1.4 O meio ambiente e os direitos fundamentais
1.4.4 O meio ambiente como um direito fundamental
Conforme consignado no princípio 1 da Declaração de Estocolmo35, o meio ambiente equilibrado é essencial para que o homem tenha uma vida digna e com bem-estar. É essa incidência direta do ambiente na existência humana que justifica e até mesmo impõe a inserção do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado no estatuto dos direitos fundamentais.Para Bobbio dentre os chamados direitos de terceira geração o mais importante deles é “o direito de viver num ambiente não poluído”. (1992, p. 06).
Na Constituição Brasileira de 1988 o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado está incluído no capítulo intitulado Da Ordem Social, qualificando-se, portanto, também como um direito social36. Nesse sentido defendem Sarlet e Fensterseifer (2013, p. 109) “uma tutela integrada e compartilhada dos direitos sociais e ecológicos agrupados sob o rótulo genérico dedireitos fundamentais econômicos, sociais, culturais e ambientais ou direitos fundamentais socioambientais (DESCA)’’37. Dessa forma, ter-se-á uma ampliação do rol de direitos
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Declaração de Estocolmo. Princípio 1. O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna e gozar de bemestar, tendo a solene obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras. A este respeito, as políticas que promovem ou perpetuam o apartheid, a segregação racial, a discriminação, a opressão colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira são condenadas e devem ser eliminadas. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, DECLARAÇÃO SOBRE O MEIO AMBIENTE HUMANA, 1972).
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Direitos sociais, econômicos e culturais - estão no rol do art. 6º bem como no título da ordem social.
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sociais ao mesmo tempo em que se aplicam às questões ambientais as conquistas já alcançadas por tais direitos.
Acerca dessa relação entre direitos sociais e ambientais, Lúcia da Costa Ferreira (1996, p. 254/255) defende o necessário diálogo e proximidade de atuação entre os movimentos ambientalistas e os movimentos sociais já que existe uma interdependência entre direitos sociais e a proteção do meio ambiente como a qualidade da água e o esgotamento sanitário, a moradia, áreas de risco e poluição atmosférica, alimentação e agrotóxicos.
No Brasil, a fundamentalidade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado acontece tanto nos aspectos formal quanto material. O primeiro aspecto está contemplado pela inserção do aludido direito no texto constitucional de 1988, conforme está disposto no art. 22538. Já o aspecto material está atendido em razão de sua relação com a dignidade da pessoa humana.
O fato de a Constituição não ter elencado o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado no capítulo intitulado Dos Direitos e Garantias Fundamentais não altera a natureza desse direito. Por autorização expressa da própria Carta de 1988 é reconhecida a existência de direitos fundamentais por todo o texto constitucional e até mesmo fora dele39.
O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado acaba por trazer nova significação tanto para a dignidade da pessoa humana quanto para o direito a vida. Esta passa a ser compreendida como vida saudável. A dignidade, por sua vez, passa a ser considerada também em termos ecológicos criando uma dimensão ecológica para a dignidade da pessoa humana.
geração (até porque tal distinção diz respeito mais ao momento histórico em que surgiu cada classe de direitos). O que os autores defendem é a “necessidade de uma compreensão integrada do regime jurídico dos direitos fundamentais econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA), de modo a contemplar uma tutela ampla e econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA), de modo a contemplar uma tutela ampla e qualificada da dignidade da pessoa humana, tanto sob a perspectiva individual quanto coletiva’’. (FENSTERSEIFER, SARLET, 2013, p. 123).
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Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
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Art. 5, § 2º - Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.
Nesse sentido, Medeiros (2004, p. 113) pontua que,
Ao incluir o meio ambiente como um bem jurídico passível de tutela, o constituinte delimitou a existência de uma nova dimensão do direito fundamental à vida e do próprio princípio da dignidade da pessoa humana, haja vista ser no meio ambiente o espaço em que se desenvolve a vida humana.
Tem-se, assim, uma ampliação do conceito de vida e de dignidade. Ao discorrer sobre a manifestação da dignidade Peter Häberle, entre outras questões40, cita a proteção ambiental mínima como manifestação de dignidade humana. (HARBELE, 2009, p. 88).
Além disso, a qualidade do meio ambiente também está relacionada aos direitos da personalidade. Nesse sentido, Sarlet e Fensterseifer (2013, p. 50/51) afirmam que “[...] deve-se inserir a qualidade ambiental como um dos elementos- chave da tutela da personalidade humana, em vista da relação intrínseca que aquela guarda com a condição existencial (presente e futura) do ser humano’’.Os autores lembram ainda que quando a vida se desenvolve em uma realidade ambiental degradada fica comprometido o pleno desenvolvimento da personalidade humana, compreendendo seu bem-estar psíquico, físico e social especialmente em razão dos problemas físicos e emocionais verificadossobretudo nas grandes e médias cidades.
A qualidade do meio ambiente está ligada ainda à saúde humana seja para promover uma sadia qualidade de vida, seja porque baixos níveis de poluição, tratamento de esgotamento sanitário entre outras questões são essenciais na prevenção das mais variadas doenças. “Não se pode conceber a vida - com dignidade e saúde - sem um ambiente natural saudável e equilibrado. A vida e saúde humanas [...] só estão asseguradas no âmbito de determinados padrões ecológicos’’. (SARLET e FENSTERSEIFER, 2013, p. 50).
Também correlacionando meio ambiente e saúde Benjamin (2007, p. 91) pontua que “Quase sempre quando se ampara o ambiente está-se beneficiando a saúde humana e vice-versa’’. Exemplificando essa íntima relação entre aspectos da proteção ambiental e da proteção sanitária lembra o autor do “[...] controle de substâncias perigosas e tóxicas, como os agrotóxicos, e com a preocupação da
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Outra questão citada pelo autor é a educação, o reconhecimento da igualdade para o outro, as questões genéticas, a ampliação da cidadania.
potabilidade da água e a respirabilidade do ar’’.
O direito ao meio ambiente equilibrado é um direito de titularidade transindividual, coletiva, difusa uma vez que tem como titular não uma só pessoa, mas toda a população humana. Tal como os outros demais direitos de terceira geração centram-se mais na perspectiva da espécie humana do que no aspecto e de um indivíduo ou grupos de pessoas.
Essa perspectiva global, de proteção a todos, abrange inclusive as gerações futuras. A Constituição de 1988 é expressa nesse sentido impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. Isso se deve ao fato de que o modo de vida, de produção e de consumo das gerações atuais reflete de forma direta nas condições ambientais futuras repercutindo significativamente naperpetuidade da espécie humana.
O art. 225 da Carta Magna ao mesmo tempo em que prediz um direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado também prevê um dever ao impor ao Poder Público e a coletividade a obrigação de defendê-lo e preservá-lo. Consubstancia-se, assim, em um direito-dever. Trata-se, portanto, de um direito fundamental que denota dever fundamental.
Em 1995, o Supremo Tribunal Federal (STF), a Corte Constitucional pátria, reconheceu a fundamentalidade do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.
[...] O direito à integridade do meio ambiente - típico direito de terceira geração - constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, à própria coletividade social. Enquanto os direitos de primeira geração (direitos civis e políticos) - que compreendem as liberdades clássicas, negativas ou formais - realçam o princípio da liberdade e os direitos de segunda geração (direitos econômicos, sociais e culturais) - que se identificam com as liberdades positivas, reais ou concretas - acentuam o princípio da igualdade, os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e
constituem um momento importante no processo de
desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela
nota de uma essencial inexauribilidade. (BRASIL, 1995).
Para Alexy, (2008, p. 443) o direito fundamental ambiental é um “direito fundamental completo’’, já que se constitui em um direito de defesa, um direito a proteção, um direito ao procedimento e em um direito a uma prestação. O aspecto de defesa diz respeito à obrigação do Estado de deixar de realizar determinadas intervenções no meio ambiente. O direito à proteção refere-se a imposição do Estado de proteger o titular do direito fundamental frente a intervenções de terceiros que causem dano ao meio ambiente. A feição procedimental do direito ao meio ambiente, se consubstancia na imposição do Estado de incluir os titulares desse direito na participação de procedimentos relevantes para o mesmo; e o direito a uma prestação, diz respeito ao direito a que o próprio Estado realize medidas reais para a melhorar o ambiente.
Em suma, o direito fundamental ao ambiente ecologicamente equilibrado não é apenas um direito social: é também um direito fundamental individual e não se resume apenas a um direito de defesa ou um direito prestacional, ele reúne as duas dimensões. (ROTHENBURG, 2012, p. 255).
A qualificação ecologicamente equilibrado significa interação harmônica com todas as partes do meio. Quer dizer um meio ambiente que não esteja poluído, que não prejudique a sobrevivência das espécies nem a renovação dos ciclos naturais. Importante também destacar que oequilíbrio de cada meio ambiente depende das condições específicas geoclimático-biológicas de cada lugar. Cada meio tem particularidades e necessidades diferentes bem como reage diferente aos abusos41 [...]. (CAETANO; LEITE, 2012, p. 81).
Qualificar um direito como fundamental tem grande importância prática, pois todos eles são irrenunciáveis, inalienáveis e imprescritíveis. Aliado a isso, por força do art. 5º, § 1º, CF/88, as normas que delineiam esses direitos tem aplicação imediata além de serem consideradas cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, CF), ou seja, não podem ser abolidas pelo Poder Constituinte Derivado, limitam o poder de reforma constitucional bem como possuem hierarquia constitucional. Isso quer dizer que se determinada lei dificultar ou impedir de modo desproporcional a efetivação de um
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Os elementos e cuidados que fazem do cerrado um ambiente sadio não são os mesmos para a tutela da floresta Amazônia, por exemplo.
direito fundamental, essa lei poderá ter sua aplicação afastada por inconstitucionalidade. Cumpre observar que essa última consequência só foi reconhecida após uma leitura pós-positivista do ordenamento reconhecendo-se força normativa a todos os dispositivos constitucionais.
O reconhecimento do meio ambiente como um direito fundamental é aceito por grande parte da doutrina42. Ele vem complementar os outros direitos fundamentais já consagrados e, como visto em tópico anterior, constitui-se atualmente importante aspecto das preocupações dos Estados.
Hartmann (2010, p. 34) é uma das poucas vozes contrárias ao reconhecimento do meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental sob os argumentos de que a proteção ambiental não é subjetivável bem como não há como se determinar, no caso concreto, o titular de um direito fundamental ao meio ambiente.O autor não visualiza o meio ambiente como um direito possível de ser subjetivado diferenciando-se dos direitos fundamentais por ter valor próprio devendo, portanto, ser tutelado de maneira autônoma e não em razão do interesse do homem.
Quando se examina os direitos fundamentais percebe-se que são sempre algo devido ao indivíduo e nesse sentido dele. A liberdade, a igualdade, o livre exercício da profissão, a saúde, a educação. Mas o ambiente não se enquadra nessa categoria reconhecendo o valor intrínseco da natureza não se pode outorgar uma posição subjetiva fundamental ao homem cujo objetivo é o meio ambiente. (Hartmann, 2010, p. 35).O autor nega também a natureza de direito fundamental ao meio ambiente, pois para ele tais direitos são sempre individuais ou no mínimo individualizáveis sendo apenas o interesse (e não o direito) qualificável como difuso.
Hartmann (2010, p. 39), entretanto, deixa claro que sua posição não implica em menor proteção ambiental. Embora ele seja contrário à existência de um direito fundamental ao meio ambiente, reconhece a possibilidade de sua proteção através de uma demanda individual (posição subjetiva) em relação ao Estado, mas não como um direito fundamental e sim como um direito à devida proteção ambiental por
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Nesse sentido Sarlet e Fensterseifer (2013), Bianchi (2010), Freitas (2002), Medeiros (2004), Molinaro (2006), Leite (2007), Milaré (2013).
parte do poder público. Para ele a norma contida no art. 225 da Constituição Federal tem natureza de objetivo estatal o que determina de modo direto e irreversível a atuação do Estado na preservação do meio ambiente.
Não se vê óbice em reconhecer o homem como titular de um direito fundamental ao meio ambiente ao mesmo tempo em que se visualiza um valor intrínseco a este. Ademais, a subjetivação desse bem está claramente expressa na Constituição Federal ao determinar que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Além disso, a norma do art. 225 da CF/88 pode ser interpretada tanto quanto um direito fundamental como um objetivo estatal.
Ademais, ao defender sua posição o referido autor não explica como se resolve a fundamentação para a questão da proibição de retrocesso em matéria ambiental já que não se trataria de um direito fundamental.