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Mais do que um provedor de ritual, o direito é um espaço de conflito que se desenrola de forma institucionalizada, seguindo determinados procedimentos que são comuns às partes do jogo. Segundo Foucault, “entrar no domínio do direito significa matar o assassino, mas matá-lo segundo certas regras, certas formas” (2002, p. 57). Assim, o direito se apresenta como a manifestação institucionalizada da guerra: não uma batalha sangrenta, mas de procedimentos, argumentos, fatos. Enquanto na guerra o vencedor é aquele que sobrevive às batalhas, no direito vence aquele que teve a sua verdade aceita por um mediador.

E é através do inquérito que as duas verdades são confrontadas, segundo um procedimento institucionalizado e regulamentado. A conclusão do inquérito funciona como um poder-saber, pois determina a verdade prevaleceu no embate: é poder porque impõe coercitivamente essa verdade e é um saber porque fruto de um embate de verdades. Foucault (2002) nos apresenta uma hipótese do nascimento do inquérito que passa pelas lutas na Grécia, resultando na elaboração de uma determinada forma de descoberta judiciária da verdade que renasce na Idade Média. Se antes havia no direito feudal o sistema da prova, a partir da segunda metade da Idade Média as velhas práticas judiciárias se transformaram em novas formas de justiça e de procedimentos judiciários. O que foi inventado diz menos ao conteúdo e mais às formas e condições de possibilidade do saber.

O direito de ordenar e controlar a prolação da verdade, que geralmente tratava da circulação de bens, foi confiscado pelos mais ricos e mais poderosos. Os indivíduos não mais poderiam resolver as suas questões de forma privada, precisando levar o caso a um poder exterior, o “procurador”, que surge ineditamente e se apresenta como representante do soberano, rei ou senhor. Ele dubla e substitui a vítima, o que permite que o poder político se aposse do procedimento judiciário.

Da mesma forma, nasce a noção de infração, abrangendo a ofensa ao Estado que, consequentemente, poderia exigir a reparação através das penas de multa (confiscações). Para saber se alguém era culpado ou não, não bastava mais o mecanismo da prova, da

luta entre dois adversários em pé de igualdade, era necessário terceiro, o mediador que, por meio do inquérito, decidia e prolatava a verdade.

Mais do que um ritual que hoje se mostra indispensável para os atores jurídicos, o inquérito se apresenta também como uma forma de dominação, de poder-saber, uma vez que através dele “descobre-se a verdade”.

“O inquérito é precisamente uma forma política, uma forma de gestão, de exercício de poder que, por meio da instituição judiciária, veio a ser uma maneira, na cultura ocidental, de autentificar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas como verdadeiras e de as transmitir. O inquérito é uma forma de poder-saber. É a análise dessas formas que nos deve conduzir à análise mais estrita das relações entre os conflitos de conhecimento e as determinações econômico-políticas” (FOUCAULT, 2002, p.78).

4 EXPERIMENTO

Com o objetivo de verificar na prática os aspectos da memória estudados até o momento e a sua influência no testemunho, foi realizado o experimento denominado “Testemunho e Verdade na Prática Judicial” a fim de coletar dados para posterior comparação com a literatura estudada. Tendo em vista a escassez de pesquisas similares no campo, bem como a contribuição que esta pesquisa empírica poderia dar ao Direito, o estudo foi desenvolvido através do LAPSO, Laboratório de Práticas Sociais da UFES, que realiza pesquisas empíricas relacionadas ao quotidiano da aplicação do direito com foco nos comportamentos coletivos, suas formas de justificação e consequências sociais e modos de pensar o direito.

Os dados obtidos com da pesquisa “Testemunho e Verdade na Prática Judicial” serão apresentados e discutidos nos tópicos 4.5 e 5.

Os objetivos do experimento é compreender a eficácia de modos diversos de coletas de prova testemunhal; verificar se modos específicos de coleta de prova testemunhal são capazes de gerar falsas memórias e relatos distorcidos e avaliar a influência de circunstâncias individuais na coleta de provas testemunhais.

Como variáveis temos a eficácia -quantidade e qualidade de informações que são obtidas a depender do “estilo” do entrevistador-; os modos diversos e específicos de

coletas de provas -quesito objetivo (digitação ou áudio e vídeo) e quesito subjetivo

(insistente no suspeito, insistente na pergunta etc) ao se entrevistar- e as circunstâncias

Participaram do evento 36 pessoas, 30 voluntários e 6 atores. Dos voluntários inscritos, 27 eram testemunhas ingênuas e 3 testemunhas tiveram uma participação especial no dia evento. Do total dos 27 voluntários, apenas 20 permaneceram até o final do experimento, dos quais 75% tinha entre 19 e 23 anos (média de 20,9 anos) e 25% acima de 35 anos (média de 44,2 anos). Quanto ao sexo dos participantes, 55% eram do sexo feminino e 45%, do sexo masculino.

Para a escolha dos voluntários foi feita a divulgação do experimento através de cartazes afixados na Universidade Federal do Espírito Santo que indicavam um formulário do google, que cada participantes deveria preencher, efetivando assim a inscrição, sem necessidade de seleção posterior por parte da equipe organizadora.

Após a inscrição, os participantes ficaram cientes dos dados da pesquisa por meio de um formulário, que continha a descrição sucinta do objeto, finalidades e procedimentos, além de detalhamentos sobre o modo de sua participação, que deveria ser voluntária e livremente consentida após esclarecimentos por parte dos pesquisadores. Foram apresentadas duas vias deste documento, ambas de igual conteúdo, sendo que uma ficou com o Laboratório e outra com o participante. Este procedimento faz parte do protocolo de pesquisa e visa a garantia da observação e o respeito dos procedimentos éticos de pesquisas que envolvem seres humanos.

Quanto à forma de análise e publicação dos dados, os voluntários ficaram cientes de que a divulgação dos resultados se daria na forma de artigo acadêmico e livro e em nenhum caso seria divulgada qualquer informação que permitisse identificá-los.

Foi informado também que os dados e informações coletadas no experimento seriam utilizados somente para a pesquisa e que os vídeos e áudios seriam destruídos após o término dos procedimentos de análise. Quando da publicação, seriam omitidas quaisquer informações ou referências que eventualmente permitissem identificar cada entrevistado ou a instituição à qual ele pertence.

Foram utilizados os critérios metodológicos experimentais e etnográficos. A primeira etapa do experimento submeteu um grupo de voluntários a um evento surpresa. Eles estavam numa sala de aula divididos em grupos para discutirem sobre as experiências individuais acerca de depoimentos na justiça e, inesperadamente, atores contratados que compunham um dos grupos iniciaram uma discussão, perfazendo a cena que os voluntários deveriam depor.

A segunda etapa consistiu na “quarentena” dos voluntários por vinte minutos, agora divididos em três grandes grupos. O grupo 1 poderia conversar livremente e foi

submetido à informações falsas sobre o evento; grupo 2 não poderia falar sobre o evento; o grupo 3, grupo de controle, poderia falar livremente mas não seria submetido às informações falsas.

Na terceira etapa, os participantes foram interrogados individualmente sobre o evento presenciado e cada interrogador poderia tomar o depoimento a) manualmente, b) por digitação ou c) por sistema de áudio e vídeo. No quesito subjetivo, o interrogador poderia a) insistir nas perguntas, b) insistir em um suspeito ou c) agir conforme a Entrevista Cognitiva (grupo de controle). Para a reprodução das técnicas utilizadas pelos interrogadores na coleta de testemunhos, os integrantes do grupo de pesquisa realizaram estudo de campo nas audiências de instrução criminal e delegacias da Grande Vitória entre 2013 e 2014.

O objetivo aqui era reproduzir com o máximo de fidelidade possível os procedimentos comuns em coleta de provas testemunhais. Nessa etapa do experimento, cada interrogador inquiriu entre 3 e 4 pessoas e cada interrogatório durou aproximadamente entre 20 e 30 minutos, exceto os interrogadores do grupo de controle, que demoraram entre 30 e 40 minutos.

A quarta etapa do evento interrogou novamente os participantes por filmagem um mês e meio após a experiência, com o propósito de analisar a memória sobre o evento com o passar do tempo