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A questão do Direito Internacional como ‘Direito imperfeito’ toma relevância, no presente estudo, pelo fato de que um dos argumentos aduzidos para desqualificá-lo como Direito é a falta de execução coativa de suas normas.

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A qualificação como ‘imperfeito’ mostra a procura incansável de um modelo de Direito Internacional que apresente o maior número de semelhanças com o Direito intra-estatal, provavelmente por considerá-lo o modelo mais desenvolvido ou perfeito, com clara influência da teoria hegeliana, esquecendo-se que o costume prevalecia na origem das sociedades e só o aumento da complexidade econômico- social fez nascer a necessidade de criação do Direito e a criação de uma instância superior que imponha coativamente as normas jurídicas. Portanto, primeiro surgiu o Direito e depois a coação. Como lembrou Truyol y Serra, “o direito do Estado moderno não é mais que uma modalidade histórica do direito, que pode apresentar- se ainda – e de facto se tem apresentado – sob outra forma”162. Há que se lembrar que também o Direito Internacional possui formas de coação que vão desde represálias comerciais até a guerra.

Duas questões se apresentam, segundo Gustav Adolf Walz, neste ponto: se com esta questão se encara a realização efetiva da execução coativa ou a simples intenção de pô-la em prática163. Pode-se considerar que, com esta distinção, o autor terminou por distinguir a presença da coercitividade ou da coercibilidade como característica do Direito Internacional, alinhando duas críticas à necessidade da coercitividade no Direito Internacional, mesmo sem ter apresentado a questão nestes termos.

Assim, quanto a simples intenção de pôr a norma internacional em prática, propôs a seguinte solução: contra a tendência de apenas desconsiderar como jurídica as normas que não contivessem uma natureza dupla – que

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TRUYOL Y SERRA, Antônio. Noções fundamentais de direito internacional. 2ª edição refundida e aumentada. Coimbra: Armênio Amado, Editor, suc., 1962, p. 62.

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WALZ, Gustav Adolf. Esencia del Derecho Internacional y crítica de sus negadores. Madrid: Revista de derecho privado, 1943, p. 283.

contivessem necessariamente uma norma que prescrevesse um direito ou uma obrigação e uma norma sancionadora para o caso de seu descumprimento – entendeu ele que “para que uma norma tenha caráter jurídico seria suficiente a existência de sentido normativo da norma dupla. O fato de que em certos casos a norma sancionadora não possa ser aplicada por motivos práticos, não altera o caráter jurídico da norma”164. Portanto a falta de previsão coercitiva da norma internacional não subtrai o seu caráter jurídico. Walz foi de encontro à necessidade de uma forma de apresentação rígida da norma jurídica, atentando para o fato de que, mesmo com a criação de uma norma dupla, nos moldes ‘direito-norma sanção’, não haverá a garantia plena de aplicação conforme as condições fáticas que se apresentassem.

Quanto ao segundo questionamento levantado, Walz afirma que prosseguir nesta linha significaria desprezar como direito um grande número de normas estatais tradicionais. Para isso, aduziu que existem também limites técnico- econômicos para a atuação coativa no direito interno e arrematando que “a execução coativa não pode ser considerada mais como nota decisiva do caráter jurídico de uma norma (...); a realização coativa somente pode ter lugar sobre a base do direito: não é ela mesma o direito(...), mas um caso de aplicação do direito, cuja validade normativa já se pressupõe”165. Assim, haveria que se considerar que o cumprimento regular das normas dos ordenamentos jurídicos intra-estatais se dá sem a presença do aparato coativo, pois dentro dos mesmos existem normas que

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Idem. Ibidem, p. 283, in verbis: “Para que una norma tenga carácter jurídico será suficiente la existencia del sentido normativo de aquella doble norma. El hecho de que en estos y aquellos casos la norma sancionadora no pueda aplicarse por motivos prácticos, no altera el caráter jurídico de la norma.”

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Idem. Ibidem, p. 285, in verbis: “la ejecución coactiva no puede ser considerada sin más como nota decisiva del carácter jurídico de una norma(...); la realización coactiva sólo puede tener lugar sobre la base del derecho: no es ella misma el derecho(...), sino más bien un caso de aplicación del derecho, cuya validez normativa se presupone ya.”

são passíveis de execução forçada e normas que não são passíveis de uma via coativa, devendo-se, portanto, apor o caráter jurídico com base no ordenamento como um todo e não se baseando em uma de suas normas.

Comentando acerca das ordens jurídicas supra-estatais, Ascenção166 afirma que o Direito Internacional possui uma coercibilidade incipiente, por não ser dotada de uma coercibilidade similar à existente intra-estatalmente devido ao mau funcionamento das instituições, somente aparecendo a força da coação quando os infratores são Estados fracos, sendo as grandes potências as maiores violadoras do Direito Internacional calcadas na certeza da impunidade gerada pela ausência de uma autoridade coatora superior na Sociedade Internacional. Entretanto, não afirma o autor a inexistência de sanções específicas do Direito Internacional, haja vista os exemplos dados da boicotagem e das sanções militares. Assim, a coercibilidade seria um indício de amadurecimento das sociedades, conseqüentemente, arrematando que, numa sociedade em estruturação como a internacional, a coercibilidade seria sempre incipiente em comparação com a sociedade intra-estatal.

Assim como Ascenção, considerar-se-á no presente trabalho que ambas as ordens jurídicas, interna e internacional, possuem o atributo da coercibilidade, todavia esta questão suscitou diversos posicionamentos, quanto ao relacionamento de uma ordem com a outra, acarretando a formação de duas grandes correntes de pensamento acerca da matéria: o dualismo e o monismo.

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