho de 1972 e com os enunciados da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92), o direito ao meio ambiente preservado alcançou patamar elevado de proteção. Na visão do autor,

O que é importante – escrevemos de outra feita – é que se tenha a consciência de que o direito à vida, como matriz de todos os demais direitos fundamentais do Homem, é que há de orientar todas as formas de atuação no campo da tutela do meio ambiente. Cumpre compreender que ele é um fator preponderante, que há de estar acima de quaisquer outras considerações como as de desenvolvimento, como

as de respeito ao direito de propriedade, como as da iniciativa privada. Também estes são garantidos no texto constitucional, mas, a toda evidência, não podem primar sobre o direito fundamental à vida, que está em jogo quando se discute a tutela da qualidade do meio ambiente. É que a tutela da qualidade do meio ambiente é instrumental no sentido de que, através dela, o que se protege é um valor maior: a qualidade da vida.144

José Renato Nalini, por sua vez, defende que o atual contexto da proteção do meio ambiente deve ser entendido como elemento essencial do Estado Democrático de Direito. Nas palavras do autor:

Consequente com essa nova concepção de Estado Constitucional Ecológico, o constituinte brasileiro de 1988 converteu o meio ambiente em estratégia central, a permear todas as políticas estatais. O aperfeiçoamento dos esquemas de participação, o esforço tendente a obter a maior responsabilização de todos os que causarem danos ecológicos e o desenvolvimento da ideia de sustentabilidade estão em pauta das próximas décadas e merecem atenção de todos os brasileiros.145

Também buscando justificar a existência do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e, mais, adotando-o como premissa do que denominou de Constituição Ecológica, Lucas de Faria Rodrigues sustenta a adoção desse direito fundamental a partir da Constituição Federal:

A admissão deste direito como sendo fundamental é um marco do postulado da solidariedade, pois esta proteção ambiental não se volta à salvaguarda de um direito puramente individual, está igualmente a tutelar um direito de todos, não só hoje, mas também no futuro – uma ética intergeracional –, na medida em que se destina a garantir o meio ambiente para as “presentes e futuras gerações” (artigo 225, caput, da Constituição Federal).

É, portanto, o próprio reflexo do meio ambiente na vida humana (e na sua existência) que permite sua qualificação como direito fundamental, ainda que com uma autonomia reconhecida em relação a outros direitos igualmente fundamentais, como a vida. Sua ligação com a condição humana não serve para enfraquecê-lo, mas apenas para justificar o alto grau de proteção que lhe é confiado – em um regime jurídico diferenciado, como é o dos direitos fundamentais.146

144 SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional, p.70.

145 NALINI, José Renato. Ética ambiental, p. 72-73.

146 RODRIGUES, Lucas de Faria. A concretização da Constituição ecológica: a norma ambiental e as ciências naturais, p. 31.

Mesmo sem se aprofundar a respeito, Édis Milaré também afirma que o direito ao meio ambiente protegido está arraigado no Texto Constitucional, especialmente no capítulo específico dedicado ao meio ambiente e composto pelo artigo 225 da Constituição Federal.

Para o doutrinador, o reconhecimento do direito ao meio ambiente como direito constitucional fundamental torna-o (a) indisponível, dado que a preservação do meio ambiente deve ser realizada no interesse (e é de titularidade) das presentes e futuras gerações; (b) coletivo, posto que não pertence a nenhum indivíduo isoladamente, devendo ser preservado para uso coletivo; (c) essencial à sadia qualidade de vida; (d) um dever constitucional do Poder Público, impondo-se ao Estado o dever de agir para a preservação do meio ambiente; e (e) também um direito e um dever dos cidadãos.147

Por sua vez, Paulo Affonso Leme Machado afirma que a Constituição Federal de 1988 avançou na proteção ao direito à vida, que tradicionalmente já constava como direito fundamental nas Constituições anteriores. Com a promulgação da Carta Magna, foi incluída expressamente a proteção à dignidade da pessoa humana e introduzido o direito à sadia qualidade de vida como objetivo e dever do Estado, o que vem sendo entendido como consequência do direito à vida com dignidade.148

Em estudo sobre a proibição do retrocesso em matéria ambiental, Paula Susanna Amaral Mello aborda o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado a partir de suas dimensões (subjetiva e objetiva), para destacar um modo de resolução de eventual conflito entre essas dimensões:

Em suma, o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado possui (a) uma dimensão subjetiva, pela qual é garantido ao indivíduo o direito de exigir prestações do Estado voltadas à preservação do meio ambiente e à manutenção da dignidade e sadia qualidade de vida, assim como a abstenção do Estado e de terceiros de atos que possam prejudicar o equilíbrio ecológico e, consequentemente, a dignidade e a sadia qualidade de vida; e (b) uma

dimensão objetiva ao adotar o equilíbrio ecológico como máxima social. Oportuna, nesse sentido, a ponderação de Herman Benjamin de que o direito ao meio ambiente é direito coletivo, mas também individual, “não se perdendo a característica unitária do bem jurídico

147 MILARÉ, Édis. Direito do ambiente: a gestão ambiental em foco: doutrina, jurisprudência, glossário, p. 158-159.

ambiental – cuja titularidade reside na comunidade (‘todos’) – ao reconhecer-se um direito subjetivo ao meio ambiente ecologicamente equilibrado”. No caso, a discussão acerca da preponderância do direito subjetivo sobre o objetivo no âmbito dos direitos fundamentais e especificamente quanto ao meio ambiente pode ser resolvida na medida em que a subjetivação é tão somente um mandamento prima facie.149

Partindo de uma análise detalhada do Estado Democrático de Direito e defendendo a existência de um atual Estado Socioambiental (e Democrático) de Direito, Ingo Wolfgang Sarlet e Tiago Fensterseifer sustentam que a proteção do meio ambiente seria um dos pilares do princípio constitucional geral e estruturante que decorre da adoção do Estado Socioambiental. No entanto, mesmo considerando essa nova configuração para um Estado Socioambiental, Sarlet e Fensterseifer indicam que a proteção ao meio ambiente não pode simplesmente ser utilizada para suplantar outras garantias do Estado Democrático:

Em outras palavras, a proteção e promoção do ambiente como tarefa essencial do Estado e da sociedade deve se dar de modo a preservar e mesmo reforçar (a partir da noção de democracia participativa, como se verá mais adiante) o princípio democrático. Além disso, a proteção ambiental não poderá ocorrer às custas da realização dos direitos sociais, econômicos e culturais, pelo menos quanto à salvaguarda de um mínimo existencial, tampouco violar as exigências básicas do Estado de Direito, como, por exemplo, da legalidade (no sentido de uma legalidade constitucional), da proporcionalidade, da segurança jurídica, entre outros. [...]150

Ao adotar a teoria relativa sobre o conteúdo dos direitos fundamentais, Mello assevera que, na condição de direito fundamental, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado tem seu conteúdo atrelado à situação em que é analisado, de modo que deverão ser avaliadas, em cada contexto, as possibilidades fáticas e jurídicas envolvendo a colisão de direitos fundamentais.151

Em outro trabalho, Sarlet e Fensterseifer ponderam que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, alçado à condição de direito fundamental, tem a finalidade de entender as necessidades do ser humano e, assim, seria imposta “exigência de um patamar mínimo de qualidade ambiental, sem o qual a dignidade humana (e, para

149 MELLO, Paula Susanna Amaral. Direito ao meio ambiente e proibição do retrocesso, p. 22-23.

150 SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Princípios do direito ambiental, p. 34.

além desta, a dignidade da vida em termos gerais) estaria sendo violada em seu núcleo essencial”.152

A partir desses posicionamentos, entendemos que é inquestionável que o meio ambiente ecologicamente equilibrado foi alçado à condição de direito fundamental pela Constituição Federal de 1988, inclusive em virtude de toda a sistemática de responsabilidade ambiental, mecanismos de comando e controle e da inclusão do desenvolvimento sustentável como um dos princípios a serem respeitados no desenvolvimento de atividades econômicas (artigo 170, VI, da Constituição Federal).

De todo modo, ainda que essa proteção ao meio ambiente seja um direito fundamental a ser assegurado pela adoção da teoria de princípios, é possível constatar que a Constituição Federal não estabelece hierarquia entre os diversos direitos fundamentais assegurados aos cidadãos, bem como o direito ao meio ambiente visualiza rotineiramente situações de colisão com outros direitos fundamentais assegurados aos indivíduos e à própria coletividade.