1.2 O itinerário errático do termo ‘medium’: referências históricas
1.4.2 O meio permanece, mesmo que o medium se altere
Dando ênfase a essa noção ao longo de seu trabalho, McLuhan (1969, p.23) explica que é “o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas”, quando percebemos que a introdução de qualquer meio ou tecnologia produz uma mudança de escala, cadência ou padrão nas formas antecessoras. Esta é a mensagem do meio para ele, não o conteúdo específico de cada meio, cuja presença cegar‐nos‐ia para a natureza desse mesmo meio. São noções fundadoras que procuram explicar algo além da concepção de suporte e conteúdo, com os quais suas ideias foram confundidas por muito tempo. Além do suporte, há um meio, muito mais amplo, um espaço que inclui as práticas sociais e culturais do homem.
Os exemplos de McLuhan (1969) deixam isso claro. Ele ilustra como a introdução da estrada de ferro criou tipos de cidade, de trabalho e de lazer inteiramente novos ou, ainda, como o automóvel, ao aposentar a função do cavalo como transporte, livrou‐o para atividades de recreação. O meio automotivo é ainda um exemplo valioso para nosso tempo, sob domínio de suas atividades. Para o meio automotivo, não importa o tipo de automóvel, nem o que ele transporta, mas todo o sistema de autoestradas criado para o seu uso. Importa que “o carro remodelou todos os espaços que unem e separam os homens.” (p. 254). Como consequência, as cidades modificaram‐se para permitir o trânsito dos automóveis, criando um urbanismo (programa) propício para o seu uso intensivo, com ruas e avenidas, submetendo os pedestres à sua adaptação. Grandes indústrias surgem para fazer prosperar o meio automotivo, oferecendo empregos e carreiras para as pessoas. Como o próprio McLuhan (1979) diz numa entrevista, “o meio não é o automóvel, mas sim tudo o que existe devido ao
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automóvel: as estradas, as fábricas, as bombas de gasolina etc – tudo o que se cria ao seu redor e que muda a vida das pessoas.” (p. 14).
Dessa forma, o meio automotivo não se restringe apenas ao uso do automóvel, seu conteúdo mais visível, mas está relacionado a todo o entorno social e cultural criado para ele. O carro modifica‐se, é atualizado constantemente, assim como o meio automotivo, que se torna global; suas características tecnológicas modificam‐se, mas a relação entre suas propriedades e capacidades permanece estável.
Ao tratar do meio imagético, temos que nos posicionar de modo semelhante e procurar no meio que configura a imagem e controla seu corpo os elementos necessários para encaminhar a análise sob o ponto de vista espacial. Tomando como exemplo a televisão como um espaço de imagem, responsável pela geração da imagem eletrônica, vemos que a conversão do seu sinal eletrônico para o digital possibilita a sua imersão no fluxo digital de informação, tornando seu suporte impreciso. Se antes o aparelho de televisão era identificado e confundido com o próprio meio televisivo, hoje, com a multiplicidade de dispositivos digitais capazes de exibir sua programação, notamos transformações no sistema meio‐medium‐ambiente, mas de modo algum observamos sua extinção ou diminuição de capacidade produtiva. O meio televisivo formado pelas redes de televisão, estúdios de gravação, profissionais da área, como técnicos, jornalistas, diretores e atores, satélites e fabricantes de aparelhos, entre outros, continua a exibir grande vitalidade em suas funções. A alteração no seu medium tradicional ou, ainda, no seu suporte não inviabilizou sua operação. No entanto, houve transformações significativas, tanto no meio televisivo quanto no ambiente em que se encontram os espectadores, mas, como ressalva Belting (2005), em sua presença sempre mutante, eles têm
mantido seu lugar na circulação de imagens.
McLuhan (1969) ampara seus estudos sobre meios e medium de comunicação em um conceito espacial. A partir da influência sempre lembrada de autores como Harold Innis, Edward Hall e Sigfried Giedion, cujos trabalhos relacionam‐se estreitamente à temática espacial, opera a aproximação entre as categorias espacial e comunicacional. Clavell (2003) realiza, no livro McLuhan in
space, um amplo estudo sobre essa postura teórica, com base no argumento de
que o espaço é a única e mais consistente categoria conceitual dentro do eclético corpo de trabalho do autor canadense, no contexto de uma história do espaço, e das práticas contemporâneas inseridas dentro da “ciência espacial”, como também no contexto das “artes espaciais”.
Em seu livro A galáxia de Gutenberg, McLuhan (1977) estuda a fase tipográfica da cultura alfabética. Em torno dessa temática, demonstra como a invenção do alfabeto fonético, da escrita e depois do tipo móvel veio revolucionar o espaço da escrita, com a invenção do papel. Assim, evidencia como todo um conjunto de elementos materiais e técnicos é decisivo para o desenvolvimento do medium da escrita alfabética e da sua constituição como conjunto de elementos abstratos e espaciais, que implicam diferentes mecanismos de compreensão e a recomposição do nosso sistema perceptivo, que ganha diferentes contornos, alterando nossa forma de consciência e conhecimento do mundo. Para ele, a transferência da palavra, de um espaço acústico para um espaço visual, promove o encontro entre as culturas orais e as culturas letradas e provoca a “explosão do olho”, ou seja, a cultura visual que privilegia o sentido da visão.
Dessa maneira, McLuhan (1977) enfatiza as relações entre espaço, comunicação e percepção sensorial, de maneira até então pouco usual, estabelecendo os meios de comunicação como formas espaciais que apelam aos nossos sentidos, como quando explica que
a invenção do alfabeto, à semelhança da invenção da roda, foi a primeira tradução ou redução de um complexo e orgânico intercâmbio de espaços num único espaço. O alfabeto fonético reduziu o uso simultâneo de todos os sentidos, que é a expressão oral, a um simples código visual. Hoje, pode‐se efetuar essa espécie de translação numa ou outra direção, através de uma variedade de formas espaciais, as quais chamamos de ‘media’, ou ‘meios de comunicação’. Mas, cada uma dessas formas de espaço tem propriedades particulares e incide sobre nossos outros sentidos ou espaços de modo também particular. (p. 76).