4 LIMITES TEMPORAIS DO ESTADO PUERPERAL
5.3 O ESTADO PUERPERAL NO INFANTICÍDIO COMO EXCLUDENTE DE
Como já visto anteriormente, o supressivo de culpabilidade é aquele que exclui a culpa do agente perante a prática de determinado fato, o qual é dado como típico e ilícito, porém não pode ser culpável, tendo em vista que quem a praticou pode ser enquadrado em umas das circunstâncias apresentadas anteriormente, sendo uma delas a inimputabilidade.
Um sujeito é inimputável quando, à época da prática do crime, esse não teria consciência da potencial ilicitude daquele fato que acabara de praticar, por ter algum tipo de doença mental ou por ter um desenvolvimento retardado/incompleto.
Quando acometida por psicose puerperal, a parturiente, que no momento sofre com alucinações e delírios relacionados ao recém-nascido ou neonato, tem grande possibilidade de provocar a morte do objeto dos seus delírios. Quando o resultado morte é provocado, resta-nos evidente que o mesmo ocorrera por agente que, ao tempo dos fatos, era inteiramente incapaz de conhecer o caráter ilícito dos fatos ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. As alucinações e delírios, que na verdade configuram apreciações distorcidas da realidade, são suficientes para afastar a imputabilidade da agente e, por conseguinte, reconhecer sua inimputabilidade. A alteração emocional, física e psíquica no pós-parto pode ser tão intensa em alguns casos que pode desencadear psicoses. Ronchi (2013, p. 51) explica que “a psicose está incluída no rol de doenças mentais, sendo hipoteticamente possível, portanto, a inclusão da psicose puerperal no rol de doenças que afetam a capacidade de discernimento da pessoa”.
Dispõe Kaplan (1999 apud RONCHI, 2013, p. 51):
O transtorno pós-parto mais severo é uma psicose agitada altamente mutável [...]. O transtorno pode começar com confusão, despersonalização, e insônia, passando rapidamente para delirium com alucinações proeminentes e delírios transitórios. A inimputabilidade é marcada, de forma que o termo “mercurial” foi aplicado a esta psicose. As síndromes podem modificar-se rapidamente. Um estado maníaco pode parecer claro, apenas para ser seguido por uma profunda depressão, a qual continua por muitos dias ou semanas, seguida por recuperação ou evolução gradual para uma depressão moderada. O curso pode ser marcado por crises ocasionais de psicoses floridas.
Pode-se perceber que há um certo conflito no ordenamento jurídico brasileiro, criado pelo próprio legislador, ao imputar como sendo crime aquele previsto no artigo 123 do Código Penal, quando cometido pela mãe influenciada por uma perturbação psicológica chamada de estado puerperal, deixando-a incapaz de diferenciar o caráter lícito ou ilícito da conduta por ela praticada, ao mesmo passo que no artigo 26 a 28 do mesmo diploma legal, determina como sendo inimputável aqueles que por distúrbios psíquicos não possuem a devida capacidade de compreender suas ações, sendo assim isento de culpa (ABREU, 2013, p. 1).
O Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em meados de 1995, julgou uma apelação criminal onde a acusada havia sido absolvida pelo juízo de primeira instância, devido à comprovação de que a época dos fatos a mesma era totalmente incapaz de compreender suas ações:
Recurso ex officio. Sentença de Pronúncia. Infanticídio. Ré acometida de psicose
puerperal à data do fato. Absolvição liminar fulcrada no artigo 411 do Código de Processo Penal. Confirmação do provimento judicial absolutório. Recurso
oficial desprovido (SANTA CATARINA, TJSC, 1995, grifo nosso).
Embora a medida correta, segundo parte da doutrina, seja a absolvição pela inimputabilidade do agente, a jurisprudência acima foi a única encontrada após pesquisas aos tribunais da região sul do Brasil; as demais – que logo mais serão expostas – apresentam uma outra alternativa, mas com aplicação de medidas coercitivas.
Segundo Nucci (2016, p. 241), embora o inimputável não cometa um crime propriamente dito, este ainda pode sofrer sanções penais diversas da privativa de liberdade, conhecidas como medida de segurança, a qual será estabelecida pelo juízo após uma análise do fato e do grau de periculosidade do agente.
Ao estudar a jurisprudência, percebe-se que esta corrobora com o entendimento da aplicabilidade de medida de segurança nos casos em que restarem comprovadas a inimputabilidade da genitora, conforme se extrai das decisões colacionadas abaixo do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:
CRIMES DOLOSOS E CULPOSOS CONTRA A PESSOA. INFANTICÍDIO E OCULTAÇÃO DE CADÁVER (ARTIGOS 123 E 211, DO CP). A interposição de recurso voluntário pelo Ministério Público, contra a absolvição sumária da ré, torna prejudicado o recurso oficial manifestado pelo sentenciante. Acusada que foi
considerada inimputável por laudo psiquiátrico, mostrando-se correta a sua absolvição sumária e conseqüente imposição de medida de segurança, uma vez
que não sustentada qualquer causa excludente de ilicitude. RECURSO VOLUNTÁRIO IMPROVIDO E RECURSO OFICIAL PREJUDICADO (RIO GRANDE DO SUL, TJRS, 2006, grifo nosso) A.
E ainda:
APELAÇÃO. CRIME DE INFANTICÍDIO E OCULTAÇÃO DE CADÁVER. ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA. INIMPUTABILIDADE DA ACUSADA. APLICAÇÃO DE MEDIDA DE SEGURANÇA DE INTERNAÇÃO HOSPITALAR. Provimento do recurso de apelação por não configurado o tipo
objetivo do crime de ocultação de cadáver, substituindo-se a medida de segurança de internamento hospitalar por tratamento ambulatorial. RECURSO PROVIDO (RIO GRANDE DO SUL, TJRS, 2006, grifo nosso) B.
Em ambos os julgados acima há o reconhecimento da inimputabilidade das acusadas por meio de laudos médicos, os quais atestaram que as mesmas estavam sob a influência do estado puerperal no momento do crime, porém, embora reconhecida a devida excludente, os doutos juízos no momento de decidir acerca da absolvição aplicaram medidas de segurança, as quais também servem como punição ao crime.
Quando se está diante de uma sentença que absolve o acusado, mas ao mesmo tempo fixa uma medida de segurança, constata-se uma absolvição imprópria, pois embora seja absolvido, ficará à mercê de certas restrições e obrigações impostas pelo judiciário (BARRETO, 2006).
A medida de segurança, segundo Freitas (2014, p. 1), é “uma providência do Estado, fundamentada no jus puniendi, imposta ao agente inimputável ou semi-imputável que pratica um fato típico e ilícito, com base no grau de periculosidade do mesmo”.
A referidas medidas estão dispostas no artigo 96 e seguintes do Código Penal, sendo elas: “[...] I - Internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico ou, à falta, em outro
estabelecimento adequado; II - sujeição a tratamento ambulatorial” (BRASIL, Código Penal, 2019). Importante frisar que o tratamento ou a internação fixada pelo juiz tem caráter indeterminado, podendo-se perdurar até quando ainda se constatar a periculosidade do agente, porém, embora não tenha um prazo máximo, possui um tempo mínimo, sendo este de 1 (um) a 3 (três) anos (VILLAR, 2015).
Ante o exposto, com base no estudo doutrinário e jurisprudencial, percebe-se que o estado puerperal não é motivo para a aplicação de excludente de culpabilidade com a consequente absolvição própria do agente ativo do crime de infanticídio, embora este esteja acometido por condição característica de inimputabilidade por se encontrar no referido estado, sendo caso, portanto, de uma sentença absolutória na forma imprópria, ou seja, o sujeito não receberá pena privativa de liberdade, mas sim uma medida de segurança, a qual será fixada após um exame minucioso de sua periculosidade perante a sociedade.
Assim, o agente, no caso a parturiente, não deixará de ser punido pelo poder estatal, mas receberá de certa forma uma pena mais branda pelo fato de se enquadrar como uma pessoa inimputável.