4 A ATUAÇÃO DOS PODERES PÚBLICOS EM UM ESTADO AMBIENTAL
4.3 Os poderes públicos e o Estado Ambiental
4.3.3 O Poder Judiciário
O Judiciário está vinculado ao objetivo estatal de proteção ambiental de forma a produzir uma interpretação que garanta a preservação do meio ambiente. Tal tarefa interpretativa ganha ampla relevância levando-se em consideração que grande parte da legislação ambiental brasileira data de período anterior à promulgação da Constituição de 1988. Fensterseifer (2008, p. 01) aponta como uma das questões decisivas para o Estado Ambiental “o controle jurídico do uso racional do patrimônio natural’’.
Para além dessa função interpretativa, o papel do Judiciário consiste também na fiscalização dos poderes Executivo e Legislativo quanto ao cumprimento do art. 225 e demais dispositivos constitucionais relativos ao meio ambiente seja através do controle de constitucionalidade dos atos normativos seja pelo controle judicialem sede de políticas públicas. Conforme defende Medauar (2009, p. 230) “[...] cabe ao judiciário apreciar o cumprimento por parte do Legislativo ou por parte do Executivo, das diretrizes constitucionais ou legais relativas à proteção ambiental, para que tornem efetivas e não sejam desrespeitadas ou ignoradas’’.
O não cumprimento por parte do Estado de medidas capazes de assegurar a efetividade do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (bem como dos demais direitos fundamentais) resulta em inconstitucionalidade a reclamar a atuação incisiva do Poder Judiciário. Vale lembrar que tal conduta tem legitimidade garantida pelo art. 5º, XXXV, da Constituição Federal de 1988 ao dispor que a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.
Dessa forma, o aludido poder tem importante atuação quando o próprio Estado é violador do meio ambiente. Através do controle firme e efetivo das práticas poluentes promovidas pelos demais Poderes, ele irá contribuir, senão para por fim, ao menos para minimizar o paradoxo consistente no fato de que o mesmo Estado que se define constitucionalmente ambiental é, também, um grande violador do meio- ambiente.
Ademais, ao julgar as demandas relacionadas ao meio ambiente, o Poder Judiciário tem especial tarefa de evitar que ocorra retrocesso em matéria ambiental a exemplo do ocorrido com a aprovação da Lei 12.651/2012.
Outra forma do Poder Judiciário contribuir para uma constante efetivação do Estado Ambiental é a criação de varas especializadas149para o tema de modo a propiciar um melhor conhecimento da questão por parte dos magistrados em razão das especificidades da matéria que, como se viu, necessita de pré-compreensões específicas. Tal atitude pode ser alcançada também com a contribuição do Conselho Nacional de Justiça.
149
Segundo informam os sites dos respectivos tribunais de justiça, na Justiça Estadual existem várias especializadas em matéria ambiental nos estados do Amazonas, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme constatado o meio ambiente é composto de várias espécies incluindo os recursos naturais, físicos, químicos, biológicos e artificiais bem como a interação que se dá entre todos esses elementos. O equilíbrio ambiental é condição indispensável para a existência da vida.
A inserção do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado no texto constitucional aliado ao fato de sua relação direta coma dignidade da pessoa humana e com próprio direito à vida permite afirmar a existência de um direito fundamental ao meio ambiente hoje reconhecido nacional e internacionalmente.
A preocupação ecológica só começou a tomar forma, entretanto, no final de década de 60 passando a ser mais efetiva a partir de 1970 quando o mundo começou a perceber a forma nociva com que o homem vinha se relacionado com a natureza bem como o desenvolvimento econômico predatório estabelecido desde a Revolução Industrial culminando em uma crise ambiental.
A demanda pela preservação do meio ambiente pugnando-se para que ele se apresente como ecologicamente equilibrado, surgida pela crise ambiental e pela denominada sociedade de risco, fez com que se inserisse nas Constituições de vários estados entre eles o Brasil o direito fundamental ao meio ambiente. Dessa inserção adveio um novo modelo de Estado - O Estado Socioambiental e Democrático de Direitocuja uma das funções é a proteção e promoção do direito fundamental do meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Da análise dos dispositivos constitucionais é possível induzir a opção brasileira por um Estado Democrático, de Direito e também Ambiental. A preocupação em inserir no texto constitucional o direito ao meio ambiente equilibrado, bem como a obrigação por parte do Estado e de toda a sociedade brasileira na preservação do meio ambiente, comprova essa opção. Ademais, em todo o texto constitucional de 1988percebe-se a preocupação com todas as
espécies de meio ambiente sendo possível verificar na Constituição as características do conceito de Estado Ambiental entre elas o princípio da solidariedade e o desenvolvimento sustentável.
Dessa nova caracterização do Estado brasileiro emerge a necessidade de novas pré-compreensões, novos paradigmas e a antecipação de conceitos voltados para a efetivação do Estado Ambiental proposto pela Carta de 1988. Para compreender esse novo papel do Estado e da própria sociedade, conforme proposto por Gadamer, é preciso que o intérprete tenha uma pré-compreensão do problema, conhecendo de antemão conceitos que lhe servirão de subsídios para a análise do texto.
O estudo mostrou que para se efetivar o Estado Ambiental Brasileiro os intérpretes da Constituição deverão analisá-la já cientes de conceitos como a crise ambiental, a sociedade de risco, as gerações dos problemas ambientais, o antropocentrismo alargado fruto de uma nova relação entre o homem e a natureza (uma ética ambiental) e a proibição de retrocesso em matéria ambiental. Sem esses conceitos o intérprete sequer terá condições de reconhecer a necessidade da preservação do meio ambiente quanto mais cumprir a imposição constitucional de preservá-lo.
O art. 225 da Constituição Federal de 1988 determina que cabe ao poder público e à sociedade a busca por um meio ambiente ecologicamente equilibrado. A moderna teoria da constituição baseada no seu reconhecimento como norma jurídica impositiva, com caráter cogente aliada à filosofia pós-positivista do direito, o fenômeno da constitucionalização do direito, da força normativa das normas constitucionais e da nova forma de se interpretar as normas programáticas tudo isso voltadopara promover a maior concretização possível das normas constitucionais, permite se defender a aplicabilidade imediata das normas constitucionais a todas as condutas dos poderes públicos tanto no cumprimento de suas funções típicas quanto de suas funções atípicas.
Por meio da ideia de Constituição Dirigente, das normas programáticas e especialmente do reconhecimento da força normativa da Constituição resta bem delineado o arcabouço teórico capaz de fundamentar a eficácia e aplicabilidade de todas as normas constitucionais, entre elas aquelas voltadas para a proteção do
meio ambiente possibilitando retirar diretamente do texto constitucional o fundamento jurídico capaz de impor condutas, formas de atuação ao Poder Público.
O caráter dirigente da Constituição de 1988 impõe a todos os entes dos poderes públicos não apenas a tarefa de não contraria-la, mas substancialmente de promover sua efetivação de forma cada vez mais ampla.
Nesse sentido, como consequência do reconhecimento do Estado Ambiental Brasileiro não pode se admitir tanto por parte da sociedade quanto da parte dos poderes públicos nas suas mais diversas atuações qualquer atitude que implique a não preservação ambiental, ou pior, a imprudência no tratamento das questões ecológicas com práticas contrárias que poluam ou que degradem o meio ambiente. Todos os atos estatais devem passar, atualmente, pela preocupação com o meio ambiente estejam eles ligados ou não à temática. Além disso, não há mais que se admitir retrocesso em matéria de proteção do meio ambiente.
Por fim, os exemplos trazidos a discussão no decorrer no trabalho especialmente em relação à atuação dos Poderes Executivo e Legislativo demonstram que ainda há um caminho a percorrer para que o poder público brasileiro tome consciência de suas novas atribuições e vedações diante do reconhecimento da existência de um Estado Ambiental Brasileiro. O novo paradigma imposto bem como as novas pré-compreensões necessárias ainda precisam ser inseridas nas condutas públicas brasileiras.
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