Aristóteles desenvolveu uma doutrina sobre o direito natural, não menosprezando as leis particulares observou as culturas locais. Construiu a distinção entre o justo universal e o justo particular, não menosprezando as leis particulares que observam as culturas locais. Mais tarde sua doutrina sobre o direito natural foi transmitida aos romanos depois aperfeiçoada pelos canonistas e teólogos dos séculos XII e XIII. Para a doutrina jus naturalista o indivíduo é preexistente e funda a sociedade através de um acordo, de um contrato. Para o jus naturalista, “[...] existe e pode ser conhecido um „direito natural‟ (ius naturale), ou seja, um sistema de normas de conduta intersubjetivas, [...] anterior e superior ao Direito Positivo e, em caso de conflito, é ele que deve prevalecer” (BOBBIO, 2004, p. 655).
O Direito Natural é o resultado dos princípios mais gerais sobre a ordem do mundo, usados para que se oponham aos governantes injustos. Em qualquer parte o homem procurou construir seu abrigo, seja numa caverna, na copa de uma árvore, nos buracos das penhas e até mesmo no gelo, protegendo-se das intempéries. Se em seu estado natural o homem encontrou um ponto para se estabelecer, até
mesmo o crescimento da população e a ausência de espaços livres foram comprimidos à potencialidade de exercício da moradia.
Segundo Rousseau (1987, p. 80), “[...] a propriedade privada surge da instituição do Estado. O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo”. Acreditava que o homem selvagem, entregue pela natureza unicamente ao instinto, ou melhor, compensado daquele que talvez lhe falte, por faculdades capazes primeiro de o substituírem e depois de elevá- lo muito acima do que era, começará, pois pelas funções puramente animais: perceber e sentir serão seu primeiro estado, que lhe será comum com todos os animais. Esses desejos não ultrapassavam as necessidades físicas, já que os únicos bens que o homem conhecia são era a alimentação, uma fêmea e o descanso, “[...] os frutos são de todos e a terra a ninguém pertence” (ROUSSEAU, 1987, p. 175).
Nas definições de Hobbes (2003, p. 112) “[...] uma Lei de Natureza (lex naturalis) é uma regra geral, estabelecida pela razão, mediante o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa para destruir a sua própria vida ou privá-lo dos meios necessários para a preservar [...]”. Os homens nesse período não tinham outra segurança senão a que sua própria força poderia lhes assegurar, assim, viviam em temor e perigo de morte violenta. Afirma que os desejos e as paixões dos homens não são por si só um pecado, nem tampouco as ações movidas por essas paixões, já que até então não havia nenhuma lei que as proibissem, e por sua vez não seriam instituídas leis sem antes determinar quem as determinariam. Segundo Hobbes (2008, p.74), “[...] tais homens, tendo em vista conseguir a paz e garantir sua própria conservação, criaram um homem artificial, ao qual chamamos Estado e criaram as chamadas leis civis, as quais eles chamaram de contrato social”. São as leis positivadas, tornadas leis pela vontade daqueles que tiveram o poder soberano sobre os outros.
Para teóricos críticos do direito, o fenômeno jurídico não se esgota nas leis, mas é produto das relações humanas. O direito como produto espontâneo da sociedade, não se prende a doutrinas, dogmas, norma de decisão ou prescrições estatais, mas provém das relações entre as pessoas. Para Santos (1988, p. 73) o direito é
O conjunto de processos regularizados e de princípios normativos, considerados justiciáveis num dado grupo, que contribuem para a criação e
prevenção de litígios e para a resolução destes através de um discurso argumentativo, de amplitude variável, apoiado ou não pela força organizada.
Surge a necessidade de se pensar o direito, de forma a compreendê-lo não como um conjunto de leis, gerais e abstratas, emanadas exclusivamente pelo Estado, mas sim como produto da vida em sociedade e, por isso, identificado com os mais diversos grupos sociais. No entendimento de Santos (1999) desde sua gênese, o contrato social moderno visa criar um paradigma sociopolítico que produza de maneira normal, constante e consistente quatro bens públicos: legitimidade da governação, bem-estar econômico e social, segurança e identidade coletiva. Com a apropriação do direito pelo Estado, houve uma hiperpolitização deste que, embora considerado “[...] um princípio secundário de pacificação social, uma vez submetido ao Estado capitalista, acabou por se transformar num artefato científico de primeira ordem” (SANTOS, 2001, p. 144).
Engels (2006) considera o Estado à expressão de dominação de uma classe sobre outra, mas percebe-o também como um momento de equilíbrio jurídico e político, um momento de mediação. “O Estado não é somente um poder brutal, é, igualmente, a busca de um equilíbrio jurídico, embora contraditório, provisório, transitório [...]” (ENGELS, 2006); a instituição do Estado, da associação civil ou do contrato é a única forma de se garantir a liberdade dos homens, haja vista que a liberdade individual só existe se houver primeiramente a liberdade coletiva e sem a existência de uma convenção que estabeleça os direitos de cada homem, um poderia dominar o outro.
Para Santos (1999, p. 33), “[...] as lutas de classes exprimem a divergência fundamental dos interesses gerados pelas relações sociais de produção capitalista”. Essas divergências, inerentes ao contrato social, entre autonomia individual e justiça social foram se cristalizando em contratualizações parcelares, incidindo sobre os menores denominadores comuns acordados. A luta empreendida pela classe trabalhadora, enquanto processo de democratização do poder político, foi gradualmente afirmada pelo Estado que se obriga a reconhecer que a “[...] economia capitalista, constituída por capital, fatores de produção e mercado, também se constitui por pessoas com necessidades básicas, interesses próprios e legítimos e com direitos de cidadania” (SANTOS, 1999).
Portanto, o poder dos indivíduos fora transferido para o Estado, para que o mesmo pudesse proteger os seus direitos naturais através das leis. A concretude do
direito impõe deveres positivos ao Estado, segundo o qual deva haver uma regulamentação do uso e parcelamento do solo para fins habitacionais. Doutrinadores consideraram como direito natural básico o direito de propriedade, que implica também o direito do proprietário aos bens produzidos pelo trabalhador assalariado que terminou por recriar uma nova forma de desigualdade entre os homens.
O habitat é antes de tudo um direito natural assegurado a todo ser vivente. A moradia digna deve abarcar os elementos essenciais para o desenvolvimento humano, social e econômico das pessoas, condições efetivas de acesso aos bens produzidos na cidade que assegurem uma vida adequada, atendendo às necessidades humanas, ou seja, além da moradia, manter as condições básicas para a própria reprodução do ser social. Assim, a moradia é também o lugar de condições objetivas e subjetivas de vida, onde se estabelecem as relações sociais.
Neste quadro dos direitos, naturais e positivados, surgem os direitos individuais a partir da elaboração das Constituições escritas e formais, configurando- se com o desabrochar das lutas operárias e populares dos séculos XIX e XX. Os direitos que antes foram conquistados pela burguesia, tomaram novos contornos e iniciaram um percurso em função dos interesses das classes trabalhadoras. O primeiro resultado dessa longa jornada pela ampliação dos direitos humanos foi a Constituição Mexicana de 1917 com a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado e a Declaração Russa de 1918 que reconhecia direitos civis, políticos e sociais dos trabalhadores e trabalhadoras, como tornava esses trabalhadores donos do país.
Várias outras declarações apareceram em seguida, como a Declaração de Weimar, na Alemanha, em 1919, numa tentativa de equilibrar os conflitos sociais, inspirou textos constitucionais por todo o mundo, inclusive no Brasil, com a Constituição Brasileira de 1934. A concretude desses direitos impõe deveres positivos ao Estado, qual fora firmado na Constituição de Weimar que, em seu art. 155, responsabilizava o Estado pela regulamentação do uso e parcelamento do solo para fins sociais. Em seguida, a Assembleia Geral da ONU, de 1948, previa o direito à moradia como inerente à dignidade humana, que requer e impõe à toda pessoa a faculdade de assegurar a si e a sua família, dentre outros, o direito à habitação (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM, ART. XXV).
As políticas sociais brasileiras se desenvolveram mais tardiamente, a partir do século XX, passando por um período de cerca de 80 anos configurando-se num tipo de proteção social só alterado com a Constituição Federal de 1988. Somente após a promulgação da Constituição, passou-se a ter efetivamente um direito social, devendo ser assegurado o acesso universal e igualitário às ações e serviços a todos os cidadãos, independente de sua condição social. O § 1º do art. 5º da Carta de 1988, registra o “direito à moradia”, antes inscrito em tratados internacionais, subscritos pelo Brasil e agora elevada à dignidade de direito social constitucional.
Na Constituição Federal de 1988, nos artigos 182 e 183 que tratam sobre a política urbana, a propriedade urbana e a cidade, o município exerce um papel central na elaboração e execução de políticas de desenvolvimento urbano em parceria com outros entes governamentais e o setor privado. O Estatuto da Cidade normatiza as diretrizes gerais da política urbana e disciplina, diversos instrumentos de intervenção na propriedade. Apresentam diretrizes para a gestão das cidades de formas mais justas e igualitárias, dentre elas, a função social da cidade e da propriedade urbana.
Em seu artigo 2º, inciso XIV, o Estatuto da Cidade trata da regularização fundiária e urbanização das áreas ocupadas por população de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, edificação e uso e ocupação do solo, considerando a situação socioeconômica da população e as normas ambientais. O processo de regularização fundiária prevê a execução de obras de infraestrutura básica que assegurem o fornecimento de água potável e luz elétrica, abertura de ruas e via de acesso, como forma de assegurar às condições adequadas de sobrevivência a população.
É importante frisar a valor de se construir um novo paradigma, de se pensar o direito fora do Estado. Pensar nas práticas sociais de novos sujeitos de direito que articulem a sua luta em torno de um projeto que promova a satisfação das necessidades humanas fundamentais dos segmentos sociais excluídos, dentro da perspectiva da construção política e jurídica participativa e descentralizada. Santos (1988, p. 80) segue a mesma linha de raciocínio:
[...] um novo paradigma jurídico, comprometido com a emancipação social e originária dos valores e práticas dos movimentos sociais que deriva, pois, das práticas sociais insurgentes, motivadas para a satisfação de necessidades essenciais, definido como pluralismo jurídico.
Nos pressupostos do pluralismo jurídico pode-se identificar os sujeitos coletivos de direito, o sistema de necessidades humanas, a descentralização e participação política, a consolidação de uma ética de alteridade e a construção de uma racionalidade emancipatória. Sujeitos de direito que se articulam em torno de exigências de dignidade e satisfação mais igualitária das necessidades humanas.As lutas em si traduzem práticas organizativas que presidiram as lutas pela cidadania, assentadas nos movimentos sociais, e que os limites entre sociedade civil e Estado não se confundem, mas podem interagir gerando vínculos mais estreitos. Assim, o direito a terra será elucidado, quando os movimentos sociais e os sujeitos ali inseridos se colocarem com autonomia e os novos sujeitos sociais desencadearem o processo de democratização da sociedade.