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1.2 OS LEGIONÁRIOS BRUMMER

1.2.1 O Recrutamento e a especificidade dos Brummer

De acordo com Lemos (2015), a legião alemã foi formada por soldados provenientes da dissolução do Exército dos ducados de Schleswig-Holstein, por pessoas sem ofício, e, finalmente, por elementos “envolvidos na delinquência e afundados na bebedeira”. A diversidade dos recrutados é exemplificada por Schmid (1951, p. 104) em uma fala de Karl Von Koseritz proferida na palestra “Cenas da Vida Militar brasileira”,

Figuravam velhos lanscenetes que haviam militado na ÀFRICA, na ÍNDIA, na POLÔNIA, até na ESPANHA, de par com tenros cadetes, bem como educandos foragidos das Reais Escolas Militares, etc. Legionários que haviam sido oficiais, davam graças a Deus se conseguiam engajar-se como sargentos; outros recebiam por superiores hierárquicos homens que haviam sido seus subordinados; já outros possuíam cultura e instrução superiores à de muitos dos oficiais [...].

Como destaca Schmid (1951), a idade dos recrutados variava dos 17 aos 50 anos, e diferiam não só em relação às experiências de vida, como também na instrução e no caráter. Parte dos alistados, ainda que não em número considerável, era formada por jovens que desconheciam o serviço militar, atraídos pela aventura. Um destes foi Cristóvão Lenz, tornado mercenário com dezessete anos e meio por dar ouvidos a um alegre grupo que já havia se engajado. Em suas memórias, transparece ter deixado se enganar ao aceitar a ida para o Brasil.

A missão de constituir a força germânica, autorizado pela Lei nº 586 de 1850, foi dada ao Tenente-Coronel Sebastião do Rego Barros67, Conselheiro de Sua Majestade o Imperador,

67 Natural de Pernambuco, nasceu em 18 de agosto de 1803 no seio de influente família. Por sua ativa participação

nos movimentos pela independência do Brasil, acabou preso e encarcerado na fortaleza do Castelo. Depois de liberto, foi enviado pela família para Coimbra, a fim de que estudasse ciências matemáticas e filosóficas. Em 1823 mudou-se para Paris, onde, em 1825, bacharelou-se em matemática pela Universidade de Gottingen. No ano seguinte, foi morar no Rio de Janeiro e obteve a patente de Capitão do Corpo de Engenheiros do Exército Imperial. Nessa condição voltou a Pernambuco, e lá elegeu-se Deputado, dando início a uma sequência de mandatos na Corte. Em 1837 foi chamado a assumir o Ministério da Guerra, missão espinhosa nos tempos da regência. Foi liberado do Ministério em 1840, quando viajou para a Europa em busca de tratamento médico. Ao retornar, elegeu- se novamente Deputado. Auxiliou, em 1849, a sufocar a Revolução Praieira. No começo da década de 1850

Comendador da Ordem de São Bento de Aviz e Veador de Sua Majestade, A Imperatriz, enviado à Europa em fins de 1850. Também recebeu, segundo Schmid (1951), a tarefa de adquirir o correspondente armamento e equipamento para os recrutados, ou seja, armas e uniformes. Ao contrário da experiência de Schaeffer com a primeira leva de mercenários contratados pelo governo brasileiro, Barros agiu na legalidade, autorizado oficialmente pelo Senado da cidade de Hamburgo.68 O trabalho de recrutamento foi realizado por uma ampla rede de agenciadores, que cobriu diversas cidades da Confederação Germânica. Difundiram o convite ao engajamento através da imprensa alemã, de panfletagem, e mesmo através do clássico rufar de tambores nas praças e ruas.

De acordo com o Major von Lemmers-Danforth (1941), o trabalho em Hamburgo e cidades vizinhas deveria ocorrer com cuidado e atenção a fim de engajar apenas os melhores e mais competentes elementos para evitar episódios similares àqueles protagonizados pelos mercenários do Imperador D. Pedro I, em 1828. Além disso, deveriam constituir uma força exemplar, e posteriormente, quando concluído o serviço militar, tornarem-se bons colonos. Entretanto, por mais que Rego Barros procurasse atender os interesses do governo imperial, ele não dominava a língua alemã e por isso atribuiu o recrutamento a vários agentes que, com poucas exceções, encararam sua incumbência como oportunidade para tirar proveito próprio.

A tarefa, podemos aferir, foi concluída, simultaneamente, de forma exitosa e fracassada. O êxito residiu no fato de Rego Barros ter conseguido em seis meses engajar cerca de 1.800 homens e os despachar para o Brasil antes do envio das forças auxiliares brasileiras ao campo de batalha. Por sua vez, o fracasso é encontrado na baixa capacidade militar de muitos desses soldados, expressa posteriormente quando já estavam no Brasil.

Apesar da liberdade para agir em Hamburgo, Barros encontrou obstáculos em seu trabalho. As considerações do Conselheiro Maia naquela reunião do Conselho de Estado de agosto de 1851 se mostraram acertadas. Assim que ficou sabendo da missão brasileira, diz Lemos (2015), o governo de Buenos Aires agiu para a impedir. Antes, porém, tentou seu próprio recrutamento de mercenários ao enviar agentes para a Península Itálica, mas teve de recuar, pois foram barrados. Restou ao Cônsul argentino em Hamburgo, Luiz Bahne, criar situações embaraçosas para Rego Barros, como quando apresentou queixas ao representante prussiano em Hamburgo. O modo mais efetivo de ataque foi realizado através de propaganda difamatória

recebeu a tarefa de recrutar legionários em Hamburgo. Tendo cumprido sua missão, ao retornar ao Brasil ainda ocupou o cargo de Governador do Pará, em 1854, e foi Ministro da Guerra uma segunda vez, em 1859 (LEMOS, 2015. SCHMID, 1951).

68 Os principais auxiliares dele, segundo Lemos (2015), foram Martin Valentim, um brasileiro, e Dr. Gustavo

nos jornais alemães. A imprensa desestimulava os engajamentos e amedrontava os eventuais contratados alertando, muitas vezes, para os perigos que os aguardavam no Brasil, desde “índios antropófagos, cobras venenosas, feras selvagens, negros bandidos, vida miserável até doenças horrorosas”.

Algumas reportagens de jornais brasileiros e germânicos foram compiladas no “Relatório do Ginásio Anchieta”, de 1938, e trazem valiosas informações a respeito da propagando contrária e favorável ao recrutamento dos mercenários.69 Na edição de 6 de fevereiro de 1851 do jornal St. Pauli Reform, o major-general von Gerhard chamava os recrutadores de “infames traficantes, empenhados em adquirir a sua mercadoria barato aqui, para venderem caro lá” (FUGER, 1938, p. 14). A visão dos auxiliares de Rego Barros como aliciadores mal-intencionados repete-se em artigo do jornal Freischuetz de 8 de julho de 1851, intitulado “Castigada a audácia de um traficante de almas”. Nem todas as cidades próximas a Hamburgo admitiam a atividade de recrutamento, como no caso de Berlim, onde um dos recrutadores de Barros, antigo oficial prussiano, foi preso tentando engajar oficiais da reserva, sujeitos ao serviço militar na Prússia (FUGER, 1938).

Em 19 de março de 1851, o jornal Reform empregava energias para amedrontar os comerciantes hamburgueses que estavam mantendo negócios com Rego Barros. O argumento residia em Rosas, “Um homem destemido ao ponto de tratar com provocante altanaria a rainha Vitória da Inglaterra, hesitará ele perante alguns insignificantes mercadores de Hamburgo que ostensivamente apetrecham Exército para combater?” (FUGER, 1938, p. 14). O jornal Hamburger Nachrichten de 4 de abril de 1851 destacava o elevado número de alistados na Legião Estrangeira desiludidos antes mesmo de partirem para o Brasil. Cerca de 70 recrutados haviam deixado o navio Hamburg após receberem o prêmio pela assinatura do contrato, de 25 táleres, e o sustento enquanto não partiam (FUGER, 1938). A intenção, parece, era estimular mais desertores70.

Houve quem, por experiência própria ou em vista da má fama deixada pela experiência de 1823, guardasse recordações pouco agradáveis do Brasil e se empenhasse em evitar o recrutamento. Acreditando prestar bons serviços aos seus conterrâneos, minimizaram as

69 Em 8 de abril de 1851 outra notícia alarmava a opinião pública. Entre as reportagens do jornal Deutsche

Reichszeitung havia a seguinte: “Suborno de alunos do Colégio Militar”. Alguém tentava seduzir aspirantes da arma de artilharia à deserção para passarem a servir no Exército imperial brasileiro. Por serem esses alunos menores de idade, a tentativa ganhara ares ainda mais infames.

70 Em petição representando um grupo de desertores endereçada ao rei da Prússia, o advogado Dr. Gallois, expõe

a situação dolorosa desses indivíduos que, por delitos de ordem política, estavam impedidos de voltar para sua terra, e negavam-se também a mercadejar seu sangue nos campos de batalha da América do Sul. Suplicavam, pois, que o soberano lhes proporcione meios de emigrarem para os Estados Unidos da América, onde começariam nova vida (Neue Preussische Zeitung, 21 de Março de 1851).

pretensões de muitos jovens interessados no engajamento (FUGER, 1938). Exemplo disso, segundo Lemos (2015), foi a ação de Samuel Gottfried Kerst, mercenário no Exército Imperial brasileiro entre 1824 e 1830, preso por conta da revolta dos mercenários em 1828, licenciado e enviado de volta a Europa. Ele atacou o Brasil através da publicação de livros e artigos.71

Havia, portanto, grande oposição de parte da imprensa e da população local ao recrutamento dos mercenários, sobretudo em relação as tentativas de aliciar os mais jovens. Por outro lado, o recrutamento também encontrou defensores. O jornal Hamburguer Nachrichten, de 31 de março de 1851, defendia o engajamento considerando a atividade militar nele imbricada digna como tantas outras (apud FUGER, 1938). Segundo Lemos (2015), o redator do jornal Wiener Zeitung, Dr. Leopold Schweitzer, foi agraciado pelo governo brasileiro com a Comenda da Ordem da Rosa, por ter publicado artigos benéficos sobre a imigração no Brasil e suas condições peculiares.

Como apontou o jornal Zeitung fuer Norddeutschland, em março de 1851, para muitos dentre os engajados só havia a perspectiva da perseguição, miséria e prisão na permanência em Hamburgo, portanto o recrutamento de mercenários para o Exército imperial brasileiro surgiu como uma saída desesperada. Ciente disso, em parte, o governo de Hamburgo não reprimiu a atividade brasileira, vista como uma forma de se desembaraçar de tantos “agitadores e desocupados”. Além disso, o armamento comprado por Rego Barros aos soldados representou negócios lucrativos aos comerciantes locais (apud FUGER, 1938).

Também no Brasil houve polêmica quanto aos Brummer. Mesmo em período gestatório, o projeto de recrutamento de estrangeiros já havia suscitado simpatias e antipatias no Conselho de Estado Imperial, como visto no começo do capítulo. Segundo Schmid (1951), enquanto os conservadores, no poder se mostravam favoráveis a ideia de contar com mercenários, os liberais fizeram oposição, combatendo o projeto sob o argumento de que o governo não tinha a intenção de empregar os estrangeiros na defesa do país, mas usá-los como instrumento de despotismo. Além disso, reclamavam que os mercenários estavam recebendo melhor tratamento do que os soldados brasileiros, pois estavam subordinados às normas militares do Reino da Prússia, e não aos duros artigos de guerra do Conde Lipe, usados no Exército imperial brasileiro.

71 O legionário Júlio Jorge Schnack (apud FLORES, 1997, p. 84) relata, “Era a contragosto da população e à revelia

dos princípios dos democratas que nós, soldados das guerras de libertação, embarcávamos para lutar em um país monárquico e escravocrata, contra uma República. Eles não sabiam que o cidadão brasileiro, onde o povo criava suas leis através de seus representantes eleitos, vivia em maior liberdade que os argentinos sob a tirania do ditador Rosas. Nós jovens e inexperientes pouco sabíamos sobre este estado das coisas e assim aconteceu que, através de informes falsos que não tínhamos como avaliar, cresceu entre nós uma certa aversão contra o lugar de nossas futuras atividades”.

A imprensa foi local de expressão dessa oposição. Como resposta a nota do “Jornal do Comércio” anunciando a tarefa de recrutamento dada a Regos Barros, o jornal “Radical”, do Rio de Janeiro, edição de 12 de outubro de 1850, portanto meses antes da chegada dos primeiros Brummer, protestou,

Não queremos recrutamentos no estrangeiro. Infeliz a nação obrigada a apoiar sua posição, honra e dignidade em baionetas de mercenários estrangeiros e por um Exército, movido somente pela cupidez do dinheiro O amor da glória, o pensamento da defesa de parentes e amigos, os sentimentos nacionais, a convicção de salvaguardar a honra da pátria, são os impulsos poderosos, que instigam os soldados nacionais grandes empresas, a arrojar-se decididamente a todos os perigos, a arriscar a própria vida. Que finalidade pode ter o mercenário estrangeiro? Quais os seus ideais? Quais os seus imperativos no dia da batalha? O dinheiro!... (apud FUGER, 1938, p. 26-27).

O Ministério da Guerra expos os motivos do recrutamento ao público leitor em artigo do jornal “Riograndense”, de 30 de abril de 1851, quando Rego Barros já trabalhava na Europa. De acordo com a nota, o governo tinha opinião destoante daqueles que censuravam o recrutamento da legião estrangeira, e apontava quatro motivos da importância daquela medida para o Brasil: poupariam as vidas de 3.000 brasileiros; poderiam adquirir através daquelas tropas uma divisão disciplinada, um modelo para as tropas brasileiras; haveria a dupla vantagem em ter, durante certo período, ótimos soldados e, quando encerrado o tempo de serviço, iriam dispor de no mínimo 2.000 bons colonos; por fim, o recrutamento dos estrangeiros deixaria em paz 3.000 brasileiros ocupados na agricultura ou na indústria. Além disso, seriam adquiridos cerca de 3.000 novos consumidores com a vinda desses soldados. Portanto, o governo reafirmava ser o recrutamento um negócio proveitoso para o país (apud FUGER, 1938).

Como relata o Capitão Siber (1915), muitos dos engajados estavam convencidos de que além-mar poderiam deixar de lado os compromissos assumidos em contrato quando lhes aprouvesse. Essa era uma perspectiva que considerava o alistamento brasileiro apenas um meio de chegar à América. Aliás, muitos dos recrutados, até o último momento, duvidavam que se pretendesse seriamente fazê-los soldados no Brasil. À vista destas circunstâncias, mais da metade de todos os engajados se constituiu de artífices, que tinham ouvido falar dos elevados salários nas grandes cidades da América do Sul. O restante, continua Siber (1915), era de velhos soldados (entre os quais encontravam-se antigos oficiais inferiores prussianos e holstenianos), e de desocupados “vagabundos e bebedos inimigos do trabalho” (SIBER, 1915, p. 453) que, provavelmente, tencionavam buscar no Brasil ouro e diamantes. Era uma Companhia constituída dos mais variados tipos físicos, classes sociais, e faixas etárias.

Em relação ao recrutamento, Lemos (2015) o divide em três fases com tipos distintos de contratados: a primeira ocorreu logo da chegada da missão brasileira a Hamburgo, coincidente com a extinção do Exército de Schleswig-Holstein, portanto acolheu em sua esmagadora maioria os combatentes daquele Exército; a segunda fase compreendeu o recrutamento de pessoas sem ofício; e a terceira fase, nos momentos finais da missão, recebeu “desocupados, bêbados, vagabundos e delinquentes”. Para Claudio Moreira Bento (1981), essa variedade na constituição da legião já apontava o seu insucesso militar. A historiografia procura destacar a presença considerável de soldados advindos da dissolução do Exército de Schleswig- Holstein, empregados na luta contra a Dinamarca durante a década de 1840 por questões históricas relacionados à Fronteira.

De acordo com Lemos (2015), Schleswig e Holstein foram ducados feudais até o ano de 1459, quando passaram ao domínio da coroa dinamarquesa. Ainda assim, mantiveram sua autonomia local. Essas regiões ligavam os territórios germânicos à Dinamarca (Ver Figura 3). Schleswig, por exemplo, estava contida totalmente na Península Jutlândia, que atualmente compõe parte da Dinamarca e o extremo norte da Alemanha. Em vista de sua localização, grande parte da população desses ducados era de origem germânica, sendo a população dinamarquesa maioria apenas na parte setentrional de Schleswig. A aproximação com os reinos de Hannover e Dinamarca levou o Congresso de Viena a manter esses ducados subordinados à Dinamarca, ignorando os aspectos sociais e culturais dessas regiões. Dessa forma, permaneceram sem integrar-se à mesma.

Na década de 1840, o reino da Dinamarca passou a adotar uma política oficial de integração dos dois ducados. Para isso, procurou impor a eles uma nova ordem mediante a neutralização cultural e administrativa da população alemã residente em Schleswig e Holstein. Assim, houve a gradual substituição de germânicos por dinamarqueses em cargos do serviço público e militar. A população germânica desses ducados não aceitou as imposições do reino dinamarquês em vista da ligação que possuíam com suas origens germânicas, e sublevou-se. O conflito teve início em 1848, somando-se aos inúmeros outros levantes que sacudiam a Europa naquele momento, motivados, sobretudo, por questões nacionais e liberais. Schleswig e Holstein formaram um governo provisório e buscaram apoio na Confederação Germânica, da qual Holstein já fazia parte e Schleswig veio a compor assim que o conflito tomou forma (LEMOS, 2015).

Figura 3 – Território do atual Estado alemão deSchleswig-Holstein

Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Schleswig-Holstein>. Acesso em 10 de abril de 2016.

Após diversas derrotas, segundo Lemos (2015), a Dinamarca pediu à Inglaterra, Rússia e Áustria a intervenção no conflito. O clamor foi atendido. As potências acionadas exigiram da Prússia o fim da intervenção militar na Dinamarca, e assim foi feito. Com isso, os ducados ficaram sozinhos em sua luta. A partir do momento em que as tropas regulares germânicas se retiraram, houve campanha em toda Confederação Germânica pedindo voluntários72 para

combateram os dinamarqueses. A convocação teve êxito.

Grande parte dos mercenários Brummer adveio dessa massa de voluntários, caracterizada como “Gente urbana, artistas, intelectuais, boêmios” (LEMOS, 2015, p. 61), ou

72 “[...] esses heroicos voluntários que constituíram o Exército de Schleswig-Holstein, classificado pelos oficiais

prussianos como ‘abaixo da média’ e que chegou a atingir o efetivo de 36.000 homens [...] decididamente não eram soldados. Gente urbana, artistas, intelectuais, estudantes, boêmios [...]. Além disso, chegaram ao campo de batalha quando a situação militar já estava praticamente definida em favor da superioridade bélica dos dinamarqueses.” (LEMOS, 2015, pg. 61). As tropas de Schleswig-Holstein foram derrotadas em várias frentes de batalha. A Áustria, sob o temor da unificação alemã, impôs aos prussianos um ultimato, o “Tratado de Olmütz”, afastando de vez a Prússia da questão dinamarquesa e exigindo tratar os militares envolvidos na causa dos ducados como delinquentes revolucionários, ameaçando-os com retaliação militar caso não depusessem as armas. A Prússia fez cumprir o tratado.

seja, pessoas sem o devido preparo militar. O conflito acabou com a derrota das pretensões dos ducados de Schleswig e Holstein. Entre os ex-combatentes ficou a sensação de que haviam sido abandonados e traídos pela Confederação Germânica. Ciente desse ocorrido, Sebastião Rego Barros encontrou na dissolução das tropas dos ducados derrotados parte significativa dos mercenários da legião dos Brummer.

De acordo com Lemos (2015, pg. 90),

[...] esses voluntários desmobilizados, em sua gritante maioria, eram moços alemães ideologicamente frustrados devido ao arrasador fracasso das revoluções de 1848; politicamente indignados com o esvanecimento do acalentado sonho de uma unificação alemã, com a retirada prussiana da Dinamarca; espiritualmente desiludidos de seus líderes e causas europeias, sentindo-se mesmo traídos e abandonados em seus ideais. Em suma, almas desorientadas em busca de novos valores. Pior de tudo, com o sustento pessoal comprometido.

Rego Barros encontrou aí os oficiais da tropa legionária que, ao lado de outros soldados de Schleswig-Holstein, como afirma Claudio Moreira Bento (1981), eram indivíduos bem situados socialmente, de elevado padrão cultural e moral, e muitos deles eram membros da nobreza alemã. Esses combatentes eram bem diferentes daquele contingente de mercenários enviado ao Brasil por Schaeffer. Entretanto, é lúcido apontar que nem todos os recrutados das fileiras dos Exércitos dos ducados derrotados pela Dinamarca respondem às características antes apontadas. Como Lemos (2015) explica, formaram uma força de voluntários da mais variada configuração73. Certamente havia soldados experientes, mas ao mesmo tempo o oposto também existia.

Quanto ao contrato assinado no momento do recrutamento, era bem explícito em suas determinações e variou em suas especificidades de acordo com a hierarquia da tropa. Aos cargos de sargentos, furriéis, cabos, asnpeçadas, soldados, músicos, trombetas, cornetas e tambores, o contratado comprometia-se a servir ao Exército imperial brasileiro por quatro anos, podendo o governo imperial dispensá-lo depois de dois anos de serviço, tempo mínimo para

73 Como afirma o legionário Cristóvão Lenz (1997, p. 17), “Os homens da nossa bateria formavam um mapa

demográfico multiétnico, com gente de todos os cantos e recantos de nossa então ainda não unificada pátria. Velhos e jovens, brutos, grosseiros e mal educados, mas também polidos e com fina educação. A maioria já conhecia a vida de soldados por experiência própria”. Entre os recrutados que mais chamaram sua atenção, havia um mulato alemão, natural do eleitorado de Kurhesse, cujo pai africano fora lacaio do eleitor de Hesse e a mãe uma dama da corte alemã. Naquele período era comum encontrar africanos na corte de Berlim e, como comenta Lenz, havia uma preferência das damas por pessoas de cor. Os traços fisionômicos, lábios e nariz, eram acentuadamente europeus,