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O movimento estudantil no Brasil: um breve retrospecto

No documento São Paulo: [s.n (páginas 119-125)

3. OS JOVENS ESTUDANTES EM MOVIMENTO

3.2. O movimento estudantil no Brasil: um breve retrospecto

O movimento estudantil caracteriza-se como um movimento social juvenil com uma condição em comum, a de estudante. Suas lutas possuem pautas variadas que se constituem desde demandas institucionais até políticas públicas e organização de contracultura hegemônica.

Bringel (2009) caracteriza o movimento social como um movimento sui generis, por suas características típicas, tais como:

1. Objetivo a curto prazo: devido à constante rotatividade dos estudantes que compõem o movimento estudantil, geralmente, de 3 anos (no Ensino Médio) e de 4 a 5 anos (no Ensino Superior), as pautas e reivindicações do movimento estudantil possuem curto prazo para obtenção. Outra questão que influencia nos objetivos e lutas estudantis é o calendário escolar que contempla períodos de férias e recesso, o que contribui para um período de desmobilização.

As ocupações das Universidades Federais, pelo movimento estudantil universitário no ano de 200865, por exemplo, tinham tanto pautas internas de melhoria nos ambientes e políticas institucionais, quanto uma crítica ao Programa REUNI, por algumas características e pela falta de participação das entidades estudantis.

Sob esse aspecto, Foracchi (2018) relembra que a formação política e a tomada de consciência do ser coletivo, propiciada pela vivência do movimento estudantil supera essa transitoriedade:

65 Bringel (2009) ressalta a importância desse movimento de ocupação realizado pelo movimento estudantil universitário, que chegou a ocupar mais de 30 instituições de ensino superior públicas no país.

A transitoriedade da condição de estudante é, assim, um fator que marca profundamente o movimento estudantil, seja retirando-lhe a feição de manifestação permanente, seja diversificando suas orientações contestatórias ou reivindicativas. Não obstante a essa fluidez, o sentido comunitário de participação, ressaltando a unidade de vivências do mundo estudantil, constitui uma condição favorável, ilustradora da sua disponibilidade potencial à mobilização. Além disso, o conteúdo político ou ideológico presente no movimento estudantil, como manifestação de massa, estimulado nos grupos estudantis, emprestam-lhe uma condição de continuidade que supera o compasso social mais restrito da fluidez e da transitoriedade (FORACCHI, 2018, p. 90).

2. Forma de organização variável: diferentemente dos movimentos sociais clássicos, o movimento estudantil possui formas variáveis de organização, podendo ser em eventos culturais (sarau, slam, batalhas de rap, dentre outros), ocupações, atos simbólicos, panfletagem etc. A forma mais conhecida de organização são as assembleias. Porém, atualmente, o mundo digital tem possibilitado outras formas de mobilização dos estudantes, por meio das redes sociais, configurando maior visibilidade e divulgação de suas pautas e atos.

3. Possui uma composição típica que se distingue dos demais movimentos sociais (que geralmente possuem a composição a partir de uma identidade de classe). O movimento estudantil, apesar da política de universalização do acesso no início dos anos 2000, ainda apresenta uma composição majoritária das classes dominantes, sobretudo no movimento universitário.

Já no movimento secundarista (que inclui o ensino técnico-profissionalizante) a composição inclui tanto setores da classe média como filhos da classe trabalhadora.

4. Identidade secundária se refere ao fato de a maioria dos estudantes militarem em outros movimentos sociais tais como: coletivos identitários (feminista, negro, de demandas territoriais etc.), partidos políticos, sindicatos, dentre outros. Segundo Bringel (2009), esse fato (aliado à rápida rotatividade do movimento estudantil) contribui para a falta de formação de uma identidade do movimento.

5. Amplo espectro ideológico: no movimento estudantil há vertentes que possuem diversas e divergentes concepções ideológicas, seja de direita ou

de esquerda e com diferentes divisões internas. A pluralidade é uma característica histórica do movimento estudantil, tanto universitário como secundário, que em determinados momentos se unificam em torno de uma demanda comum, como por exemplo a defesa da democracia nos anos 60 e 70. O Congresso da UNE pode exemplificar essa diversidade ideológica, pois nesse momento os diferentes movimentos estudantis se encontram para disputar as deliberações, pautas e encaminhamentos da luta unificada.

6. Demandas variadas constituídas tanto por demandas institucionais, a partir da vivência da condição de estudantes, das divergências com normas, práticas e políticas das instituições de ensino; como por demandas mais abrangentes que se referem às diretrizes das políticas nacionais de ensino e organização do ensino público e privado no país, podendo extrapolar para demandas que provoquem análise crítica ao modo de organização da sociedade capitalista.

Apesar de alguns teóricos restringirem as pautas estudantis a questões institucionais e pontuais, sem uma intenção de ruptura com a ordem vigente, é inegável que dentro do contexto de organização da sociedade capitalista as lutas sociais travadas contra a hegemonia da classe dominante, a partir da organização, formação política e ação dos jovens do movimento estudantil configura o que Lênin definiu como possível para uma geração educada na sociedade capitalista:

[...] a geração de militantes educada na sociedade capitalista pode, no máximo, cumprir a tarefa de destruir as bases da velha vida capitalista baseada na exploração (LÊNIN, 2005, p. 9).

Outra crítica recorrente ao movimento estudantil é o seu reaparecimento repentino em alguns momentos históricos, como aponta Bringel (2009) ao se referir à idealização recorrente do protagonismo do movimento estudantil no período da ditadura militar brasileira, pois desconsiderando seus momentos de desmobilização,

“a atenção dada aos movimentos estudantis propriamente ditos centrou-se na análise do que antes se identificava como sua ‘parte visível’” (BRINGEL, 2009, p. 106). Bringel (2009) afirma, ainda, que a luta dos movimentos estudantis quando vinculados aos demais movimentos sociais parecem conferir um caráter mais longo às suas demandas.

Certamente é inegável que ao longo da história do Brasil os estudantes tiveram uma importância no cenário nacional, tanto por participar de lutas mais amplas e necessárias, como por trazer à tona crises que a sociedade vivia, provocando a discussão sobre o tema em questão.

Historicamente a juventude desempenha um protagonismo em momentos-chave e nos conflitos sociais do país. Conforme Sofiati (2008), o registro da primeira participação juvenil, ainda no período imperial, ocorreu com as primeiras ideias abolicionistas, sendo que as ações desses jovens envolviam desde a defesa do direito dos escravos até o auxílio para fuga em massa.

Na década de 1930, acompanhando o movimento nacional de associação classista e de solidariedade entre as classes, houve a criação da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1938. Porém, na década de 1960 houve o protagonismo dos jovens estudantes que apresentavam novas tendências político-ideológicas. Nesse período, se estabeleceu um importante elo entre o movimento estudantil e a religião, sobretudo ligado ao movimento da igreja católica de comunidade eclesial de base (por meio da Juventude Universitária Católica – JUC e outras organizações). Ocorreu também maior aproximação do movimento estudantil com as entidades partidárias e sindicais, o que serviu estrategicamente para organizar a resistência à retomada do pensamento conservador na sociedade.

Em 1964, com o golpe e a instauração da ditadura militar no Brasil, o movimento estudantil foi amplamente perseguido por questionar e lutar contra o regime autoritário, vitimando muitos estudantes durante os anos de chumbo que duraram até 1985.

Com o processo de redemocratização do país, o protagonismo juvenil passou a ter novas características na participação social e política, mais ligadas aos movimentos sociais e culturais como movimento hip hop e pastoral da juventude (novamente ligado à religião).

A década de 1990, porém, trouxe uma dualidade: o movimento “Caras pintadas” culminou com o processo de impeachment do então Presidente Fernando Collor de Melo, mas é visível nessa década a grande influência do pensamento neoliberal e a inserção da cultura individualista, o que prejudicou a organização coletiva e a identificação de demandas comuns na sociedade que poderiam motivar uma mobilização. Já nos anos 2000 houve maior organização dos jovens em relação

à prática religiosa, principalmente em movimentos carismáticos, pentecostais e neopentecostais.

A partir de 2015, o movimento estudantil retornou à cena das manifestações nacionais, compondo a luta pela democracia, contra os retrocessos nos direitos sociais e pela educação pública (como abordado no primeiro capítulo desta tese).

Com o acirramento das ações do governo Temer e outras demandas regionais, os estudantes utilizaram as ocupações como estratégia para as manifestações em defesa de suas pautas. O movimento tomou uma grande proporção em todo o país (como veremos a seguir) e grande significado para os estudantes, conforme apontam Costa e Vianna (2018):

Nesse sentido, o movimento de ocupação estudantil nas escolas, institutos e universidades públicas [...] representou uma ação, ou melhor, uma reação que deflagrou a retomada/exercício de uma forma de ser jovem: atento aos direitos sociais e capaz de mobilizar-se para expor, debater, lutar por posicionamentos de maneira coletiva (COSTA; VIANNA, 2018, p. 78, grifo nosso).

Ressaltamos que para os fins desta tese delimitaremos a análise até o período de 2016, quando ocorreu a ocupação da Reitoria do IFSP.

3.2.1. O movimento estudantil no IFSP

O movimento estudantil do IFSP possui em sua história alguns acontecimentos importantes. Durante o período mais crítico da ditadura militar, o estudante do curso de Mecânica Eremias Delizoicov, que havia ingressado no ano de 1967 na então Escola Técnica Federal de São Paulo (ETFSP), foi morto em 1969 pelo regime militar por militar na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Segundo informações dos familiares, Eremias era militante desde os 16 anos, tendo atuado junto ao movimento secundarista da escola que frequentava na Zona Leste contra o acordo MEC-USAID (abordado anteriormente) e sendo expulso dessa instituição de ensino. Posteriormente, ingressou no Ensino Técnico da ETFSP.

O reconhecimento de sua morte como decorrência da ação do Estado ocorreu no ano de 2013, em uma audiência pública em sua homenagem no auditório do câmpus São Paulo. Contudo, devido ao fato de seus restos mortais nunca terem sido encontrados e, portanto, não identificados, Eremias é considerado desaparecido pela

Comissão Nacional da Verdade (instituída em 2011, com a finalidade de apurar as graves violações de direitos humanos ocorridas no período da ditadura militar no Brasil).

Figura 2. Foto da audiência pública em homenagem ao estudante Eremias Delizoicov

Fonte: Site da Federação Nacional dos Estudantes do Ensino Técnico - FENET66.

Atualmente o Grêmio Estudantil do Câmpus Catanduva homenageou a memória de Eremias Delizoicov, atribuindo seu nome ao grêmio.

Apesar de um passado centenário, o IFSP não possuía registro históricos organizados e catalogados que pudessem se consultados. A situação somente foi alterada com a inauguração do Centro de Documentação e Memória da instituição em 05 de dezembro de 2019.

Consultado sobre a existência de material sobre as organizações estudantis no IFSP bem como atos históricos relacionados a essas organizações, o Centro de Memória informou por meio de mensagem eletrônica que ainda não foi identificado nem organizado nenhum material relacionado às organizações estudantis da instituição.

66 Disponível em: <http://fenetbrasil.blogspot.com/2013/10/gremio-ifsp-e-comissao-da-verdade.html>.

Acesso em: 18 fev. 2022.

Recentemente foi criada no IFSP a Diretoria Sistêmica de Assuntos Estudantis67 que, dentre outras ações, pretende atuar no fomento do protagonismo estudantil, com ações como:

1. Manter atualizados os dados dos grêmios e centros acadêmicos existentes e sistematizar e publicizar as informações pertinentes;

2. Auxiliar na divulgação de informações a fim de fomentar a criação de novos grêmios e centros acadêmicos;

3. Manter comunicação direta com os estudantes e entidades estudantis, por meio de diferentes canais;

4. Dar lugar de fala e tratar assuntos pertinentes aos estudantes e entidades estudantis em reuniões sistemáticas;

5. Apoiar eventos científicos, culturais ou desportivos, organizados pelos e para os estudantes;

6. Fomentar a participação estudantil nos Conselhos e Núcleos existentes;

7. Apoiar e fortalecer a atuação dos estudantes no âmbito dos câmpus e do IFSP.

Cabe ressaltar, entretanto, que uma das características mais importantes e marcantes do movimento estudantil é a autonomia e a não institucionalização de suas diretrizes, ações e demandas. E, ainda, que tal ação institucional somente ocorreu após as ocupações do movimento secundarista de 2016.

Com a configuração atual do IFSP, a instituição convive com a presença de dois movimentos estudantis que possuem particularidades e singularidades: o movimento secundarista e o movimento estudantil do ensino superior.

3.3. As ocupações na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e

No documento São Paulo: [s.n (páginas 119-125)