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O “jogo” das corporalidades “em contexto”

No documento VESTIR A LIBRAS NO CORPO (páginas 52-56)

LIBRAS, “CORPO SURDO” E SURDEZ NO CONTEXTO ETNOGRÁFICO

1.7. O “jogo” das corporalidades “em contexto”

Marilyn Strathern em “Fora do contexto” (1987) reflete sobre a dificuldade de acessar o outro interpretando-o a partir de nossos conceitos. Esta antropóloga, chama a atenção para o fato de que os conceitos “nativos” devem ser compreendidos em seus

39 Para Loïc Wacquant (orientando de Bourdieu), o corpo não é necessariamente o alvo de uma progressiva

culturalização, mas sim, uma ‘remodelação’ sofrida através das práticas disciplinares instituídas sobre o corpo. Wacquant oscila entre o corpo desnaturalizado e o corpo como objeto natural, conforme a definição de Mauss, entre a remodelação e a culturalização do corpo. Modeladoras ou remodeladoras, as práticas do ginásio possibilitam uma "conversão perceptual, emocional e mental que se efetua sobre um modo prático e coletivo, sobre a base de uma pedagogia implícita e mimética [...] que pacientemente redefine um a um todos os parâmetros da existência do boxeador" (2002, p. 23)

contextos e através de seus próprios termos. Nesse sentido, ressalta ainda, que o processo do “fazer etnográfico” se dá em contextos diversos, sendo assim, é importante considerar o “contexto” e o possível “jogo” estabelecido entre o etnógrafo e seus interlocutores, entre a experiência vivida em campo e as memórias produzidas pelo pesquisador, entre suas anotações e a transposição de aspectos significativos vividos em campo para a escrita. Nesse ponto, destaco certa compreensão a respeito das corporalidades “surda”, “deficiente auditiva” e “ouvinte” manifestadas durante o trabalho de campo.

Partindo de uma perspectiva socioantropológica busquei olhar para a surdez como experiência de vida a partir de uma certa condição corporal (diferente da minha). Precisei me distanciar de preconcepções pautadas em uma visão “ouvintista” que tendia à interpretar a surdez como “falta”, “doença” ou “limitação”. A partir desta releitura foi possível perceber as condições adversas, catastróficas, conflitivas, controvérsias e significativas envolvendo a existência de “pessoas surdas” em uma sociedade construída pelos e para os “ouvintes”.

Oliver Sacks argumenta que “não ter língua é uma das piores calamidades” (1989/2015, p. 19), uma vez que a pessoa é privada de informações básicas à sua existência social”, uma vez que a língua é considerada um fenômeno social (HYMES, 1963; DURANTI, 2003) capaz de promover subjetividades, integração social e memória coletiva. Desse modo, não ter acesso a uma língua geraria exclusão social e, por consequência, inibindo outras corporalidades de existir, de modo diferente das experimentadas pelos “ouvintes”.

Dentro da perspectiva socioantropológica sobre a surdez, inter-relacionando os contextos locais com os mais abrangentes, evidencia-se nas últimas três décadas no Brasil um “processo de invenção da ideia contemporânea de deficiência [...] momento de elaboração simbólica de um sujeito particular, que é o ´surdo´ falante [ou sinalizante] da libras” (ASSIS SILVA, 2012, p.12). Deste ponto, o processo de (re)invenção da surdez se deu de modo multifacetado, ou seja, por meio de ações oriundas de contextos acadêmico-científico, de comunidades surdas, de alguns segmentos religiosos protestantes e do campo político e jurídico. Foram, inicialmente nestes campos que as categorias “surdo”, “deficiente auditivo” e “ouvinte” foram mobilizadas historicamente (ASSIS SILVA, 2012; ASSÊNSIO, 2015; GEDIEL, 2010; LOPES, 2007).

Na região mineira em questão tive acesso a uma complexa malha de relações estabelecidas a partir de uma rede social – interconexões entre agentes fluentes na Libras

vinculados às instituições locais. Estas pessoas frequentavam um circuito urbano (MAGNANI, 2007) que envolvia espaços públicos da cidade (praças e ruas), pizzaria, espaços religiosos protestantes, residências de intérpretes e surdos, sede da Associação dos surdos e espaços dentro do campus universitário (salas de aula, auditórios, centro de vivências, biblioteca, entre outros).

Ao longo do trabalho de campo, aproximei-me de problemáticas relativas ao

fenômeno da surdez, as re(l)ações e arranjos sociais construídos em torno dele, as

possibilidades e potencialidades das pessoas diante dos marcadores corporais para distinção e evidência de uma identidade linguística-cultural. Coloquei-me à disposição para participar de encontros e projetos a fim de me aproximar dos principais agentes da Libras, interlocutores do campo. Após quase dois anos de iniciada minha experiência etnográfica, pude perceber a existência de conflitos e tensões envolvendo especificamente as categorias “surdo”, “deficiente auditivo” e “ouvinte”.

A respeito disto, Oliver Sack (1988) e Fernando Capovilla (2004) traçaram uma distinção entre “surdo” e “deficiente auditivo”. Para eles a categoria “surdo” refere-se

surdez congênita (pré-lingual), e “deficiente auditivo” seria um termo relativo à surdez adquirida (pós-lingual). Embora na literatura a observância dessas duas categorias seja

marcada por uma dicotomia entre elas, na prática social a disposição dos sentidos atribuídos a essas categorias não é homogênea dentro da diversidade daqueles que nascerem sem audição ou daqueles que se viram nesta condição depois de nascido. Nota- se, no entanto, um mosaico que entrecruza experiências biográficas corporais e o uso de outras categorias nativas, englobadas, ora pela categoria “surdo”, ora pela categoria “ouvinte”. Os autores supracitados explicam que pelo fato dos “surdos congênitos” não receberem “input linguístico”40 oral-auditivo, estes passam a desenvolver naturalmente a

língua de sinais, diferente dos “deficientes auditivos” que passam a fazer uso da língua oral, treinando leitura labial e vocalização assim como os “ouvintes”.

Sobre o “jogo” de categorias enunciadas em contraste, César Augusto de Assis Silva (2012), em um texto apresentado no Seminário do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, realizado em julho de 2012, traça um quadro dessas

40 Segundo algumas definições, e diretamente a encontrada no Blog de Ciência da UNICAMP – Instituto de Estudos da Linguagem, “input linguístico [refere-se à] “Tudo aquilo que a criança ouve, no caso de línguas orais faladas, ou vê, no caso de línguas de sinais. Mais especificamente, são os dados linguísticos produzidos no ambiente em que a criança vive, dirigidos ou não a ela.” Disponível in:

https://www.blogs.unicamp.br/linguistica/my_keywords/input-linguistico/ . Acessado 20/08/2019 às 22:39.

categorias dispostas pragmaticamente em um “campo de tensões e aproximações”. Ele explicita que o contexto histórico das categorias mobilizadas para se referir ou significar a surdez estariam vinculadas a um tema maior, ligado à categoria “deficiência”, assim sendo, a partir da década de 1970 esta categoria torna-se mais um marcador populacional, assim como “raça”, “gênero” e “classe”, por exemplo (ASSIS SILVA, 2012, p. 2).

Assis Silva (Ibid.) toma como objeto a “complexa pragmática” envolvendo as categorias “surdo”, “deficiente auditivo”, “mudez”, “surdo-mudo” e “mudinho”, traçando suas tensões e aproximações. Este antropólogo argumenta que houve com o tempo uma sincronia relacionada e incorporação dessas categorias nas pautas dos movimentos sociais, na mobilização de familiares, profissionais e líderes de segmentos religiosos. Esses grupos impulsionaram, amparados por instituições sociais, o reconhecimento dos direitos da “pessoa surda” e da “pessoa deficiente auditiva”. Tomando como exemplo, no contexto brasileiro, a criação da Federação Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, fundamentada a partir de três “Encontros Nacionais” (Brasília em 1980, Recife em 1981 e São Bernardo do Campo em 1983). Com base nesses dados, César Assis Silva afirma que a “deficiente” passou a ser uma categoria reivindicatória, estimulando o surgimento de novas organizações sociais, políticas e educacionais (2012, p. 5).

Ao passo que a categoria “deficiente auditivo” torna-se politicamente correta, passa a ser utilizada em documentos oficiais, como Leis e Decretos. Ainda, contrapondo tal significação e uso, algumas lideranças surdas passaram a criticá-la acusando-a de resguardar noções estigmatizadoras, vista de modo pejorativo (ASSÊNSIO, 2016). Na contramão, a categoria “surdo” passa a ser agenciada como uma arma despatologizante e produtora de uma diferença linguística cultural.

Com base no que foi exposto nesta seção, finalizo ressaltando que para muitos dos interlocutores do campo investigado, a categoria “deficiente auditivo” está diretamente vinculada às pessoas que ficaram surdas pós nascimento e ou àquelas de nascimento, que fazem uso da Língua Portuguesa, utilizam aparelhos auditivos, tiveram algum tipo de acompanhamento fonoaudiólogo, e ou não gostam de usar a Libras. Desse ponto, “surdo” passa a concorrer em legitimidade com a categoria “deficiente auditivo” e “ouvinte”. Assis Silva (2012) e Gediel (2010), mencionam em suas teses, que a categoria “surdo” está diretamente relacionada com os corpos sem audição que passaram a usar a Libras. Dito de outro modo, a categoria passa a ser interpretada aqui enquanto expressão de um tipo de corporalidade: “Surdo” torna-se englobante e distintiva em relação às categorias,

“surdo-mudo”, “mudo”, “surdo-oralizado”, “surdo-implantado” e “deficiente auditivo”, por exemplo.

No documento VESTIR A LIBRAS NO CORPO (páginas 52-56)