______PEDAÇOS PERDIDOS PELO
“Oh! Pedaço de mim Oh! Metade afastada de mim Leva o teu olhar que a saudade É o pior tormento É pior do que se entrevar [...] Oh! Metade exilada de mim Leva os teus sinais [...] Oh! Metade amputada de mim Leva o que há de ti Que a saudade dói latejada É assim como uma fisgada De um membro que eu já perdi.”.
(Chico Buarque)
Apresentar recortes dos depoimentos pode parecer simples, mas, no meu entender, este é o momento mais delicado do trabalho. Delicado porque os recortes foram feitos dos trechos que sobressaíram à minha leitura. Corro o risco de colocar tintas mais fortes ou mais fracas em imagens que, talvez, para os colaboradores fossem diferentes. Mais ainda, tenho a pretensão de ver, sentir e trazer à tona o significado de cada palavra, cada recorte. Neste momento, tenho medo de não fazer jus aos meus colaboradores.
Procuro amparo em Esslinger (2003, p. 64) quando fala da importância de se buscar o único, o humano nos fenômenos observados, uma vez que na pesquisa qualitativa se estabelece uma relação sujeito/sujeito constituindo mutuamente pesquisador e pesquisado, constituindo ainda o próprio objeto de investigação.
A dimensão objetiva existe, entretanto não é exclusiva: há um olhar para a relação e o envolvimento não é evitado, mas sim assumido. Fica claro que nesta abordagem o pesquisador é parte presente da pesquisa, sendo que seu referencial teórico-técnico e seu sistema de crenças e valores estarão o tempo inteiro presentes.
Fortalecida para seguir adiante, sempre com a lembrança forte de Lígia Amaral (1987, 1994) que apontava para a importância de se olhar à diferença não como se fosse, mas sendo, penso que todos nós temos alguma diferença que desejamos não ver, mudar e/ou esconder. É
importante lembrar o sendo quando dirigimos nosso olhar para os depoimentos (anexo 3 - CD) e para os recortes que deles foram retirados e estão, aqui, transcritos.
Nos relatos dos colaboradores da pesquisa foram utilizados os seguintes símbolos:
¾ P - pesquisador
¾ E - entrevistado
¾ TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
¾ ... - entrevistado faz pausa.
¾ [...] - frase ou palavra cortada pelo Pesquisador.
¾ ( ) - esclarecimento da palavra ocultada
¾ #*#* - palavrão
RICARDO - Foram dois tiros: do bandido e do hospital
Não fui mal atendido (no primeiro atendimento). É uma equipe que me catou de buco e, o estrago foi meio feio na boca (refere-se ao ferimento provocado pela bala) e eles não souberam o que fazer na hora [...] Primeiro tentaram salvar minha vida, que é o principal.
Conseguiram. Mas na hora de começar, como eu estava fora de perigo, eles deviam ter mais calma [...] era uma equipe, não sei, acho que era de residentes que atendiam na época, o estrago foi meio grande, quer dizer, foram dois tiros: o do bandido e do hospital, depois. [...]
eles mexeram errado. [...] arrancou assoalho da língua, arrancou tudo.
Ricardo percebe duas mortes. A primeira, quando de seu atendimento emergencial, no qual a equipe de saúde que o atendeu e salvou sua vida, colocou-a novamente em risco por procedimentos inadequados. Além de levá-lo à nova cirurgia em que chegou ao coma, não permitiu que seu rosto tivesse a recuperação que era possível, e colaborou ainda mais com a piora da estética facial.
Quando eu tomei esse tiro [...] eu estava [...] dirigindo um carro legal, [...] dois motoqueiros, me pararam no farol, colocou uma arma nove milímetros, com bala dum-dum, colocou no meu pescoço e mandou eu descer. [...] A hora que eu fui destravar a porta, acho que ele pensou que eu ia reagir e ele apertou e atirou [...] Mudou tudo [...] a realidade é essa. [...]
Tenho vergonha da minha aparência, que eu era um cara vaidoso. Um dia antes de tomar o tiro eu tinha saído do dentista. Fiz limpeza na boca [...] era vaidoso.
A segunda, quando levou o tiro e correu risco de vida e, em seguida, vencendo a morte concreta, morreu para a vida que levava até o dia do assalto.
Quando eu era pequeno, [...] a professora falava: “faz uma redação do que você vai ser quando crescer”, [...] eu falava que queria ser médico para ajudar as pessoas, [...] mas nunca pensei em ser médico e nem imaginei. [...] O médico para você é que nem Deus. [...]
Qualquer pessoa de branco que você vê, é um médico, é Deus. É enfermeira e até faxineira que estivesse de branco, você queria pegar ela e falar: me ajuda! [...] Hoje a gente sabe o
valor que tem [...] uma profissão. Pelo menos de médico [...] profissão legal, linda. [...] A única coisa que eu me apeguei foi só em Deus e nos médicos.
Ricardo inicia sua entrevista enfatizando que sempre valorizou a profissão de médico, tanto, que não percebe – ainda hoje - que seu tratamento não é realizado por médicos, mas sim por cirurgiões-dentistas. Aliás, segundo ele, qualquer pessoa de branco dentro do hospital, é vista como médico, portanto, aquele que tem o conhecimento e pode salvar vidas, de onde deriva a comparação da figura do médico com Deus.
Primeiro tentaram salvar minha vida, que é o principal. Conseguiram. Mas na hora de começar, como eu estava fora de perigo, eles deviam ter mais calma [..]. Ela (médica que prestou primeiros atendimentos) [...] falou: “Ó (nome), eu não sei o que eu vou fazer com você cara, está tudo estourado aí”. Então, escrevi num papel: “então me leva para outro hospital”. [...] Eu peguei médico que ficou brincando comigo, tipo assim: ‘Isso aí vai ficar legal. Daqui um mês a gente vai comer churrasco’. Mas eu vi que [...] não sabia o que ele ia fazer. Eu achava melhor falar: ‘[...] vou te entregar em outra equipe, [...] se você ficar aqui vai ser pior para você. ’. Tem hora que tem que jogar limpo, falar a verdade, que às vezes, você acha que você está ajudando, você está prejudicando a pessoa. [...] Eu agradeço muito, muito todos os médicos que me ajudaram..
A mesma figura que é comparada a Deus também comete erros, prejudica e leva a vítima de trauma a ser também, vítima da iatrogenia. Ricardo sente-se indignado com a falta de atenção à sua necessidade. Parece difícil compreender que aquele que escolhe uma profissão que cuida de pessoas, possa esquecer-se do seu principal objetivo: o Ser e seu Dasein (seu “ser-aí-no-mundo”).
Seis meses mais ou menos sentindo dor, com infecção, saindo secreção pela garganta. Estava feio o negócio. Eu tinha infecção por causa do osso, por causa do erro deles. Pô, essa infecção não sumia, não sumia, comecei procurar vários médicos e ninguém queria pegar meu caso. [...] um dia eu fui no consultório do (nome), [...] e ele falou para mim: ‘Teu caso meu, é sério, mas dá para resolver’. Graças a ele, ele me arrumou uma vaga no (nome do 2º hospital). [...] Beleza! Já fizeram a limpeza e eu comecei a ficar animado. Até psicologicamente você se anima [...] Aqui [...] sabiam o que iam fazer e, lá não. [...] fiquei uns 40-50 dias sem tomar água. Eles descobriram que eu podia tomar água depois. Olha o hospital que eu estava! [...] Joguei água com seringa na garganta. Até o lábio estava ressecado e eu só rezava para tomar água. [...] Quando eu cheguei aqui no HC [...] era totalmente diferente. [...] Eu quero agradecer todos os médicos que me ajudaram, [...] a equipe das pessoas que me socorreram.
Por conta dessa falta de cuidado, ele é grato àqueles que olharam para ele, viram, perceberam, entenderam e lhe ofereceram tratamento. Ricardo deposita credibilidade nos profissionais que, segundo ele, o ajudaram. Em minha opinião: excelentes profissionais à
medida que cuidam de corpos e almas. Enquanto isso, a outra equipe fica desacreditada e, o resultado final é que, para essa pessoa, uma instituição hospitalar é ruim enquanto a outra é ótima. Essa é a informação que o paciente passará para frente. Quando resolveu procurar por outro profissional, Ricardo demorou aproximadamente seis meses para encontrar alguém que aceitasse cuidar dele, o que só aumenta a angústia.
Quando eu estava com processo infeccioso, eles me davam antibiótico [...] até que [...]
falaram: ‘infelizmente, não sei o que vou fazer’. [...] foi a hora que eu tive que correr. [...]
Hoje eu vejo a importância do ser humano com o outro. [...] Quantas vezes eu chorei para um médico, pedi pelo amor de Deus para ele me ajudar, para ele não mentir para mim. Se eu ia ficar bom, se não. Então, o médico, nessa hora é muito importante, você coloca toda sua vida na mão dele.
Em sua fala, Ricardo também traz à tona a importância do envolvimento na relação profissional-paciente. Pela falta deste é que se prejudica o outro.
Eu queria arrumar minha boca, ficar legal. Precisava de um médico legal [...] comecei a correr [...]. Mas se eu tivesse grana hoje, para fazer num particular, eu já teria feito. Só que o médico falou assim: ‘Não faz, não. Fica aqui!’. Ele falou que eu já estaria legal, mas eu vou ficar aqui, vou esperar. Não é pelo dinheiro não, é pela competência dos médicos aqui. Eles foram legais comigo!
Ricardo deixa clara a relação de confiança que se estabelece quando há cuidado, passando pelo sentimento de desespero quando ninguém quer pegar o seu caso. Ser acolhido é compreendido como a possibilidade de retornar a viver e a pessoa que acolhe passa a ser percebida como a ponte para essa nova possibilidade de vida.
As pessoas que estão estudando medicina [...]: não queira ser médico por causa de um jaleco ou [...] de uma posição social [...] seja médico de coração [...] senão, não seja não cara;
porque quando uma pessoa está num leito [...] quando olha para cima, vê o médico, [...] O médico, nessa hora é muito importante. [...] Você coloca toda sua vida na mão dele. Quer dizer, primeiro na mão de Deus e que o médico seja o instrumento para ele te ajudar. [...]
Tem médico que às vezes brinca de ser médico. Eu vi muito isso [...] Vocês que estão estudando medicina aí, façam o que vocês têm que fazer porque vocês estão tendo um dom de Deus, um privilégio de ajudar as pessoas. Eu agradeço muito, muito todos os médicos que me ajudaram.
Em sua indignação, acaba fazendo um apelo aos médicos quando fala sobre a pessoa que está no leito. Ricardo fez uma distinção relevante sobre profissionais de saúde para reflexão: médico do jaleco ≠ médico do coração.
Era [...] uma bela manhã ensolarada, acordei 8h da manhã, abri a janela, com depressão, olhei para o céu e pedi para Deus, naquele dia, que eu não queria mais viver. A minha mulher estava atrás de mim e falou: [nome] ‘não faz isso não porque isso é perigoso’ [...] quando foi uma hora da tarde eu tomei um tiro na boca. [...] Então o que você pede você recebe.
No dia que sofreu o assalto, depressivo, desejou morrer e, mesmo sem cometer suicídio é como se tivesse morrido e o que aconteceu é que retomou a vida. “Com esse tiro que eu tomei, mudou totalmente minha vida. Lógico, não só material, como espiritualmente”.
Há ainda a sensação de ser responsável uma vez que pediu para morrer (pensamento mágico).
Sei lá o que aconteceu, [...] saí dirigindo o carro. Aí eu só escutei o barulho da bala; não senti dor nenhuma, só aquele zunido da bala. Peguei o carro e fui tentar me socorrer até no hospital, falei: “legal, o cara errou o tiro”, [...] [...] eu vi a minha mão [...] espirrando sangue e falei: ‘Ué, será que acertou?’ Eu abaixei o retrovisor, olhei [...] falei: ‘acho que pegou’. [...] fui tentando ir até o hospital e pedindo ajuda, ninguém quis me socorrer porque eu estava sangrando. O pessoal ficou com medo.
Desde o instante em que foi abordado pelos assaltantes até o atendimento médico, descreve a sensação onírica de que, independente do período de tempo transcorrido, a percepção daquele que vive a angústia é de estar anestesiado e tudo acontece em câmera lenta, portanto interminável, e, ao mesmo tempo, rápido demais para que seja possível ter consciência das próprias ações. O tempo parece ter dimensões elásticas: ‘foi jogo rápido, questão de 1, 2 minutos no máximo. Quer dizer, aquele revólver na sua boca, parecia um ano”.
A iminência de morte parece ser hipnótica, pois ele não percebeu que levou um tiro:
“eu não senti nada [...] estava com a mão no volante [...] e vi minha mão vermelha [...] vi que minha boca estava toda estourada por dentro.”.
Eu estava dentro do hospital já. Só para garantir o atendimento. Eu escrevi no papel: “eu tenho convênio médico”, hã, como se, né (faz sinal mostrando que não adianta nada) aí tudo bem, me levaram para um lugar, cortaram minha roupa, tudo.
O medo se mistura aos vários outros sentimentos que vão aflorando à medida que vai se dando conta do seu ferimento e possíveis conseqüências. Ao mesmo tempo, age como autômato em busca de socorro e de um bom atendimento para garantir a vida: “Peguei o telefone já dei para o médico [...] ligar para minha casa. Escrevi num papel, [...] que eu
tinha convênio, para não me levarem para um hospital ruim”. Parece ser um sentimento comum de que o convênio ou o pagamento pode livrar a pessoa de um hospital ruim. Fica a pergunta: O que é um hospital ruim? Esse conceito parece estar ligado ao atendimento público, visto como gratuito.
Pedindo água, água [...] e eu escrevendo no papel: ‘me ajuda, me ajuda. Não deixa eu morrer, eu tenho filho’. [...] Pedi pelo amor de Deus para não deixar eu morrer. [...] Minha língua começou enrolar. [...] a primeira coisa que você pensa na hora que você vai morrer [...] é que você quer voltar, conversar com a sua mulher, pedir perdão para seu filho, [...] para os seus amigos e, você quer voltar, voltar e você não quer morrer. Você fica pedindo [...]: Deus me dá mais meio dia, uma hora de vida para eu chamar as pessoas que eu gosto para pedir perdão.
Apesar do pedido para morrer, no confronto com a morte emerge o desejo de viver: e Ricardo passa a lutar contra a morte. Frente à morte, sente necessidade de tempo para pedir perdão para familiares e amigos.
Fui tentando ir até o hospital e pedindo ajuda. Ninguém quis me socorrer porque eu estava sangrando. O pessoal ficou com medo [...] comecei a pedir ajuda na rua, ninguém ajudou [...]
comecei a dirigir, buzinando na rua, ninguém socorria. Eu dava farol alto, buzinava. [...] até que [...] uma mulher me mandou encostar o carro, eu desci do carro, estava sangrando muito, não conseguia mais dirigir. Essa mulher me pegou, me levou para o hospital. Cheguei no hospital andando, cambaleando. O guarda não queria que eu colocasse a mão nele para não sujar de sangue.
Ricardo ainda foi vítima do medo que as pessoas, também, têm da morte e de estar envolvidas com a morte do outro, o que nos torna insensíveis, mas não alheios, ao sofrimento do outro.
Eu estava dentro do hospital [...] morrendo de sede, só queria tomar água, água, porque depois do tiro dá sede, [...]. Comecei ficar preocupado quando os médicos falaram para mim que não sabiam o que iam fazer comigo. Que a bala era dum-dum e estourou muito, que afetou muito [...] eu não conseguia falar e comecei escrever. Pedi para minha mulher me tirar daquele hospital, me levar para um lugar mais legal [...]: eu quero sair daqui. Os médicos não sabem o que vão fazer comigo. [...] a pessoa que me socorreu na hora, a chefe da equipe da buco, ela não sabia realmente o que fazer. Aí, acho que por ética deles, eles não chamavam nem um médico para ajudar, entendeu? Acho que: ‘não, eu peguei, vou até o final’. Nesse vou até o final aí, ela me ferrou. [...] Fiquei uns 40-50 dias sem tomar água.
Eles descobriram que eu podia tomar água depois. Olha o hospital que eu estava!
Vítima também do descaso de todas as coisas, desde a mais simples a mais complicada (como não ser informado que não pode tomar água; não saber qual o tratamento adequado) e que, para o paciente, têm a mesma importância. O medo de não ser atendido à altura de sua
necessidade, faz com que avise imediatamente que tem convênio médico (sobrevivência) e sente que não faz diferença. Emerge a sensação de impotência, de estar nas mãos do outro, o
“eu-aqui-agora-doente”...
Na verdade Ricardo está se referindo a falta de ética. Aqui parece haver uma preocupação com o próprio nome uma vez que passar para outra equipe, que possa fazer o melhor pelo paciente (princípio de beneficência), oferecendo-lhe aquilo que é de direito dele (princípio de justiça), pode denunciar falta de competência ou, quem sabe, a imperícia e a imprudência.
Quando eu estava com o processo infeccioso, eles me davam antibiótico, aí não ia, não ia, até que chegou uma hora, eles falaram para mim: ‘Infelizmente, eu não sei o que vou fazer’. Aí, foi a hora que eu tive que correr. Eu corri risco de perder o enxerto, que perdeu realmente, jogou fora! [...] um dia eu liguei para ela (médica responsável pelo primeiro atendimento), de casa, à noite, chorando, quando eu comecei a falar, para ela me ajudar... Aí ela falou: ‘Ah (Ricardo) carrega a sua cruz!’. Falou isso mesmo, de verdade, não é mentira não.
Tanto dentro do hospital, como depois já em casa, Ricardo sente o abandono daqueles que deveriam cuidar dele, que deveriam “ser-com-o-paciente”. Este abandono provoca um processo de perdas. Ricardo chegou a perder um enxerto por falta de cuidado dos profissionais que o atenderam. Além da falta de ética, há também uma total falta de respeito, ou será que estas duas faltas estão imbricadas?
Ao dizer para Ricardo que ele carregasse a sua cruz, a médica (que pode também ser uma dentista) deixa claro que não está junto com ele, que seu sofrimento é solitário e ela não quer compartilhar. O “ser-doente” é abandonado porque os profissionais não fizeram o seu trabalho com-paixão.
Eu comecei sentir vontade de tomar água. [...] Chorava muito. Queria água, água. [...]
Quando eu saí do hospital assim, ó, a minha mulher começou fazer comida, subia aquele cheiro de comida assim, no quarto, aí eu fechava a porta; e quando eu via alguém tomar água! Nossa! Fiquei uns 40-50 dias sem tomar água. [...] Minha família fazia churrasco e eu estava com a boca amarrada, cheia de arame, [...] eles colocavam eu para jogar água no churrasco. [...] Eu não queria que a vontade me dominasse. Eu queria dominar a vontade.
[...] Ficava na churrasqueira olhando [...] e quando foi indo, [...] você supera.
Ao recobrar a consciência, imediatamente se dá conta das restrições à que fora submetido: “fizeram um processo que eu não podia tomar água, nem comer. Eles amarraram minha boca com uns arames.”.
A limitação da boca amarrada costuma ser um grande susto para quem sofre trauma facial e não tem a menor idéia de que esse tipo de contenção faça parte do tratamento e resta a ele acostumar-se com essa convivência e superar. Qual o preço psíquico para superar essa tortura?
Não poder beber ou comer é tão técnico que profissionais, amigos e familiares só conseguem ver o benefício do uso da contenção. De modo geral, o sofrimento por sentir o cheiro da comida e não poder comer é banalizado e não há escuta para essa dor e privação.
Aos poucos, durante o período de internação, vai se conscientizando do sofrimento que se inicia, tanto físico quanto psíquico e de sua impotência tanto para dirimir o próprio sofrimento quanto o do outro. Não pode nem beber água e vai vivenciando várias “mortes”:
O sofrimento maior é a vontade de beber água, vontade de comer. [...] Sabe um sofrimento muito ruim também? É a mãe e o pai. O sofrimento de um pai, duma mãe vendo o filho numa cama, [...] É horrível! Mexe com a gente. [...] eu vi meu pai chorando, minha mãe chorando [...] você sente uma dor [...] passa um médico dá vontade de pedir para falar para o meu pai que eu vou ficar legal daqui um mês.
Assistir o sofrimento dos familiares sem poder fazer nada também aumenta o sofrimento daquele que está doente e isso, também não é considerado pelas pessoas que cuidam.
A dor era muita, a dor material, a dor espiritual, nossa, muita. [...] Doía bastante na hora que o médico ia mexer, na hora de tirar um ponto, na hora de colocar a sonda, tirar a sonda. [...]
Agora a única coisa que eu sinto é só o lábio que queima direto, dia e noite. Queima, arde [...]
as dores, é assim, acabou o efeito do remédio, vem a dor. Tomava outro, aí pára a dor. [...]
Não reparo que a boca desloca. Sinto só dor nos lábios e dificuldade de falar porque a língua não sai para fora. A alimentação é bem devagarzinho, como de tudo mais ou menos, tem que comer devagar. Só sobrou um dente.
O trauma submete Ricardo ao contato com as várias dores e, algumas delas, tornaram-se crônicas, obrigando-o a conviver com elas para tornaram-sempre.
Cônscio, resigna-se não só com a intensidade da dor, mas também com a constância.
Olha, é que nem carro. O carro [...] tem contagiro [...] aquele botão que vai no vermelho, no 10. A dor, ah, pode ter certeza, chega no dez! Chega no último. [...] A ardência [...] o médico falou [...] que não vai sarar. Vai ser para sempre. Tem que habituar [...] na hora que você passa a língua, a saliva é salgada, arde muito, muito. Arde p’ra caramba! [...] só tem um jeito de eu sarar, é eu tentar, como se fosse uma parte do meu corpo [...] tem que conviver com isso.
[...] cada vez que retorna da cirurgia [...] a dor é normal.
Normal?
Uma vez eu fui encher o pneu do carro, mandei colocar 30 libras, só que o trinta não saía minha língua estava presa e saía ‘l’, igual à cebolinha: ‘Quanto?’, ‘Tlinta!’, ‘Quanto?’,
‘Tlinta!’, ‘Quanto?’, ‘Tlinta!’, ‘Moço, quanto você quer que coloca?’, ‘29’ (risos) Aí, você vai improvisando. Você vai brincando com a situação. Na realidade é o seguinte: no final das contas você tem que brincar com a situação. Isso dói. [...] São várias coisas, situações que eu passei que é um absurdo [...] Uma vez [...] ressecou todo meu intestino, eu fiquei, uma cena muito louca. Fiquei no banheiro, um enfermeiro do meu lado rezando o Pai-Nosso [...] Eu e ele rezando para eu fazer cocô. De tanta dor, [...] Vários tipos de dor [...] Não é só a boca.
Afeta seu corpo inteiro, você fica parado. [...] A perna também, depois que eu arranquei o osso, fiquei mancando. Aí tem mais um apelido: [...] tua perna é uma pequena e uma grande [...] ta fundo, ta raso, ponto e vírgula.
Somadas às dores físicas, as humilhações são complementares, mas não menos intensas ou importantes. Delas, surge o sentimento de vergonha.
Ficava na cama direto [...] peguei uma bacia, a saliva caia na bacia [...] a saliva caindo, perdendo e ressecava a garganta. Ficava salivando que nem louco, segurando a boca. [...] Na hora de dormir, virava, segurava a boca, depois da boca, segurava a sonda, depois da sonda, segurava outras coisas que tinha no corpo. Olha Nossa Senhora! É um absurdo cara! Foi sofrimento.
O tão aguardado retorno para casa, mesmo sendo um alento, não mitiga o sofrimento.
A restrição pela boca amarrada não elimina, nem diminui o desejo de comer.
Já tentei me matar depois que eu tomei o tiro [...] Tomei um monte de (nome de remédio) [...]
Estou mal, estou sofrendo, #*#*, querendo comer, querendo beber, isso é um absurdo! [...]
Tomei um monte de (nome do remédio) em casa. Foi uma loucura, uma #*#* na minha vida.
Eu fiquei mal, com depressão.
A soma das dores o leva à depressão e novamente ao desejo de morrer. Se na primeira vez houve um desejo sem ato e o acidente pôde expiar sua culpa, agora esse desejo de morrer vem acompanhado do ato: Há a tentativa de suicídio.
Eu não tinha boca! Eu não falava, não comia, eu não bebia água. Eu tomava água com seringa, que nem passarinho, com mamadeira [...] eu usei fralda, passei batom, tomei mamadeira. Passei batom porque meu lábio queima direto, até hoje e, no desespero, você passa qualquer coisa para ver se melhora. Fralda porque eu não podia andar; mamadeira porque eu não podia comer. Quer dizer, fiz regressão, forçada.
Deixar de ser a pessoa que era antes do trauma é uma condição estranha e envolve um (re) conhecimento de si mesmo. O encontro com o self é dificultado pela lembrança do rosto que tinha. O confronto com a realidade trágica, com o rosto que tem e, principalmente, pela sensação do que não tem - “eu não tinha boca” – é agravado pelo estado em que se encontra que o obriga a entrar em processo de regressão. Esta regressão – não poder beber água, usar coisas de mulher (batom) – somadas à necessidade de cuidados, é muito difícil e gera a sensação de impotência, a impressão de ser um estranho para si.
Começaram tirar vestígios de bala, só. Aí foi o erro deles [...] Fizeram por dentro. [...] Só que eles fizeram um processo assim, muito rápido [...] o erro foi esse. Eles tinham que fazer uma limpeza cirúrgica e depois colocar esse osso. Foi aonde que deu infecção (baixa a voz) generalizou. [...] começou a prejudicar tudo e eles erraram bastante coisa. [...] mexeram errado [...] Eu acho também que arrancou o assoalho da língua, arrancou tudo. [...] a pessoa que me socorreu na hora, a chefe da equipe da buco, ela não sabia realmente o que fazer. [...]
Eu tinha infecção por causa do osso, por causa do erro deles,essa infecção não sumia, não sumia. [...] Demorou uns seis meses mais ou menos (até chegar ao HC). Sentindo dor, com infecção, saindo secreção pela garganta. Estava feio o negócio. [...] Não tenho nenhuma sensibilidade na mandíbula, nenhuma, perdi toda.
Na voz de Ricardo pude perceber dor, desespero e solidão daquele que é vítima do erro médico e, mesmo assim, sente-se na obrigação de ser grato, pois, de uma forma ou de outra, teve sua vida salva pelos mesmos agressores. Sente-se – e é! - vítima da imperícia, imprudência e da negligência quando diz que a pessoa (médica) não sabia o que fazer, e não pediu ajuda a outros profissionais e “nesse vou até o final aí ela me ferrou”.
Eu paguei a placa que o convênio médico não queria cobrir. Eu tive que vender carro, um monte de coisa para pagar uma placa. Na época eram R$ 5.000,00 que eles cobraram. [...] É o esquema! (faz gesto de submissão). [...] Nessa hora você nem pensa no dinheiro, você pensa em ficar legal. Comprei uma placa de R$ 5.000,00 e falei: ‘legal, agora vou ficar legal'.
Colocaram a placa, deu infecção, jogaram a placa fora. Falei: ‘Ah, tudo bem!’.
Ricardo não foi vítima somente do descaso, mas também da cobiça, em suas palavras
“do esquema”. Em seu prontuário constava que dirigia um bom carro e, quando deu entrada no hospital estava bem vestido; Estes dados somados a outros sinais levaram a equipe a considerar que se tratava de um paciente diferenciado (aquele que pode pagar) e lhe cobraram