________O ROSTO MUTILADO
3. O ESPECTRO DA DOR
possibilidade de aproximar-se da cura. A restituição da potência da boca pode ser considerada como a restituição da capacidade de viver.
Kobayashi (2003, p. 22), partindo do conceito de Dor Total (proposto por Saunders em 1991) que abrange a dimensão física, espiritual, social, financeira, familiar, interpessoal e mental, conclui que o resultado de uma longa lista de experiências vividas pela pessoa, de alguma forma, se manifesta como dor e não pode ser tratada como qualquer dor, mas como aquela dor, daquela pessoa. Portanto, a dor não pode ser vista como um mero sintoma e sim como um fenômeno que faz parte da história da pessoa. Esta história irá influenciar na percepção da dor e, ao mesmo tempo, será influenciada por ela.
A percepção da dor é um mecanismo complexo, determinado por muitos fatores, por influências ambientais e múltiplas variáveis psicológicas. É um sintoma individual e subjetivo que só pode ser compartilhado a partir do relato de quem a sente. Acreditar na queixa do paciente e reconhecer o efeito devastador que a dor possa ter sobre este e sua família são pontos fundamentais.
Segundo Calil (2003), a dor, reconhecida como uma das principais conseqüências do trauma e potencialmente prejudicial ao organismo, ainda não foi percebida como um tema prioritário no Brasil. Em decorrência, o paciente traumatizado que convive com a presença de dor moderada ou intensa, tem muitas vezes, sua dor relegada a um plano secundário.
Kovács (1997) afirma que a dor não é apenas uma sensação dolorosa e não está relacionada ao tamanho da lesão ou ao dano. Ela é a única manifestação que não tem medidor e deve ser medicada a partir da fala do paciente. Por isso é tão importante verificar qual é o significado que a pessoa atribui à dor e quanto de espaço ocupa na vida dela.
De acordo com Esslinger (2004) a dor pode ser Física (sensação dolorosa), Psíquica (medos, tristeza, raiva, revolta, insegurança, incerteza, depressão), Social (isolamento, rejeição, abandono, inutilidade, dependência, mudança de papéis) e Espiritual (sentido da vida e da morte, fé e conforto espiritual).
Na área jurídica, por exemplo, a dor tem um valor monetário alto e é inclusive atenuante de crime, porém, não se pode objetivar o subjetivo. Não há como discutir dor física e psíquica. Se o indivíduo relata dor, ela deve ser tratada.
Após o trauma a pessoa passa a ter um corpo com dor e perde sua autonomia e, até mesmo, sua privacidade ao depender de terceiros para procedimentos rotineiros de higiene e auto-preservação. Muitas vezes existem perdas ou ameaças de perdas de parte do rosto. Freud, em entrevista a Viereck, em 1926 afirmou:
Detesto meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção. (Souza, 2003, p. 263).
Souza (2003) afirma que a transformação do rosto em careta denomina a categoria do monstruoso que vai do terrível ao grotesco, revela nossa dificuldade de encarar a deformação do outro e nosso pavor diante do que consideramos monstruoso ao nosso olhar, provocando sofrimento naquele que possui a deformidade. Somando-se as perdas físicas reais às perdas sociais, psíquicas, financeiras, profissionais, além da perda de alguns sonhos, a pessoa sente-se tão acuada que é como sente-se não vivessente-se.
E esse não-viver, pode ser equivalente a morrer. Então surge uma situação paradoxal, em que a pessoa ‘está’ morta, mas ‘esqueceu’ de morrer: [...] morte em vida [...] morte como ausência, perda, separação, e a conseqüente vivência de aniquilação e desamparo. (Kovács, 1992, p.3).
Em Cardozo (v. II, 1993) encontram-se depoimentos que citam o descuido, descaso, desrespeito, aflições e perdas que são enfrentados pelos pacientes no tratamento pós-acidente.
Estes relatam que não obtém informações adequadas sobre o que aconteceu e sobre a gravidade dos ferimentos. Assustam-se com as reações de espanto das pessoas e, principalmente, com o fato de não serem reconhecidos por amigos e/ou familiares.
Atingido no capacete pela carroceria do caminhão, foi atirado para o outro lado da pista [...] O motorista do caminhão evadiu-se. [...] Pediu socorro aos veículos que passavam [...] mas nenhum parou [...] um policial de trânsito [...] parou para socorrê-lo e, apesar de se conhecerem, não reconheceu o entrevistado dada à extensão dos ferimentos faciais... (Policial militar – 24 anos, In Cardozo, 1993, v. II, p. 248).
Os contatos que tive com alguns pacientes me permitiram perceber a angústia e tristeza que sentem e a busca pela aparência anterior ao trauma. Nota-se uma espécie de luto pela aparência e identidade perdidas que necessitam ser conscientemente identificadas, vividas e reestruturadas, para que estas pessoas possam continuar suas vidas com qualidade a partir do acidente, no qual, em segundos, tiveram suas vidas completamente desorganizadas em virtude, também, de sua face desfigurada.
Trata-se da dor subjetiva, citada por Esslinger (2003), em que o ponto de avaliação de sua dimensão encontra-se somente no próprio paciente e seu processo. Ele necessita que sua dor seja reconhecida, compreendida e respeitada.
Estes pacientes passam a viver a dúvida e a ausência de si mesmos e, somado ao momento em que vêem sua imagem no espelho, sentem a aniquilação, o desamparo e, conseqüentemente: medo! Como pode ser observado nos depoimentos colhidos por Cardozo (1993, v. II):
Quando já estava internada no hospital da capital (aproximadamente cinco dias depois do acidente), o marido deu-lhe um espelho para que pudesse ver como estava o seu rosto. A imagem refletida no espelho não se parecia com ela. Naquele instante, sentiu medo de que seu rosto não voltasse mais a ser como era. (dona de casa e agricultora, 45 anos, p. 256).
Olhou-se no espelho pela primeira vez, dois dias depois quando foi tomar banho. [...] Ficou chocada. O olho todo roxo, caído, a boca torta. O lado esquerdo, todo afundado e caído em direção ao ombro. Parecia um monstrinho. Sentiu-se muito triste e com muito medo [...]
Afirmou que, nesse momento, iniciou-se a sensação de pesadelo. (empresária, 26 anos, p.
262).
Considerando estes depoimentos durante a experiência de internação, compartilho o pensamento da eficácia simbólica, discutido por Lévi-Strauss (1975).
A partir do momento em que o indivíduo torna-se consciente de ser um objeto de malefício - neste caso, doente, muitas vezes, transfigurado de forma irreparável e, temporariamente dependente de cuidados – acaba persuadido pelo próprio grupo (parentes,
amigos e equipe de saúde) de que está condenado, privado de seus elos familiares e sociais e excluído das suas atividades e funções que possibilitavam o seu sentimento de pertencimento.
O enfeitiçado (paciente) cede à ação combinada do intenso terror que experimenta, da retirada súbita e total dos múltiplos sistemas de referência fornecidos pela convivência do grupo [...]
de vivo, sujeito de direitos e de obrigações, é proclamado morto, objeto de temores, de ritos e proibições. A integridade física não resiste à dissolução da personalidade social. (Lèvy-Strauss, 1975, p. 194)
Nestes e tantos outros motivos, encontra-se a necessidade da busca de respostas às perguntas que surgem como base para discussão sobre um atendimento de melhor qualidade para este paciente, que de pessoa passa a ser denominado como vítima. Assim, torna-se vítima não só do acidente que sofreu (feitiço?), mas também, vítima do sistema de saúde e daqueles que deveriam ser seus cuidadores (feiticeiros) e, conseqüentemente, vítimas dos tratamentos e prognósticos (magias). Enfim, vítimas do acaso, do caso e do descaso!
Resgatando o pensamento de Esslinger (2003), estas pessoas necessitam de alguém que possa estar com elas na dor, escutando e acolhendo suas dúvidas, anseios, angústias e esperanças. O paciente precisa dar um significado para sua experiência e se apropriar de seu processo de dor, perdas e luto. O profissional de saúde não pode subestimar a percepção que o paciente tem de sua doença.
Kobayashi (2003) aponta que a escuta cuidadosa das queixas dos pacientes possibilita a localização do ponto gatilho psíquico e o tratamento adequado da dor total.
O ponto do gatilho psíquico talvez possa ser encontrado naquilo que Fonseca (2004, p.
204) chama de o instante em que falta a imagem de si. Entre o estranho e o familiar, o indivíduo se sente desamparado diante de si mesmo. A imagem real se encontra entre o Belo e o Horrível e deixa o eu despojado de suas defesas. Se faltar a imagem íntima que poderia retratar a pessoa, sua incompletude se torna evidente e ela é invadida pelo sentimento de angústia.
Assim, considero a dor como um verdadeiro espectro, um fantasma que assusta o corpo e a alma, povoa o pensamento e se constitui numa ameaça à integridade física e mental.
Por outro lado, também abre possibilidades e permite mudanças positivas no rumo da vida destas pessoas e na vida daqueles que se dispõe a ouvir, acolher, buscar significado e, talvez, soluções...
“A dor física produz sensações; o sofrimento moral produz sentimentos. No sensório íntimo, sensação e sentimento confundem-se e são uma só e mesma coisa.”
(Leon Denis)