Foto 9 – Tapo: tas mil em 1971.
3. Ocultar o centro e expor a periferia – a visão da montanha
3.3. Estruturas de autoridade e sistemas de poder
3.3.2 O exercício do poder na esfera pública: normas e rituais
O desempenho do poder pelos titulares dos til e nola’ é, na maioria dos casos, completamente independente entre si. Por norma, o exercício do poder pelo matas desenrola-se no âmbito restrito da sua Casa, ou das Casas com quem a sua possui relações privilegiadas e onde, por obrigação ou convite, pode emitir a sua opinião sobre a resolução de determinados problemas ou desempenhar, se habilitado, os rituais do ciclo de vida dos seus membros, ou da própria Casa.
Por norma, cada matas resolve, no plano judicial as disputas entre os membros da sua Casa, podendo recorrer para o efeito a advertências com um carácter preventivo ou punitivo: dige. As primeiras ocorrem sobretudo no decurso das actividades anuais ligadas à recolha do milho (altura em que as várias famílias de uma Casa se ajudam mutuamente). A forma punitiva ocorre sobretudo quando decorrem rituais individuais ou da Casa e pode implicar a punição física dos visados, sobretudo os mais jovens. Se as disputas forem entre diferentes Casas a situação será resolvida envolvendo ambos os matas. Esta situação é, em princípio, mais fácil de resolver se as Casas tiverem entre si uma relação kau’- ka`a ou malu ai – relação de parentesco ou aliança.
Mas, se a contenda não se resolver entre as partes, o assunto pode ser resolvido com o concurso dos giral hurug – olhos frescos – um conjunto de três matas que são eleitos entre os pares para constituírem um tribunal, para o tas e para o iti – o exterior do tas. Esta função é a única para a qual a Casa não é determinante na escolha, pois os matas são escolhidos com base nas suas capacidades pessoais. Todavia, se não for possível resolver a contenda, os bei são chamados a intervir, uma vez que a altercação entra no domínio da esfera pública.
Entre os matas, os hima gonion responsáveis pelos três doen desempenham no plano normativo um papel mais relevante, resultante do seu estatuto. Os hima gonion articulam a sua função com os bei e colaboram com estes, na execução dos rituais dos doen (como se verificou na cerimónia Asuain Kias, realizada em 2004).
Por sua vez, os bei desempenham um poder que apresenta, no plano normativo, uma esfera lata, mas que, no plano prático, se esbate cada vez mais com o crescente papel das autoridades, como por exemplo a resolução de determinados problemas, como roubo de gado entre sucos vizinhos116. O poder temporal dos bei também é considerado menor, quando comparado com tempos idos. Por várias vezes, foi referido o papel do Aisante no controlo de escaramuças fronteiriças, na zona de Memo, e na regulamentação da produção de determinadas árvores de fruto, como o coqueiro, na zona de Memo.
Entre o ano de 2005 e 2006 pude assistir a várias acções que demonstram o exercício do poder, por parte dos bei, e delas é dada recensão de forma sucinta. Uma das principais, por estes desenvolvidas é o ukon lae (em Tétum, tara bandu a imposição das proibições de apanha de frutos). Outro exemplo, sem calendarização, foi um rito para impedir a erosão do solo adjacente ao tas: mug gial – terra fugir117, no qual intervieram dois bei, coadjuvados por alguns ajudantes.
Outra cerimónia ocorreu na sequência de um acto de difamação que não foi possível resolver entre os matas (acrescendo o facto de uma das intervenientes ser filha de um dos bei). Duas jovens acusaram uma terceira de já não ser virgem e de ter relações com um homem. Desafiadas a provarem as suas alegações, elas não o conseguiram fazer. Foi assim, necessário, repor a honra da jovem ofendida ou, na linguagem esotérica, repor o buraco que tinha sido aberto indevidamente, na árvore. A cerimónia de pagamento de multa: solu tues, enquadra-se no âmbito das sumuku kateli e
116
Em 2004 decorreu em Oeleu um ritual relacionado com o ressarcimento de roubo de gado. Estiveram presentes os responsáveis político-rituais dos sucos envolvidos, Ai Asa e Bobonaro. Esta cerimónia decorreu num dos mot de Oeleu (Oeleu tem a particularidade de ter dois mot, aspecto já referido por Friedberg (1972)). Também foram convidados o chefe do subdistrito e o chefe da polícia, ambos discursaram, chamando a atenção para o papel do Estado. No final da cerimónia, quando os visados e famílias pensavam que tudo estava resolvido, a polícia levou os intervenientes directos (ladrão e queixoso) para identificação, o que provocou grande celeuma, pois o assunto estava tratado.
117
A erosão e os escorregamentos de terras são dos fenómenos mais preocupantes em Timor-Leste (Gertril, 2002).
efectuou-se para que a situação “quente” pudesse “arrefecer”. Nesta cerimónia participaram todos os bei, excepto o bei Namau, por razões de saúde.
Foto 17 – Solu tues – sumuku kateli, deliberação. 2005.
Foto 18 – Solu tues – sumuku kateli: solu do girigon e bei Aisante.2005.
A recitação-prédica (solu) foi efectuada pelo Girigon, o Bei Opa e o Bei Dato Pou (Aisante), tendo ainda participado o matas Opa (dos Hima gonion). O Bei Mone Hitu,
bei pana – feminino, não proferiu palavras. Com mais de 300 linhas de elocução,
apresenta-se somente a introdução feita pelo Girigon.
1. oh hot o hul
2. oh pan o mug na gaga 3. oh meterei lolo uen da 4. oh meterei hot mil da 5. oh nie ukon gomo 6. oh nie peg gomo 7. oh nie dari gomo 8. oh nie luba’ gomo 9. oh gie saran tazu no 10. oh gie mot lete no 11. oh neto opi giri si 12. oh neto op gon si 13. oh gege hala na rasa 14. oh gege u na lobo
15. oh nie eme Mone Hitu Namau 16. oh nie ama Opa Dato Pou 17. oh gege dira na balas 18. oh gege duel na deran 19. oh dira sa balas pisi o 20. oh duel sa deran biel o 21. oh nie eme Mone Hitu Namau 22. oh nie ama Opa Dato Pou 23. oh solu onal ‘on o
oh sol e lua
oh a boca do céu e terra oh hoje, neste local oh hoje, neste dia
oh nosso senhor do ukon [lei] oh nosso senhor do peg [conta] oh nosso senhor do dari [governo] oh nosso senhor do luba’ [guarda] oh agora no seu saran
oh agora no seu mot oh eu sou as pernas do opi oh eu sou os braços do op oh vimos ajudar a limpar oh vimos ajudar a cortar a erva oh nossa mãe Mone Hitu Namau oh nosso pai Opa Dato Pou oh dêem-nos a vossa bênção oh dêem-nos a vossa mão oh a força da bênção limpa oh a vossa mão apoia
oh nossa mãe Mone Hitu Namau oh nosso pai Opa Dato Pou oh trataremos deste encontro
24. oh lal man ‘on o 25. oh emen uen gie ati ni’ 26. oh unin uen gie hono ni’ 27. oh hani ebe-ebe
28. oh hani tai-tai 29. oh solu onal man 30. oh lal man ‘on o 31. oh hani ebe-ebe si 32. oh hani tai-tai si
33. oh solu tie na mug dasa uen o 34. oh lal o zap na mug ko’i uen o 35. oh solu gie o solu oa
36. oh lal gie o lal oa
oh trataremos deste problema oh para que não haja problemas oh para que não haja questões oh não deixar espalhar
oh não deixar crescer
oh este encontro que fazemos oh este problema que nos trouxe oh não se pode espalhar
oh não pode crescer
oh este encontro será limpo pelo galo oh o problema será raspado pelo cão oh o encontro começa
oh as palavras comecem