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O NARRADOR-BUFÃO

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 113-141)

4 CAPÍTULO 3: O INTELECTUAL E O BUFÃO

4.2 O NARRADOR-BUFÃO

Em Maluco, há uma trama sutil costurada de acordo a uma intenção narrativa, proporcionando que a sua própria convenção seja transgredida. Por trás das habilidosas manobras do narrador, existe uma intenção muito específica que se integra ao projeto estético do romance.

A partir deste entendimento, passe-se a conhecer um pouco dos antecedentes históricos e literários do personagem que é responsável por narrar a história e que parece sustentar e justificar as transgressões narrativas.

Segundo Oscar Tacca, “la voz del narrador constituye la única realidad del relato. Es el eje de la novela, [...] sin narrador no hay novela” (TACCA, 1973, p. 69). Esta parece ser a lógica encontrada em Maluco, uma vez que tudo o que os leitores sabem da história foi vivenciado pelo narrador, ainda que algumas vezes possa parecer que outros personagens tomam a palavra para narrar o que chega ao leitor.

Em uma obra típica narrada em primeira pessoa, o que o narrador seleciona para contar é facilmente entendido: tudo aquilo que não passou pela percepção sensorial do “eu” narrativo ficará de fora, de modo que a narração convence o leitor da veracidade de seu relato, do qual foi testemunha e/ou protagonista das ações. Quando o narrador faz parte das ações que descreve, aquilo que é narrado tem um grande valor subjetivo. Em uma obra típica, o autor se adianta às perguntas sobre como e por quê o personagem estava presente nas situações contadas e, se quer manter a verossimilhança, vai explicá-las de antemão.

Assim, pode-se pensar que em muitos aspectos Maluco não é uma obra típica, pois em diversas ocasiões o texto não responde à convenção narrativa em primeira pessoa: Juanillo Ponce é capaz de não apenas narrar o que seus sentidos perceberam, mas muitas vezes, ele realiza seus relatos em um nível mais completo. Em termos gerais, a voz do romance é a de um Juanillo velho, escrevendo a um imperador também em ruínas; mas em certos momentos, essa voz é a do Juanillo “anterior”, que se dirige a seu capitão, Fernão de Magalhães. Nestes fragmentos, porém, não se limita a narrar o que está dentro de seu âmbito de percepção sensorial, mas ele também é capaz de relatar coisas que aconteceram fora de seu limite de alcance de percepção comum.

Pode-se dizer que este narrador tem uma certa filiação com a tradição do romance picaresco, ou seja, ele é um personagem-testemunho, que tenta deixar marcada a sua presença na primeira viagem de circunavegação ao redor da Terra. Este personagem não tem (apesar de que em muitos momentos tente nos fazer acreditar que sim) um papel central no desenrolar dos fatos, mas é uma testemunha desta.

Partindo dos termos de Gèrard Genette (1998), pode-se dizer sobre um narrador como o de Maluco que “toda narración homodiegética testimonial da pie a un fenómeno interesante: una inestabilidad vocal que la hace oscilar entre lo heterodiegético y homodiegético”61 (PIMENTEL, apud GARCÍA RAMÍREZ, 2003, p. 4), uma vez que neste tipo de narrativa, o narrador costuma apresentar histórias que contaram a ele. No entanto, já foi mencionado que Juanillo não conta simplesmente o que lhe contaram, mas abre espaço para o que ele não poderia conhecer. Genette se refere a isto da seguinte forma:

En la focalización interna, el foco coincide con un personaje que se convierte en el “sujeto” ficticio de todas las percepciones, incluidas las que le afectan como objeto: el relato puede decirnos, entonces, todo lo que percibe y piensa ese personaje (no lo hace nunca); en principio, no debe decir nada más; si lo hace es de nuevo, una alteración (paralepsis) esdecir, una infracción, deliberada o no, de la posición modal del momento […]. (GENETTE, 1998, p. 51-52)

Em outras palavras, as paralepsis anteriormente referidas, ou seja, infrações, são o tipo de transgressão mais “grave” do narrador no romance. Mais interessante do que este aspecto formal, é que o narrador constantemente assinala a si próprio apresentando conceitos e pré- conceitos, o que confere ao leitor um alto grau de subjetividade, marcando uma postura diante dos fatos que narra e do mundo em que vive. Aqui, é necessário observar que o narrador em questão é um bufão, o qual “intrínsecamente conlleva algo de poeta y loco, de cínico y de mentiroso, de juglar y de payaso” (GARCÍA RAMÍREZ, 2003, p. 4). Por isto faz-se necessário conhecer o simbolismo do bufão por um lado, e por outro analisar de que forma se

61Vale lembrar que um narrador homodiegético é aquele que forma parte da história como personagem; enquanto

comporta especificamente este bufão como um personagem-narrador, o que ele narra e como o faz.

A escolha por um narrador-bufão carrega em si um forte simbolismo. Independentemente da função que ele cumpre dentro da trama de Maluco, é importante ter em conta este simbolismo, porque a escolha por um personagem tão marginal e ao mesmo tempo tão próximo ao poder, não deve ser inocente. O comprometimento do autor diante da obra gera a necessidade de uma máscara que possa assumir o posicionamento deste em relação à vida que ele evoca, aos leitores e ao público. Esta máscara, no entanto, deve ser bastante consistente, para que seu discurso seja levado a sério. O bufão vem para socorrer o romancista, assumindo esta máscara, pois ele participa da vida sem tomar parte nela, é seu observador e utiliza-se de maneiras específicas para refletir as revelações ao público, também a respeito da vida privada do próprio público.

Em Maluco, a máscara deixa rastros do que o bufão pode representar, a começar pelo próprio nome do personagem: Juanillo Ponce, nascido na região de León, e portanto, chamado de Juanillo Ponce de León. Há uma dupla coincidência, nada inocente: com o nome do descobridor Juan Ponce de León, e ao mesmo tempo, com o nome do autor do romance, Napoleón Baccino Ponce de León.

É fundamental assinalar que, podendo escolher entre tantos personagens aceitáveis historicamente, Baccino decide criar um personagem que trai, intencionalmente, a fidelidade dos fatos históricos. O autor não reinventou o caráter de um dos marinheiros praticamente anônimos que intervieram na empreitada, mas criou um ser completamente alheio ao ambiente no qual a trama do relato se desenvolve, um elemento evidentemente infrator do contexto da narração, um pícaro que a princípio nada teria para fazer nesta frota e que, no entanto, fará as vezes de olhos e ouvidos que permitem ao leitor seguir os acontecimentos da travessia. Note-se que no romance em questão o bufão é a entidade menor dentro da

hierarquia da tripulação dos barcos (com a exceção de Enrique, escravo de Magalhães). Baccino brinca com as possibilidades simbólicas deste personagem, desde que o bufão encerra em si mesmo uma forte carga significativa que respalda sua transcendência em uma antiga tradição cultural.

No primeiro parágrafo, sabe-se que o narrador é “Juanillo Ponce, natural de Bustillo del Páramo, en el reino de León”. A partir daí, este narrador quase sempre se refere a si mesmo como Juanillo Ponce de León, o que por si só já constitui um recurso discursivo fundamental para a análise que aqui se tece.

Assim como em português, também em espanhol usa-se o nome Juanillo (Joãozinho) para designar pessoas comuns, que misturam-se às demais sem muito destaque, não precisando assim de um nome que a diferencie. O Joãozinho, ou Juanillo, é um “zé-ninguém” ou “um qualquer”. Porém, ao mesmo tempo, ele pode ter um significado mais generalizante, pois o fato deste nome ser tão comum, acaba por reunir em um só personagem a muitos.

Além disso, seu sobrenome – Ponce de León – o caracteriza por duas vias. Juan Ponce de León foi um conquistador espanhol, que viajou à América antes da expedição de Fernão de Magalhães contada em Maluco. Ganhou notoriedade a partir de sua enorme vontade de encontrar o mito do El Dorado, sendo conhecido por ser movido por seus sonhos e ilusões, uma vez que jamais obteve sucesso em sua empreitada. Sendo um homônimo do conquistador, de certa forma o narrador se equipara a ele, diferenciando-se pelo diminutivo de seu nome: ao invés de Juan, trata-se de um Juanillo. Pode-se entender este diminutivo como uma depreciação irônica do conquistador, atribuindo ao narrador o status de “conquistadorzinho”, um conquistador “de segunda categoria”. Também em relação ao nome do descobridor, pode-se pensar em uma identificação com o fato de Juanillo buscar legitimar através de seu relato a sua participação na importante frota, como descobridora de uma nova rota para as especiarias.

Além disso, ao chamar-se Juanillo Ponce de León, o narrador do romance confunde-se com o próprio escritor, Napoleón Baccino Ponce de León. No contexto em que este romance foi escrito (segunda metade da década de 80 do século XX, quando o Uruguai encontrava-se em processo de redemocratização), pode-se pensar neste jogo de nomes e sobrenomes como uma forma de o próprio escritor colocar-se em posição de conquistador do seu lugar/espaço dentro da sociedade na qual vivia, principalmente se consideramos que este jornalista escrevia seu primeiro romance (que viria a ser premiado pela Casa de Las Américas, o que nos leva a crer que de certa forma este narrador/autor foi bem sucedido em sua “expedição”).

Então, põe-se em jogo uma relação entre generalização e identificação: a coincidência do sobrenome do autor com o do personagem gera entre eles uma identificação imediata. Porém, ao mesmo tempo, a escolha do primeiro nome Juanillo (em português Joãozinho) generaliza este personagem, uma vez que, por ser um nome extremamente comum, pode representar de forma impessoal a qualquer participante anônimo da história (tanto no que diz respeito ao narrador/bufão quanto ao autor do romance).

O bufão tem traços particulares em relação a outros tipos de bobos-da-corte. A palavra vem do italiano buffone, que em uma tradução literal quer dizer piadista; este é exatamente o seu ofício primordial: o de fazer rir. Erroneamente, tende-se a pensar que sua origem remonta das cortes da Idade Média Europeia. No entanto, este é um personagem mais antigo e parece ter surgido na Ásia, entre os persas. Em diversas cidades do Egito, muito antes de nossa era, já aparecem nos murais que decoram as paredes fúnebres indivíduos grotescos e malfeitos que acompanham os grandes senhores. Parece que este costume passou do Oriente à Grécia, onde se estabelece nada menos que no plano mítico do Olimpo, onde Sileno, um deus ou semideus

bêbado, obsceno e atrevido atua junto a Dionísio. Dali, o costume se estendeu à Roma, e do grande império as cortes medievais herdaram o hábito do bufão.62

A função do bufão é divertir seu bem-feitor. Historicamente, seu trabalho não era dos mais fáceis (nem agradáveis) pois ele precisava ter grande habilidade mental e discursiva para ter sempre respostas rápidas e agudas para quem o questionasse e a mesma coisa era válida para o acervo de versos e canções, histórias e adivinhas sempre prontos para entreter a quem fosse necessário, mesmo sem aviso prévio. Tudo isso não apenas divertia, apesar de que esta era sua tarefa principal, mas também complementava informações que chegavam incompletas aos ouvidos do monarca: o bufão contava sobre piadas de mau-gosto que faziam sobre a corte ou então, falava sobre as queixas do povo, porque funcionava como uma voxpopuli, e graças a sua “imunidade de louco”, era verdadeiramente livre para estas ações.

O bufão ou louco, deixava seu bom humor agir livremente e sua graça divertia os senhores e seus convidados. Era um artigo pomposo nas grandes cortes e apenas os poderosos podiam dar-se ao luxo de manter um ou mais bufões. Os preferidos eram os que apresentavam maiores monstruosidades físicas: anões, gigantes, hermafroditas, corcundas, etc. O bufão é então, por definição, um deformado que se esforça por fazer rir ao senhor que lhe paga e lhe mantém, permitindo-se diversas licenças que não se concediam a nenhum outro cortesão. Muito frequentemente, o engenho e o descaramento de um bufão o fazia ascender na corte, chegando a fazer parte de festas e de conspirações, e a conhecer segredos e confidências ignorados pelos demais.

O bufão histórico, segundo contam os registros, respondia rapidamente a qualquer pergunta que lhe faziam e sempre tinha um conto pronto, uma história, uma brincadeira ou um

62

Ver Enciclopedia universal ilustrada, Europeoamericana, Espasa-Calpe, Madrid-Barcelona, tomo IX, 1910, pp. 1325-1326. e LOPEZ, Carlos &GUARNIZO, Luis. La historia de los payasos. Universidad Pontificia Bolivariana de Medellín. 2008. Acesso em [http://www.monografias.com/trabajos11/hispay/hispay.shtml]

enigma para que o público decifrasse. Alguns bufões chegaram a ter condições de fidalgos e até títulos de nobreza, elevando-se ao cargo oficial. Um exemplo disso é o de Geoffroy, o bufão de Felipe V de Navarra, ainda que o mais célebre seja Triboulet, o bufão de Luis VII, chamado por Rabelais de “o louco prudente” e imortalizado por Victor Hugo no seu drama O

rei se diverte. Também alguns bufões são lembrados pela fidelidade a seus senhores, como o

modelo de Shakespeare para seu bufão do Rei Lear.

A sorte de um bufão nunca estava assegurada, uma vez que era tolerado se era eficiente, isto é, divertido; do contrário, ele seria castigado por aquele que o sustentava e por aqueles de quem ele caçoava.

Pensando no significado do bufão, tem-se que ele é a outra face da realidade, aquela que a sobriedade adquirida com os anos faz esquecer e que, no entanto, reclama nossa atenção. Este personagem é capaz de expressar em tom grave coisas tolas e em tom de piada as coisas mais graves, de maneira que encarna a consciência irônica. Além de sua aparência cômica, o bufão é interpretado como uma consciência desgarrada, assumido como um duplo de si mesmo. É um fator de equilíbrio quando desconcerta os outros, à medida em que os obriga a procurar a verdade que nasce da desenvoltura com que critica tudo e todos, inclusive a si mesmo, de forma que, mais que um mero personagem cômico, mais que um engraçado comediante em tom de comparsa, é a expressão da multiplicidade íntima da pessoa e suas ocultas discordâncias.

Na tradição oral (e comumente também na literária), o bufão terminava sendo executado ou sacrificado para fazer as vezes de um bode-expiatório. Dessa forma evidencia-se que assim ele era considerado, pois o indivíduo e a sociedade não costumam ser capazes de assumir-se com todos os defeitos assinalados pelo bufão e incapazes de resolver estas contradições, optavam por eliminar sua imagem desconfortável e inquietante..

Os bufões que na antiguidade acompanhavam as tropas, também se permitiam caçoar dos generais. No caso de Juanillo, uma das ações dessacralizadoras é voltar-se para afigura do Capitão, criticando-o duramente, mas articulado a um profundo respeito por ele, o que não acontece com a figura do rei a quem se dirige. Podemos então, ler este personagem-narrador em muitos níveis: o primeiro e mais imediato, é que talvez ele tenha realizado a viagem, e talvez não, mas não importa pois o que conta é o entretenimento, como o personagem-cronista oficial de Carlos V Juan Ginés Sepúlveda bem aponta no apêndice de Maluco (sobre o qual se falará mais detidamente adiante). A segunda opção neste nível, é que sim ele esteve na viagem, mas merece o castigo de desaparecer dos registros por dizer duras verdades sobre o rei e sua família, além de que, pertencendo ao último escalão social, isto não importa a ninguém. Em outro nível, pode-se ver que representa o outro lado das crônicas, a outra face da realidade e do Capitão; a máxima autoridade da viagem e o mais insignificante integrante da frota formam duas faces da mesma moeda. Tanto é assim que quando Juanillo conta suas “visões” a Magalhães, consegue dizer exatamente o que ele quer ouvir. Acontece a Juanillo a mesma sorte que a Magalhães: ficar sem glória e sem reconhecimento pela viagem. Nas palavras de Juanillo,

Lo peor de estaprofesión de nos que es la de ser fabricantes de ilusión y creadores de folganza, es quenadie nos toma en serio cuando hablamos en serio, ni se cuidan de nuestras prevenciones yavisos por atinados que ellos sean, que venimos en esto a parecernos a aquella señoraCasandra.” (1992: 80)

Apesar disso, cumpre o melhor que pode a sua missão de mostrar à pessoa com máximo poder (rei ou capitão) suas extravagâncias, erros, e as consequências dos quais pode orgulhar-se.

Nas primeiras linhas do romance, este bufão, que é narrador-personagem do romance de Baccino, se apresenta como “Juanillo Ponce” (1992: 7) e define sua profissão dizendo “¿qué cosa hay en este mundo más necesaria que los Francesillos, y los Pericos63, y este

63 Francesillo de Zúñiga foi um famoso bufão da corte da época de Carlos V. De origem judaica, assemelha-se

Juanillo de profesión bufón?” (1992: 9). Estabelece-se aí um referencial-padrão, reconhecível aos leitores, já que sabe-se de modo geral que o bufão era o personagem deformado que acompanhava os reis, encarregado de divertir. Juanillo está próximo do Capitão geral Fernão de Magalhães grande parte do tempo na narrativa, mas nunca o chama pelo nome (sempre o chama de “señor” ou “Capitán”) apesar de que o trata de “tú”, como corresponde a seu ofício, e através desta condição e falando diretamente a Magalhães, repreende e assinala seus disparates: “¡Déjanos en paz! ¡Eres un loco!” (1992: 175); dá conselhos, embora estes não sejam seguidos: “Convoca a los jefes y pilotos, diles que nos vamos a casa” (1992: 111); e ampara e anima quando necessário: “sé que del otro lado de esta línea que llaman horizonte está el Maluco –digo, aparentando una gran confianza” (1992: 213). No entanto, apesar de toda a confiança que lhe é permitida, e de que em diversas situações Juanillo faça as vezes de um amigo do Capitão, a relação hierárquica parece ser respeitada, inclusive havendo no texto alusão a um comportamento algumas vezes semelhante ao de Enrique, escravo de Magalhães, como se vê na passagem a seguir: “[El Capitán] estaba tendido en la litera con la armadura puesta y a su lado, sentado en el suelo y con las piernas cruzadas, su esclavo Enrique.”, e Juanillo, ao chegar no recinto, adota a mesma postura: “Me senté, pues, cual madre amorosa a sus pies” (1992: 44).

Foi dito que Juanillo não nomeia Magalhães, porém o bufão se auto-nomeia com muita frequência, numa espécie de necessidade de auto-afirmação constante, para que fique claro quem está no comando desta narrativa. Ao dirigir-se a Carlos V, denomina-se de diversas formas, sendo simplesmente “Juanillo” ou “tu Juanillo” as mais comuns. Denominar- se “conde de Maluco” (1992: 33) pode ser bastante ofensivo à autoridade real e inclusive, é motivo de que a Inquisição o questione “por qué me hacía llamar conde del Maluco” (1992: 41), e sua resposta fala sobre o título que Magalhães o prometeu em nome de sua amizade,

mas eram amigos. Ver artigo de José Sánchez Paso: “Don Francés de Zúñiga”, disponível em,<http://bib.cervantesvirtual.com/historia/CarlosV/8_3_sanchez.shtml.> Acesso em dezembro de 2011.

tornando-se assim “conde del Maluco, por la gracia de don Hernando, mi señor” (1992: 42). Outra expressão de Juanillo para referir-se a si mesmo é “el primer bufón del orbe todo” (1992: 65), entre tantas outras.

Todas estas expressões são assumidas depois da viagem, na ocasião da escritura de seu relato. Juanillo o faz lançando mão das suas prerrogativas de bufão, porém, ao fazê-lo toma a decisão consciente de passar por cima das restrições a ele impostas pelas máximas autoridades (no caso, o então rei Felipe II), uma vez que sua condição de conde lhe foi negada, assim como sua participação na viagem foi apagada dos registros. O objetivo deste intenso processo de auto-afirmação é dizer à máxima autoridade (para ele, neste momento, Carlos V e não Felipe II) que sim, ele é conde, e deve referir-se ao dinheiro que lhe foi tirado, pois já que lhe tiraram seu título, que ao menos lhe paguem a pensão, sua de direito. O que Juanillo precisa é voltar a existir já que “le parece que su vida toda quedó en ese viaje, y que al desaparecer de

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 113-141)

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