Uma Narrativa de Encontros, mas também desencontros, com a vida, com a profissão.
1. As escolhas: trajetórias que nos constituem como sujeitos
1.6. Professora ou Coordenadora? Professora-coordenadora?
[...] A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase, E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa. [...]
(Álvaro de Campos, 1916)
Fazer escolhas nunca é fácil. Cada escolha, uma renúncia, isso é a vida, dizia o compositor Charlie Brown Jr. (2005). No decorrer de minha trajetória profissional tive diferentes oportunidades de atuação como coordenadora pedagógica em instituições da Educação Básica. Aceitei-as, porém resistia em afastar-me da docência na Educação Básica. Atuei em três escolas como coordenadora com jornada semanal reduzida, mas continuava na docência em um período de trabalho. Creio que se o tempo diário não tivesse o limite das vinte e quatro horas, eu ainda exerceria as duas funções, porque para mim partir da docência como matriz de referência13 para o trabalho pedagógico é aspecto constituinte.
Assim, optar entre a docência e a coordenação pedagógica não foi fácil. Em 2002, para assumir um cargo efetivo como Orientadora Pedagógica na Rede Municipal de Ensino de Campinas (SP), tive que me afastar da sala de aula na Educação Básica e esta escolha produziu em mim encantamento e dor. Ao mesmo tempo em que me envolvia com as atividades da coordenação pedagógica, tinha dificuldade em me identificar com aquele novo lugar. Sentia falta do contato diário e próximo aos estudantes, do
13 Em um dos artigos que escrevi com as colegas do GRUCOP – Grupo de Estudos sobre a Coordenação
Pedagógica – durante o curso da pós-graduação, realizamos uma discussão sobre docência como matriz de referência, partindo das reflexões de Cláudia Roberta Ferreira, em sua tese de doutorado (FERREIRA, 2013), entendendo que partimos dos nossos aprendizados na docência para o desenvolvimento da atuação como coordenadoras pedagógicas, porque como professoras também nos constituímos.
37
planejamento das aulas, do relacionamento direto com as famílias e de tudo que constitui o trabalho docente.
Em busca de compreender melhor como as professoras se tornam coordenadoras, encontro outros profissionais que expressam o mesmo dilema e me identifico com suas trajetórias. Em sua pesquisa de mestrado, Adriana Pierini discute seu ingresso como orientadora pedagógica contextualizando a dificuldade de compreender esse lugar de trabalho dentro da escola
[...] Estava OP e tinha a responsabilidade de orientar professoras de três unidades de educação infantil que atendiam crianças de quatro a seis anos. Reproduziam-se as inseguranças vividas aos pés do velho baú de madeira, diante do desconhecido, do inusitado, do não sabido. Buscava me aproximar das pessoas e dos espaços das escolas, como se tateasse um campo minado. Um campo de outro.
Um campo outro.
A imagem indefinida da orientadora pedagógica, a imprecisão dos contornos de sua identidade e a ausência do ser professora aliadas às obrigações de esposa, dona de casa e mãe provocaram minha desistência da substituição depois de um curto espaço de tempo e meu rápido retorno para sala de aula. Era como seu eu buscasse um refúgio de sentido para o meu trabalho. (PIERINI, 2007, p. 12)
Da mesma forma, Cunha (2006) relata o ingresso na coordenação pedagógica como um momento de dúvidas e incertezas, meio a responsabilidade e compromissos desta atuação:
Em 1994, tive a oportunidade de assumir a coordenação das turmas de 1 ª a 4ª série da escola, sendo bem aceita pelos pais e pelas professoras, que já eram minhas colegas. Evidentemente, ascender na hierarquia da escola implicava conquistar alguma legitimidade, pois não podia desconsiderar que a minha formação e experiência eram muito próximas das de minhas próprias colegas professoras. Ficava aflita com a hipótese de não corresponder às expectativas ou até ser cobrada por alguma “competência” adicional que justificasse a função. O clima da escola, entretanto, favoreceu a adaptação a este novo “lugar”, uma vez que as professoras contavam com autonomia, eram depositárias de confiança por parte da direção, que não valorizava a hierarquia. Minha tarefa era dialogar com as professoras, mediar o trabalho docente coletivo, atender as famílias para esclarecimentos, orientação e apoio,
38
além de acompanhar o desenvolvimento dos alunos, intervindo quando solicitada. (CUNHA, 2006, p. 24)
Assim como Pierini (2007) e Cunha (2006), também passei por momentos de dúvida em relação a assumir o lugar da coordenação pedagógica. Não tive vontade de desistir, mas resisti ao afastamento da sala de aula. Em contrapartida às dificuldades e incertezas, via no cargo a delícia do novo e a oportunidade de ampliar as reflexões que já fazia em outros espaços formativos. Aos poucos fui percebendo que como coordenadora pedagógica a oportunidade de discutir os dilemas educacionais tomava outras proporções e, ao assumir a responsabilidade da formação na escola, fui desenhando meu projeto profissional deste outro lugar. Assim, acreditar na escola como espaço singular de aprendizagens e espaço efetivo de vivências que fortalecem as experiências que cada um carrega como bagagem da vida, ajudou-me nas escolhas que fui fazendo no decorrer da atuação deste outro lugar. Passei a redigir meus planos de trabalho, a negociar com os profissionais da escola tempos e espaços formativos dentro das reuniões pedagógicas institucionalizadas, a articular oportunidades de ampliação de nossos estudos, a participar efetivamente das práticas desenvolvidas em sala de aula e intervenções com os alunos, a propor projetos e situações formativas para os casos de inclusão e alunos com muita dificuldade para aprender, a promover estratégias de formação com funcionários, entre tantas outras ações. Fui me embrenhando e me constituindo
professora-coordenadora-professora sem abandonar a docência como matriz de
referência para meu trabalho profissional.
Do lugar de coordenadora fui descobrindo a melhor forma de construir o cotidiano de trabalho. Mais uma vez aprendia na prática a me constituir profissional da escola, agora deste outro lugar. Revisitar um Plano de Trabalho que redigi em 2005 para a atuação como Orientadora Pedagógica numa escola municipal revela como estas preocupações estavam presentes na constituição do meu fazer:
39