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REBELIÃO BOÊMIA

No documento Música colorida (páginas 33-37)

Com exceção do jazz, a maioria dos hipsters não estava ligada a outras formas de expressão cultural como a arte e a literatura, em parte, conforme Pereira (1986), pela crescente noção de anti-intelectualismo na sociedade americana. Entanto, em Nova York se formava um pequeno grupo de amigos à margem da vida hipster que encarnaria de forma especialmente vigorosa a rebeldia marginalizada dos anos 50 nos Estados Unidos. “Enquanto a maioria dos hipsters queria relaxar com maconha e opiáceos, os escritores queriam escrever, falar e delirar a noite toda com anfetaminas” (GOFFMANN; JOY, 2007, p. 261). Eram os

hipsters literários.

O grupo, formado a princípio por jovens escritores boêmios como Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac, seria a representação

de um anarquismo romântico, cujo estilo de contestação e agitação, novo e radical quando comparado à luta da esquerda tradicional, estava apoiado sobre noções e crenças tais como a da necessidade do “desengajamento em massa” ou da “inércia grupal” (PEREIRA, 1986, p. 32).

Coube a John Clellon Holmes em seu artigo “This is the Beat Generation”, escrito para o New York Times em 1952, formalizar o batismo do grupo. Szatmary (2000) explica que o termo era uma alusão à batida7 do jazz – especialmente do estilo bebop, cujos músicos eram considerados heróis pelos beats –, mas, principalmente, o termo definia como essa juventude

se sentia: abatida, derrotada7 pelos valores conservadores ocidentais simbolizados pelo

american way of life.

Figura 6 - Da esquerda para a direita: Rob Donlon, Neal Cassady, Allen Ginsberg, Robert La Vigne e Lawrence Ferlinghetti, em frente à livrariaCity Lights Books, São Francisco, 1955.

Disponível em: <http://www.leschampslibres.fr/expositions/temporaires/beat-generation-allen-ginsberg/>. Acesso em: 11 jul. 2014.

Para contra-atacar essa opressão eles deram início a uma nova relação entre arte e vida, literatura e sociedade. Em prol da liberdade de expressão, parte “indissociável do teste dos limites da liberdade individual e das alternativas de projetá-la como utopia política” (WILLER, 2009, p. 26), desenvolveram uma escrita um tanto caótica que se aproximava da poesia surrealista e era extremamente visceral, muito baseada na improvisação e na criação coletiva através dos cut-ups8.

Normalmente, como lembra Willer (2009), os textos surgiam de noitadas de discussão de temas literários e filosóficos regadas a jazz e muitas drogas, como morfina, heroína e estimulantes como a benzedrina ou anfetamina. Tudo neste contexto – escrita, jazz e drogas – eram escolhas que explicavam e mostravam que eles rejeitavam o “caminho do

8 Técnica de criação literária na qual um texto é cortado de forma aleatória e reorganizado para criar um novo

intelectualismo, devotando-se a uma vida marcadamente sensorial e deixando-se arrastar por sua ludicidade e desprezo pelas satisfações de uma carreira e de um rendimento regular” (PEREIRA, 1986, p. 34).

Apesar de herdarem dos hipsters o gosto pelo jazz, os beats foram especialmente atraídos por um novo estilo conhecido como bebop, que

produziu algo até então inédito na música popular – ele permitiu que os músicos improvisassem. Até os anos 1940, os músicos tinham marchado em formação, executando cada composição mais ou menos como tinha sido criada. [Dizzy] Gillespie, [Charlie] Parker e outros músicos de bebop fizeram os músicos se soltar. De repente eles eram indivíduos com o poder de expressão pessoal (GOFFMANN; JOY, 2007, p. 254-255).

Merheb (2012) esclarece que essa escolha ia ao encontro dos princípios beats, pois para eles os produtos da indústria de entretenimento, incluindo aí o rock and roll dos anos 1950, faziam parte da mesma cultura e massificadora contra a qual eles travavam sua guerra. Já as drogas eram vistas como meios para alterar a consciência e buscar a transcendência – que também era buscada através de doutrinas orientais como gnosticismo e budismo. No Peru, Kerouac experimentou a ayauasca9, Burroughs e Ginsberg, completam Goffman e Joy (2007), passaram a explorar as possibilidades mágicas e expansoras da consciência dos alucinógenos como maconha, haxixe e a mescalina dos cactos, popularizada por Aldous Huxley.

Huxley, num livro famoso, As Portas da Percepção, foi o primeiro intelectual de nosso século a elogiar os efeitos dos alucinógenos. Suas experiências com a mescalina levaram-no a proclamá-la como a forma mais perfeita e eficiente de evasão e alargamento da percepção humana para o homem do nosso século. Como ele, outros artistas e intelectuais ficaram convencidos da utilidade das drogas, capazes de ampliar a área da realidade sensível à abordagem da consciência e de aguçar a sensibilidade (MACIEL, 1987, p. 48-49).

Se essa proximidade e até mesmo propaganda do uso de drogas já não fosse ultrajante suficiente para a conservadora sociedade norte-americana, a adoção de uma filosofia sexual livre de preconceitos seria chocante e revolucionária. Willer (2009) enfatiza que a amizade sempre foi um elemento diferenciador e definidor do movimento, mas o limite entre a amizade e outras intimidades era fluido, os beats criavam de forma coletiva e assim também tratavam o sexo.

As relações amorosas e sexuais, seja entre Ginsberg, Burroughs, Kerouac e outros membros do grupo, eram comuns; todos ao mesmo tempo, inclusive. Eram comuns também as sessões coletivas com as mulheres de Neal Cassady, que serviu de referência para o personagem Dean Moriarty em On the Road, romance de Kerouac. Bissexual e polígamo, Cassady achava que seus amigos deveriam dormir com suas mulheres.

Willer (2009, p. 73) aponta que essas relações sem preconceitos geraram um “grau de sexualização inédito no âmbito de um grupo ou movimento literário. Isso permite falar em revolução sexual. Ao integrarem desse modo o sexo à vida e à criação, contribuíram para a maior naturalidade no modo como é visto e vivido hoje”. Mas tanta “obscenidade” não poderia ficar sem resposta da sociedade conservadora.

No final dos anos 1950 os beats ficaram associados à imagem do drogado, do homossexual, do ser antissociale a polícia, “em nome da moral”, acabou com as reuniões. Mas, como destaca Willer (2009), nesse momento o movimento beat já havia deixado de ser uma comunidade fechada de escritores e passou a ser um fenômeno cultural e comportamental coletivo, um acontecimento social rebatizado de beatnik. Esse novo termo, irônico e depreciativo, estava ligado ao grande número de jovens que vinham adotando o visual dos

beats: os homens usavam cavanhaque e não colocavam a camisa para dentro das calças e as

mulheres adotavam roupas pretas culminando com uma boina francesa.

Por mais que fosse insultuosa, a redução da rebelião boêmia hipster a um estereótipo engraçadinho pode ter subvertido os Estados Unidos convencionais mais do que diminuído os beats. Afinal, ainda era a década do “burocrata”. Qualquer um que não fosse alinhado – corretamente vestido e sem excesso de cabelo – e não submergisse sua identidade na homogeneidade do mundo industrializado nove-às-cinco era visto como fora dos limites, um completo pária, um personagem suspeito. Após quase uma década com uma repressão como essa, qualquer imagem – por mais incompleta ou diluída que fosse – de pessoas fora dos parâmetros seria muito atraente, particularmente para os jovens (GOFFMANN; JOY, 2007, p. 265).

Enquanto o termo e o estilo se popularizavam, os beats entravam em crepúsculo, mas abriam espaço para a emergente contracultura de São Francisco dos anos 1960. Essa passagem, conforme Willer (2009), é indissociável da biografia de Allen Ginsberg. Ele, mais do que qualquer outro, efetuaria essa transição. Ainda durante os anos 1950 ele chegou a morar durante vários períodos em São Francisco, chegando a inscrever-se na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Seria na costa oeste, inclusive, que ele entraria em contato com o ingrediente que colocaria fogo na revolução da década seguinte.

No início dos anos 1960, Ginsberg, cada vez mais interessado nos efeitos dos alucinógenos, passara de herói beat a guru das drogas alucinógenas. Por isso, passou a

participar dos testes de ingestão de psilocibina10 promovidos pelo professor de Harvard Timothy Leary. Torgoff (2000) relata que o dia 26 de novembro de 1960, quando Ginsberg visitou Leary pela primeira vez e tomou 18 pílulas de psilocibina, seria uma pedra angular na história da contracultura nos Estados Unidos. O estado de euforia messiânica foi tamanho que ele recomendaria a distribuição maciça das pílulas como meio de pacificar a humanidade. Algum tempo depois o próprio Leary ganharia o status de guru da nova droga que abriria as portas da revolução cultural dos anos 1960.

No documento Música colorida (páginas 33-37)