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2.1 O Ambiente regulatório do International Accounting Standards Board – IASB

2.1.1 A criação do IASB e sua abrangência atual

2.1.1.1 O IASC de 1973 a 1987: período de obscuridade

O IASC foi criado em 1973, a partir da reunião de 16 associações de profissionais da área de contabilidade de nove países, Austrália, Canadá, França, Alemanha, Japão, México, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos, por iniciativa do representante britânico, o Institute of Chatered Accountants in England and Wales - ICAEW (Cairns, 1997). O embrião da criação do IASC foi o estabelecimento do Accountants International Study Group – AISG em 1966 que reunia associações de profissionais de contabilidade do Reino Unido, Estados Unidos e Canadá e fora criado para estudar e comparar as normas contábeis dos três países buscando discutir formas de melhorá-las (Street & Shaughnessy, 1998a).

A criação do IASC teve inicialmente como objetivo produzir normas contábeis que pudessem servir de modelos para que os normatizadores dos países pudessem se inspirar livremente para produzir suas próprias normas locais (Danjou & Walton, 2012). Desde a sua fundação, o IASC teve seu aspecto político como destaque, pois um dos principais motivos de sua criação foi o desejo de seus idealizadores de contrapor a ameaça de predominância das normas estadunidenses, os Generally Accepted Accounting Principles in the United States - US-GAAP, impulsionadas pela criação do Financial Accounting Standards Board – FASB no mesmo ano (Camfferman & Zeff, 2006).

A criação do IASC e os seus primeiros anos de existência representaram também uma resposta dos organismos profissionais do Reino Unido à embrionária iniciativa da Comunidade Europeia de realizar a harmonização contábil dos países do continente por meio de diretrizes estatutárias e controle governamental. O recém-criado normatizador britânico, na época o Accounting Standards Comitte - ASC, era dirigido por representantes de associações de profissionais contábeis britânicos que acreditavam que a imposição de procedimentos contábeis por meio de leis governamentais ameaçava a liberdade que tinham para desenvolver suas normas contábeis e criavam obstáculos para surgimento de soluções inovadoras. Por esse motivo era mais

interessante para eles desenvolverem a sua própria iniciativa de harmonização por um organismo privado, criado e dirigido por profissionais da área contábil, como foi o IASC (Hopwood, 1994; Van Hulle, 2005).

Para Martinez-Dias (2005), a criação do IASC foi uma iniciativa de expansão internacional do grupo de profissionais contábeis com cultura anglo-americana no que ele chama de comunidade epistêmica. Uma comunidade epistêmica é para ele: “tipicamente definida como um grupo de profissionais que dividem crenças normativas e causais, noções de conhecimento relevante e válido no domínio de sua expertise e uma iniciativa política comum”10 (Martinez-Dias, 2005, p. 3).

Inicialmente, a filiação ao órgão era garantida apenas aos países fundadores. Esse critério vigorou até meados da década de 80. Porém, a aceitação de novos membros só era permitida após a consulta e aprovação dos representantes britânicos e estadunidenses, refletindo o poder desses membros sobre as ações do órgão.

Nesse período, o IASC era composto exclusivamente por profissionais da área contábil, em sua maioria sócios de firmas de auditoria que se dedicavam apenas parcialmente às atividades do órgão e se reuniam para deliberações, de três a quatro vezes por ano. De acordo com Camfferman e Zeff (2006), o modesto impacto do órgão era reflexo do limitado poder dos organismos de profissionais contábeis para impor normas às empresas de seus países.

Nos primeiros 14 anos de sua existência, o normatizador internacional emitiu 26 normas que tratavam de temas contábeis básicos. Muitas dessas normas permitiam a escolha de tratamentos contábeis diferentes para uma mesma situação. Isso acontecia para que as normas fossem compatíveis com as práticas contábeis dos países fundadores, o que muito prejudicava o ideal de comparabilidade proposto. Essencialmente, o Board, a fim de buscar consenso entre os membros acabava por endossar praticamente todos os métodos utilizados nos respectivos países. Como resultado, as normas produzidas nesse período geralmente permitiam numerosas alternativas sem nenhuma base conceitual predominante (Street & Shaughnessy, 1998a).

10 “is typically defined as a group of professionals who share normative and causal beliefs, notions for weighing and validating knowledge in the in the domain of their expertise, and a common policy enterprise.”

Em sua primeira fase, o IASC foi muito criticado por conta de seus objetivos ambiciosos de estabelecer um padrão contábil internacional, pois contava com a atenção de poucos países, não tinha nenhum poder de enforcement sobre a aplicação de suas normas e permitia a utilização de vários métodos contábeis alternativos, aspectos que prejudicavam a sua busca pela harmonização dos procedimentos. Assim, o órgão era mais conhecido e aceito pela comunidade internacional como um organismo não oficial de pesquisa, do que um normatizador contábil (Su & Guo, 2006).

De acordo com Martinez-Diaz (2005), o principal motivo do pouco reconhecimento que a comunidade internacional atribuía ao IASC nesta época era resultado da estratégia do normatizador de enfatizar o seu trabalho técnico de produção de normas e da pouca atenção que dava ao aspecto político de sua atuação. Para ele, o normatizador internacional “foi punido por excluir grupos chave de afetados pelas normas contábeis, tais como, empresas multinacionais, analistas financeiros, investidores institucionais, sindicatos e governos”11 (Martinez-Diaz, 2005, p. 10). O autor argumenta que a consideração apenas da expertise técnica do IASC não era suficiente para sua consideração pelos governos e pelo setor privado e isso foi percebido pela direção do IASC que, no final da década de 80, passou a se tornar mais ativa politicamente a fim de ganhar mais credibilidade e legitimidade e passou a buscar apoio de parcerias com reguladores de mercados de capitais e normatizadores nacionais.