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Os diferentes significados do ato de ocupar

No documento São Paulo: [s.n (páginas 181-186)

4. A ESCOLA COMO TERRITÓRIO EM DISPUTA

4.1. Os diferentes relatos do mesmo ato: a ocupação da Reitoria do

4.1.5. Os diferentes significados do ato de ocupar

dia, então, sempre deixa marcas... eu tenho algumas lembranças do momento, agora com essa conversa, vieram outras, isso é bem legal. Mas, eu já tinha, na época, tomado a decisão de que eu seria um militante... eu era muito novo, 16, 17 anos começando o final da adolescência, nem 18 anos eu tinha ainda, também eu ainda tinha muito pouco dessa transição que é o Ensino Médio, digamos assim, querendo ou não é uma transição. Mas, eu já tinha muito essa consciência de que eu queria ser um militante, de que para o resto da minha vida eu vou estar lutando aí em defesa dos trabalhadores. Eu sou muito adepto e acho que está muito correta a avaliação marxista de mundo. Então, de que eu seria um militante comunista... e ter participado da ocupação foi mais uma experiência para enriquecer a mim, como um futuro militante, de ganhar experiência mesmo, de ter vivido alguma coisa, de ter participado desse processo. Claro que, assim, sempre participando dele para disputar e para conseguir mobilizar mais gente, então eu acho que serviu de aprendizado para muita coisa. Eu acho assim que se eu tenho um pouco essa análise que eu falei aqui, que eu compartilhei com vocês do que eu penso, boa parte tem a ver com eu ter vivido isso presencialmente. Ter vivido isso de fato, estar lá, ter participado e tudo mais. De ter participado ativamente, menos da organização diária, mas tão envolvido quanto da disputa política, do rumo do processo. Então, eu acho que, pessoalmente, eu acho que é isso, uma experiência muito grande de desenvolvimento político (Estudante 2, grifo nosso).

O conhecimento e a descoberta de novas realidades, mais urbanas, diversas e de organização política foram apontadas pelo Estudante 3 como o mais significativo, gerando efeitos pessoal e politicamente.

[...] se eu puder, eu vou falar um pouco dos benefícios. Porque, para mim, foi um divisor de águas na minha vida, de verdade. Porque eu era um aluno aqui, do interior e ir para lá e conhecer aquela diversidade de estudantes, aquela diversidade de ideia, aquela mobilização estudantil, aquela capacidade de organização estudantil que eu nem imaginava e nem conhecia. Eu lembro que foi assim, eu acho que eu fiquei uma semana e meia lá, direto, dormindo. Eu lembro que foi uma daquelas experiências meio até... uma epifania... um negócio que, eu estava descobrindo o mundo ali, eu estava descobrindo a política, as ideias, o anarquismo, os coletivos, os comunistas... e me descobrindo, assim, tendo contato com uma diversidade de gênero, uma diversidade sexual que aqui também não tinha. Então, teve essa perspectiva individual... putz, eu achei o máximo tudo aquilo. [...]

Eu sinto que a ocupação da Reitoria me formou, não só politicamente, mas também de forma cidadã. Primeiro entender o que era... eu ouvi um áudio da época, em que eu estava falando que foi incrível ver que era possível uma mobilização, uma organização estudantil que funcionasse em uma autogestão. Então, eu sinto muito que eu me formei como pessoa, seria um reducionismo eu falar que me formei só politicamente, porque eu me formei como

pessoa ali na ocupação, conhecendo novas visões, conhecendo formas de mundo totalmente diferentes da minha, com pessoas totalmente diferentes, para mim foi isso. Eu voltei uma pessoa mais formada, mais consciente... teve esse caráter individual para mim. E, politicamente, nem se fale (Estudante 3, grifo nosso)

A descoberta da capacidade de se colocar em situações de pressão e de embate com pessoas mais experientes e tituladas foi uma lembrança trazida pelo Estudante 4, que também lembrou da parceria e dos momentos de descontração após as situações mais tensas.

Mas uma coisa que eu me lembro bastante, assim, nas ocupações, eu tive oportunidade de fazer algumas... eu fui do movimento estudantil, depois do movimento cultural, então, tenho muitas lutas para contar. Mas, tem a hora do caos, da tensão, de que tem que pensar rápido, resolver as coisas e debater. E, sei lá, ser um adolescente de 17 anos, sentado na mesa com o Reitor que é doutor, pós-doutor em não sei onde e batendo o pé e argumentar. Então, tinha uma pressão muito grande, mas também tinha os momentos de descontração. Então, eu lembro até hoje que a gente se apossou ali da copa dos servidores, que tem lá na Reitora, e sentava a galera, enquanto uns estavam cozinhando, limpando alguma coisa, aí sentava a galera na mesa e começava a jogar baralho e conversar, trocar ideia, lembrando do que aconteceu no dia, da hora da tensão e aí depois rindo. Então, era muita tensão, muita pressão, caos. Mas de alguma forma a gente transformava isso, não ficava um negócio pesado e isso dava um pouco de ânimo para continuar no dia seguinte, no outro e no outro. E a gente olhava a situação, debatia, acontecia e depois ficava lembrando e rindo, e tipo conversando sobre e rindo, conversando sobre e tendo essa troca. Então, esses espaços de descontração era bem legal, todo mundo, sei lá, cantando, fazendo vídeo... nossa, que vergonha desse vídeo da paródia (Estudante 4, grifo nosso).

Para o Estudante 5, todavia, o mais significativo foi a experiência de organização política em instituições e espaços públicos, sobretudo pela percepção de que a pauta na defesa da educação pública deve ser única entre estudantes, gestores e servidores.

Então, a experiência foi muito boa para eu ter um choque de realidade de como aquela organização política se organizava, porque eu não tinha... como é uma organização política que mais atua dentro das universidades públicas, e eu não tinha nenhum contexto, nenhuma atuação dentro da universidade, das instituições públicas, no geral, foi minha primeira relação com isso. Então, foi eu entender qual era dinâmica do movimento estudantil que eram mais das instituições públicas, eu acho que teve essa é uma questão, porque que é muito diferente uma universidade

particular com a pública. [...] então eu acho que foi importante para eu entender um pouco de como essa relação. E, hoje, assim, eu tenho muita uma percepção de que os gestores das universidades no geral, e no geral não... porque hoje tem muita intervenção aí, mas o gestores mais progressistas, vamos dizer assim, e os técnicos, às vezes, eles tem a mesma vontade de defender a universidade pública, o ensino público de qualidade do que a gente, às vezes a gente não está em lados opostos e a gente consegue se unir então eu acho que esse também é um aprendizado muito importante (Estudante 5, grifo nosso).

Para os gestores (o lado oposto da ocupação), o significado também foi de demarcação do papel dos estudantes em uma instituição de ensino na luta pelo direito à educação. Os gestores participantes da pesquisa citaram o processo de consolidação do movimento estudantil na instituição, sua capacidade de organização do ato e a clareza nas pautas. Segundo o Gestor 2, o exemplo dos estudantes serve como lição para os servidores que, na sua opinião, deveriam ter se unido na luta contra todo retrocesso que já se sinalizava.

Acho que foi muito importante para o amadurecimento do movimento estudantil dentro do IFSP e o posicionamento contra políticas que interferem na vida desses estudantes (Gestor 1, grifo nosso).

Essa ocupação, como as demais que aconteceram na Rede Estadual, eu acho que é mostrar, primeiro, que o estudante ele... aquela máxima:

ah, o pessoal está fazendo a cabeça do estudante! Não está, o estudante tem a sua cabeça própria, pelo contrário, a sua forma de organização tem sido exemplo para nós, servidores, também.

Até o exemplo assim: “a gente, nossa que vergonha, eles estão bem-organizados”. Eles se mostraram com as aulas públicas, com várias formas... organização de alimentação e tudo mais, como eles são, realmente, sérios naquilo que eles fazem. Então, acho que esse é um grande exemplo e acho que a gente precisava, mesmo, estar rediscutindo isso, toda essa organização deles, mostrando qual foi a falta de apoio nossa (servidores), deveria ter sido muito maior a esse movimento. Então, eu acho que a lição é assim: a gente tem que pedir desculpas, mesmo, ao movimento estudantil por não termos tido a coragem de entrar de cabeça junto com eles, de apoiá-los, eles tomaram a iniciativa que a gente não se encorajou a tomar. A gente não percebeu o golpe todo engendrado ali, talvez, ali era o momento de a gente parar toda aquela engrenagem que estava sendo construída (Gestor 2, grifo nosso).

A partir de um outro olhar, os docentes trouxeram o significado do ato e de suas consequências para a instituição e para a política de educação. O Docente 1 realizou

uma comparação entre o resultado obtido pelos estudantes do IFSP junto ao Conselho Superior e o resultado das ocupações a rede pública estadual, dimensionando o impacto que essa resistência (da não aplicação da Reforma do Ensino Médio) teria na referida rede:

[...] porque eu acho que o ato em si, da ocupação, também foi muito importante para a nossa história. Por exemplo, se a rede estadual tivesse tido uma manifestação como essa, por exemplo, de conseguir junto ao Conselho Estadual da Educação a garantia de permanência do currículo, você imagina o impacto que isso iria ter.

Então, eu acho que isso diz muito, porque isso mostra que os estudantes eram contra essa política. Eu acho que isso dá muitos elementos para a gente poder fazer esse processo de resistência a essas reformas que a gente entende que são reformas que diminuem o direito à educação. Então eu acho que é um objeto de estudo muito relevante (Docente 1, grifo nosso).

Como conquista, pode-se se indicar a resolução aprovada pelo Conselho Superior que trata da permanência das disciplinas de Artes, Educação Física, Filosofia e Sociologia nos cursos de Ensino Médio Integrado; a discussão aprofundada dos gestores sobre a necessidade de se construir refeitório nos câmpus; e a concretização do movimento estudantil no IFSP. Alguns dos estudantes que participaram das ocupações foram, logo em seguida, eleitos para os Conselhos de Câmpus e para o próprio Conselho Superior.

A Reitoria também se viu obrigada a acelerar discussões que até então estavam paralisadas, como a criação de um Diretório Central dos Estudantes.

Pedagogicamente, as ocupações de 2016 da Reitoria e alguns câmpus representam o corolário de uma proposta educacional caracterizada pela formação humana integral que pressupõe, entre outras coisas, a luta pelos direitos de todos os cidadãos (Docente 2, grifo nosso).

A análise do representante sindical, todavia, se aproxima mais da avaliação dos estudantes quando ressalta que a formação política da juventude teria sido o maior legado das ocupações. Há, ainda, um destaque para a presença de pautas identitárias na luta do movimento estudantil (gênero, raça, entre outras), identificadas como fator novo pelo sindicalista.

De alguma forma, como balanço também, isso eu acho que vale a pena falar, é que houve uma mudança em termos da conscientização política da juventude, não sei se foi a ocupação, ou a ocupação faz parte de um processo de mudança, mas ela é um elemento... que é a questão, a luta feminista das jovens, a questão racial muito presente, que não estava na minha juventude, com essa potência, esse engajamento mesmo de um setor da juventude que ocorreu a partir 2015, talvez, 2013 seja um certo marco. Mas, é

evidente, assim, eles pautam a questão do feminismo, eles discutem a questão de gênero, eles buscam se fundamentar sobre as questões políticas e raciais, tem uma politização da juventude muito grande, que chama atenção, mesmo. Isso, eu acho que faz parte desse bolo das ocupações (Representante sindical, grifo nosso).

No documento São Paulo: [s.n (páginas 181-186)