4. APRENDENDO COM O MEDO
4.2 O Medo e O Condicionamento
Herzberg (1987, p.109) levanta a seguinte questão: “Qual é o modo mais simples e direto de conseguir que as pessoas façam algo?”. E o mesmo responde que o comportamento de um indivíduo pode ser influenciado por condicionamento ou motivação. Mas afirma, categoricamente, que o método mais rápido seria “chutando-o”, isto é, condicionando-o.
O condicionamento pode ser classificado de duas formas: condicionamento negativo ou positivo. Seja o condicionamento negativo ou positivo, não é considerado motivação e, sim, uma simples e imediata movimentação em reação a um estímulo positivo ou negativo (HERZBERG, 1987).
Para Herzberg (1987), o condicionamento negativo é muito utilizado pelas organizações e ocorre, principalmente, por meio de supressões de recompensas esperadas, ameaças, injunção de re-trabalhos sem remuneração, imposição de horas extras ou repreensões públicas. O condicionamento negativo engloba todas as punições que um indivíduo pode sofrer (físicas e psicológicas) e, por medo de sofrê-las, age de acordo com as regras que lhe são impostas (HERZBERG, 1987).
Já o condicionamento positivo consiste em fornecer estímulos externos positivos – benefícios, premiações ou aumentos salariais – para que os indivíduos sintam-se “motivados” e se comportem da maneira esperada. Existem diversas formas de se
estimular, positivamente, um indivíduo, condicionando-o da maneira que for desejada e, baseado nisso é que Herzberg (1987, p.110) comenta que: “Quando a indústria deseja utilizar-se do condicionamento positivo, existe um numero incrível de variedades disponíveis de biscoitos para cachorro para se balançar na frente de um empregado fazendo-o pular.”.
O condicionamento positivo, apesar das inúmeras confusões, não é o mesmo que motivação e sim uma movimentação, e Herzberg (1987, p.110) assevera que:
O condicionamento não leva à motivação, mas ao movimento (...) Por que os administradores entendem que o condicionamento negativo não é motivação, porém são unânimes no julgamento de que o condicionamento positivo é motivação? Isto se deve ao fato de que o condicionamento negativo é um estupro e o condicionamento positivo é uma sedução. Mas é infinitamente pior ser seduzido do que estuprado; o último é uma infeliz ocorrência enquanto o primeiro significa que você mesmo se enganou.
Para determinar o que realmente seria o ato de motivar um indivíduo, desfazendo qualquer dúvida conceitual, Herzberg (1987, p.110) define que:
A motivação, ao contrário do condicionamento, é tão somente desencadeada por estímulos internos (...). Por que o condicionamento não é motivação? Eu posso colocar uma bateria num homem e recarregá-la sempre que necessário. Mas é somente quando ele utiliza seu próprio gerador que podemos dizer que ele está motivado. Ele não necessita de nenhum estímulo externo, ele quer fazer aquilo.
O conceito de aprendizagem pelo uso voluntário do medo, como recurso pedagógico, que está sendo aqui construído, mostra-se diretamente correlacionado ao
conceito do condicionamento negativo de Herzberg (1987), já que o ato pedagógico do medo leva o indivíduo ao condicionamento de seu comportamento.
Segundo Gray (1976), quando os estimuladores possuem conseqüências nocivas para o indivíduo, no caso de alguns estímulos encontrados na interação social entre indivíduos, levam-no ao campo da aprendizagem, condicionando-o.
. O medo configura-se como uma especializada modalidade do organismo do ser humano capaz de fazer com que o indivíduo reelabore as informações e, assim, enfrente a realidade (CICERI, 2004). Esse processo de adaptação a novas situações e realidades é considerado um processo pedagógico, uma vez que Piaget (1976) deixa bem claro em seus estudos que: a adaptação é a essência do funcionamento intelectual.
Como foi visto no capítulo 2, o indivíduo que se sente amedrontado reage a esse sentimento por meio de uma fuga passiva, retraindo-se, ou por meio de uma fuga ativa, movimentando-se e, baseado nisto, é que Mira y López (2002) afirma que o processo de condicionamento é determinado por uma conduta de fuga, na tentativa de se evitar alguns males associados ao medo. Porém, o autor complementa este pensamento comentando que o medo atua como agente condicionante e antecipador do sofrimento, não apenas diante de uma ação direta e real, mas também diante de estímulos ocasionados por situações, ou características situacionais, previamente vividas pelos indivíduos, originando o medo diante do indício do dano, ou seja, o perigo.
No entanto, Ciceri (2004) alerta que a avaliação de periculosidade de um antecedente situacional depende, em grande parte, da experiência individual de cada indivíduo. E para elucidar isto é que Ciceri (2004) apresenta o seguinte exemplo: se alguém se aproxima por trás e arranca a bolsa de uma pessoa, fazendo-a cair, por um
certo tempo, ao caminhar pela rua, esta pessoa ficará desconfiada de qualquer presença de movimento atrás dele. Qualquer movimento imprevisto trará sobressalto e fará com que esta pessoa mude a bolsa de posição.
Voltando ao meio organizacional, uma grande empresa de telecomunicações adotava o seguinte ritual em dias de corte de pessoal: estacionar uma ambulância na entrada do edifício da empresa, como conduta preventiva caso algum indivíduo passasse mal. Para os indivíduos sobreviventes a esses processos de demissão, avistar uma ambulância estacionada na entrada de seu trabalho é o suficiente para o medo tomar conta de seu sistema nervoso, mas para os indivíduos que nunca passaram por este desgosto, isto não caracterizaria uma situação de perigo.
O medo ensina o ser humano a cada momento, e os estímulos antes irrelevantes são transformados em sinais de alarme. Ciceri (2004, p.149) utiliza-se de uma expressão que resume todo este processo de aprendizagem: “perdemos a inocência original”.
Mas, em contra partida, o medo pode ser manipulado no intuito de gerar o “aprendizado”. E é neste sentido que Dejours (1992) assegura que o medo é usado como instrumento de produtividade e controle social, representando uma forma total, completa e original de exploração. O medo é conscientemente instrumentalizado pelos gestores com o objetivo de pressionar os indivíduos, e fazê-los trabalhar.
Crescer, prosperar, aumentar a produtividade e a lucratividade, são alguns dos objetivos de toda organização. Mas, para se alcançar tudo isso é importante lembrar que toda organização é formada por indivíduos, e que estes indivíduos devem estar alinhadas com os objetivos da organização. Assim, baseado neste pensamento de
aumento da produtividade, os gestores mostraram-se capazes de criar múltiplas formas de condicionar seus chefiados.
Uma dessas formas na tentativa de condicionar o indivíduo é a erosão mental produzida pela instrumentalização do medo. Dejours (1992) afirma que a erosão mental individual dos indivíduos é útil para a implantação de um comportamento condicionado favorável à produção. Entretanto, o autor assevera que este desgaste mental, e físico, é uma infeliz conseqüência, já que o que é explorado pela organização não é o sofrimento, mas principalmente os mecanismos de defesa utilizados contra esse sofrimento.
Para Gilley (1999), existe um estilo de gerência capaz de estimular o medo nos indivíduos subordinados, e que pode ser classificado como: administração por meio da intimidação. Este tipo de gestão baseia-se em exigências absurdas, seguidas de ameaças sistemáticas, rejeições e controles de comportamento.
Os gestores sabem muito bem que usando da ameaça da demissão, por exemplo, eles podem intensificar o trabalho de seus subordinados, já que a concorrência entre os indivíduos à procura de emprego está cada vez mais acirrada.
Segundo Dejours (2005), os indivíduos submetidos a essa nova forma de dominação, pela manipulação gerencial da ameaça de precarização, vivem constantemente com medo. Esse medo é permanente e gera condutas de obediência e submissão (DEJOURS, 2005).
Porém, é sempre importante se fazer valer da célebre pergunta: Será que os fins justificam os meios? Dejours (1992, p.103) adverte: “Para aumentar a produção, basta puxar as rédeas do sofrimento psíquico, mas respeitando-se, também, os limites e as
capacidades de cada um, senão arrisca-se descompensar uma ou outra pessoa por meio, por exemplo, de uma crise de nervos.”.
Ainda preocupado com o desgaste progressivo dos indivíduos, devido à utilização do medo como instrumento pedagógico, Dejours (2005, p.58) complementa:
A escala do gerenciamento pela ameaça tem limites. Além de certo nível e de certo prazo, o medo paralisa, pois quebra a “moral” do coletivo – mesmo em situações extremas como a guerra. Mas, o prazo para os limites se revelarem é imprevisível. Ao contrário, e voltando às teorias clássicas de motivação, a mobilização da inteligência pela gratificação e pelo reconhecimento do trabalho bem feito não tem limite.
A utilização da pedagogia do medo pelos gestores vai de encontro a todos os conceitos de liderança, que têm sido explorados massivamente pela mídia empresarial, movimentando enormes quantias de capital em livros, treinamentos e palestras.