CAPÍTULO 2- ALFABETIZAÇÃO EMERGENTE
2.4. Modelos e teorias de aprendizagem da leitura e escrita
2.4.1. Modelos desenvolvimentais
2.4.1.1. O modelo de Chall
CHALL (1983a), apud MARTINS (1996: 67), propõe que a leitura progride numa série de 4 estágios hierárquicos, nomeadamente: 1) do nascimento até ao momento em que a criança é capaz de ler, o autor designa de período de pré-leitura. Durante este estágio a criança adquire um certo número de concepções gerais acerca da leitura e reconhece palavras associadas a contextos definidos como, por exemplo, “Coca-Cola”, “Correios”, etc.; 2) trata-se da primeira etapa da leitura e da descodificação. A criança constitui um vocabulário visual que utiliza na leitura de textos simples e aprende a recodificar fonologicamente as palavras; 3) é o período de
leitura corrente em que o leitor é capaz de tratar automaticamente as palavras de forma rápida; 4) é aquele em que o leitor domina a técnica da leitura e a utiliza como meio de aquisição de informações. Neste estágio, o leitor lê para aprender e não aprende a ler, como nas etapas precedentes.
Estes estágios definem-se, cada um deles, por uma estrutura qualitativamente diferente. CHALL (1983a) considera que ler será sempre uma actividade de resolução de problemas, em que o leitor necessita de se adaptar ao ambiente, através da assimilação e da acomodação. O leitor pode utilizar a assimilação, isto é, processos já aprendidos para reagir às exigênc ias do meio, ou adaptar-se, modificando ou reestruturando o antigo para se acomodar a novas exigências.
CHALL (1983a), considera que a progressão através dos 4 estágios depende da interacção entre factores individuais e ambientais, podendo processar-se com maior ou menor rapidez e facilidade. O conhecimento do estágio de leitura em que se encontra o leitor poderá fornecer importantes informações para a intervenção no PEA, uma vez que a evolução, de um estágio para o seguinte, exige diferentes condições ambientais para ser optimizada.
Para o autor antes mencionado, de uma forma geral, o leitor ao evoluir através de um estágio para outro, adquire uma crescente habilidade de ler uma linguagem mais complexa, mais técnica e mais abstracta. Por consequência, a resposta do leitor ao texto vai-se tornando cada vez mais geral, mais crítica e mais construtiva. A quantidade de conhecimentos prévios que o leitor necessita para ler e entender os textos vai também aumentando conforme o estágio em que se encontra. Se o le itor persistir demasiado tempo em características ou hábitos de um determinado estágio, a sua passagem ao estágio seguinte poderá ser atrasada ou nem sequer acontecer.
Cada um dos estágios pressupõe a existência de competências adquiridas num estágio anterior que são integradas no subsequente. Tais competências anteriores estão sempre disponíveis, o que quer dizer que, quando a situação de leitura o exigir, o leitor dum estágio poderá sempre recorrer à descodificação como, por exemplo, acontece ao ler palavras estrangeiras ou nomes desconhecidos.
CHALL (1983a) afirma que as condições contextuais influenciam o desenvolvimento da leitura de forma diferencial, em função do estágio em que se encontra o leitor. O conhecimento destes estágios é importante na optimização dos factores contextuais de alfabetização e na estrutura e organização da classe. Assim, um ambiente de aprendizagem mais aberto (em que as regras e processos são apresentados indirectamente para serem descobertos ou inferidos pelos
alunos) será mais adequado a alguns estágios, enquanto que o ambiente mais estruturado (hierarquicamente organizado e centrado no professor) será mais adequado a outros.
Para CHALL (1983a), a transição entre os estágios é feita por acomodação, isto é, pela reestruturação de conhecimentos e habilidades. A acomodação necessária à transição entre o estágio 0 e o estágio 1 resulta da aprendizagem das correspondências entre letras e sons. Se a instrução se centra no sentido, há um prolongamento das estratégias próprias do estágio 0, o que pode dificultar a progressão, porque não resolve o problema das palavras que não são imediatamente percebidas.
O autor antes mencionado, considera que a transição do estágio 1 para o 2 requer a adaptação a textos com linguagem e conteúdo próximos da linguagem natural22 do leitor. A acomodação a este estágio exige a combinação de estratégias ascendentes (bottom-up) e descendentes (top-down)23 porque o leitor precisa de recorrer também ao seu conhecimento linguístico para descobrir a palavra correcta, utilizando alguma da confiança característica do pré-leitor na construção do sentido.
Para o autor que vimos citando, a acomodação ao estágio 3 faz-se pelo regresso a uma atitude mais analítica, semelhante à do estágio 1 e abandonando a adivinhação do estágio 2. As características pessoais associadas a este estágio é a habilidade de acumular factos e outros detalhes. É o nível mínimo necessário à maior parte das pessoas de uma Sociedade dominada por Tecnologias de Informação e Comunicação, pois é o nível que permite adquirir informação da internet, jornais, revistas e livros que não sejam escritos de forma muito complexa.
Segundo CHALL (1983a), o estágio 4, que é caracterizado pelo domínio da técnica da leitura, será o mínimo necessário a uma Sociedade de Conhecimento24, em que a habilidade de ler materiais complexos, contendo múltiplos pontos de vista, é considerada essencial para todo o cidadão. A transição para o estágio 4 é provocada, particularmente, pelas exigências escolares que forçam o aluno a cobrir uma multiplicidade de conhecimentos.
Enquanto CHALL (1983a) aborda a questão da aprendizagem de leitura e escrita diferenciando 4 estágios principais, UTA FRITH, indica três etapas que explicam o
22 A linguagem natural refere -se a linguagem verbal oral.
23 Estratégias ascendentes (bottom-up) são aquelas que consideram que a leitura implica um percurso linear e
hierarquizado indo de processos psicológicos primários (juntar as letras) a processos cognitivos de ordem superior (produção de sentido). As estratégias descendentes (top-down) são os que consideram que a leitura é um processo em que os processos superiores cognitivos são determinantes no acto de ler.
24 Considera-se a sociedade de conhecimento como sendo a actual sociedade de informação em que o
desenvolvimento da leitura e escrita. Vejamos de seguida em que consiste o modelo de Uta Frith.