1.3 O modelo de Niklas Luhmann
1.3.9 O poder no Estado Democrático de Direito
Na antiga teoria política da sociedade, o conceito de poder político estava unido ao conceito do direito e servia de princípio constitutivo da sociedade, na medida em que justificava sua existência a partir da prevalência de dominação por um grupo de seres humanos que prevalecia sobre os demais. Porém, essa perspectiva já não pode embasar a sociedade moderna.
Deveras, conforme enfatizado anteriormente pela teoria dos sistemas de Luhmann, a sociedade moderna é marcada pela contingência e, com isso, pela abertura ao futuro rico em alternativas. Tudo pode ser diferente do que é, já que o presente decorre tão somente de uma decisão dentre tantas outras possíveis. Assim, o domínio de um ser humano ou grupo sobre os demais adquire significado secundário.
A diferenciação do sistema político como sistema parcial da sociedade permite a concentração das fontes de poder, por meio da distinção entre superiores/inferiores, ou seja, os ocupadores dos cargos (governantes) e os não ocupadores dos cargos (governados) 145, tornando suas comunicações menos vulneráveis à rejeição. Assim, o surgimento da ordem de cargos possibilitou a diferenciação interna do sistema político, na medida em que cria características (estruturas) próprias de organização não existentes no ambiente (entorno), culminando na ideia de soberania e democracia146.
Assim, os efeitos e as condições de exercício do poder estão situados no campo de obediência em que se encontram os membros da relação – e não a partir de critérios metafísicos ou jusnaturais. A fonte do poder está, portanto, na construção de um campo de atuação em que aquele que o exercita calcula as condicionantes para aceitação das ordens pelos subordinados. Nas palavras de Nafarrate: “Precisamente este limite cargo/público – ou, em terminologia contemporânea: poder estatal/ poder do povo – é a
145 CORSI, Giancarlo. GLU: Glosario sobre la teoría social de Niklas Luhmann. 1. ed. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana, 1996, p. 128. “La diferenciación del sistema político como sistema parcial de la sociedad permite la concentración y la generalización de las fuentes de poder, sin que con esto i a sociedad entera se vuelva dependiente de un poder político central.”
146 NAFARRATE, Javier Torres. Luhmann: la política como sistema. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana/Facultad de Ciencias Políticas y Sociales, 2004, p. 166.
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ocasião para que se façam esforços para refletir sobre uma unidade conceitual nominada democracia.” (nossa tradição).147
A partir desta perspectiva igualmente adotada por Parsons, percebe-se que o poder se desenvolve em uma relação circular, na qual o superior deve calcular as possibilidades para ser obedecido, enquanto que os subordinados têm, por sua vez, que calcular as possibilidades disponíveis ao detentor do poder.
Desta forma, tomando-se como premissa a circulação do poder se constrói a ideia de democracia, com a qual se impulsiona a superação de uma sociedade estratificada para uma sociedade funcionalmente diferenciada. Assim, a democracia aceita a contingência própria da sociedade moderna ao compreender que a “superioridade” é apenas um estado que, por conseguinte, pode ser superado por outras possibilidades ao desenvolver o código binário governo/oposição. Nesses termos, afirma Giancarlo Corsi:
A falta de oposição significa falta de democracia, já que determina a estratificação política da sociedade (ditadura): limita a diferenciação da política, já que o código político desaparece ao desaparecer um dos dois valores (a oposição). A codificação se substitui pela referência à mera organização (o Estado, o partido único) […] (nossa tradução).148
O código governo/oposição contempla todas as características de um código de preferência; o valor positivo “governo” é o valor de designação do sistema, ao qual se contrapõe o valor negativo “oposição”. Um valor determina ao outro, de modo que justamente a contradição entre eles é que lhes dá sentido.
A adoção do código binário governo/oposição pelo sistema político permite a tecnicização do médium “poder”, ao facilitar a transição entre valor e não valor, de modo que a transposição para o outro lado da forma se torna automática e fácil, tal como se dá em relação aos códigos lícito/ilícito e verdadeiro/falso149.
147 NAFARRATE, Javier Torres. Luhmann: la política como sistema. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana/Facultad de Ciencias Políticas y Sociales, 2004, p. 166. Texto original: “Precisamente este límite de cargo/público – o en terminología de ese tiempo: poder estatal/poder del pueblo – es la ocasión para que se hagan esfuerzos por reflexionar bajo una unidad conceptual en nombre de ‘democracia’.”
148 CORSI, Giancarlo. GLU: Glosario sobre la teoría social de Niklas Luhmann. 1. ed. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana, 1996, p. 129. Texto original: “La falta de oposición significa falta de democracia, ya que determina estratificación política de la sociedad (dictadura): limita la diferenciación de la política, ya que el código político desaparece al desvanecerse uno de los dos valores (la oposición). La codificación se sustituye por la referencia a la mera organización (el Estado, el partido único) […]” 149 Vide NAFARRATE, op. cit., p. 160.
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Em regimes democráticos, a circulação do poder é atribuída às eleições políticas. Pelo entendimento clássico, as eleições realizam o domínio do povo pelo povo, na medida em que buscam interpretar e exigir que se cumpra a vontade geral (volonté
générale). Porém, a pergunta que remanesce é: “Que é, pois, o que fica do conceito de
democracia – ligado à representação de que se trata do domínio do povo – a não ser o paradoxo não resolvido do domínio de si próprio?” (nossa tradução).150
Em resposta a essa pergunta, a teoria dos sistemas reformula o papel das eleições para a democracia. A democracia passa a ser definida como a relação de intercâmbio entre governo (poder) e oposição, portanto como segunda codificação do poder político, passando a regular as eleições políticas. Nesse passo, o papel das eleições será assegurar simplesmente a mobilidade entre governo e oposição, traçando, para ela mesma, um futuro desconhecido, já que inexistirá qualquer ligação segura entre exercício do poder e conservação do poder.
Portanto, a instalação de eleições políticas (livres e secretas) instaura no sistema político uma incerteza autoproduzida (incertidumbre autoproducida), de modo que suas variações decorrem de condicionantes internas – não sendo corrompida pelo ambiente (entorno). Nas palavras de Nafarrate:
O que chamamos democracia e que fica designado com o estabelecimento das eleições políticas não é outra coisa senão a plena realização do processo diferenciado do sistema político. O sistema acaba fundamentando-se a si mesmo ao recorrer a decisões que ele mesmo dispôs […] (nossa tradução).151
Porém, a administração da contingência apenas se torna possível em razão da criação dos partidos políticos, os quais têm como função a absorção das incertezas. A partir da criação da estrutura partidos políticos, o rol de ideais dos eleitores se torna reconhecível, de modo que não mais se questionam as preferências do indivíduo, mas, sim, dos exercentes de um papel social, qual seja, os votantes.
150 Vide NAFARRATE, Javier Torres. Luhmann: la política como sistema. Ciudad de México: Universidad Iberoamericana/Facultad de Ciencias Políticas y Sociales, 2004, p. 161. Texto original: “Qué es, pues, lo que queda del concepto de democracia – ligado a la representación de que se trata del dominio del pueblo – a no ser la paradoja no resuelta del dominio de sí mismo?”
151 Ibid., p. 163. Texto original: “Lo que nosotros llamamos democracia y que queda designado con el estabelecimiento de las elecciones políticas no es otra cosa que la plena realización del proceso diferenciado del sistema político. El sistema acaba fundamentándose a sí mismo recurriendo a decisiones que el mismo ha dispuesto […]”
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Além disso, institui-se a representação política152, desviando-se o foco sobre a congruência entre eleitores e eleitos (identidade ideológica entre eles) para a concepção de legitimação das decisões tomadas através deste procedimento, ou seja, para o modo como esta estrutura possibilita a generalização do reconhecimento das decisões.
Deste modo, o indivíduo, enquanto ser humano dotado de pretensões religiosas, éticas, econômicas, etc., é excluído da análise, passando o fenômeno a ser analisado unicamente como uma propriedade do sistema político. Essa mudança de perspectiva não é apenas uma escolha metodológica, mas, sim, uma necessidade para a realização de análises científicas coerentes que possam auxiliar no diagnóstico de problemas do sistema político, ante o reconhecimento da falibilidade das perspectivas que observam a representação como congruente entre representantes e representados (relação interindividual ou intergrupal)153.
Deveras, os outputs (atos normativos) emitidos pelo sistema político, vistos do ponto de vista jurídico, não expressam uma coerente uniformidade com os inputs (demandas) dos eleitores (vide, por exemplo, a agenda sobre tributação no Brasil). Essa divergência valorativa implica em se delegar apenas e tão somente ao sistema político a decisão sobre os valores que serão albergados pelas decisões políticas, ou seja, o sistema avoca para si todo o controle sobre o que é o bem comum.
Com efeito, o conceito de bem comum não pode mais ser identificado por sua própria natureza. Atualmente, poucos são os interesses privados que não se podem declarar como públicos – vide a concessão de benefícios tributários a empresas que irão fornecer postos de trabalho na região; com isso, a fórmula bem comum deve agora se converter em segundo código da política (bem comum x interesse privado), cabendo ao sistema essa decisão.
152 Sobre o tema, vide CAMPILONGO, Celso. Representação Política. São Paulo: Ática, 1988, p. 12-16. 153 A perspectiva que encara a representação como uma “relação interindividual” vê o fenômeno como um
elo entre representante e representado; por sua vez, a perspectiva da “relação intergrupal” analisa o fenômeno como uma relação entre representantes e a comunidade como um todo. Ambas enfrentam a representação pela visão de “congruência” entre os desejos dos representados e seus respectivos representantes, o que se torna falacioso ante a grande variedade de decisões que fogem aos desejos da “massa”, seja pela impossibilidade de o eleitorado expressar de forma clara e congruente seus anseios, seja pela tomada de decisão com base em interesses alheios aos expostos pelos eleitores. Nessa toada,
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Tal observação é sobremaneira importante para a perspectiva da democracia; de fato, por esta perspectiva, “[…] pouco importa se a decisão é justa, exata ou ‘congruente’, pois, nas sociedades complexas – onde aumentam os problemas carentes de decisão –, a ‘natureza da decisão’ cede lugar aos ‘procedimentos que generalizam o reconhecimento das decisões’.”154
Deste modo, se a escolha do bem comum torna-se critério de decisão apenas do sistema político, deve-se construir um paradoxo mais coerente, a saber, a
legitimidade. Essa fórmula, em um sistema democrático, implica em que os critérios de
decisão sejam claros e abertos, ou seja, impõe que se exponham abertamente as preferências com que se compromete a política155.
Importante, portanto, que se afastem “cortocircuitos cínicos” que conferem ao sentido de bem comum um quid de utopia, ao se impor que exista concordância perfeita entre outputs e inputs, ou seja, entre as respostas do sistema político e as demandas sociais, na medida em que a própria separação entre sistema e ambiente é condição de possibilidade para a existência da sociedade moderna. Portanto, bem comum apenas pode ser distinguido a partir das respostas positivas ou negativas fornecidas pelo sistema, dando-lhe um sentido convincente e não utópico.