6.1 O DESIGN GRÁFICO FUNCIONALISTA
6.1.1 O estilo internacional
Desde os anos 1930 a Suíça já era lar de diversas e influentes escolas de design, editoração e impressão, mas durante a Segunda Guerra Mundial ela se tornaria um “ponto de referência para artistas de muitos países da Europa, sobretudo em decorrência de pressões e restrições artísticas impostas pela política do nacional-socialismo” (RAIMES; BHASKARAN, 2007, p. 88).
Os designers que lá se refugiaram, influenciados pela eficiência e precisão pela qual o povo suíço é conhecido, começaram um movimento que ficaria conhecido por diversas denominações, dentre as quais Schneider (2010) cita: swiss style, escola suíça, desenho gráfico industrial suíço, tipografia suíça. Entretanto, devido ao fato de ser um dos primeiros estilos de design de abrangência mundial, ficou mais conhecido como estilo tipográfico internacional ou estilo internacional.
Na era do segundo pós-guerra cresceu o espírito internacionalista. O aumento do comércio permitiu que as corporações multinacionais operassem em mais de cem países. A velocidade e o ritmo das comunicações estavam convertendo o mundo em uma aldeia global. Havia uma demanda crescente de clareza comunicativa, formatos multilíngues e pictogramas e glifos elementares para possibilitar que pessoas do mundo inteiro compreendessem informações. O novo design gráfico desenvolvido na Suíça atendia essas necessidades, e sua metodologia e seus conceitos fundamentais se disseminaram pelo mundo (MEGGS, 2009, p. 480).
Além dos aspectos levantados por Meggs, Schneider (2010, p. 127) explica que a rápida propagação do estilo se deu pela “ordenação precisa de seus métodos e na capacidade de expressar ideias complexas de uma maneira clara e objetiva por meio de formas elementares”. Assim como proposto pela Bauhaus o objetivo era criar uma mensagem expressiva e universal com a máxima simplificação, a ênfase agora estava na rejeição radical
da expressão pessoal e soluções excêntricas. Para chegar aos objetivos principais, clareza e ordem, o Estilo Internacional tinha algumas diretrizes33:
- expressão gráfica por meio de apresentação objetiva e impessoal, comunicando- se com o público sem a interferência dos sentimentos subjetivos do designer;
- apresentação de informações visuais e textuais de forma clara e objetiva, sem apelos exagerados da propaganda e publicidade comercial;
- uso de formas tidas como elementares, puras, simples e claras; - uso de poucas cores, geralmente primárias;
- adoção da grid, uma malha de módulos lineares construída pela divisão matemática do layout que orientava a disposição e alinhamento dos elementos visuais.
- diagramação assimétrica;
- uso de tipografia sem serifa (Akzidenz Grotesk, Univers, Helvetica e derivadas); - textos alinhados à esquerda sem alinhamento pela direita;
- fotografias objetivas.
Figura 36 - Cartaz de exposição sobre arquitetura norte-americana, Max Bill, 1945.
Fonte: MEGGS, 2009, p. 465.
33 Mesmo que seja arriscado tentar resumir as características de um movimento, ao analisar as descrições dos
principais autores, Meggs (2009), Koop (2004) e Schneider (2010), é possível perceber algumas características gráficas predominantes. É importante também destacar que, apesar de ficar conhecido como estilo internacional, este movimento não pretendia ser um conjunto de recursos estilísticos que poderiam ser reproduzidos por qualquer um.
Muitos desses princípios foram desenvolvidos e disseminados por outra escola alemã, a Hochschule für Gestaltung (Escola Superior da Forma) de Ulm, fundada em 1953, que no início tinha objetivos educacionais semelhantes ao da Bauhaus, mas que passou a dar ênfase aos fundamentos científicos, tecnológicos e metodológicos do design estabelecendo normas rigorosas em matéria de tipografia e design. Essa ênfase, para Schneider (2010, p. 116), fazia com que os designers vissem-se “mais como engenheiros do que como criadores e projetistas. As formas tornaram-se mais duras, mais angulosas e mais práticas, e também menos inspiradas”.
Além do objetivo comunicacional, continua o autor, a escolha por essas características tinha também um porquê cultural: no design alemão do pós-guerra “evitou-se ao máximo uma proximidade com o artesanato, pois este estava sobrecarregado pela propaganda nacional-socialista” (SCHNEIDER, 2010, p. 112). Seu objetivo era desenvolver um design de qualidade, com consequências no âmbito humano, social e cultural; orientado exclusivamente pelo valor de uso, afastado de objetivos meramente comerciais e das tendências da moda. O design teria, portanto, um ideal filosófico, um propósito moral.
Porém, apesar de toda essa pretensão social, a filosofia e principalmente a linguagem gráfica do estilo internacional acabaria sendo perfeita para o momento que as empresas passavam na virada da década de 1950 para 1960. Meggs (2009) lembra que naquele momento, com os avanços tecnológicos promovidos pela guerra, a capacidade produtiva da indústria voltava-se para os bens de consumo, e muitos vislumbravam uma estrutura econômica capitalista em expansão.
Com essa promissora visão de futuro em mente, “bom projeto é bom negócio” tornou-se palavra de ordem na comunidade do design gráfico (...). A prosperidade e o desenvolvimento tecnológico pareciam estreitamente ligados a empresas cada vez mais importantes, e os dirigentes mais perspicazes compreendiam a necessidade de desenvolver imagem e identidade corporativas para públicos diversos. O design era visto como um caminho importante para formar uma reputação de qualidade e confiabilidade (MEGGS, 2009, p. 522).
Nessa época, como já comentado anteriormente, nenhum lugar tinha uma expansão industrial com grandes corporações desempenhando papel importante na criação e comercialização de produtos e serviços como os Estados Unidos. Lá o estilo internacional produziria um impacto importante no design – onde até então predominava o uso de ilustração e tipografia decorativa, característicos da publicidade americana (fig. 37) – que se tornaria particularmente evidente durante os anos 1960 e 1970.
Figura 37 - Anúncio da American Airlines, 1946.
Disponível em: <http://www.vintageadbrowser.com/travel-ads-1940s/27>. Acesso em: 12 jul. 2014.