2.4 A Aprendizagem Organizacional e a Criação de Conhecimento
2.4.2 O modelo “4I” da aprendizagem organizacional de Crossan, Lane e White
Crossan, Lane e White (1999) consideram a aprendizagem organizacional o principal meio para a renovação estratégica em uma organização, sendo um processo dinâmico, que ocorre nos níveis individual, grupal e organizacional. Quatro premissas conformam o esquema conceitual “4I” (resumido no quadro 4) de aprendizagem organizacional:
Premissa 1: A aprendizagem Organizacional envolve uma tensão entre assimilação de novos conhecimentos (exploration) e o uso do que tem sido aprendido (exploitation);
Premissa 2: A aprendizagem Organizacional é multinível: indivíduo, grupo e organização;
Premissa 3: Os três níveis da aprendizagem organizacional são conectados por processos sociais e psicológicos: intuição, interpretação, integração e institucionalização (“4I”);
Premissa 4: Cognição afeta a ação (e vice-versa) (CROSSAN; LANE; WHITE, 1999, p. 523)
As quatro premissas do esquema “4I” de aprendizagem organizacional sustentam uma proposição central de que os “4I” (intuição, interpretação, integração e institucionalização) são relacionados com os processos de absorção de novos conhecimentos (feed-forward) e de conhecimentos já aprendidos (feed-back) através dos níveis de aprendizagem.
Quadro 4 Aprendizagem/renovação nas organizações: 4 processos através de 3 níveis
Nível Processo Entradas/resultados
Intuir (Intuiting) Experiências Imagens Metáforas Individual Interpretar (Interpreting) Linguagem Mapa cognitivo Conversação/diálogo Grupo Integrar (Integrating) Entendimento compartilhado Ajuste mútuo Sistemas interativos Organizacional Institucionalizar (Institutionalizing) Rotinas Sistemas de diagnóstico Regras e procedimentos
Fonte: Crossan, Lane e White. (1999, p.525 )
A Intuição (ou o processo de intuir) é o reconhecimento pré-consciente do padrão e/ou das possibilidades inerentes em um fluxo pessoal de experiência segundo Weick (1995b apud CROSSAN, LANE ; WHITE, 1999), sendo que este processo somente afetará as ações do indivíduo intuitivo, mediante a interação com outras pessoas, que também serão afetadas. A interpretação (ou o processo de interpretar) é a explicação por meio de palavras e/ou ações respectivas a um insight ou ideia, tanto para o próprio indivíduo quanto para outras pessoas. Esse processo vai do nível pré-verbal ao verbal resultando na linguagem. A integração (ou o processo de integrar)é a compreensão compartilhada entre indivíduos e da ação coordenada por meio de ajuste mútuo, sendo que neste processo o diálogo e a ação coordenada são fundamentais. A institucionalização (ou o processo de institucionalizar) é o processo que garante que as ações ocorram de forma rotineira, sendo evidenciado por meio das ações e mecanismos organizacionais incluindo sistemas, estruturas, procedimentos e estratégias.
Neste processo o aprendizado que ocorre nos níveis individual e grupal é incorporado na organização (CROSSAN; LANE; WHITE, 1999).
Os quatro processos de aprendizagem operam nos três níveis: individual, grupal e organizacional, fluindo de um para o outro, tornando-se difícil definir precisamente onde se inicia um e termina o outro sendo que os processos de intuição e interpretação ocorrem no nível individual; os processos de interpretação e integração ocorrem no nível grupal; e os processos de integração e institucionalização ocorrem no nível organizacional.
Algumas considerações contribuem com o aprofundamento das definições dos quatro processos de aprendizagem segundo Crossan, Lane e White (1999):
a) Intuição – Processo de Intuir
Os estudiosos partem do princípio que o aprendizado é um processo consciente e analítico, seja no nível individual, grupal ou organizacional. A intuição é própria do indivíduo, e se caracteriza pela presença e reconhecimento de modelos e/ou possibilidades em sua pré-consciência associados à experiência pessoal. A intuição é um processo subconsciente em grande medida e constitui parte importante no modelo de aprendizagem proposto.
b) Interpretação – Processo de Interpretar
A intuição foca no processo subconsciente de desenvolvimento de insights, a interpretação se inicia com o levantamento de elementos conscientes do processo de aprendizagem. Segundo Huff (1990 apud CROSSAN; LANE; WHITE, 1999) é por meio do processo de interpretação que os indivíduos desenvolvem mapas cognitivos sobre os vários domínios em que operam. A linguagem tem um papel central no desenvolvimento desses mapas, pois permite que as pessoas expliquem o que era originalmente apenas percepções e que permitem que as pessoas desenvolvam um sentido de compreensão compartilhada.
c) Integração – Processo de integrar
Enquanto o foco do processo da interpretação está na mudança da compreensão e das ações do indivíduo, o foco do processo de integração é a ação corrente e coletiva o que pressupõe uma compreensão compartilhada pelos membros do grupo. É o processo de desenvolvimento do entendimento compartilhado entre indivíduos e da ação coordenada mutuamente. Neste processo, o diálogo contínuo entre os membros da comunidade, por exemplo, através da prática compartilhada é essencial. As comunidades de prática referenciadas nos estudos de Brown e Duguid (1991) são importantes neste processo coletivo.
d) Institucionalização – Processo de institucionalizar
É o processo pelo qual a aprendizagem desenvolvida pelos indivíduos e pelos grupos é incorporada aos sistemas, à estrutura, aos procedimentos e à estratégia da organização. O processo de institucionalização alavanca a aprendizagem de seus membros, a considerar o contexto interativo.
Os quatro processos fluem de um para o outro de uma forma dinâmica e inter- relacionada. A intuição é um processo subconsciente que ocorre no nível individual, a considerar a experiência pessoal. Esta é a etapa inicial da aprendizagem. A interpretação recorre aos elementos conscientes da aprendizagem individual e os compartilha no nível do grupo. Em continuidade, a Integração promove a mudança do entendimento coletivo no nível do grupo e se une ao nível da organização. A Institucionalização instala o conhecimento na organização, incorporando-o em seus sistemas, procedimentos, estruturas e estratégias.
Por meio dos processos de aquisição de novas aprendizagens (feed-forward), novas ideias e ações fluem do nível individual, para o nível grupal e em continuação para o nível organizacional. Ao mesmo tempo, o que foi aprendido (feed-back) volta a partir do nível organizacional, para o nível grupal e para o nível organizacional, afetando consequentemente as ações e pensamentos das pessoas.
A aprendizagem organizacional se caracteriza, ao longo do tempo, por um processo dinâmico promovido pela tensão dos processos de assimilação de novas aprendizagens (feed-
forward) e do que já de fato foi aprendido na organização (feed-back), esta é uma questão central para Crossan, Lane e White (1999), como indicado na figura 10.
Entretanto, existem duas etapas críticas neste processo fluído:
− a passagem do processo de interpretação para o da integração, por meio do fluxo feed-forward. Este processo requer uma mudança da aprendizagem individual para a aprendizagem entre indivíduos ou grupos. Neste sentido, os mapas cognitivos devem ser compartilhados com os outros membros do grupo para o desenvolvimento de uma visão comum compartilhada, o que requer indivíduos preparados para este processo de transferência de aprendizagem (do indivíduo para o grupo); e
− a passagem do processo de institucionalização para a intuição, através do fluxo de feed-back. A intuição ou o processo de intuir nas organizações cuja aprendizagem está altamente institucionalizada requer o que Schumpeter (1959
apud CROSSAN; LANE; WHITE, 1999) se refere à “destruição criativa”, de modo a deixar de lado a ordem institucional e possibilitar a geração de novos
insights ou ideias por parte de seus membros.
Por meio dos processos de aquisição de novas aprendizagens (feed-forward), novas ideias e ações fluem do nível individual, para o nível grupal e em continuação para o nível organizacional. Ao mesmo tempo, o que foi aprendido (feed-back) volta a partir do nível organizacional, para o nível grupal e para o nível organizacional, afetando consequentemente as ações e pensamentos das pessoas.
Indivíduo Grupo Organização
Fluixo de Alimentação (feed-forward)
Indivíduo Grupo Organização Ret ro -A lim en ta çã o (f ee db ac k) Intuir Interpretar Integrar Institucionalizar Indivíduo Grupo Organização
Indivíduo Grupo Organização
Fluixo de Alimentação (feed-forward)
Indivíduo Grupo Organização Ret ro -A lim en ta çã o (f ee db ac k) Intuir Interpretar Integrar Institucionalizar Indivíduo Grupo Organização
Figura 10 Aprendizagem organizacional como um processo dinâmico Fonte: Crossan, Lane e White (1999, p. 523)
O processo dinâmico da aprendizagem organizacional no modelo “4I” de aprendizagem de Crossan, Lane e White (1999) aproxima-se também à importância da iteração dos estoques e fluxos de aprendizagem em seus diferentes níveis, podendo impactar o desempenho organizacional, o que está também focalizado neste estudo.
2.4.3 O modelo “4I” (e a matriz SLAM) operacionalizado por Bontis, Crossan e Hulland