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6 ORIGEM E FUNDAMENTOS DA AGROECOLÓGICA

6.1 O ENFOQUE DE SISTEMA

A noção de sistema opera como um eixo central na concepção de agroecologia. Seu lugar destacado obedece à função epistemológica que ela cumpre dentro da crítica à ciência que privilegiou a subdivisão dos fenômenos para sua compreensão. Em contrapartida à ciência convencional, a abordagem sistêmica procura obter uma visão de totalidade e reagrupar os elementos da realidade fática que foram separados. No caso das ciências agrárias o enfoque sistêmico vem sendo utilizado para estudar os sistemas produtivos, especialmente de agricultura familiar e em áreas onde a diversidade cultural e biológica é complexa, pela capacidade que ele tem de identificar elementos que ao serem modificados geram um alto

impacto na sustentabilidade da atividade agrícola. Ao rememorar a introdução do “sistema” nos temas agrários, Khatounian escrevia:

Há quase duas décadas, os termos holístico, integrado e sistêmico se tornaram lugar-comum nos meios ligados à produção orgânica e, em alguma medida, também entre os envolvidos com a agricultura convencional. Expressavam o anseio por uma nova forma de abordar a produção agrícola, que fosse capaz de ver a propriedade como um todo, em lugar de cada exploração isoladamente, porque as visões parciais não surtiam os efeitos desejados […] No Brasil, essas abordagens foram inicialmente utilizadas no começo dos anos 1980, na EMBRAPA-Semiárido, na EPAGRI e no IAPAR, sendo chamadas no seu conjunto de abordagem sistêmica. Nessas três instituições essa abordagem foi aplicada ao estudo de pequenas propriedades, onde o enfoque disciplinar havia se mostrado insuficiente para desencadear o processo de desenvolvimento social e econômico desejado. Mais tarde, a abordagem sistêmica foi sendo lentamente disseminada por outras instituições. (KHATOUNIAN, p. 59, 2001).

Desta perspectiva, a incorporação da abordagem de sistemas como ferramenta analítica no estudo dos fenômenos que acontecem dentro dos sistemas produtivos, alguns princípios começaram a ser pautados. Primeiro, neste olhar da totalidade se privilegia o reconhecimento em campo do sistema e o sentido que cada um dos componentes têm para o agricultor ou a família agricultora. Assim, no processo de exploração e interatividade, o técnico ou estudioso desta realidade entenderia melhor o sentido que cada elemento tem dentro do sistema obtendo uma identificação do(s) problema(s) e as possíveis soluções que o próprio agricultor vai desenhando. Este processo, chamado por alguns pensadores da agroecologia como “exercício iterativo e interativo de análise e síntese” (KHATOUNIAN, 2001) se desdobra em algumas técnicas comumente usadas pelo extensionista com formação em agroecologia as quais foram compiladas e divulgadas sobre o enunciado de “técnicas de participação popular”52. Em outro plano, por exemplo, nos trabalhos grupais com agricultores a nível municipal ou regional, o processo de exploração-interatividade forneceria dados chaves para realizar uma tipificação das propriedades agrupando sistemas produtivos, a identificação de problemas, assim como possíveis espaços para aplicação de soluções.

52 No campo específico da agroecologia um dos manuais mais utilizados é o Diagnóstico Rural Participativo que ganhou um amplo destaque no país no contexto da nova Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural do ano 2006 e serviu de fundamento para a elaboração de outras publicações e oficinas, além disto, o texto tem sido uma ferramenta frequentemente utilizada nos programas de desenvolvimento rural na América Latina.

Outro ponto estratégico para o enfoque de sistemas é a abrangência do fenômeno estudado. Segundo esta ideia, na realidade empírica da produção o espaço objeto de análise por parte do agroecólogo pode ir desde a parte da planta cultivada até as relações que se estabelecem dentro de um país ou uma região. O sentido de identificar os limites obedece a compreender o conjunto de elementos que estão interagindo com o problema específico que se quer resolver. Um exemplo disto é comumente colocado em oficinas e capacitações com agricultores: Em inúmeras vezes agricultores reclamam do tipo de sementes que são fornecidas por programas governamentais, chegando a deixar de usá-las até apodrecerem nos quintais das famílias. Aqui a visão sistêmica não se reduz a culpabilizar as famílias pela não utilização das sementes, pelo contrário amplia os limites colocando dentro do sistema as políticas agrícolas e o tipo de assistência técnica que está sendo fornecida.

Ainda sobre o tema da abrangência é necessário entender que existem sistemas macro (do tipo país, políticas públicas, macroeconomia) e subsistemas (política regional, família, propriedade produtiva, lavoura, plantas, folha, solo, etc.) os quais se relacionam constantemente criando uma certa resistência às mudanças. Para a especificidade da intervenção que os agroecólogos fazem na produção agropecuária, muitas vezes os limites do sistema se definem dentro da propriedade do camponês ou da agricultura familiar. A explicação desta focalização é que no “sistema propriedade” acontecem as ações do agricultor e sua família, pelo qual os esforços encaminhados para melhorar a produtividade se localizam dentro deste limite. Aliás, uma conversão para um sistema produtivo sustentável não enxergaria mais os componentes isolados, por exemplo, a produção de galinha ou de milho, mas os identificaria como subsistemas do “sistema propriedade”.

Desta forma dois desdobramentos aparecem com o “sistema propriedade”. Inicialmente, a estrutura, que pode ser constituída por componentes de uma natureza ontológica diversa, a título de exemplo, temos culturas, animais, família, insumos, etc. Posteriormente, é a função ou relação que os componentes têm entre si e explicitam o manejo ao qual são submetidos. Ao trabalhar sobre estas duas dimensões, o técnico ou pesquisador teria informações como: finalidade da produção, nível de segurança alimentar que depende da produção interna, elementos que se complementam e elementos que se opõem, investimento, uso de mão de obra, entre outros. Um fato mais que curioso, pelas noções que veiculam este trabalho, é a vinculação entre a abordagem de sistema e o tema espiritual. A premissa presente nesta e outras discussões sobre agriculturas alternativas consiste em associar homem e

agricultura a um estado harmônico como resultado da saúde espiritual do primeiro. Em Khatounian (2001, p. 71) vamos encontrar o seguinte esclarecimento:

Há uma interessante analogia entre a abordagem sistêmica da atualidade e o conceito de organismo agrícola proposto por Rudolf Steiner na década de 1920, nos primórdios da Biodinâmica.

Naquela época, já se faziam sentir problemas derivados da fragmentação do conhecimento, o que talvez tenha levado Steiner a intuitivamente focalizar a propriedade como um todo. Esse organismo agrícola deveria ser saudável tanto sob o ponto de vista social quanto econômico e ecológico. Essas são as mesmas dimensões focalizadas na Agenda 21 no tripé da sustentabilidade. Para Steiner, entretanto, a saúde espiritual do homem era entendida como a pedra angular dessa saúde geral do organismo agrícola. Do outro lado do planeta, meio século mais tarde e partindo de pressupostos filosóficos muito distintos, Masanobu Fukuoka afirmaria que o sucesso da agricultura natural só ocorreria quando o agricultor estivesse espiritualmente saudável.

Se trata, sem dúvida, de uma saída diante da dimensão ética na agroecologia que visa dar conta das transformações necessárias do homem moderno para alcançar a sustentabilidade planetária. Pensar desta forma significa evidenciar que o próprio corpus teórico da agroecologia não tem se aprofundado para refletir e criar novas subjetividades que permitam, como objetivo fundamental, formas de intervenção na natureza como as que propõe o novo paradigma na complexidade da agroecologia. Por isto, ao traduzir a “saúde espiritual” de Stiner para a linguagem de sistemas, a agroecologia fala de uma “batuta ordenadora do sistema” a qual ajudaria a resolver as relações humanas conturbadas dentro do sistema. Ainda sobre essa metáfora, se os componentes familiares não se entendem a batuta ordenadora é impossibilitada de cumprir sua função de produzir um som determinado, daí que “Um sistema de tomada de decisões e condução da propriedade bem compreendidos e aceitos são reflexos e refletem uma harmonia interna na propriedade e no seu relacionamento com o meio externo.” (KHATOUNIAN, 2001, p. 72). À vista disso, a noção de espírito se transforma em administrador e a saúde espiritual é traduzida como um bom administrador que alcançará o ideal da agroecologia: uma família feliz com uma produção harmônica das plantas e cuja alta produção gera lucro e se enquadra dentro da sustentabilidade.

Finalmente, a riqueza fornecida pela noção de sistema está na forma em que ela reconfigura a realidade empírica a partir de novos termos para falar sobre o processo de produção de alimentos. Desta forma, é comum encontrar nos textos e nas intervenções dos agroecólogos uma série de termos relacionados com a produção agrícola e pecuária que

operam em função de uma maior abrangência dos fenômenos estudados. Exemplo disto é o surgimento na linguagem especializada dos profissionais das ciências agrárias de noções como sistemas agrários, sistema de produção, sistemas de culturas e o agroecossistema. Dentro desta inovadora terminologia funcional, o agroecossistema ganhou um lugar privilegiado para os estudos agroecológicos.