• Nenhum resultado encontrado

3. O GÊNERO TIRINHAS

3.1. HQs: Surgimento e Expansão

3.1.2 O humor nas HQs

Ao longo de nosso referencial teórico vimos que para estudar e analisar o discurso precisamos ir além de sua materialidade linguística, não basta simplesmente olhar para um texto e tentar esgotar seus sentidos, é preciso ir além das percepções visuais que a leitura oferece. Isso ocorre porque o discurso implica necessariamente uma exterioridade à língua, assim, aspectos como a história, a memória, os contextos sociais, as ideologias, as relações de poder, dentre outros, entram no processo de composição discursiva.

Para que todos esses aspectos exteriores à língua sejam coerentes e para que os sentidos sejam de fato captados, eles precisam se enquadrar num conjunto de regras pré-estabelecidas que determinam o que pode e deve ser dito em dada conjuntura, tais regras são o que na AD chamamos de formações discursivas (FD). As formações discursivas regulam o funcionamento do discurso e das relações sociais, elas são intrinsecamente heterogêneas e constituem-se por diferentes discursos, revelando os posicionamentos ideológicos que as integra (PEREIRA; OLIVEIRA; MACHADO, 2013). Esses diferentes discursos que compõem uma FD não são textos efetivos, tratam-se de textos virtuais, passíveis de compor determinada FD. Assim, cada discurso seria uma esfera aberta que não se fecha nunca, ele é um processo em curso que está continuamente receptivo a outros enunciados que se produzam nas mesmas condições histórico- ideológicas, constituindo-se em uma mesma FD (ORLANDI, 2003).

De acordo com Foucault (1996), cada discurso resulta da junção de um conjunto de acontecimentos discursivos. Tais acontecimentos não são substância, nem acidente, nem qualidade, nem processo, eles também não são imateriais, ao contrário, são materiais, e é nessa

materialidade que os discursos se efetivam. Assim, cada discurso seria, para Foucault (1996), o resultado da relação de coexistência, dispersão, recorte, acumulação e seleção de outros textos.

Na dispersão de textos que constituem um discurso, a relação com as formações discursivas é fundamental, por isso, no procedimento de análise, devemos procurar remeter os textos ao discurso e esclarecer as relações deste com as formações discursivas pensando, por sua vez, as relações destas com a ideologia (ORLANDI, 2003, p. 71).

Por possuir tais características, por não se fecharem nunca às possibilidades advindas das diferentes FD, e por se estruturarem a partir da dispersão e do recorte, é que podemos afirmar que a língua não é transparente, mas opaca. A língua, conforme afirma Possenti (2001) “não é clara e relacionada diretamente a um fato ou situação que ela representa como um espelho. Praticamente cada segmento da língua deriva de outro sentido, presta-se a outra interpretação, por razões variadas” (POSSENTI, 2001, p. 74).

É exatamente nesse aspecto opaco e não transparente da língua que os sentidos emergem, condicionados pelas condições de produção de cada discurso. A partir dessas questões, podemos tomar o discurso humorístico de modo a entender o funcionamento e as construções dos seus efeitos de sentidos. De acordo com Possenti, o discurso humorístico é riquíssimo e possui uma vasta gama de efeitos de sentidos, isso porque ele “fornece os melhores retratos dos valores e problemas de uma sociedade” (POSSENTI, 2001, p. 72). O estudo desse gênero fica ainda mais rico quando o analisamos sob um viés discursivo, por meio de construtos teóricos como os da AD que não se interessa “pelo que se diz”, mas por “como se diz”. Nela busca-se compreender os diferentes efeitos de sentidos que um discurso alcança em determinadas conjunturas.

Sob esse enfoque, o humor não está preso ou circunscrito a um tipo determinado de texto ou discurso, ele é um efeito de sentido que se inscreve em determinada formação discursiva, em determinadas condições de produção.

Enquanto efeito de sentido, o humor origina-se de um encadeamento de construção de sentidos da própria linguagem. Esse encadeamento faz surgir muitas estratégias através das quais os sentidos são conduzidos. Entre tais estratégias, podemos citar a ironia, também concebida como um processo de

construção de sentido, que desequilibra o institucionalizado, assinala uma fenda com aquilo que se depreende sólido e coerente no discurso legitimado (MALISKA; SOUZA, 2014, p. 2).

E é da ironia que o humor conjuga seu aspecto risível para desestabilizar o legitimado, para fazer críticas e denúncias políticas e sociais. A ironia constrói, mas também destrói sentidos, de acordo com Orlandi. “A importância da ironia está em trazer para a reflexão estas diferentes ordens de questão na medida em que ela é um desses lugares em que o processo de autodestruição do sentido mostra seu funcionamento” (ORLANDI, 2012b, p. s/p). Nos elementos discursivos enredados pelo humor temos quase sempre a atuação de dois processos fundamentais, trata-se da polissemia e da paráfrase, elas são as responsáveis pelo estabelecimento impreciso e instável dos jogos de sentido nos discursos humorísticos, causando pluralidade e ao mesmo tempo permanência de um mesmo sentido em suas várias formas (ORLANDI, 2012b).

Nas tiras, determinados contextos são descritos com ilustrações que representam cenários, gestos e expressões dos personagens. Nelas, os textos imagéticos são quase sempre acompanhados por textos verbais inscritos em balões. Há o tempo todo uma inter-relação entre a palavra verbal e a imagem, essas linguagens se complementam e dão muitas vezes espaço para o não-dito e o não-visto, se configurando em implícitos que quase sempre geram o humor. O humor é, assim, uma construção reiterada, resgatada pelo leitor que, a par das condições sociais de produção e do contexto da tira, capta o sentido pretendido, implicitado. Pode-se dizer que este gênero é construído a partir de um conjunto de elementos que, associados, provocam a evolução e a graça da narrativa. “Se de um lado, o leitor ri das atitudes e da fala produzida pelos personagens, de outro lado, o leitor identifica um trabalho de arregimentação de vozes que o quadrinista articula para produzir ironias” (SILVA, 2008, p. 160). Essas muitas vozes que constroem o sentido resultam das FD inscritas em cada texto.

Nessa conjuntura, o texto quadrinístico aparece como aquele que provoca humor por meio de representações simbólicas, de efeitos de sentidos causados pelo discurso. São textos em que os sujeitos são posicionados ideologicamente, partindo do pressuposto de que os sujeitos são capazes de agir criativamente a fim de criar suas próprias conexões entre as diversas práticas ideológicas a que são expostos. O texto quadrinístico estabelece a ironia e o humor por meio da voz crítica indireta. Assim, o sujeito leitor de HQs é inserido no mundo da construção dos sentidos (MOURA; BORGES, 2009). Desse modo,

“O texto não tem que ser “compreendido” ou (pior ainda) “decifrado” porque estando escondidos, os sentidos precisam apenas retomar a experiência adormecida do leitor para reaparecer. E no mundo dos quadrinhos, ou tiras de humor, esses sentidos estão em latência e remetem referencialmente a um universo bastante abrangente de formulações identitárias (MOURA; BORGES, 2009, p. 98).

Os discursos apresentados nos textos de HQs estão em permanente relação com o sujeito e sua identidade social, isso porque é o sujeito quem resgata os implícitos e, desse fosso, capta o humor. Todo texto é o resultado de um processo de materialização e prática da linguagem. Para a AD, a linguagem é concebida como a língua fazendo sentido, é o trabalho simbólico do homem e sua história (ORLANDI, 2003). Aqui a linguagem é concebida enquanto produção social, parte das relações de poder que funciona como instrumento de dominação controlada das forças hegemônicas. A linguagem é, nas palavras de Barthes (1988) fascista, ela controla, obriga o homem a dizer dentro das convenções e da gramática de uma língua dada. Não há como o sujeito viver fora da língua, assim, não há outra saída senão agir com a língua, ou, fazer como se faz comumente na literatura, trapacear a língua.

Seguindo esse raciocínio de Barthes (1988), podemos manipular, brincar com o simbólico, com os jogos de sentidos por meio da linguagem. O discurso humorístico seria, assim, uma espécie de trapassa que o homem faz com sua língua, por meio dela produz-se um “tipo de discurso que possibilita uma produção do sentido contra-hegemônico, diferentes dos discursos dominantes” (GRUDA, 2011, p. 748). Assim é que, por meio dos discursos humorísticos é possível ironizar, criticar, denunciar, etc. Nesse viés, de acordo com Gruda (2011), o discurso humorístico é esse que está sempre à deriva, buscando uma inversão, uma deformação do que é sério/instituído (p. 749).

Essas deformações se dão por meio de estereótipos, contradições, representações. Na AD, os estereótipos são representados por lugares-comuns cristalizados que circulam na sociedade através da memória discursiva e das representações construídas socio- historicamente. A estereotipia é o resultado das relações entre sujeito, linguagem, história e sociedade, ela é, segundo Possenti (2013), um dos meios mais explorados na articulação do riso. É por meio de estereótipos que as piadas operam, que se ativam os pré-construídos arraigados socio-historicamente. Esse estereótipo é uma forma peculiar de manifestação do simulacro, “um efeito necessário da relação interdiscursiva” (POSSENTI, 2013, p. 40).

No processo de construção do discurso humorístico, os estereótipos funcionariam como um referente social compartilhado, “recuperado pelo interdiscurso, pelo conjunto de opiniões, saberes e crenças formadores de dizeres sedimentados e sem um referente histórico aparentemente declarado” (SOUZA, 2011, p. 06). Teríamos, nesses discursos, uma representação imaginária, uma identidade estereotipada. Sabemos que toda identidade é social, representada, imaginária. O discurso humorístico seria, pois, uma representação imaginária não por não ter amparo no real, mas por não ser apenas um espelho, uma cópia da realidade (POSSENTI, 2013). Sintetizado, podemos dizer que “o estereótipo se caracteriza por uma redução (com frequência negativa), eventualmente um simulacro, sendo o simulacro uma espécie de identidade pelo avesso” (POSSENTI, 2013, p. 40).

Dessarte, nas piadas, nas anedotas e nos discursos de humor em geral, a inglesa é fria, o baiano é preguiçoso, o argentino é arrogante, a loira é burra, o gaúcho é “veado”... (POSSENTI, 2013). Todos esses estereótipos advêm de formações identitárias e pré-construídos que, por estarem tão arraigados no conhecimento do senso-comum, são facilmente recobrados e associados pelo leitor. Por isso, para se analisar piadas e textos cômicos presentes nas tiras, nas histórias em quadrinhos e nas piadas sob o viés da análise do discurso, é imprescindível considerar as condições de produção discursiva em que os estereótipos associados ao humor são construídos. Para ler e perceber a comicidade do texto humorístico é necessário “colocá-lo em seu meio natural que é a sociedade” (BERGSON, 2007, p. 06), “uma vez que a sua significação é o resultado dos sentidos que emergem no imaginário coletivo que circula socio- historicamente” (NASCIMENTO, 2016, p. 31).

Há nos discursos humorísticos essa latente e constante associação entre o real e o estereotipado, numa oposição de forças que ocupam um mesmo espaço, desse modo, é comum nas piadas, de acordo com Possenti (2013), a existência de discursos que se opõem: o macho e o veado, o bobo, o caipira e o esperto, etc., nesse jogo de oposição de traços ou simulacros, prevalecem os sentidos pré-construídos, arraigados na memória identitária de uma sociedade e que são mobilizados pelo leitor a fim de compreender/depreender o humor desses textos. Podemos dizer que a promoção do riso mais do que ludicidade, envolve questões históricas, sociais, representações identitárias. Por isso, é visível em muitos desses textos a existência de preconceitos, de um jogo de forças entre relações de poder e marginalização, pois tais discursos, conforme nos assevera Bergson (2007), tem na sociedade seu meio natural, eles são o reflexo dos rótulos e estereótipos presentes no imaginário social.