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O DIREITO AO TRABALHO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

2 DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA: NOÇÕES GERAIS E PROTEÇÃO JURÍDICA

3.3 O DIREITO AO TRABALHO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

O trabalho, conforme Zimmermann Neto, no sentido etimológico da palavra, pode ser conceituado como “[...] o exercício material ou intelectual para

114

BEZERRA, Matheus Ferreira. Acessibilidade ao trabalho: a inserção do deficiente no mercado de trabalho. 2009. Disponível em: <www.revistas.unifacs.br/index.php/redu/article/view/733/544>. Acesso em: 15 mai. 2010. p. 171.

115

RESENDE; VITAL, 2008, p. 46.

116

SALVATTI, 2008.

117

fazer ou conseguir alguma coisa; tipo de ação pela qual o homem atua, de acordo com certas normas sociais, sobre uma matéria, a fim de transformá-la”. 118

Russomano, por seu turno, registra que, diferente do Direito do Trabalho, formação legislativa e cientifica recente, “O trabalho é tão antigo quanto o homem. Em todo período remoto da pré-história, o homem é conduzido, direta e amargamente, pela necessidade de satisfazer a fome e assegurar sua defesa pessoal”.119

Já no que tange ao Direito do Trabalho, Cunha leciona no seguinte sentido:

O direito do trabalho, portanto, vai nascer com a sociedade industrial e com o trabalho assalariado. Como vimos, em breve apanhado, razões econômicas, políticas e jurídicas foram determinantes para o seu aparecimento, a par da existência de toda uma ideologia que, em cada momento do trabalho humano, dava suporte as ações dos homens, justificando seu comportamento. A necessidade de proteção, o estabelecimento do equilíbrio nas relações sociais, a constatação pela sociedade, pelo Estado e pela humanidade de que os sistemas estabelecidos acabariam por esmagar a grande maioria dos que viviam em sociedade, propiciaram o surgimento da disciplina como instrumento para regulação das relações entre capital e trabalho. Longe de ser a solução ideal, a dinamicidade das próprias relações sociais, a cada dia, indica novos caminhos para a resolução dos conflitos, para o estabelecimento de uma sociedade mais justa e mais pacífica.120

No Brasil, as Constituições, inicialmente, “[...] versavam apenas sobre a forma do Estado, o sistema de governo. Posteriormente, passaram a tratar de todos os ramos do Direito e, especialmente, do Direito do Trabalho, como ocorre com nossa Constituição atual”.121

Acrescenta-se que a CRFB/88 consagra o trabalho como direito

fundamental, como leciona Martins:

Em 5-10-1988, foi aprovada a atual Constituição, que trata de direitos trabalhistas nos arts. 7º a 11. Na Norma Magna, os direitos trabalhistas foram incluídos no Capítulo II, “Dos Direitos Sociais”, do Título II, “dos Direitos e Garantias Fundamentais”, ao passo que nas Constituições anteriores os direitos trabalhistas sempre eram inseridos no âmbito da

118

ZIMMERMANN NETO. Direito do trabalho. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 01.

119

RUSSOMANO, Mozart Victor. Curso de direito do trabalho. 9. ed. Curitiba: Juruá, 2003. p. 21.

120

CUNHA, Maria Inês Moura S. A. da. Direito do trabalho. 3. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 21.

121

ordem econômica e social. Para alguns autores, o art. 7º da Lei Maior vem a ser uma verdadeira CLT, tantos os direitos trabalhistas nele albergados.122

O trabalho configura um “[...] importante instrumento para se implementar e assegurar a todos uma existência digna, conforme estabelece o art. 170, caput, da Constituição”. Desta maneira, “o Estado deve fomentar uma política econômica não recessiva, tanto que, dentre os princípios da ordem econômica, destaca-se a busca pelo pleno emprego (art. 170, VIII)”.123

Para Araujo (2006, p. 109) “[...] não há trabalhador digno se não observamos a dignidade da pessoa humana e a igualdade”.124 Por esta razão, na CRFB/88 o trabalho se insere “[...] como fundamento da República (art. 1.º, IV), e a ordem econômica, conforme os ditames da justiça social, funda-se na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa”.125

Nas palavras de Marques, “[...] na dignidade humana se valoriza o trabalho humano; na igualdade se combate as desigualdades ou permite-se alguma diferença, desde que legítima e justificada”.126

É neste contexto que se insere o direito ao trabalho da pessoa com deficiência, haja vista que, “ainda, é comum, no mercado de trabalho, a rejeição das pessoas portadoras de alguma limitação. Enfatiza-se a deficiência e desconsidera- se a capacidade profissional eficiente”.127

O não deferimento “[...] do direito de trabalho manifesta-se em uma estrutura socioeconômica de que decorrem o desemprego, o subemprego, que, por razões óbvias, castigam mais a pessoa portadora de deficiência”.128

Marques indica que as pessoas com deficiência têm “[...] direito ao trabalho digno e respeito ao valor social do trabalho, sem qualquer discriminação, direitos esses consagrados como princípios fundamentais do Estado Democrático

122

MARTINS, 2005, p. 44.

123

LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 759.

124

ARAUJO, Luiz Alberto David. Buscando significados a partir de critérios de interpretação constitucional e, muitas vezes, encontrando um desconcertante preconceito. In: ARAUJO, Luiz Alberto David (coord.). Defesa dos direitos das pessoas portadoras de deficiência. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 109.

125

LENZA, loc. cit.

126 MARQUES, 2006, p. 111. 127 Ibid., p. 109. 128 CISZEWSKI, 2005, p. 60.

Brasileiro”, especialmente decorrentes dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade.129

Nesse contexto, anota-se que:

Não é aceitável que um cidadão usufrua de todos os benefícios altamente custosos que a sociedade lhe proporciona sem dar sua contribuição. Não é sem razão que a norma legal pune a vadiagem.

Do dever de trabalhar não se isenta a pessoa portadora de deficiência, na medida em que pode fazê-lo.

Por mais paradoxal que possa ser a afirmação, o portador de deficiência pode “interiorizar” o preconceito que a sociedade nutre contra ele, abdicando do direito ao trabalho e eximindo-se do dever de trabalhar.130

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, com base no Censo realizado no ano de 2000, “[...] 14,5% (24,6 milhões de pessoas) da população brasileira é portadora de, pelo menos, uma das deficiências investigadas pela pesquisa”. Ressalta-se que “[...] a maior proporção se encontra no Nordeste (16,8%) e a menor, no Sudeste (13,1%). Entre os 9 milhões de portadores de deficiência que trabalham, 5,6 milhões são homens e 3,5 milhões, mulheres”. Ademais, “[...] mais da metade (4,9 milhões) ganha até dois salários mínimos. A maior proporção das pessoas deficientes que trabalham (31,5%) é de trabalhadores no setor de serviços ou vendedores do comércio”.131

João Paulo II, citado por Maranhão, ao tratar do direito ao trabalho das pessoas com deficiência, afirma que:

A pessoa deficiente é uma de nós e participa plenamente da mesma humanidade que nós. Seria algo radicalmente indigno do homem e seria uma negação da humanidade comum admitir à vida da sociedade, e, portanto ao trabalho, só os membros na plena posse das funções do seu ser, porque, procedendo desse modo, recair-se-ia numa forma grave de discriminação, a dos fortes e sãos contra os fracos e doentes.132

Verifica-se, portanto, que “a concepção de enxergar os portadores de deficiência como pessoas infelizes, ou diferentes, ou ainda doentes, é presente e acarreta um movimento de exclusão”.133

129 MARQUES, 2006, p. 114. 130 CISZEWSKI, 2005, p. 61. 131 JAIME; CARMO, 2005, p. 54. 132

PAULO II, João, [s/d] apud MARANHÃO, 2005, p. 122.

133

Segundo depoimento prestado por uma pessoa com deficiência, Maria Elizabeth Antunes Lima, a repulsa acaba causando isolamento, considerando que, ao saber que o indivíduo apresenta alguma deficiência, o empregador, imediatamente, procura se afastar, vez que “as empresas não querem assumir um doente. Elas sempre falam que depois entram em contato, mas é mentira”.134

Entretanto, cumpre destacar que “não há a menor possibilidade de integração se for retirado dos portadores de deficiência a capacidade de autodeterminação”. Da mesma maneira, “não há como falar em dignidade humana ou em igualdade se não forem oferecidas condições para que essas pessoas

possam ganhar honestamente seu próprio sustento”.135

Por isso, “[...] há de se ter inclusão, sem qualquer manifestação de sentimento de pena ou compaixão”, razão pela qual a Carta Constitucional, em seu artigo 3º, inciso IV, “[...] determina a inclusão sem qualquer discriminação, pouco importando o fator, porque os indivíduos buscam a felicidade e a plenitude da

dignidade humana como valores de formação”.136

Para muitos pesquisadores, segundo Lorentz, “[...] as quatro maiores barreiras para a empregabilidade desses cidadãos, as quais são encontradas na própria pessoa portadora de deficiência, nos empregadores e nos colegas de trabalho, na comunidade e na própria empresa.137

José Pastore leciona acerca do comportamento das pessoas com deficiência e das que não a possuem:

Para os portadores de deficiência, é importante ser capaz de aceitar as suas peculiaridades e de demonstrar aos seus interlocutores que eles podem ajudar aos outros e a si mesmos. Para os não portadores de deficiência, a educação tem de disseminar entre eles a idéia de que a realização humana não se faz apenas com base na estatura, beleza ou forma física, mas, sobretudo, com fundamento na inteligência, respeito, denodo e competência.138

No que tange à legislação, repisa-se que, conforme já mencionado, o inciso XXXI, do art. 7º, da CRFB/88 determina como proibido “[...] qualquer

134

MARQUES, 2006, p. 108-109.

135

NEME, 2006, p. 143.

136

MARQUES, op. cit., p. 109.

137

LORENTZ 2006, p. 374-375.

138

discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência”.139

Já a Convenção n. 159/83, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil pelo Decreto Legislativo n. 51, de 28 de agosto de 1989, garante um emprego adequado e a possibilidade de integração ou reintegração das pessoas com deficiência na sociedade, além de militar em favor de ações combinadas entre Estado, sociedade civil e empresas para a efetiva inclusão da pessoa com deficiência no trabalho.140

A Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, regulamentada pelo Decreto n. 3.298, de 20 de dezembro de 1999, por sua vez, informa em seu art. 2° que:

Art. 2º Ao Poder Público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à previdência social, ao amparo à infância e à maternidade, e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico.

Parágrafo único. Para o fim estabelecido no caput deste artigo, os órgãos e entidades da administração direta e indireta devem dispensar, no âmbito de sua competência e finalidade, aos assuntos objetos esta Lei, tratamento prioritário e adequado, tendente a viabilizar, sem prejuízo de outras, as seguintes medidas:

[...].

III - na área da formação profissional e do trabalho:

a) o apoio governamental à formação profissional, e a garantia de acesso aos serviços concernentes, inclusive aos cursos regulares voltados à formação profissional;

b) o empenho do Poder Público quanto ao surgimento e à manutenção de empregos, inclusive de tempo parcial, destinados às pessoas portadoras de deficiência que não tenham acesso aos empregos comuns;

c) a promoção de ações eficazes que propiciem a inserção, nos setores públicos e privado, de pessoas portadoras de deficiência;

d) a adoção de legislação específica que discipline a reserva de mercado de trabalho, em favor das pessoas portadoras de deficiência, nas entidades da Administração Pública e do setor privado, e que regulamente a organização de oficinas e congêneres integradas ao mercado de trabalho, e a situação, nelas, das pessoas portadoras de deficiência;

[...].

V - na área das edificações:

a) a adoção e a efetiva execução de normas que garantam a funcionalidade das edificações e vias públicas, que evitem ou removam os óbices às pessoas portadoras de deficiência, permitam o acesso destas a edifícios, a logradouros e a meios de transporte.141

139

BRASIL, 1988.

140

BRASÍLIA. Presidência da República. A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de

trabalho. 2. ed. Brasília: MTE, SIT, 2007. 141

Verifica-se, também, o art. 5° do Decreto n. 3.298/99, que regulamenta a Lei n. 7.853/89:

Art. 5º A Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, em consonância com o Programa Nacional de Direitos Humanos, obedecerá aos seguintes princípios:

I – desenvolvimento de ação conjunta do Estado e da sociedade civil, de modo a assegurar a plena integração da pessoa portadora de deficiência no contexto socioeconômico e cultural;

II – estabelecimento de mecanismos e instrumentos legais e operacionais que assegurem às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciam o seu bem-estar pessoal, social e econômico; e

III – respeito às pessoas portadoras de deficiência, que devem receber igualdade de oportunidades na sociedade por reconhecimento dos direitos que lhes são assegurados, sem privilégios ou paternalismos.142

Marques registra que muitos empregadores, infelizmente, pensam que as pessoas com deficiência não são capazes de se adaptar ao trabalho em grupo; consignando “[...] que magnificam seus problemas para conseguir benesses; que constituem um grande problema na hora de um incêndio ou emergência. Entretanto, a adaptação ao trabalho decorre de uma chefia compreensiva”.143

Nesse contexto, destaca-se:

Atualmente, já se torna evidente que os portadores de deficiência (de qualquer natureza) possuem maiores habilidades e destreza para outros sentidos sensoriais e mentais. A revista Veja publicou casos que demonstram tais incapacidades: “Na distribuidora de materiais de escritório Gimba, Barueri, Grande São Paulo, mais de trinta deficientes auditivos selecionam e embalam os produtos encomendados pelos clientes.” Outro exemplo: “No laboratório Fleury, em São Paulo, vinte pessoas com problemas visuais foram contratadas para trabalhar na câmara escura de Raio X”; “Na fábrica da Black & Decker em Uberaba, Minas Gerais, as posições no final da linha de produção foram preparadas exclusivamente para receber os chamados cadeirantes” (Revista Veja, p. 75, 12.06.2002).144

Assim, questiona-se: “porque não admitir empregado portador de deficiência que execute tarefas na área de informática, para desenvolvimento de sistemas financeiros, de exportação, software, homepage e páginas de sites para internet?” Segundo, Marques, por exemplo, “[...] para um portador de deficiência visual, basta um sistema com leitura de voz que possibilitará sua integração no

142 BRASIL, 1989. 143 MARQUES, 2006, p. 115. 144 Ibid., p. 115-116.

mercado de trabalho; já aos portadores de deficiência de locomoção a possibilidade do exercício de profissões como tradutores, professores entre tantas outras”.145

Assim, percebe-se que, “nos dias atuais, a sensibilidade, a intuição, a capacidade de comunicação, entre outros atributos do ser humano, são elementos que, também, possibilitam a inserção da pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho”.146

Por conseguinte, considerando a evolução do comportamento humano, é preciso entender que “as relações de trabalho não podem ficar relegadas ao direito. O desenvolvimento social e cultural da sociedade enseja posturas diversas no tratamento legal”.147

Logo,

A discriminação no emprego é possível, desde que feita de forma positiva. Mais do que leis, é preciso haver mudanças culturais e mais conscientização por parte da sociedade. As normas proibitivas não são suficientes para afastar do nosso cenário a discriminação. Nós precisamos contar com normas integrativas (ações afirmativas).148

Por fim, vale lembrar que, conforme inciso III, do artigo 8°, da Lei n. 7.853/89, configura crime, punível com reclusão de um a quatro anos e multa, negar emprego ou trabalho, sem justa causa, a alguém, por motivos derivados de sua deficiência.

Desta forma, ultrapassadas as referidas questões, destaca-se que, no próximo capítulo, será analisado o tema principal proposto para esta monografia, qual seja: o universo do trabalho e a pessoa com deficiência: direitos e dificuldades.

145

MARQUES, 2006, p. 116.

146

MARQUES, loc. cit.

147

Ibid., p. 124.

148

4 O UNIVERSO DO TRABALHO NA INICIATIVA PRIVADA E A PESSOA COM

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