2.3 A MUSEOLOGIA E OS MUSEÓLOGOS
2.3.4 O Estado e os museus: algumas considerações
Bruhns (2005), ao utilizar a teoria dos Aparelhos Ideológicos de Estado, de Louis Althusser, aponta que “os museus agem como aparelhos/instrumentos que decodificam e recodificam a ideologia do Estado para o público/comunidade, utilizando-se da expografia/discursos museológicos para perpetuarem determinada realidade” (BRUHNS,
2005, p. 179). As instituições museais podem construir discursos políticos revelados nas exposições museológicas e também nas ações educativas.
O Aparelho Ideológico de Estado é uma forma de manipulação no campo simbólico, manifesta, principalmente, nas escolas, na família, nos sindicatos, nos partidos políticos e nas instituições culturais (BRUHNS, 2005). Alguns Governos identificam os museus como espaços eficazes para reprodução, legitimação de ações e de ideologias políticas, sociais e culturais. Vários museus dedicaram-se à dominação ideológica e “à instauração e à reificação mítica de personagens políticos - e em todos os casos, este movimento se apóia na presença de objetos icônicos, apresentados como catalisadores da força mítica dos personagens” (SCHEINER, 2008, p. 63). No Brasil, os laços estreitos entre museus, Estado e classes privilegiadas favorecem o surgimento de museus alheios ao exercício de funções sociais (CHAGAS, 1999). Em outro sentido, nesta era global, os Governos podem explorar os museus – bem como, as políticas, os órgãos e as demais instituições – como instrumento de inclusão social e de valorização do patrimônio local (BRUHNS, 2005). Deste modo, “os museus podem ser espaços celebrativos da memória do poder ou equipamentos interessados em trabalhar democraticamente com o poder da memória” (CHAGAS, 1999, p. 20). Embora tenha todo este potencial, os museus ocupam papel secundário nas ações e políticas de Governo (MORAES, 2009).
No Brasil, os museus relacionam-se com o Estado por meio de ações e políticas governamentais (MORAES; SOUZA, 2013). A Museologia, enquanto área de formação dos Museólogos, também se relaciona de forma dependente aos Governos e ao Estado, conforme explicado por Damasceno (2015, p. 7):
Historicamente, os museus brasileiros estão ligados ao Estado, ao passo e, que, as políticas de governo incidem diretamente sobre a categoria profissional. Seu ofício está vinculado, também, a ministérios que possuem menos “peso” na estrutura política-econômica do país e que, ao menor sinal de crise, tornam-se prioridade nos cortes orçamentários.
Por isso, não é exagero dizer que a Museologia brasileira, enquanto campo, está historicamente entrelaçada com o Estado, em face dos governos federais, estaduais e municipais deste país [...] (DAMASCENO, 2015, p. 7).
No século XIX, houve a formação de importantes museus brasileiros, os quais foram utilizados como meios de ensino da história oficial que se desejava divulgar e “isso deve-se ao fato de que suas equipes organizadoras eram compostas pelos historiadores de maior prestígio do IHGB (Instituto Histórico Geográfico Brasileiro) e que, além disso, também exerciam a função de conservadores de museus” (MACHADO, 2010, p. 139). Mas, somente no século XX, as instituições museais brasileiras se desenvolveram (MORAES; SOUZA, 2013) e foi criado o primeiro museu histórico brasileiro, o Museu Histórico Nacional (1922). Nas políticas culturais do país, os museus históricos receberam destaque:
O surgimento dos museus históricos, atrelados às conveniências políticas, foi uma constante na formação cultural do Brasil. Sabemos que a relação
entre o Estado e os museus nacionais, ao longo dos anos, suscita uma série de indagações que perpassa desde o ideal de se criar uma identidade para a nação brasileira, até a visão pessoal de cada colaborador do governo para a criação de museus que buscam celebrar a nação (MACHADO, 2010, p. 137).
Na década de 1920, “a temática do patrimônio começa a ser considerada politicamente relevante, implicando no envolvimento do Estado” (MACHADO, 2010, p. 141). A criação do SPHAN, em 1937, ratificou “a atitude de organização de nossa memória num sistema conceitual que refletiria a ideologia vigente, ou seja, implementaria oficialmente a criação de instituições voltadas à preservação de bens culturais evocativos da história nacional” (MACHADO, 2010, p. 142). O patrimônio e o monumento histórico passam, a partir daí, a ser utilizados pelo Estado, através de legislação própria, para construir uma memória e uma identidade nacional.
As transformações nos museus brasileiros, ocorridas nas décadas de 1940 e 1950, ficaram conhecidas como anos dourados (RANGEL, 201136 apud MORAES; SOUZA, 2013). Todavia, neste período, os museus foram dirigidos por escritores, historiadores, jornalistas, críticos de arte, entre outros, sendo que estes intelectuais diversos não tinham formação em Museologia. Tal situação demonstrou “o entendimento do profissional como conservador de museus, mais ligado às técnicas e menos à produção intelectual” (MORAES; SOUZA, 2013, p. 13-14) na área de Museologia. Especificamente sobre a História na construção do campo museal brasileiro e o papel dos Historiadores, Moraes e Souza (2013, p. 6) explicam:
A História e os profissionais de História estiveram presentes no cotidiano dos museus, discutiram seus sentidos e “missões”, ajudaram a produzir uma situação e um modelo de museu no Brasil, principalmente de museus públicos. Esta intervenção, que ao longo do século XX incorpora outros saberes e modos de compreensão, é própria a um momento histórico e cultural em que o nacional, as identidades regionais e as memórias sociais foram reclamados e serviram para mobilizar diversos grupos e projetos em diferentes ambientes e demandas (MORAES; SOUZA, 2013, p. 6).
Atualmente, o IPHAN e o Ministério da Cultura são importantes atores na formulação e implementação de políticas museais. Estes órgãos participaram da criação da Política Nacional de Museus, do Departamento de Museus e Centros Culturais do IPHAN (DEMU/IPHAN), do Sistema Brasileiro de Museus, da Semana de Museus (em maio), do Dia Nacional do Museólogo (18 de dezembro), além de investirem recursos públicos em vários museus do país e para a criação de novos, inclusive, com a iniciativa do Edital Museus Brasileiros (para atualização de museus públicos e privados não vinculados ao Governo Federal) (MACHADO, 2010). Assim sendo:
[...] as atuais políticas adotadas pela esfera do governo federal e pelas iniciativas privadas têm dado novo ânimo para o fortalecimento da preservação e da memória nacional. Aos museus brasileiros cabe cumprir
um papel de referência e de base para o futuro da cultura e da sociedade. Ao ultrapassar o antigo status do museu como templo de todas as musas, os museus brasileiros, no percurso de sua implementação, adquirem potencialidades de abrir ao cidadão, nas dimensões do novo e do velho, espaços de contato e de interação com sua história e cultura (MACHADO, 2010, p. 148).
A trajetória dos museus e da Museologia no Brasil esteve entrelaçada com as políticas culturais e aos interesses e articulações de atores e agentes sociais em um dado contexto histórico, principalmente no século XX (MORAES; SOUZA, 2013). Ainda são necessários avanços em termos de implementação das políticas culturais; além disso, observa-se que “os museus ainda são muito vulneráveis às oscilações políticas, à falta de estrutura técnica e às imposições do marketing cultural” (BRUNO et al., 2006, p. 7).
O museu é espaço onde podem ser criadas diversas narrativas e discursos, que geram sentidos e relações na sociedade, sendo espaço privilegiado de disputa simbólica. Assim, esta instituição “ocupa um lugar estratégico no imaginário social e nas relações sociais, simbólicas e de poder” (MORAES, 2006, p. 39).