1.3 O modelo de Niklas Luhmann
1.3.6 O modelo luhmanniano de democracia
Niklas Luhmann constata que, para responder às demandas postas pela modernidade, a teoria deve enfrentar a complexidade decorrente da ausência de uma tradição fundadora, o que impõe à própria sociedade sua autofundamentação105. Portanto, a teoria luhmanniana parte de um ato de espanto, decorrente da perplexidade da manutenção da ordem social após a perda da cosmovisão. Busca, assim, responder à pergunta: como é possível a existência da sociedade em uma ordem de inconstância e a mutabilidade? Nesse sentido, cumpre trazer as palavras do autor:
Em uma ordem social estruturada de maneira hierárquica, como na Idade Média, é plausível postular uma classificação de valores, como orientação da ordem social; mas na ordem social moderna – que já não aceita uma organização hierárquica, pois se parte da convicção de que ninguém é melhor do que os outros unicamente devido ao nascimento –, como é possível responder à possibilidade de uma ordem social? Se o Estado territorial moderno já não é capaz de garantir a legitimidade das estruturas estamentais, e tampouco religiosas, salvo garantir a si mesmo, seria, então, relevante poder indagar como é possível a ordem social.106 Nessa perspectiva, o direito assume papel importante como forma de redução da complexidade social, visto que não há se falar em democracia sem que os cidadãos, para além de seus interesses particulares, possam compreender os padrões de comportamento solidamente institucionalizados pelo direito a partir do processo de positivação. Com isso, percebe-se que a positivação esconde em seu âmago uma relação de poder, uma vez que torna uma diretriz de conduta obrigatória em certas formas de coexistência social, dentre diversas alternativas possíveis (complexidade)107.
Firmando-se a premissa de que por trás de toda a normatividade encontra-se uma decisão política e, por isso, uma relação mediada pelo código do poder, a validade de seu exercício dependerá de uma disposição generalizada para aceitação destas seleções. O exercício do poder de escolha, que constituirá o fenômeno da positivação, estará embasado em um consenso fictício sobre a sua legitimidade, devendo, para isso, justificar-se.
105 Nesse sentido: VILLAS BÔAS FILHO, Orlando. O direito na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. São Paulo: Max Limonad, 2006, p. 43.
106 LUHMANN, Niklas. Introdução à Teoria dos Sistemas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 323.
107 FARIA, José Eduardo. Poder e Legitimidade: uma introdução à política do direito. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 44.
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Um das formas de justificativa, conforme se verá, decorre do estabelecimento de um processo legislativo que reduza o medo frente ao Leviatã, crescendo a convicção da existência de limites para a criação da legislação. Com isso, a análise da democracia sai da concepção tradicional da filosofia social e filosofia do direito de tomar o homem como centro de discussão, ao considerá-lo centro vivo da sociedade em que se aglutinavam as concepções de liberdade, igualdade e poder, ou seja, uma sociedade vista como associação de homens concretos108, para, a partir de então, tratá-la como
sistema social complexo.
As clássicas concepções, desde a Grécia até o início dos Estados modernos, em regra, não conseguiam perceber a democracia sem a perspectiva do sujeito enquanto elemento central da sociedade, da política e do direito, do que decorre a imensa gama de concepções que chegam a ser conflitantes ou consistentes apenas no plano teórico. Para se perceber a democracia frente à diversidade social moderna, em que o conceito de indivíduo se dissolve em diferenciações valorativas, disperso entre ausência de identidade moral e estratificação de papéis sociais, deve-se abstrair o indivíduo do conceito de sociedade, passando a tratar não mais do direito à liberdade, igualdade e poder do zoon
politikon, mas, sim, da forma de estruturação do sistema social e como suas estruturas
conseguem absorver estes conceitos, ainda que, como se verá, não se descarte ser o ambiente deste sistema formado por homens concretos, de carne e osso.
Nestes termos, deve-se abandonar, ao menos em termos metodológicos, a concepção individualista da sociedade, para a qual qualquer forma de sociedade, notadamente a sociedade política, é produto artificial da vontade de indivíduos. A visão da doutrina democrática clássica, que se embasava no indivíduo como centro de discussão, previa a existência de um Estado homogêneo, sem a aglutinação de corpos intermediários; contudo, o que se observa hodiernamente é a estratificação social politicamente relevante em grupos, grandes corporações, associações, sindicatos, partidos de diferentes ideologias.
A teoria dos sistemas mostra-se como fundamento teórico consistente para o prosseguimento das investigações, ao possibilitar a análise de conceitos capazes de abarcar esta complexidade oriunda de uma sociedade centrífuga, permeada por diversos centros de poder, pluralista e ideologicamente fragmentada. Ou seja, uma sociedade que “[…] já não legitima o seu direito por meio de verdades invariáveis existentes [tal qual a
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figura divina para a escolástica], mas, sim, apenas, ou principalmente, por meio de participação em procedimentos.”109
Adotando um olhar sistêmico, percebe-se que a questão democrática não está em um pacto prévio que transfira o poder a um soberano ou na aceitação de ser o homem o detentor de um poder natural, mas, sim, no aumento considerável da complexidade do poder que exige novas formas de organização e comportamento.
A fim de evitar qualquer paralelo com visões tradicionais de democracia centradas no sujeito, Luhmann opta por um conceito restrito, o qual pode ser delimitado, em uma primeira análise, pela descrição das definições que não se enquadram no conceito adotado. Deste modo, pode-se dizer que, pela teoria dos sistemas, democracia não é: (i) o domínio do povo sobre o povo ou superação do domínio; tão pouco será (ii) um princípio segundo o qual todas as decisões devem ser tomadas de modo participativo. Por isso, Luhmann propõe que se entenda a democracia como sendo “[…] a ruptura de cima: a divisão de cima do sistema político diferenciado mediante a distinção entre governo e oposição.” (nossa tradução).110
De acordo com a teoria luhmanniana, a democratização da sociedade pressupõe a superação da sociedade pré-moderna, diferenciada verticalmente, tratando-se, portanto, de uma sociedade que opera “sem centro ou vértice”. Nesse sentido, a política já não pode ser compreendida como centro gravitacional da sociedade, a qual é composta por diversos sistemas funcionais operacionalmente diferenciados que se posicionam simetricamente.
Com a passagem para a sociedade moderna, abandona-se a diferenciação social em “superior” e “inferior”, que submetia o direito à política, retirando-lhe a autonomia operativa, já que não dispunha de um código específico que lhe permitisse o fechamento operativo111.
Por isso, para a teoria dos sistemas, a democracia se apresenta como autonomia operacional do direito e da política, os quais passam a operar de acordo com
109 Id. Legitimação pelo procedimento. Brasília: Universidade de Brasília, 1980, p. 08.
110 Nesse sentido, vide LUHMANN, Niklas. Teoría política en el Estado de Bienestar. Madrid: Alianza Universidad, 2007, p. 162. Texto original: “[…] la escisión de la cima: la escisión de la cima del sistema político diferenciado mediante la distinción entre gobierno y oposición.”
111 NEVES, Marcelo. Entre Têmis e Leviatã: uma relação difícil: O Estado Democrático de Direito a partir e além de Luhmann e Habermas. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 80.
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seus próprios códigos (poder para a política e licitude para o direito). Portanto, direito e política não são imbricados, mas apresentam-se, no Estado Democrático de Direito, como sistemas autônomos, que se diferenciaram no curso da evolução social por apresentarem funções e critérios distintos.
Com isso, direito e política convivem horizontalmente no macrossistema social, exercendo funções distintas e operando com códigos próprios. Por código, como se verá adiante, entende-se o eixo que orienta a atividade operacional do sistema a partir de uma diferença entre valor positivo e negativo: a diferença legal/ilegal para o direito e governo/oposição para a política. Em relação à função desempenhada, enquanto a política se ocupa da produção de decisões coletivamente vinculantes, o direito se ocupa da generalização congruente de expectativas normativas. Portanto, para entender o modelo luhmanniano de democracia, faz-se necessário, antes, desmistificar as aporias trazidas pela tradição.