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1 DIREITOS INDIVIDUAIS E DIREITOS DE GRUPOS: CONTRAPOSIÇÃO

1.3 O LIBERALISMO IGUALITÁRIO, O MULTICULTURALISMO E A

1.3.1 O Multiculturalismo Liberal de Kymlicka

No debate entre liberais e comunitaristas, a partir do final dos anos setenta do século XX, esteve em pauta a questão da neutralidade do Estado em relação às diferentes concepções da vida boa e, implicitamente, em relação às concepções especialmente prevalecentes nesta ou naquela comunidade cultural. Para os pensadores liberais, os direitos e deveres dos cidadãos não deveriam ser contaminados pelas pertenças etno- culturais dos indivíduos na sociedade civil, em virtude do compromisso com a imparcialidade, conforme visto anteriormente, neste capítulo. Representantes do campo comunitarista, por seu turno, contestaram desde logo esta pretensa neutralidade do Estado. Consideraram que o Estado liberal apenas protegeria o indivíduo e tenderia a esquecer a sua comunalidade. Em consonância, defenderam que caberia ao Estado proteger as diferentes comunidades culturais, mediante a outorga de direitos coletivos. Os liberais, portanto, eram anti- multiculturalistas, e os comunitaristas, pelo contrário, favoreciam o multiculturalismo. Com a queda dos regimes comunistas, durante os anos oitenta, o que trouxe uma maior visibilidade à diversidade cultural de muitos Estados, e diante da necessidade de se repensar a questão da multiculturalidade, Will Kymlicka apresenta sua teoria liberal dos direitos multiculturais, acrescentando alguns aspectos mais comunitários ao liberalismo igualitário de Rawls.

Kymlicka (1989,p.883-905)valoriza a liberdade como um meio que permite a cada indivíduo realizar a sua concepção particular do bem, mas ressalta que a opção livre entre concepções do bem não é operada no vazio. Ela é realizada num contexto social específico: a comunidade cultural, ou cultura societal, na qual cada indivíduo se insere. Uma cultura societal é composta por um conjunto de práticas, sentidos partilhados e, muito especialmente, uma língua própria. Nenhuma cultura societal tem as suas características fixadas para sempre, todas as culturas evoluem no tempo. Mas existe uma ligação privilegiada entre cada indivíduo e a sua cultura societal. Neste aspecto, nem todos estamos em situação paritária. Os membros da maioria cultural – por exemplo, os anglófonos no Canadá, os castelhanos na Espanha, etc. – estão numa situação especialmente favorecida. A

sua pertença societal coincide com a cultura e com a língua dominantes no Estado em que vivem. O mesmo não acontece, no entanto, com os que pertencem a minorias nesse mesmo Estado, como os quebequenses no Canadá, os catalães na Espanha, ou ainda outras minorias num lado e no outro (índios canadenses, ciganos espanhóis, imigrantes em ambos os países). Assim, o desfavorecimento dessas comunidades culturais, fragilizando o contexto de escolha, constitui também uma desigualdade para o exercício da liberdade. Isso a maioria dos liberais não costuma aceitar, em sua defesa do princípio da neutralidade, considerando os indivíduos como seres sem vínculos de qualquer natureza, o que é, entretanto, uma abstração.

Para Kymlicka (1995,p.17-20;p.76-80;p.128;p135-137), as políticas multiculturalistas em geral, e mesmo a outorga de direitos multiculturais, ou seja, direitos a grupos, e não somente a indivíduos, justificam-se plenamente na medida em que sirvam para proteger o contexto da liberdade para os membros de culturas societais minoritárias e historicamente discriminadas. As políticas multiculturalistas incluem programas de ação afirmativa (isto é, discriminação positiva) em escolas, universidades e entidades empregadoras, a modificação de programas escolares num sentido antirracista e aberto ao contributo das diferentes culturas, a abertura do sistema educativo ao ensino das línguas das comunidades minoritárias, o treinamento de funcionários públicos, polícias e pessoal de saúde para lidar com a diferença cultural, o financiamento estatal de eventos promovidos pelas diferentes comunidades culturais, etc. Mas estas políticas podem ir mais longe e incluir a concessão de direitos especiais, muitas vezes sob a forma de isenções legais, aos membros de comunidades desfavorecidas. Incluem-se aqui os direitos poliétnicos e os direitos especiais de representação política. Os primeiros englobam, por exemplo, a isenção de códigos de vestuário geralmente obrigatórios (como o uso de capacete na condução de motos por parte da minoria Sikh) ou a concessão de feriados religiosos, ou outros, específicos. Os direitos especiais de representação política implicam a reserva de lugares para os membros das minorias no parlamento, no governo, ou em organismos de aconselhamento político.

Kymlicka considera que todos esses direitos são aplicáveis às comunidades de imigrantes, assim como a outras comunidades com culturas societais diferenciadas, quer tenham ou não uma base territorial própria. Mas há um outro conjunto de direitos que só se justifica em Estados multinacionais, nos quais

existem uma ou mais comunidades culturais. Trata-se dos direitos de autogoverno, que podem passar pela criação de reservas (como para as nações autóctones americanas), pelo estabelecimento de estruturas federais, ou pela simples autodeterminação. O tema do autogoverno remete para a questão que mais tem ocupado Kymlicka ultimamente: a da defesa de um modelo de construção dos Estados multinacionais que prescinda da promoção de uma única cultura societal.

Em sua teoria Kymlicka, entretanto, não reconhece o direito de um grupo aplicar restrições internamente a seus integrantes, mas somente o direito desse grupo de se proteger das intervenções externas da sociedade majoritária, na qual o grupo está inserido. Assim, o direito de um grupo ao autogoverno será considerado um direito de grupo. Mas se for, por exemplo, um direito exclusivo para os membros de uma minoria indígena a pescar em determinadas águas e se esse direito é exercido, e é exercível, pelos vários indivíduos que compõem a minoria, será um direito individual de grupo diferenciado. A consideração do autor , nesse sentido, visa preservar o que para ele é um preceito fundamental nas relações entre os indivíduos entre si e entre indivíduos e seus grupos: a autonomia individual.(Kymlicka,1995:45-48).

O individualismo liberal, dessa forma, para Kymlicka, não conflita com o ideal de comunidade, mas sim lhe provê com uma interpretação desse ideal. O objetivo dessa concepção de responsabilidade individual não é colocar as pessoas umas contra as outras, mas possibilitar a união de todos os cidadãos pelo respeito mútuo. E com a autodeterminação individual, para Kymlicka, não se busca o distanciamento das pessoas, mas encorajar os vários grupos de pessoas a perseguirem livremente e alcançarem seus fins culturais e comunitários compartilhados, sem penalizar ou marginalizar aqueles grupos com objetivos diferentes ou até mesmo conflitantes. Tais condições, para o autor, são as melhores para os membros da sociedade, individualmente e em comunidade, conseguirem atingir sua concepção de bem.

O igualitarismo liberal, fortemente representado por Rawls, mas também por Dworkin, apresenta uma defesa de intervenção do Estado na regulação da vida da comunidade, o que o diferencia de uma concepção individualista liberal conservadora, mais próxima do neoliberalismo, segundo diferencia Gargarella(2008), que defende uma política de inação estatal, diante da diversidade cultural que distingue muitas sociedades modernas. Para o liberalismo

conservador, e não para o liberalismo igualitário, então, o Estado liberal não deve tomar partido de nenhuma minoria culturalmente desfavorecida, mantendo-se neutro, para não correr o risco de se comprometer com uma imposição da concepção de bem de alguns acima da concepção de bem de outros. E nessa discussão Kymlicka se destaca, tendo desenvolvido uma justificação liberal igualitária para as políticas multiculturais e abrindo um vasto campo para a literatura sobre "multiculturalismo liberal", segundo Newman (2011.Grifo meu.), o que acabou por alçá-lo a uma posição de consenso a respeito do tema. A partir de seu trabalho vários outros autores, tais como Mitnick(2006), Casals(2006) e Michel Seymour (2008) abordaram a questão dos direitos de grupos sem romper com a visão principal de Kymlicka, comprometida com o indivíduo que integra o grupo cultural diferenciado, sem desenvolver uma teoria geral de direitos de grupos. Entretanto, a literatura existente sobre direitos de grupos permanece "subdesenvolvida", segundo Newman(2011.Grifo meu.), a despeito da atenção teórica dada por Kymlicka a assuntos relacionados ao tema. A posição de Kymlicka, entretanto, traz à tona um aspecto negligenciado pelo liberalismo igualitário, em seu abstracionismo da condição do indivíduo como um ser sem vínculos, em nome da neutralidade e da imparcialidade: o da pertença societal do indivíduo. A partir daí, o autor abre caminhos para o acréscimo dos direitos de grupos aos direitos fundamentais , além dos direitos humanos.

Crítico da concepção hegemônica dos dirietos humanos, Santos considera ser "ilustrativa da natureza ilusória do monolitismo" (Santos,2014, p.23-26. Grifo meu) a tensão entre direitos inidivduais e direitos coletivos.Lembra o autor que a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, primeira grande declaração do século XX, reconhece apenas dois sujeitos jurídicos, o indivíduo e o Estado. Os direitos coletivos, dessa forma, para o autor, não fazem parte do cânone original dos direitos humanos. Segundo Santos, a tensão existente entre entre direitos individuais e direitos coletivos resulta da luta histórica de grupos sociais que, excluídos ou discriminados na condição de grupo, não podem ser adequadamente protegidos pelos direitos humanos individuais. As lutas das mulheres, dos povos indígenas , afrodescendentes, vítimas do racismo, gays, lésbicas e minorias religiosas marcam os últimos cinquenta anos de reconhecimento de direitos coletivos, reconhecimento, entretanto, amplamente contestado e em constante risco de reversão.

1.4 DIREITOS DE GRUPOS E DIREITOS INDIVIDUAIS: COEXISTÊNCIA E