DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL DE TERCEIRA GERAÇÃO33
O Direito, como ciência humana e social, pauta-se também pelos postulados da filosofia das ciências, entre os quais está a necessidade de princípios constitutivos para que a ciência possa ser considerada autônoma, ou seja, suficientemente desenvolvida e adulta para existir por si e situar-se num contexto científico dado. Foi por essas vias que, do tronco de velhas e tradicionais ciências, surgiram outras afins, como rebentos que enriquecem a família; tais como os filhos, crescem e adquirem autonomia sem, contudo, perder os vínculos com a ciência-mãe.
Por isso, no empenho natural de legitimar o Direito do Ambiente como ramo especializado e peculiar da árvore da ciência jurídica, têm os estudiosos se debruçado sobre a identificação dos princípios ou mandamentos básicos que fundamentam o desenvolvimento da doutrina e que dão consistência às suas concepções.
A palavra princípio, em sua raiz latina, significa “aquilo que se toma primeiro” (primum capere), designando início, começo, ponto de partida. Princípios de uma ciência, segundo José Cretella Júnior, “são as proposições básicas, fundamentais, típicas, que condicionam todas as estruturas subsequentes”.34 Ou, como averba Celso Antônio Bandeira de Mello, princípio é, por definição, “mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre
28 Arts. 102, I, a, 103 e 125, § 2.º, da CF. 29 Art. 129, III, c/c o § 1.º, da CF. 30 Art. 5.º, LXXIII, da CF. 31 Art. 5.º, LXX, da CF. 32 Art. 5.º, LXXI, da CF.
33 Segundo anota GOMES, Daniella Vasconcellos: “Embora já consagrado e amplamente utilizado, o termo ‘gerações’ tem sofrido diversas críticas pela doutrina, por poder representar que o reconhecimento progressivo de novos direitos fundamentais tenha caráter de alternância, e não de complementariedade, como efetivamente acontece. O reconhecimento de uma geração de direitos não ocorre para substituir a(s) anterior(es) e sim para complementá-la(s). Nesse sentido, Sarlet destaca: ‘(...) é de se ressaltarem as fundadas críticas que vêm sendo dirigidas contra o próprio termo ‘gerações’ por parte da doutrina alienígena e nacional. Com efeito, não há como negar que o reconhecimento progressivo de novos direitos fundamentais tem o caráter de um processo cumulativo, de complementariedade, e não de alternância, de tal sorte que o uso da expressão ‘gerações’ pode ensejar a falsa impressão da substituição gradativa de uma geração por outra, razão pela qual há quem prefira o termo ‘dimensões’ dos direitos fundamentais, posição esta que aqui optamos por perfilhar, na esteira da mais moderna doutrina”. (Considerações acerca do direito fundamental ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. Em Revista de Direito Ambiental. São Paulo: Ed. RT, n. 55, 2009, p. 30.).
34 Comentários à Constituição brasileira de 1988. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. vol. I, p. 129.
diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. É o conhecimento dos princípios que preside a intelecção das diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome sistema jurídico positivo”. E aduz, com propriedade: “Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra”.35
Convém lembrar que, entre ciências afins, um princípio pode não ser exclusivo de uma única dentre elas, cabendo na fundamentação de mais de uma ciência; isto ocorre, sabidamente, quando os princípios são mais gerais e menos específicos.
O meio ambiente, por conta mesmo do progressivo quadro de degradação a que se assiste em todo o mundo, ascendeu ao posto de valor supremo das sociedades contemporâneas, passando a compor o quadro de direitos fundamentais ditos de terceira geração36 incorporados nos textos constitucionais dos Estados Democráticos de Direito.
Nesse sentido é o entendimento do Supremo Tribunal Federal- STF: “Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) – que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais – realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) – que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas – acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade”.37
35 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 32. ed. São Paulo: Malheiros, 2015, p. 986 e 987.
36 Como bem ressalta FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves: “a primeira geração seria a dos direitos de liberdade; a segunda, dos direitos de igualdade; a terceira, assim, completaria o lema da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Direitos humanos fundamentais. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 57.
Trata-se, realmente, de valor que, como os da pessoa humana e da democracia, se universalizou como expressão da própria experiência social e com tamanha força que já atua como se fosse inato, estável e definitivo, não sujeito à erosão do tempo.38
O reconhecimento do direito a um meio ambiente sadio configura-se, na verdade, como extensão do direito à vida, quer sob o enfoque da própria existência física e saúde dos seres humanos, quer quanto ao aspecto da dignidade dessa existência – a qualidade de vida –, que faz com que valha a pena viver.39
Esse novo direito fundamental, reconhecido pela Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano de 1972 (Princípio 1)40, reafirmado pela Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992 (Princípio 1)41 e pela Carta da Terra de 1997 (Princípio 4)42, vem conquistando espaço nas Constituições mais modernas, como, por exemplo, as de Portugal, de 1976 (art. 66), da Espanha, de 1978 (art. 45) e do Brasil, de 1988 (art. 225).
De fato, nosso legislador constituinte, a par dos direitos e deveres individuais e coletivos elencados no art. 5.º, acrescentou, no caput do art. 22543, um novo direito fundamental da pessoa humana, que diz com o
38 REALE, Miguel. A Constituição e o direito civil. O Estado de S. Paulo, 18.06.2005. p. A-2.
39 TRINDADE, Antonio A. Cançado. Direitos humanos e meio ambiente: paralelos dos sistemas de proteção internacional. Porto Alegre: Fabris, 1993, p. 76.
40 Princípio 1: “O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade, e ao desfrute de adequadas condições de vida em um meio ambiente cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem- estar e tem a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações presentes e futuras”. 41 Princípio 1: “Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza”.
42 Princípio 4: “Estabelecer justiça e defender sem discriminação o direito de todas as pessoas à vida, à liberdade e à segurança dentro de um ambiente adequado à saúde humana e ao bem-estar espiritual”. A Carta da Terra é resultado do evento conhecido como “Fórum Rio + 5”, realizado no Rio de Janeiro de 13 a 19.03.1997 com o objetivo de avaliar o resultado da Política Ambiental nos cinco anos seguintes à Eco 92.
43 Importante registrar-se que a abordagem doutrinária sobre o conteúdo do artigo 225 da Constituição da República, como bem lembrado por Pedro de Menezes Niebuhr, tende a priorizar o estudo do direito fundamental ao ambiente ecologicamente equilibrado, olvidando, por vezes, do dever fundamental de proteção do ambiente, que também figura como preocupação do aludido dispositivo. Para o autor, “os deveres fundamentais perfazem categoria distinta dos direitos fundamentais, muito embora estejam a estes relacionados; os conceitos diferem quanto à origem, aplicação, fonte normativa, titularidade ativa e passiva, dentre outros fatores. Os deveres fundamentais podem representar-se em obrigações de não fazer, fazer e de suportar que façam. Trata-se de deveres pluriformes, compostos, heterogêneos e perfeitos que têm como limites a observância do princípio da universalidade e da igualdade; a impossibilidade de impor restrições não autorizadas pela Constituição a direitos, liberdades e garantias; a necessidade de serem impostos por lei e a de serem proporcionais (isto é, proíbe-se o excesso e a proteção deficiente). Uma das formas de manifestação do dever fundamental de proteção ambiental é o encargo atribuído a qualquer pessoa (física e jurídica, de direito público ou privado) de submeter eventual atividade, ação ou empreendimento potencialmente degradante ou poluidor ao conhecimento, à prévia anuência e à
desfrute de adequadas condições de vida em um ambiente saudável, ou, na dicção da lei, “ecologicamente equilibrado”. Direito fundamental que, enfatize-se, nada perde em conteúdo por situar-se topograficamente fora do Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), Capítulo I (Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos) da Lei Maior, já que esta admite, como é da tradição do constitucionalismo brasileiro, a existência de outros direitos “decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. 5.º, § 2.º).44
Deveras, “o caráter fundamental do direito à vida torna inadequados enfoques restritos do mesmo em nossos dias; sob o direito à vida, em seu sentido próprio e moderno, não só se mantém a proteção contra qualquer privação arbitrária da vida, mas além disso encontram-se os Estados no dever de buscar diretrizes destinadas a assegurar o acesso aos meios de sobrevivência a todos os indivíduos e todos os povos. Neste propósito, têm os Estados a obrigação de evitar riscos ambientais sérios à vida”.45
Por tais razões, a adoção do princípio pela nossa Carta Maior passou, no dizer de Ivette Senise Ferreira, “a nortear toda a legislação subjacente, e a dar uma nova conotação a todas as leis em vigor, no sentido de favorecer uma interpretação coerente com a orientação político-institucional então inaugurada”.46
É, sem dúvida, o princípio transcendental de todo o ordenamento jurídico ambiental, ostentando o status de verdadeira cláusula pétrea.47