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1.3 O modelo de Niklas Luhmann

1.3.1 Teoria dos sistemas de Niklas Luhmann

Niklas Luhmann, sociólogo alemão, é atualmente conhecido como o maior expoente da teoria dos sistemas ou, em outros termos, do funcionalismo sociológico radical. Suas concepções teóricas sofrem influências de diversos ramos do conhecimento, tal como a sociologia de Talcott Parsons, a física de Heinz von Foerster, a fenomenologia de Edmund Husserl, o positivismo de Carl Schmitt e Hans Kelsen, até a concepção de

autopoiese – posteriormente inserida em sua teoria – advinda da biologia dos chilenos

Humberto Maturana e Francisco Varella.

O funcionalismo radical de Niklas Luhmann apresenta o mundo como um horizonte de extrema complexidade, sendo este termo compreendido como a totalidade dos acontecimentos possíveis de experiências e ações. Apesar da vagueza do termo

possibilidade, certo é que sua realização depende de condições de possibilidades e da

seleção de uma dentre tantas escolhas a se realizar. Esta seleção pode ser enganosa e gerar desilusões, desapontamentos (contingência).

Com isso, pode-se dizer que a teoria dos sistemas apresenta o mundo como composto de dois elementos primordiais: complexidade e contingência47. Por isso, a percepção das diferenciações funcionais em sistemas que exercem funções sociais específicas aparece como chave para a compreensão social, possibilitando o deslocamento do foco de análise para estes sistemas e não mais para o indivíduo concreto.

47 Sobre o tema, vide AMADO, Juan Antônio García. La filosofía de derecho de Habermas y Luhmann. Bogotá/Colômbia: Universidade Externado de Colombia,1999, p. 103-108.

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Assim, os sistemas sociais são vistos como modo de redução da complexidade do mundo que se apresenta ao homem; em outros termos, “[…] servem para a mediação entre a extrema complexidade do mundo e a capacidade muito menor, dificilmente alterável por razões antropológicas, do homem para a elaboração consciente da vivência.”48 Por sua vez, a sociedade passa a ser vista a partir do seu caráter de sistema social, passando a ser definida como sistema social conglobante de sistemas sociais parciais; em outros termos, “[…] sistema social por excelência e condição de possibilidade de outros sistemas sociais.”49

A teoria dos sistemas afasta-se definitivamente da teoria da ação ao perceber que se encontra regida pelo princípio da limitacionalidade, consistente na inadequação de fundar sua investigação no indivíduo concreto e reconhecendo a incomensurabilidade da individualidade; com isso, recusa qualquer princípio universalista voltado para a orientação de um sentido unitário de comportamentos. Converte-se, assim, a racionalidade individual da ação para uma racionalidade sistêmica.

Nesse passo, abandona-se a tentativa de explicar a sociedade enquanto acordo entre os indivíduos – que acarretaria a aceitação da discutível premissa de simetria dos estados subjetivos (condições racionais próprias a todo e qualquer ser humano) –, passando sua constituição a não mais depender de respostas individuais, mas, sim, de uma operação sistêmica50.

A teoria sociológica luhmanniana rompe com a concepção clássica de sociedade enquanto agrupamento de homens; ao invés de incluí-lo, exclui o ser humano (de carne e osso) deste conceito; cria-se uma possibilidade de racionalidade social independentemente da racionalidade individual. O homem, apesar de encerrar um sistema psíquico em si (conforme percebido pela biologia), não é estruturalmente idêntico à sociedade enquanto sistema social. Nesta perspectiva, “[…] homem e sociedade são reciprocamente ambiente. Cada um é para outro demasiadamente complexo e contingente.”51, do que decorre a necessidade de se pensar a sociedade em termos mais

48 SANTOS, José Manuel (Org.). O pensamento de Niklas Luhmann. Covilhã/Portugal: UBI- Universidade da Beira Interior, 2005. (Coleção Ta Pragmata), p. 79.

49 GIACOMINI, Bruna. A perspectiva funcionalista: poder e sistema político em Niklas Luhmann. In: GIUSEPPE, Duso (Org.). O Poder: história da filosofia política moderna. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005, p. 474.

50 Sobre o tema, vide VILLAS BÔAS FILHO, Orlando. O direito na teoria dos sistemas de Niklas

Luhmann. São Paulo: Max Limonad, 2006.

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abstratos, a partir de seu caráter de sistema social abrangente. Nas palavras do próprio sociólogo:

A sociedade é aquele sistema social cuja estrutura regula as últimas reduções básicas, às quais os outros sistemas sociais podem referir-se. Ela transforma o indeterminado em determinado, ou, pelo menos, em uma complexidade determinável para outros sistemas. A sociedade garante aos outros sistemas um ambiente por assim dizer domesticado, de menor complexidade, um ambiente no qual já está excluída a aleatoriedade das possibilidades, fazendo assim com que ele apresente menos exigências às estruturas do sistema52.

Vale lembrar que a observação dos sistemas sociais não é só um método de análise, mas uma exigência da diferenciação funcional advinda da transformação das sociedades pré-modernas em sociedades modernas. Isso porque, diversamente das sociedades pré-modernas em que a diferenciação social focava-se em uma estratificação por classes-sociais, como o poder político que se confundia com o poder econômico ao centralizar-se em uma só pessoa ou grupo, por exemplo, nas sociedades modernas ocorre a diferenciação funcional dos próprios subsistemas sociais, tais como o político, econômico e jurídico.

O aumento da especialização sistêmica é proporcional ao aumento da complexidade social, sendo certo que quanto mais complexa esta for, mais sistemas serão necessários para organizar a sua complexidade. Portanto, a finalidade do sistema é coordenar a complexidade e criar estruturas para que esta operação seja possível. Sistemas sociais diferentes emergem das mais diversas esferas das atividades humanas, de modo que a teoria sistêmica funcional-estruturalista permite ao observador focar um sistema específico e excluir da análise os elementos que não fazem parte de sua observação, bem como diferenciar o sistema social dos sistemas psíquicos que o compõem.

Assim, pode-se observar a economia, o direito, a política, dentre outros, de forma segmentada, para, após, compreender de maneira mais límpida as suas interações sistêmicas, na medida em que cada sistema cria mecanismos apropriados para se diferenciar do meio e reproduzir internamente as interferências do ambiente que o cercam. Pode-se, deste modo, traçar um conceito de sistema baseado na diferença entre sistema e

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meio, em que “[…] o sistema é a diferença resultante da diferença entre sistema e meio. O conceito de sistema aparece, na definição, duplicado no conceito de diferença.”53

Este estudo parte da premissa de que essa forma inovadora de observar a sociedade moderna contribui para a análise das deficiências sociais que impossibilitam a estabilização da democracia enquanto processo evolutivo necessário. A virtude do modelo luhmanniano para a análise da democracia foi, inclusive, reconhecida pelo seu principal opositor, Jürgen Habermas. Ao criticá-la, Habermas acaba por reconhecê-la como um modelo de observação hábil à identificação de problemas que solapam a democracia, tal como a denominada corrupção sistêmica, a ser tratada oportunamente.

Nessa esteira, Habermas, ao tratar da teoria dos sistemas de Luhmann, afirmou que “Ela contribui, é verdade, para uma teoria da democracia, na medida em que observa com nitidez o modo como o processo democrático é solapado pela pressão de imperativos funcionais.”54 Para que se possam analisar os limites do ganho realista promovidos pela teoria dos sistemas, deve-se, antes, explorar este modelo teórico.

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