2 O CÔNSUL, O COMERCIANTE O DIRETOR E O JORNALISTA: A
2.2 A ATUAÇÃO POLÍTICA DE TER BRÜGGEN, HAENSEL, KAHLDEN E
2.2.5 O Envolvimento com a Guerra do Paraguai (1864-1870)
A pretensão deste item é trazer alguns movimentos dos quatro personagens investigados, Kahlden, Koseritz, Ter Brüggen e Haensel, quanto à Guerra do Paraguai (1864-
246 KOSERITZ, Karl von. Relatório da Administração Central das Colônias da Província de São Pedro do
Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Tipografia do Jornal do Comércio, 1867. Disponível em <http://www- apps.crl.edu/brazil/provincial/rio_grande_do_sul> Acesso em 28 de julho de 2015.
1870), isto é, como se envolveram neste conflito. Não pretendemos, portanto, dedicar maiores detalhes e explicações sobre o que foi e o que causou tal guerra.248 Para um rápido entendimento deste tema, trazemos algumas considerações de Francisco Doratioto (2002), o qual explica que após o fim da Guerra contra Oribe e Rosas (1851-1852), com a vitória dos aliados (os unitaristas argentinos, os colorados uruguaios e o Império do Brasil) sobre os federalistas argentinos e blancos uruguaios, a região do Prata foi relativamente pacificada. Porém, não tardou para que rivalidades entre Argentina, Brasil e Paraguai modificassem o cenário de calmaria, isso por conta dos desentendimentos quanto as fronteiras entre esses países, a liberdade de navegação dos rios platinos, as disputas pelo poder por parte de facções locais (federalistas e unitaristas na Argentina, e blancos e colorados no Uruguai) e rivalidades históricas. Francisco Doratioro (2002, p. 95-96), conclui que,
A Guerra do Paraguai foi fruto das contradições platinas tendo como razão última a consolidação dos Estados nacionais na região. Essas contradições se cristalizaram em torno da Guerra Civil uruguaia, iniciada com o apoio do governo argentino aos sublevados, na qual o Brasil interveio e o Paraguai também. Contudo, isso não significa que o conflito fosse a única saída para o difícil quadro regional. A guerra era umas das opções possíveis, que acabou por se concretizar, uma vez que interessava a todos os Estados envolvidos. Seus governantes, tendo por bases informações parciais ou falsas do contexto platino e do inimigo em potencial, anteviram um conflito rápido, no qual seus objetivos seriam alcançados com o menor custo possível. Aqui não há “bandidos” ou “mocinhos” [...], mas sim interesses. A guerra era vista por diferentes ópticas: para Solano López era a oportunidade de colocar seu país como potência regional e ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu, graças a aliança com os blancos uruguaios e os federalistas argentinos, representados por Urquiza; para Bartolomeu Mitre era a forma de consolidar o Estado centralizado argentino, eliminando os apoios externos aos federalistas, proporcionado pelos blancos e por Solano López; para os blancos, o apoio militar paraguaio contra argentinos e brasileiros viabilizaria impedir que seus dois vizinhos continuassem a intervir no Uruguai; para o Império, a guerra contra o Paraguai não era esperada, nem desejada, mas, iniciada, pensou-se que a vitória brasileira seria rápida e poria fim ao litígio fronteiriço entre os dois países e às ameaças à livre navegação, e permitiria depor Solano López.
Portanto, na perspectiva de Doratioto (2002), a Guerra do Paraguai foi mais um conflito nascido do processo de construção dos Estados nacionais na América, e da condição fronteiriça de alguns dos Estados envolvidos. Para este trabalho, basta saber que o conflito envolveu o Brasil e, por isso, milhares de soldados foram recrutados e grandes forças foram movidas de Norte a Sul do território brasileiro. No Rio Grande do Sul, destacamos o envolvimento dos imigrantes germânicos, sobretudo os Brummer que lá viviam. Como salienta Carlos H. Oberacker Jr. (1968), um número considerável de imigrantes germânicos estabelecidos na
248 Sobre a Guerra do Paraguai, ver: DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra. São Paulo: Companhia das
Letras, 2002. DORATIOTO, Francisco. O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil. São Paulo: Editora Ática, 1996. DORATIOTO, Francisco. O Brasil no Rio Prata (1822-1994). 2. ed. Brasília: FUNAG, 2014.
Província rio-grandense, sobretudo os filhos destes, se apresentaram ao serviço militar. Aquela situação afetou diversas cidades, colônias e picadas onde esses elementos viviam, e entre eles houve diversas mortes e acidentes nos campos de batalha.
Uma das formas de participação dos teutos na Guerra do Paraguai foi através dos Corpos de Voluntários. Houve também o recrutamento forçado. Oberacker Jr. (1968) apresenta exemplos da mobilização de forças militares entre os teutos. Na região da antiga Colônia de São Leopoldo, assim que irrompeu a guerra, foi organizado o 11° Corpo provisório de cavalaria da Guarda Nacional, composto quase totalmente de teutos, o qual constituiria mais tarde o l° Corpo de caçadores a cavalo. Em Santa Maria, o comandante da Guarda Nacional, coronel João Niederauer Sobrinho, de origem alemã, conclamou a população masculina às armas, e a ele juntaram-se pelo menos outros quatorze teutos. Em Santa Cruz, o colono Cristóvão Baum reuniu quarenta homens que, sob o seu comando, foram incorporados ao Exército imperial brasileiro.
Muitos Brummer voltaram ao antigo ofício militar, não mais como mercenários, mas sim como voluntários. Consta que no l° regimento de artilharia sob o comando do francês naturalizado tenente-coronel Emílio Mallet, havia aproximadamente cem homens provenientes da Legião Alemã de 1851. Para Oberacker Jr. (1968), esse regimento, cujo efetivo total foi de 200 homens, formou um dos melhores contingentes de todo o Exército brasileiro, participando de toda a campanha e contribuindo com eficácia em suas atividades, sempre citados com elogios nas ordens do dia. Entre os artilheiros do regimento Mallet, esteve o capitão Fernando Schneider, promovido ao posto de major e, em fins de 1866, chamado a organizar uma bateria de voluntários com soldados alemães veteranos. Ele cumpriu a tarefa e fez ser incorporado à artilharia do tenente-coronel Mallet a “Bateria de Voluntários Alemães”. Também em Santa Catarina houve o trabalho de um Brummer no recrutamento militar, o capitão Vitor Augusto Luís von Gilsa, que comandou o “Contingente de Voluntários Alemães”, composto exclusivamente de alemães de Blumenau, Joinville e Brusque.
Quanto aos quatro Brummer que compõe o objetivo de nossa pesquisa, nenhum foi para o campo de batalha, mas pelo menos dois deles, Kahlden e Koseritz, auxiliaram positivamente no recrutamento de soldados, enquanto ter Brüggen teve de resolver questões atinentes a consequências da guerra para soldados de origem prussiana. De Haensel, nada encontramos, o que não significa que ele não tenha se engajado de alguma forma. Assim, os espaços de atuação de Kahlden e Koseritz os fizeram capazes de mobilizar forças entre os teutos. Já ter Brüggen, enquanto Cônsul, viu avolumarem-se casos envolvendo imigrantes protegidos pelo Consulado, resultantes da participação naquele grande conflito.
A respeito do Barão von Kahlden, consta que assim que teve início a Guerra do Paraguai, ele passou a fazer intensa propaganda do recrutamento aos colonos de Santo Ângelo. Ele pediu autorização ao Ministro da Guerra para organizar uma Companhia de voluntários, e para isso foi autorizado no final de julho de 1865. Essas são as únicas informações que temos, mas são suficientes para demonstrar o empenho de Kahlden em apoiar o Brasil na guerra, além disso, o cargo de Diretor havia o permitido saber contatar um Ministro afim de obter a autorização para recrutar soldados. Esse exemplo demonstra que houve várias outras maneiras de atuação política entre os imigrantes alemães além daquelas ligadas ao exercício público condicionadas à elegibilidade pelo voto civil. Portanto, o trabalho de recrutamento também foi uma atividade perpassada pela atuação política, relacionada ao exercício do poder.249
A Guerra do Paraguai levou a óbito muitos dos imigrantes germânicos engajados, e coube ao Consulado da Prússia em Porto Alegre resolver questões envolvendo algumas destas mortes. Em 30 de outubro de 1869, chegava a ter Brüggen o comunicado do falecimento de Augusto Heine, ocorrido no hospital de Saladeiro, em Corrientes. Ele havia se engajado em Porto Alegre, em 14 de janeiro de 1867, para servir ao Exército Imperial, e no ato de juramento recebera a quantia de rs 300$000, que depositara no Banco da Província conforme contrato, o qual estabelecia que ele poderia retirar esse valor depois do prazo de um ano. Antes de morrer, Heine enviou ao Consulado documentos que recebeu do banco, e ordens a serem executadas no caso de sua morte, as quais não estão contidas no ofício analisado. Assim, ter Brüggen pediu a Presidência da Província a necessária carta precatória para retirar do Banco os rs 300$000 e atender os últimos pedidos de Heine. O valor foi encarado como insignificante, e por isso o Cônsul acreditava não haver empecilhos maiores para sua retirada.250 O Cônsul ter Brüggen, portanto, intercedeu perante o Presidente provincial em favor de um súdito que se engajara pelo Brasil, e pretendia atender seus desejos finais.
O ano de 1869 movimentou ainda mais o Consulado prussiano. A viúva D. Felicité von Reisenvitz, de Rio Grande, pediu informações a respeito da certidão de óbito de seu marido, Adolfo von Reisenvitz, soldado engajado falecido no Paraguai, que ela já havia pedido diretamente a Presidência em 1868 e ainda não recebera notícias.251 Da mesma forma, a família do Conde Henrique de Lanzac-Chaunar havia entrado em contato com o Consulado prussiano pedindo para o mesmo intermediar à Presidência da Província o pedido da certidão de óbito do
249 CPGNP: Recorte de Jornal. WERLANG, W. 1995. Barão von Kahlden. Gazeta do Jacuí. Caixa da Colônia
Santo Ângelo. Agudo, març/abr/mai 1995.
250 AHRGS: Documentos Consulares, Caixa 11, Maço 22. 251 Ibidem.
falecido, o qual havia se engajado e marchado com a Bateria de Voluntários Alemães. A morte ocorrera em Palmas, República do Paraguai, em 5 de novembro de 1868, causada por cólera- morbus.252
Outro pedido de certidão de óbito partiu da viúva do alemão Luiz Heringer, que marchou com o 5º Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional sob o comando do Major Bento Gonçalves, no ano de 1866, para o Paraguai. Consta ter ele morrido em combate, naquele mesmo ano ou no seguinte. O Cônsul transmitiu o pedido ao Presidente da Província, frisando que a viúva de Heringer precisava com urgência da certidão de óbito para poder liquidar a herança deixada pelo marido.253 Residiu o fato comum, nessas situações, ser Wilhelm ter Brüggen o porta-voz dos pedidos dos familiares dos falecidos na Guerra do Paraguai perante a Presidência provincial. O cargo de Cônsul oferecia a ele uma posição confiável e parecia gerar maior efetividade quanto aos resultados das solicitações, visto que alguns dos interessados, como no caso da viúva D. Felicité von Reisenvitz, já haviam tentado obter a certidão de óbito de seu marido diretamente com a Presidência, mas não obtivera resposta, assim, buscou auxílio na autoridade do Cônsul prussiano. Se, de fato, os resultados existiram, não temos como afirmar, mas fica evidente que o Consulado era um dos canais para tentar pressionar o governo a atender as demandas dos suplicantes.
O conflito envolvendo o Brasil movimentou não só o Consulado prussiano. Houve ocasião na qual um abaixo-assinado ganhou corpo através da participação de agentes consulares da Prússia, França, Holanda, Würtemberg, Saxônia e da República Argentina, todos sediados em Porto Alegre. O objetivo do documento era esclarecer boatos publicados em um jornal de Paris sobre a venda como escravos de prisioneiros paraguaios rendidos em Uruguaiana, em 1865. Datado de 26 de julho de 1867, o abaixo-assinado defendia a honra do Império brasileiro frente os citados boatos.
Os abaixo firmados Wilhelm ter Brüggen, Cônsul da Prússia; J. B. d’Ornano, Vice- Cônsul da França; Emilio Fraeb, Vice-Cônsul da Holanda; George Pffeifer, Vice- Cônsul de Würtemberg; Emílio Wichmann, Vice-Cônsul da Saxônia; e Frederico Durval, Cônsul da República Argentina, todos residentes nesta Cidade de Porto Alegre, Capital da Província de São Pedro do Sul, Brasil; reunidos no Consulado da República Argentina, afim de coletivamente responderem à Circular de 8 do corrente que lhes dirigiu S. Ex.ª o Sr. Dr. Francisco Ignácio Marcondes Homem de Mello, Presidente desta Província, em que diz que em alguns pontos do opúsculo ultimamente publicado em Paris por C. Expilhy sob o título “Le Brésil, Buenos-Ayres, Montevidéo et le Paragay devant la civilisasion” se afirma positivamente que os paraguaios prisioneiros na rendição de Uruguaiana, em Setembro de 1865, foram nesta Província reduzidos à escravidão e assim vendidos [...]. Em contestação os abaixo firmados têm
252 AHRGS: Documentos Consulares, Caixa 11, Maço 22. 253 Ibidem.
a honra de declarar a S. Ex.ª que não lhes consta que nem um só dos prisioneiros paraguaios da rendição de Uruguaiana haja sido vendido, e que ao contrário, receberam nesta Província o tratamento que seguindo os princípios da moderna civilização é concedido aos infelizes a quem a sorte das armas é desfavorável. Atos de humanidade que muito enobrecem o generoso governo brasileiro.254
Os Cônsules colocavam-se como testemunhas, no interesse da justiça e da verdade, em defesa do Império e perante as nações que representavam. Ofereciam a credibilidade da função que exerciam para frisar a conduta correta das autoridades brasileiras, em conformidade com as ordens expedidas pelo Ministério da Guerra. A primeira assinatura, acompanhada do carimbo do Consulado prussiano, foi a de Wilhelm ter Brüggen. Unidos, esses agentes consulares procuravam defender os interesses brasileiros, apesar de representarem Estados estrangeiros.
Por fim, temos o engajamento de Karl von Koseritz, que se fez a partir de sua liderança entre os teuto-brasileiros e imigrantes alemães. Após meio ano à frente do Deutsche Zeitung como redator-chefe, ele articulou a execução de uma empreitada militar, que arregimentasse alemães da Província para a proteção das fronteiras ao sul, tendo em vista os conflitos entre o Brasil, o Uruguai e o Paraguai. Foi atribuída a Koseritz a ideia de organizar esses corpos de defesa, convocando uma reunião no Hotel Drügg, em Porto Alegre, em 1º de janeiro de 1865. A discussão ocorreu no sentido de uma formação militar pelos alemães de diferentes núcleos coloniais. Parte dos presentes apoiou, e outros rejeitaram a proposta, trazendo à tona as memórias da Guerra dos Farrapos, que havia dividido alemães da colônia de São Leopoldo em tropas imperiais e farrapas. Houve decisão pela neutralidade, criticada por Koseritz: “Não se enganem os defensores da chamada atitude de neutralidade pois, esse inimigo, não respeitará qualquer nacionalidade estrangeira” (KOSERITZ apud WEIZENAMNN, 2015, p. 72). Outra reunião ocorreu no dia 15 de janeiro daquele ano, e as divergências voltariam à cena, ainda assim, Koseritz ficou satisfeito com a aprovação da criação do Corpo de Defesa, o qual seria constituído por cerca de 150 membros locais (WEIZENAMNN, 2015).
Apesar do forte engajamento, e dos frequentes discursos por ele proferidos ao longo do ano de 1865 pelo alistamento nas unidades militares, chamadas de “Voluntários da Pátria”, também de sua parte vieram críticas a esse processo, sobretudo quanto ao recrutamento de colonos alemães que se encontravam em situações de vulnerabilidade, como pais de família, filhos únicos de viúvas e viúvos com filhos menores. Houve ocasião na qual ele denunciou, junto a Presidência da Província, a convocação forçada de soldados frente a realidade local de muitas regiões coloniais marcadas pelas péssimas condições financeiras de muitos homens, que
recentemente haviam iniciado o cultivo da terra, encontrando sérias dificuldades nas primeiras colheitas. Ainda, deu espaço para a Guerra do Paraguai nas páginas do Deutsche Zeitung, que em 1865 passou a noticiar as principais ocorrências em relação ao recém deflagrado conflito. Para a cobertura dos fatos e como correspondente do jornal alemão, Koseritz enviou o colaborador Otto Stieher, o qual tinha a missão de trazer as informações do conflito de forma objetiva, ao contrário daquilo que, para Koseritz, fazia a imprensa nacional, isto é, um discurso excessivamente tendencioso. Para ele, a salvação e o futuro do Império do Brasil dependiam daquela guerra, possuindo ele importantes vantagens para vencê-la, como resistência, conhecimento e energia. Ao longo de cinco anos, a pauta de considerável parte dos números do Deutsche Zeitung ocupou-se com a Guerra do Paraguai, encerrada definitivamente em 1870 (WEIZENAMNN, 2015).