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2.2. O MST no Estado do Pará

2.2.1 O MST no sudeste do Pará

Em 1991, o MST se articula com as seguintes entidades do sudeste do Pará: CPT, STR de Marabá; Centro de Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP); Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH); Movimento de Educação de Base (MEB); Federação de órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE); e Fundação Agrária do Tocantins Araguaia (FATA) (FILHO, 2002). O objetivo era construir uma articulação de apoio, não só político, mas também de condições de estrutura para iniciar o trabalho de base.

Apesar da atuação de diversas entidades com trabalhadores do campo, o Movimento conseguiu se articular e realizar o primeiro trabalho de base no município de Marabá.

Cadastrou cerca de três mil famílias, entre abril e junho de 1991. Define, então, ocupar a Fazenda Ponta de Pedras, localizada no município de São João do Araguaia, distante, aproximadamente, 20 km de Marabá.

A inserção do MST, no sudeste do Pará, não foi tranqüila. A ocupação não foi possível ser realizada, porque, um dia antes, a polícia federal, civil e militar de Marabá, sem mandato e sem liminar de justiça, fechou a secretaria do MST. Mesmo com a secretaria fechada, a preparação para a ocupação continuou até o dia em que a polícia prendeu sete dirigentes do Movimento, sem nenhum mandato de prisão. Os dirigentes ficaram três meses presos entre polícia federal e militar, no município de Marabá (FILHO, 2002).

A chegada do MST, no sudeste do Pará, dá outra conotação, pois causa preocupação, antes mesmo das ações serem realizadas. Os fazendeiros, temendo a instalação do Movimento e o desencadeamento de ocupações, resolvem agir com antecedência para impedir que essas ações possam ocorrer. Vale ressaltar que, entre esses fazendeiros, destaca-se a família

“Mutran”, que atua desde a época do polígono dos castanhais, e que, na década de 1990, expandiu o investimento na pecuária, com melhoramento genético, provocando grande desmatamento.

Até então, os fazendeiros vinham enfrentando a luta dos posseiros e desenvolviam com as formas mais cruéis de repressão ao povo do campo, como queimar barracos, violentar esposas e filhos (PICOLI, 2006), e até mesmo assassinar líderes sindicais em sua própria casa, na presença da família. Violências praticadas, geralmente, por pistoleiros. Atitudes essas que os fazendeiros praticavam para mostrar que tinham o domínio da terra, e que qualquer provocação ou ocupação da área teriam os mesmos resultados.

A inserção do Movimento gera certa preocupação aos latifundiários, pois o Movimento já estava organizado nacionalmente, se expandindo para todos os estados, com um método desconhecido na região, uma vez que os fazendeiros já tinham uma prática e uma forma de tentar combater e inibir a organização dos camponeses.

Mesmo conhecendo os grandes conflitos e passando por esse processo de prisão, o Movimento não desistiu. A prisão dos dirigentes serviu para criar um fato político e fortalecer ainda mais a necessidade de se instalar em território paraense. Com a prisão, a secretaria permaneceu dois meses fechada. Nesse momento, as instituições de apoio ao Movimento contribuíram tanto para a libertação dos presos políticos, como para a reestruturação da secretaria.

Assim, o Movimento recomeça o trabalho de base, dessa vez com o apoio de militantes do estado do Maranhão39, que vieram contribuir para deslanchar a primeira ocupação no sudeste do Pará. O trabalho de base se estende para outros municípios, como:

Parauapebas40, Curionópolis41 e Serra Pelada42. A partir desse novo trabalho de base, o MST consegue ocupar uma área denominada de “Cinturão Verde”, município de Parauapebas, no dia 26 de junho de 1994, com cerca de 1500 famílias. Essa área o Governo Federal havia cedido para a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Em função dos conflitos, as famílias ficaram durante cinco meses acampadas no pátio do Incra, em Marabá. Não sendo possível a conquista dessa área, o MST luta pela fazenda Rio Branco. O trabalho de base continuava, e novos cadastros de sem-terra eram feitos. Assim, no dia da desapropriação da fazenda, ocorreu um ato público com a presença do presidente nacional do Incra, na época, Francisco

39 Uma vez que o MST já estava com uma estrutura no Maranhão, foram deslocados dirigentes para contribuir com a construção do movimento no estado do Pará. Nesse período, o movimento trabalha, a partir de seu método de organização, com dirigentes que passaram por um processo de formação do MST.

40 Município onde fica localizado a Serra dos Carajás; a empresa VALE, antiga Companhia Vale do Rio Doce.

41 Essa cidade recebe o nome de Curionópolis, em homenagem a Sebastião Curió, que fez parte do Exército Brasileiro, atuando na repressão contra várias manifestações civis que surgiam no Brasil, entre elas: Guerrilha do Araguaia, Garimpo de Serra Pelada, e, no sul do Brasil, na primeira ocupação do MST. Foi eleito por dois mandatos, no segundo foi cassado.

42 Depois do fechamento do garimpo (década de 1980), muitas famílias continuaram morando no povoado, esperando a indenização e possibilidade de reabertura do garimpo. Muitos garimpeiros que ficaram sem trabalho foram para as áreas de assentamentos e outros estão até hoje no local que aconteceu a exploração do ouro. Várias manifestações já foram realizadas para tentar negociar, mas pouca coisa avançou nesse processo. Serra Pelada fica no município de Curionópolis.

Graziano Neto, que veio com a missão de entregar a área para as famílias acampadas. Porém, ao chegar à área, é surpreendido, conforme aparece na tese de Fernandes (1999):

Nos parâmetros da tese de Graziano Neto, os latifúndios são comprados, os latifundiários são compreensivos porque aceitam negociar e, por tudo isso, os sem-terra devem ficar felizes e não fazer ocupações, já que há terras ociosas e nem há tantos sem-terra interessados para serem assentados. Mais um equívoco de Graziano, constatado ao chegar em Curionópolis e encontrar mais de mil e quinhentas famílias exigindo a desapropriação da Macaxeira.

A realidade encontrada não era a que ele esperava e contrariava sua tese (FERNANDES, 1999, p. 197).

Fernandes (1999) destaca, ainda em sua análise, trechos que constam na tese de Graziano Neto, em sua visita ao sudeste do Pará para a entrega da fazenda Rio Branco:

Senti aquilo como uma verdadeira traição. Minha reação foi imediata.

Chamei a liderança do Movimento e ameacei: ‘se invadirem a Macaxeira, não recebem a Rio Branco’. E, contemporizando, me comprometi a mandar realizar uma vistoria técnica na nova área, pra ver se era produtiva ou não. A lei tinha que ser cumprida. NETO (apud FERNANDES, 1999, p.197).

Foi justamente na entrega da fazenda Rio Branco que o presidente encontrou as famílias já preparadas para ocupar o Complexo Macaxeira, que resultou no Massacre de Eldorado dos Carajás. Mas, na concepção de Graziano Neto, não há necessidade de ocupar terras, pois existem áreas ociosas para serem ocupadas. A intenção do Incra era de oferecer áreas longínquas e com grande índice de malária. Áreas sem acesso, sem estradas, sem comunicação, o que impossibilitava o desenvolvimento de qualquer atividade agrícola pelas famílias que não tinham nenhuma estrutura. Por sua vez, os fazendeiros permaneceriam com as áreas de melhor acesso, próximas aos centros de comercialização e com facilidade de transportar seus animais. Mas, contrariando o que determinava o órgão oficial do Governo Federal, o MST continua ocupando terras no sudeste do Pará.

Vale ressaltar que, a partir do Assentamento Palmares, o MST começa, de fato, a trabalhar a organização interna das famílias, desde o trabalho de base, discutindo a organicidade interna do acampamento, até o assentamento. As famílias começam a se organizar em grupos de famílias e depois passam para o núcleo de base, deslanchando, então, o processo organizativo que parte do método de discussão do MST que ainda não tinha conseguido concretizar-se no sul do Pará. A partir do Assentamento Rio Branco, depois o Assentamento Palmares, outras áreas vão sendo ocupadas e novos assentamentos são

organizados, partindo da lógica nacional do MST, porém, construindo dinâmicas de acordo com a realidade em questão.