1. A corrente funcionalista
1.2. O funcionalismo estrutural
A análise estrutural-funcional, como método de investigação dos sistemas sociais, está muito ligada aos nomes de Parsons e Merton, sociólogos norte-americanos de notável influência na educação e nos pesquisadores dos países periféricos. Fazemos um pequeno excurso aqui sobre os dois autores apenas para não deixarmos de lado as propostas funcionalistas, de modo geral mais conhecidas.
Parsons procurou construir uma teoria a que chamou funcionalismo estrutural a partir de uma reflexão sobre o interesse das teorias biológicas na compreensão das sociedades. A sociedade, a exemplo de um organismo vivo, ainda que de maneira mais completa, forma um sistema integrado dotado de qualidades homeoestáticas que mantém o equilíbrio e a continuidade.
Esta concepção não exclui a mudança, no entanto, a idéia de uma sociedade estável que se volta espontaneamente em busca do próprio equilíbrio, está condicionada pela idéia de mudança dentro da continuidade, ou seja, de transformações evolucionistas.
Para Triviños (1992, p. 85), Parsons centra seu sistema sociológico sobre a idéia de ação. Em relação à teoria da ação, que serve de referência às outras idéias de seu sistema conceitual, podemos dizer que todas as proposições baseiam-se na ação de um ator individual ou de uma coletividade de atores. Parsons salienta que os atores individuais são organismos fisiológicos e que as coletividades de atores também estão integradas por indivíduos que são organismos fisiológicos. Mas a teoria da ação fixa o seu interesse não na constituição orgânica, fisiológica, mas, sobretudo, na organização das orientações do ator de uma situação.
Parsons monta quatro dimensões totalizantes ou sistemas: o sistema social; o sistema de valores (cultural); o organismo humano e a personalidade individual que interagem mutuamente.
Somente o sistema social e o de personalidade são sistemas de ação propriamente ditos. O organismo é o pressuposto fisiológico. O sistema cultural compõe-se de valores, normas e símbolos que orientam as possibilidades de escolha do agente e delimitam seus tipos de interação. O sistema social é composto de agentes, que têm sua ação social orientada segundo outros agentes, dentro de um quadro relativamente consensual de fins coletivos. O sistema da personalidade é centrado sobre o agente individual, que tende a satisfazer suas necessidades e a adotar comportamento compatível dentro da sociedade (DEMO, 1992, p. 222).
Parsons agrupa todas as ações em quatro funções fundamentais que servem de organograma para análises. São elas a integração, a manutenção dos modelos culturais, a realização das finalidades coletivas e a adaptação. A cada uma dessas quatro funções corresponde um subsistema. Na ótica deste autor, a função principal do subsistema de integração é “definir as obrigações de lealdade em relação à coletividade, tanto as que decorrem do fato de pertencer à sociedade global quanto as que concernem às diferentes categorias de status e aos papéis diferenciados no interior da sociedade” (PARSONS apud PETITAT, 1994, p. 16).
O autor parte do princípio de que existe uma integração das lealdades devidas aos grupos e às classes no seio da comunidade societal e de sua subordinação às exigências da coletividade como um todo, exigências estas públicas e das quais o Estado é o representante. Para Petitat (1994, p. 17) tal hipótese não é isenta de críticas, sendo o ponto de vista de Parsons voltado para os valores e normas dominantes, e sua sociologia, para as relações de dominação encaradas como legítimas.
Nas sociedades modernas, o sistema escolar é chamado a representar um papel de importância decisiva como veículo de valores extremamente gerais, como inculcador de lealdade à coletividade e, por fim, como agente de interiorização das escalas de estratificação e de prestígio. Parsons, de acordo com Petitat (1994, p.17), situa a “revolução no ensino” (obrigatoriedade do ensino e ampliação do período de estudo) ao lado das grandes revoluções industriais e democráticas.
Ao lado de Parsons, como um dos principais representantes do funcionalismo estrutural, encontra-se Robert Merton. Uma das contribuições de Merton ao funcionalismo é a análise que faz do conceito de função. Depois de realizar uma revisão dos vários significados que a palavra tem: de acordo com o senso comum; daquele utilizado por Weber (de ocupação); na matemática etc., Merton chega ao conceito que é fundamental na análise funcional e que deriva da antropologia social. “Eu definiria a função social de um modo de atividade totalmente padronizado” (apud TRIVIÑOS, 1994, p. 83).
Segundo Merton, a análise funcional fundamenta-se em três postulados interligados. O primeiro se expressa da seguinte forma: “[...] as atividades padronizadas ou itens culturais são funcionais para todo o sistema social ou cultural”. O segundo postulado se expressa no seguinte termo: “Todos os itens sociais e culturais preenchem funções sociológicas”. O terceiro, denominado postulado da indispensabilidade, é assim formulado: “todos os itens são indispensáveis” (apud TRIVIÑOS, 1994, p. 86). Merton ilustra esse postulado dizendo (a partir de Malinowski) que em cada tipo de civilização, cada costume, objeto material, idéia e crença têm alguma tarefa a cumprir, representam uma arte dentro de um todo que funciona.
Para Triviños (1994, p. 88), as críticas à análise estrutural-funcional concentram-se especialmente nos pontos de vista de Parsons e Merton. O primeiro, por exemplo, é criticado por haver concebido a classe escolar como agente de socialização “mediante a qual as personalidades individuais são treinadas para adequar-se motivacional e tecnicamente ao desempenho de papéis adultos”.20 Também se levantam à dimensão eminentemente descritiva dos fenômenos que realiza a análise estrutural-funcional, ao mesmo tempo se condena sua limitada concepção da mudança.
De acordo com Demo (1992, p. 228) o funcionalismo de Parsons consegue abranger todos os conflitos e mudanças que ocorrem dentro do sistema, desde que não atentem contra o próprio sistema. Demo ainda acrescenta que a crítica freqüente de que o funcionalismo é conservador tem alguma razão de ser, e não é por acaso que é metodologia típica de países avançados, mais interessados em manter sua hegemonia do que em fomentar críticas capazes de impulsionar mudanças radicais.
20 - MÁRQUES, D. Educação comparada. Buenos Aires: El Ateneo, 1972, p. 156 cf. TRIVIÑOS, 1994, p.
Triviños (1994, p. 82) parece compartilhar da posição de Demo, dizendo que reiteradas vezes a análise estrutural-funcional foi acusada de conservadora, defensora do equilíbrio e da adaptação social, o que, segundo o ponto de vista deste autor, do qual também compartilhamos, é verdadeiro. Acrescenta, ainda, que isto, em geral, se choca com a realidade dos povos subdesenvolvidos que reclamam mudanças substanciais em suas formas de vida que não se conciliam com as transformações dentro do sistema estabelecido, que propiciam os estrutural-funcionalistas. Esta prática que se desenvolveu nas escolas, especialmente nas zonas mais progressistas da América Latina, que ainda sobrevive em muitos lugares, só pode ser explicada historicamente. Todos os países latino-americanos, em diferentes níveis, têm vivido alto grau de dependência econômica e cultural dos países do centro hegemônico que regem o desenvolvimento destes povos. Para Triviños, esta sujeição enfraqueceu a criatividade e impediu de promover o desenrolar de iniciativas originais, ao mesmo tempo em que favoreceu a importação de modelos inadequados para o nosso mundo.
No entanto, e em síntese, em relação à pesquisa sobre educação, que é o que nos interessa aqui, a análise do funcionalismo estrutural prescinde da historicidade dos fenômenos sociais, coloca em relevo a idéia do equilíbrio do sistema social, ressalta a adaptação do sujeito ao organismo, ao meio, omite os conflitos sociais e as contradições, mostra uma tendência de análise especulativa, que a coloca longe da realidade que pretende descrever e explicar.