Um encontro Conquista para o resto da vida.
2. Um encontro que mudou o rumo da minha história profissional: conquista para o resto da vida
2.1. O encontro da pesquisa com o(s) outro(s) que a constitu
Muito a dizer, poucos sabiam como. Escritas em três linhas de papel usado, não lhes importava os riscos, as caraminholas e o desdém que sofriam, tinham certeza que podiam mais. Parecia-lhes que quando não nasciam prontinhas para desembocar em outras, nada que fosse quantidade servia. Desacostumadas, porém, a surgirem dando causa e efeitos, agora só sabiam se portar como amontoados. A sorte é que não se bastavam e continuavam tentando ser mais, mais que palavras. (Patrícia Fujisawa, 2013)
17 Para Bakhtin a expressão emotivo-volitiva representa a entonação que é dada à palavra como
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A leitura da tese de doutorado de Corinta Maria Grisolda Geraldi (1993) ajudou- me a compreender que pesquisar o próprio trabalho é possível desde que se mantenha a possibilidade do diálogo com esse trabalho, deixando-o revelar-se em seus desassossegos, em seus estranhamentos, em seus limites. Sem a pretensão de universalizar ou concluir ideias, mas apontando as contribuições do singular, a autora me ajuda enxergar que a importância da pesquisa está no seu caráter único, irrepetível, porque os sujeitos são sempre únicos e singulares.
A leitura do seu trabalho a constitui para mim como um outro dialógico, que responsabiliza-se por inteiro pelas escolhas que faz quando, logo no início do texto final da tese, apresenta a pesquisa ao leitor revelando suas intenções de pesquisadora:
Não pretendo expor uma bela hipótese capaz de, a-historicamente, fazer mundos e transportar montanhas, conseguir grandes soluções, compassos de mágica. Pretendo, tão somente, assumir meu trabalho como professora e, isto sim, com toda a radicalidade possível, refletir sobre ele, questioná-lo, tratando, de passagem, questões que o tema e o próprio trabalho fizerem emergir (GERALDI, C. M. G., 1993, p. 6).
O percurso realizado por Geraldi, C. M. G. (1993) mostrou-me a importância dos nossos (guar)dados, dos registros produzidos no trabalho, porque podem dar a ver o caminho percorrido. E pelas mãos generosas do meu orientador, vou adentrando o universo das caixas, arquivos, cadernos, textos, diários que escolhi guardar no percurso de trabalho que me lanço a investigar. Vou à procura dos meus outros.
Neste encontro, descubro que “em torno da questão da alteridade se tece uma grande parte do trabalho do pesquisador” (Amorim, 2004, p. 24), pois é no encontro com o outro, mesmo que seja o outro de si mesmo, que produzimos conclusões provisórias sobre o objeto de investigação e podemos nos lançar a outras possibilidades de interação e outras possibilidades para o nosso próprio trabalho. No movimento de ir ao outro, na busca de encontrá-lo dialogicamente, está o sentido da investigação. A escuta não indiferente do outro produz os conflitos, “[...] escuta no seu significado impregnado
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de dar tempo ao outro, de disposição incondicional ao acolhimento de sua palavra” (Ponzio, 2010b, p. 18), num entregar-se à alteridade.
É a necessidade de compreensão das escolhas que revela o caminho. Esse movimento de encontro alteritário com o(s) outro(s) na pesquisa pode construir as transformações e é sobre ele que me lanço, com seus riscos todos, pois reconheço que é uma situação de fronteiras entre o eu e o outro, o saber e o não saber, o conhecido e o desconhecido que se pretende conhecer, a partir do que se puder revelar. É na pesquisa que acontece o movimento em direção à alteridade (Amorim, 2004). Esta é a escolha metodológica: narrar o caminho percorrido a partir dos referenciais bakhtinianos em busca da alteridade eticamente construída, porque
Não pode haver enunciado isolado. Ele sempre pressupõe enunciados que o antecedem e o sucedem. Nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último. Ele é apenas o elo na cadeia e fora dessa cadeia não pode ser estudado. Entre os enunciados existem relações que não podem ser definidas em categorias nem mecânicas nem linguísticas. Eles não têm analogias consigo (BAKHTIN, 2003, p. 371).
Ao enunciar minhas palavras, que já não são minhas porque resultam do diálogo com todos os outros que me habitam, espero, inevitavelmente, uma palavra outra que dialogue com as ideias, o posicionamento, as escolhas que anuncio. Porém, compreendendo o caráter de dissenso presente no diálogo, lanço-me a procura dos conflitos, das discordâncias, pois aí se encontram os desequilíbrios que me ajudarão a melhor compreender o processo e seus efeitos, porque “entre a palavra outra e o contexto no qual é reportada intervêm normalmente relações caracterizadas por notável complexidade e tensão” (Bakthin, 2011, p. 75). O principal desafio desta escolha está em possibilitar a palavra outra como enunciação e deixá-la produzir seus sentidos no percurso do processo de pesquisar. Possibilitar o encontro destas “consciências no processo de interpretação e estudo do enunciado” (Bakhtin, 2003, p. 371). Assim,
[...] o nosso modo de ver e de dizer está marcado pelas relações que se estabelecem, pelos encontros com autores e textos, pelas experiências de vida, pelos valores e normas de conduta que, marcados ideologicamente, se vão
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impondo. Enfim, pelo lugar que se ocupa na trama da vida. São modos de “ler”, de viver e dizer (LIMA, 2003, p 37).
Vale ainda esclarecer, com o auxílio de Amorim (2012), que para Bakhtin (2010), a ética de um pensamento não se restringe ao próprio pensamento. A verdade do seu conteúdo não é suficiente para que o possamos identificá-lo como ético, porque existem inúmeras possibilidades de verdade no universo, a depender das escolhas que se faz para justificá-la. “A ética de uma teoria ou de um pensamento teórico (filosofia ou ciência) diz respeito ao ato de pensar essa mesma teoria. [...] O ato de pensar é sempre singular e diz respeito a um sujeito único” (Amorim, 2012, p. 22). Assim, as respostas que o sujeito confere ao enunciado, nas relações dialógicas que estabelece com a vida, são únicas e irrepetíveis, e como ato único e singular, éticas. “O conhecimento sem ato é um dado abstrato e parcial. [...] O ato é o movimento do pensamento, é o seu vir-a-ser” (Amorim, 2012, p. 22). É o ato de pensar, de produzir reflexões sobre a experiência, portanto sobre a vida nas relações com o(s) outro(s) que se dá a ética na perspectiva bakhtiniana, ou seja, “uma perspectiva que defende que seu lugar não pode ser ocupado por outra pessoa” (Miotello, 2011, p. 27).
No ato da pesquisa que compartilho com o leitor, estão implicadas a professora, a coordenadora, a assessora pedagógica e a pesquisadora, embora em funções distintas, faces de uma mesma pessoa e, portanto, em diálogo, interagindo e produzindo reflexões a respeito da produção analisada. É sobre esse processo de construção da vida no trabalho que me debruço, tentando entender as interlocuções entre os diversos eu(s) e outro(s).
Ao mesmo tempo em que este aspecto é um limitador da pesquisa, é o que possibilita o avanço e o aprofundamento das ideias, porque ato e pensamento estão juntos o tempo todo, ciclicamente, desde a produção dos dados à análise dos mesmos. Também porque “toda palavra que se expressa de forma concreta, ou seja, toda enunciação, nunca é unidirecional: enquanto expressa seu próprio objeto, expressa
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direta ou indiretamente sua própria posição acerca da palavra alheia” (Ponzio, 2009, p. 102).
Melhor ainda,
[...] para Bakhtin, a vida, o mundo concreto, é a vida de sujeitos concretos, é vida prática, e seu entendimento pela teoria não pode por isso ser abstrato, ou seja, tão geral que perca de vista os atos concretos que as teorias não podem abarcar de uma vez por todas (SOBRAL, 2009, p. 25).
Implicada no trabalho e responsivamente interessada em ampliar as possibilidades de compreensão sobre o mesmo, em busca de contribuir com atividades futuras de profissionais da educação de atuam em função/funções semelhantes, a pesquisadora ora se aproxima, ora se afasta da professora, da coordenadora, da assessora pedagógica. Aprendem e ensinam. Riem e choram. Avançam e retrocedem, implicadas, pois
Implicação e compromisso não são coincidentes. O compromisso existe como uma parte que se toma como importante. Quando se está implicado, a acção é, simultaneamente, interior e exterior; é total. E investigar será um processo constante, sem acumulação, dado que o aprender não pode ser separado do agir. (PACHECO, 2007, p. 87).
Em sua tese de doutorado, Cruz (2012), ao apresentar a pesquisa narrativa que realizou, descreve com clareza o conflito de narrar e pesquisar a própria prática, como elemento constitutivo da pesquisa narrativa do próprio trabalho, porém não como limitador do aprofundamento necessário ao ato de pesquisar:
As análises construídas, incialmente incipientes, serviam mais para fornecer elementos para a composição narrativa do que outra coisa qualquer. Mas no movimento narrativo já permitia realizar um outro: o de compreensão do narrado. Há histórias em que rapidamente compreendemos a lição a ser aprendida, noutras é preciso maior tempo para compreensão, e há aquelas em que apostamos numa lição e depois percebemos que eram muitas outras. Nessa altura da pesquisa, as relações entre a narradora-diretora e a pesquisadora-narradora passaram a ser mais tensas e constantes. O autor e o herói se olhavam, se estranhavam e disputavam palavra por palavra, gesto a gesto. A compreensão na pesquisa narrativa acerca da própria experiência exige de nós uma permanente vigilância de não dissolução no outro. Quantas
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vezes, a pesquisadora quis “salvar a pele” da diretora. Quantas vezes, a diretora deu boas lições para a pesquisadora (CRUZ, 2012, p. 77-78).
Nas lições aprendidas, a autora revela o quando o aporte bakhtiniano foi fundamental como apoio teórico à sua pesquisa ao dizer que
Ser pesquisador e ao mesmo tempo objeto de pesquisa me deixou no fio-da- navalha por diversas vezes. Foram conflitos internos que me possibilitaram provar a exotopia, construir um excedente de visão para a compreensão dos meus Outros na produção das lições desta pesquisa (Cruz, 2012, p. 239).
Embora ainda tímidas minhas compreensões de sua obra, encontro nos referenciais bakhtinianos uma interlocução com meus desassossegos no caminho da pesquisa e da vida profissional, em diálogo com a escola. Do movimento de cotejar os escritos bakhtinianos com as produções do meu orientador Guilherme Prado, Wanderley Geraldi, Valdemir Miotello, Adail Sobral, Walter Benjamin, Lev. S. Vygotsky, das pesquisas de mestrado e doutorado desenvolvidas no GEPEC, dos estudos da pesquisa narrativa, da pesquisa-ação, com o meu próprio trabalho, encontro sentido na pesquisa que desenvolvo. Aceito minha/nossa condição de formação constante e com Ferreira (2010) ouso defender que
[...] a formação corresponde a uma transformação pessoal, interior e ligada à experiência de cada sujeito que se permite – e se possibilita – mudar pelo conhecimento construído neste processo. Assim, é o sujeito que se forma. Dado o nosso permanente inacabamento, estamos destinados a nos formarmos. Porém, embora a formação corresponda a um acontecimento de ordem individual, ninguém se forma sozinho. Formamo-nos na relação e interação com o(s) outro(s). (FERREIRA, 2010, p. 50)
Estar implicado e comprometido com esse fazer suscita, inevitavelmente, uma ação reflexiva sobre a prática. Não há como dicotomizar. A teoria apenas tem sentido quando dialoga com o fazer e ajuda a construir outros fazeres. Os estudos ajudam a alimentar minhas reflexões e conversam com minhas provisórias certezas, ajudando na construção de uma prática pedagógica em exercício constante de reconstrução. Afinal, o conhecimento é provisório e precisa ser reelaborado sempre.
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