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O meio permanece, mesmo que o medium se altere 

No documento DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA (páginas 71-73)

1.2   O itinerário errático do termo ‘medium’: referências históricas 

1.4.2   O meio permanece, mesmo que o medium se altere 

Dando  ênfase  a  essa  noção  ao  longo  de  seu  trabalho,  McLuhan  (1969,  p.23) explica que é “o meio que configura e controla a proporção e a forma das  ações  e  associações  humanas”,  quando  percebemos  que  a  introdução  de  qualquer  meio  ou  tecnologia  produz  uma  mudança  de  escala,  cadência  ou  padrão  nas  formas  antecessoras.  Esta  é  a  mensagem  do  meio  para  ele,  não  o  conteúdo  específico  de  cada  meio,  cuja  presença  cegar‐nos‐ia  para  a  natureza  desse mesmo meio. São noções fundadoras que procuram explicar algo além da  concepção de suporte e conteúdo, com os quais suas ideias foram confundidas  por muito tempo. Além do suporte, há um meio, muito mais amplo, um espaço  que inclui as práticas sociais e culturais do homem.  

Os  exemplos  de  McLuhan  (1969)  deixam  isso  claro.  Ele  ilustra  como  a  introdução  da  estrada  de  ferro  criou  tipos  de  cidade,  de  trabalho  e  de  lazer  inteiramente  novos  ou,  ainda,  como  o  automóvel,  ao  aposentar  a  função  do  cavalo  como  transporte,  livrou‐o  para  atividades  de  recreação.  O  meio  automotivo é ainda um exemplo valioso para nosso tempo, sob domínio de suas  atividades.  Para  o  meio  automotivo,  não  importa  o  tipo  de  automóvel,  nem  o  que ele transporta, mas todo o sistema de autoestradas criado para o seu uso.  Importa  que  “o  carro  remodelou  todos  os  espaços  que  unem  e  separam  os  homens.” (p. 254). Como consequência, as cidades modificaram‐se para permitir  o trânsito dos automóveis, criando um urbanismo (programa) propício para o seu  uso intensivo, com ruas e avenidas, submetendo os pedestres à sua adaptação.  Grandes indústrias surgem para fazer prosperar o meio automotivo, oferecendo  empregos e carreiras para as pessoas. Como o próprio McLuhan (1979) diz numa  entrevista,  “o  meio  não  é  o  automóvel,  mas  sim  tudo  o  que  existe  devido  ao 

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automóvel: as estradas, as fábricas, as bombas de gasolina etc – tudo o que se  cria ao seu redor e que muda a vida das pessoas.” (p. 14). 

Dessa  forma,  o  meio  automotivo  não  se  restringe  apenas  ao  uso  do  automóvel,  seu  conteúdo  mais  visível,  mas  está  relacionado  a  todo  o  entorno  social  e  cultural  criado  para  ele.  O  carro  modifica‐se,  é  atualizado  constantemente,  assim  como  o  meio  automotivo,  que  se  torna  global;  suas  características tecnológicas modificam‐se, mas a relação entre suas propriedades  e capacidades permanece estável. 

Ao  tratar  do  meio  imagético,  temos  que  nos  posicionar  de  modo  semelhante e procurar no meio que configura a imagem e controla seu corpo os  elementos necessários para encaminhar a análise sob o ponto de vista espacial.  Tomando como exemplo a televisão como um espaço de imagem, responsável  pela  geração  da  imagem  eletrônica,  vemos  que  a  conversão  do  seu  sinal  eletrônico para o digital possibilita a sua imersão no fluxo digital de informação,  tornando  seu  suporte  impreciso.  Se  antes  o  aparelho  de  televisão  era  identificado  e  confundido  com  o  próprio  meio  televisivo,  hoje,  com  a  multiplicidade  de  dispositivos  digitais  capazes  de  exibir  sua  programação,  notamos  transformações  no  sistema  meio‐medium‐ambiente,  mas  de  modo  algum observamos sua extinção ou diminuição de capacidade produtiva. O meio  televisivo formado pelas redes de televisão, estúdios de gravação, profissionais  da área, como técnicos, jornalistas, diretores e atores, satélites e fabricantes de  aparelhos, entre outros, continua a exibir grande vitalidade em suas funções. A  alteração no seu medium tradicional ou, ainda, no seu suporte não inviabilizou  sua  operação.  No  entanto,  houve  transformações  significativas,  tanto  no  meio  televisivo  quanto  no  ambiente  em  que  se  encontram  os  espectadores,  mas,  como  ressalva  Belting  (2005),  em  sua  presença  sempre  mutante,  eles  têm 

mantido seu lugar na circulação de imagens. 

McLuhan  (1969)  ampara  seus  estudos  sobre  meios  e  medium  de  comunicação em um conceito espacial. A partir da influência sempre lembrada  de  autores  como  Harold  Innis,  Edward  Hall  e  Sigfried  Giedion,  cujos  trabalhos  relacionam‐se estreitamente à temática espacial, opera a aproximação entre as  categorias espacial e comunicacional. Clavell (2003) realiza, no livro McLuhan in 

space, um amplo estudo sobre essa postura teórica, com base no argumento de 

que o espaço é a única e mais consistente categoria conceitual dentro do eclético  corpo de trabalho do autor canadense, no contexto de uma história do espaço, e  das  práticas  contemporâneas  inseridas  dentro  da  “ciência  espacial”,  como  também no contexto das “artes espaciais”. 

Em  seu  livro  A  galáxia  de  Gutenberg,  McLuhan  (1977)  estuda  a  fase  tipográfica  da  cultura  alfabética.  Em  torno  dessa  temática,  demonstra  como  a  invenção  do  alfabeto  fonético,  da  escrita  e  depois  do  tipo  móvel  veio  revolucionar  o  espaço  da  escrita,  com  a  invenção  do  papel.  Assim,  evidencia  como  todo  um  conjunto  de  elementos  materiais  e  técnicos  é  decisivo  para  o  desenvolvimento  do  medium  da  escrita  alfabética  e  da  sua  constituição  como  conjunto  de  elementos  abstratos  e  espaciais,  que  implicam  diferentes  mecanismos  de  compreensão  e  a  recomposição  do  nosso  sistema  perceptivo,  que  ganha  diferentes  contornos,  alterando  nossa  forma  de  consciência  e  conhecimento  do  mundo.  Para  ele,  a  transferência  da  palavra,  de  um  espaço  acústico para um espaço visual, promove o encontro entre as culturas orais e as  culturas  letradas  e  provoca  a  “explosão  do  olho”,  ou  seja,  a  cultura  visual  que  privilegia o sentido da visão. 

Dessa  maneira,  McLuhan  (1977)  enfatiza  as  relações  entre  espaço,  comunicação  e  percepção  sensorial,  de  maneira  até  então  pouco  usual,  estabelecendo os meios de comunicação como formas espaciais que apelam aos  nossos sentidos, como quando explica que  

a invenção do alfabeto, à semelhança da invenção da roda, foi  a  primeira  tradução  ou  redução  de  um  complexo  e  orgânico  intercâmbio de espaços num único espaço. O alfabeto fonético  reduziu  o  uso  simultâneo  de  todos  os  sentidos,  que  é  a  expressão  oral,  a  um  simples  código  visual.  Hoje,  pode‐se  efetuar  essa  espécie  de  translação  numa  ou  outra  direção,  através  de  uma  variedade  de  formas  espaciais,  as  quais  chamamos de ‘media’, ou ‘meios de comunicação’. Mas, cada  uma dessas formas de espaço tem propriedades particulares e  incide  sobre  nossos  outros  sentidos  ou  espaços  de  modo  também particular. (p. 76). 

 

No documento DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA (páginas 71-73)