UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
por
Luisa Müller Cardoso
(Aluna do curso de Mestrado em Literaturas Hispânicas)
O BUFÃO E O INTELECTUAL EM
MALUCO. LA NOVELA DE LOS DESCUBRIDORES
O BUFÃO E O INTELECTUAL EM
MALUCO. LA NOVELA DE LOS DESCUBRIDORES
Luisa Müller Cardoso
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação de Letras Neolatinas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Mestre em Literaturas Hispânicas. Orientador: Víctor Manuel Ramos Lemus
FICHA CATALOGRÁFICA
Cardoso, Luisa Müller.
O bufão e o intelectual em Maluco la novela de los descubridores / Luisa Müller Cardoso - Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2012.
152f.: 2,0cm
Dissertação (Mestrado em Literaturas Hispânicas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 2012.
Orientador: Víctor Manuel Ramos Lemus
1. Baccino Ponce de León, Napoleón. 2 Novo romance histórico latino-americano. 3. Representação alegórica do intelectual na pós-ditadura – Teses.
O bufão e o intelectual em Maluco. La novela de los descubridores
Luisa Müller Cardoso
Orientador: Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em Literaturas Hispânicas.
Aprovada por:
Presidente, Prof. Doutor Victor Manuel Ramos Lemus - UFRJ
Prof. Doutor Ary Pimentel - UFRJ
Prof. Doutor Juan Pablo Chiappara Cabrera - UFV
Prof. Doutor Miguel Ángel Zamorano Heras - UFRJ
Prof. Doutor João Roberto Maia da Cruz - Fiocruz
SINOPSE
RESUMO
CARDOSO, Luisa Müller. O bufão e o intelectual em Maluco. La novela de los desubridores. Rio de janeiro, 2012. Dissertação (Mestrado em Literaturas Hispânicas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O romance Maluco. La novela de los descubridores (1989), do uruguaio Napoleón Baccino Ponce de León, reconta a história da primeira viagem de circunavegação comandada por Fernão de Magalhães, desde o ponto de vista do bufão da tropa. Apesar da trama (re)contar um fato histórico situado no século XVI, desde o título há uma advertência: trata-se de um romance, e é a partir deste patamar que a pesquisa se desenvolve. Este é um texto escrito durante os últimos anos da ditadura militar no Uruguai, afinado com as tendências contemporâneas da ficção (e também da disciplina da história), acompanhando a evolução literária latino-americana que se desenvolveu a partir dos anos 60 até os anos 80. Assim, considera-se que, para além do fato histórico ali apresentado, em "Maluco" estão colocadas questões relativas ao tempo presente da escritura do romance, partindo-se do princípio de que, em termos literários, a representação traumática em tempos ditatoriais é predominantemente alegórica. Enfim, com a análise do narrador de Maluco é possível refletir a respeito das mudanças teórico-ideológicas ocorridas no que concerne ao papel da figura do intelectual latino-americano depois do período ditatorial atravessado por diversos países no continente. Juanillo Ponce de León, o narrador-bufão (não acidentalmente homônimo tanto de um grande descobridor do século XVI, quanto do próprio escritor do romance) é interpretado como uma representação alegórica deste intelectual latino-americano que se configurou no contexto da pós-ditadura.
ABSTRACT
CARDOSO, Luisa Müller. O bufão e o intelectual em Maluco, la novela de los desubridores. Rio de janeiro, 2011. Dissertação (Mestrado em Literaturas Hispânicas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
The uruguayan novel Maluco. La novela de los descubridores (1989),from the Uruguayan Napoleon Baccino Ponce de Leon, re-tells the story of the first round-the-world trip, conducted by Fernao de Magalhaes, seeing from the viewpoint of the troop's buffoon. Despite the fact that the plot (re)tells a historic fact from the 16th century, you have a clear warning from the title: this is a novel, and it is from there that the research takes place. This was a piece written during the last years of Uruguay's military dictatorship, in tune with the contemporary tendencies for ficcion (and as well in History), following the latin-american literary evolution which sprouted from 1960 to 1980. Therefore, it is considered that, beyond the historic facts presented, "Maluco" also sets questions relating to the present time in which the novel was written, taking into consideration that, in literary terms, the traumatic experiences of dictatorship is represented, mainly, allegorically. Regardless, with the analysis of "Maluco"'s narrator, the reflection upon theoric-ideological changes concerning the role of the intelectual latin-american post-dictactorship across several countries in the continent is made possible. Juanillo Ponce de Leon, the buffoon-narator, (not only by chance sharing his name with a very famousconquisterfrom the 16th century as well as the romance's author) is constructed as an allegoric representation of this latin-american intellectual which was established in this post-dicatorship background.
RESUMEN
CARDOSO, Luisa Müller. O bufão e o intelectual em Maluco, la novela de los desubridores. Rio de janeiro, 2011. Dissertação (Mestrado em Literaturas Hispânicas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
La novela "Maluco. La novela de los descubridores" (1989), del uruguayo Napoleón Baccino Ponce de León, recuenta la historia del primer viaje de circunavegación comandada por Hernando de Magallanes, desde el punto de vista del bufón de la tropa. Pese a que la trama (re)cuente un hecho histórico, desde el título hay uma advertencia: es una novela, y partiendo de ahí se desarrolla esta pesquisa. De esta forma, “Maluco” está muy al día con las tendencias contemporáneas de la ficción (y también con las la historia), y se puede considerar que para allá de la trama ubicada en el siglo XVI, en “Maluco” están puestas cuestiones relativas al tiempo presente de la escritura de la novela (segunda mitad de la década de los 80 del siglo XX), siguiendo la evolución literaria latino-americana que se desarrolló entre los años 60 y los 80. Así, se considera que, para allá del hecho histórico representado, en “Maluco” aparecen las cuestiones relativas al tiempo presente de la escritura de la novela, partiéndose del principio de que, en términos literarios, la representación traumática en tiempos dictatoriales es predominantemente alegórica. Finalmente, con el análisis del narrador de Maluco es posible reflexionar acerca de los cambios teorico-ideológicos ocurridos en relación al rol de la figura del intelectual latinoamericano después del periodo dictatorial vivido por diversos países en el continente. Juanillo Ponce de León, el narrador-bufón (no acidentalmente es homónimo tanto de un descubridor del siglo XVI, como del escritor de la novela mismo) es interpretado como una representación alegórica de este intelectual latinoamericano que se hizo en el contexto de la post-dictadura.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a meu orientador, Víctor Manuel Ramos Lemus, pela paciência com minhas tantas ausências e demoras.
Devo um agradecimento especial a Ary Pimentel e Martha Alkimin, pela “adoção” acadêmica durante a graduação na Faculdade de Letras da UFRJ: obrigada por todas as possibilidades que me mostraram,por todo o rigor de mim exigido, por não terem se contentado com menos.
A Diego Vargas, Lauro, Benjamin, Rebeca e Alice muito obrigada por todo tempo, atenção e ajuda a mim dedicados, aceitando o desafio de opinar e participar ativamente sobre algo que de fato não faz parte de suas formações.
A todos da The Sequoia Foundation / Associação Sequoia, especialmente Carolina e Patricia, pelo apoio que me dedicaram desde o primeiro dia de minha contratação. Obrigada pelo indispensável “dia do mestrado”.
A Marilene Flores e toda a equipe da biblioteca da Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación da Universidad de la República, em Montevidéo, Uruguai, que me receberam como uma verdadeira pesquisadora. A Julia Moreno, Matías Gonzáles e Roberto Capay, que não mediram esforços para ajudar com as fotocópias do material conseguido na biblioteca, extrapolando todas as cotas estudantis comuns em vigência na Universidade.
Obrigada pelo carinho, indicações bibliográficas e artigos aMalva E. Filer, professora na Brooklyn College, The Graduate School and Universiy Center e The City University of New York; a Roberto Ferro, professor de Literatura Latino-americana da Facultad de Filosofía y Letras da Universidade de Buenos Aires;a Idelber Avelar, professor da Tulane University, Nova Orleans.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 13
2 CAPÍTULO 1: BACCINO E SEU TEMPO 23
2.1 A ARTE DE PERDER 23
2.2 TEMPOS DE DITADURA 28
3CAPÍTULO 2: MALUCO E AS TENDÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS 45
3.1 LITERATURA E HISTÓRIA 45
a) O processo literário latino-americano dos anos 60 aos 80 45
b) A influência da disciplina da História 59
c) O romance histórico e o novo romance histórico latino-americano 66
3.2 A REPRESENTAÇÃO DO TRAUMA EM TEMPOS DE DITADURA 85
4 CAPÍTULO 3: O INTELECTUAL E O BUFÃO 101
4.1 BACCINO EOS INTELECTUAIS DE SEU TEMPO 101
4.2 O NARRADOR-BUFÃO 113
5 CONCLUSÃO 137
REFERÊNCIAS 141
Se algum outro pudesse ter escrito minhas histórias, eu não as teria escrito.
1 INTRODUÇÃO
Maluco. La novela de los descubridores, de Napoleón Baccino Ponce de León, foi escrito no fim do período ditatorial no Uruguai, que perdurou de 1973 a 1984. Ganhador do Prêmio Casa de las Américas de 1989 e publicado pela primeira vez em 1990, o romance, de certa forma, devolveu ao autor a possibilidade de expressar-se, uma vez que ele “había sido silenciado por la dictadura”1.
Em linhas muito gerais, o romance narra a primeira viagem de circunavegação, realizada por Fernão de Magalhães no século XVI. Em Maluco2 quem conta o evento é o bufão da tropa, Juanillo Ponce de León, em uma longa carta datada de décadas após a viagem ao ex-monarca Carlos V. Seu o objetivo de provar sua participação na expedição, para que este interceda junto a seu filho e atual rei, Felipe II, para restituir-lhe a pensão, que lhe fora suspensa.
De acordo com Malva Filer, na introdução de sua edição para Maluco,
la expedición de Hernando de Magallanes a las islas Molucas, como eje temático, y la España de Carlos V que le sirve de trasfondo, se transforman en un texto imaginativo, rebelde y anticonvencional que trasmite, con deliberado anacronismo,
la perspectiva del autor. (FILER, 2006, p. vii, grifo nosso)
Pensando no que propõe Malva Filer a respeito da utilização de uma temática histórica para transmitir certa perspectiva do autor, deve-se levar em conta o contexto em que foi escrito o romance. Assim, não consideraremos Maluco somente em seu nível literal da trama, pois existe algo que se costura a partir da construção narrativa do romance que localiza-se além dos fatos contados.
Esta pesquisa se propõe a analisar alguns aspectos do que se pode interpretar e entender a partir do jogo de duplicidade existente entre o plano da escrita do romance pelo autor, e o plano dos fatos narrados na obra pelo bufão. Relacionando estes dois âmbitos, e
partindo do romance em si, aprofundaremos o entendimento da amplitude desta obra. Assim sendo, os discursos de Napoleón Baccino Ponce de León e Juanillo serão analisados no sentido de entender a relação existente entre ambos como uma espécie de correspondência ficcional, conforme a possibilidade resultante do tempo vivido pelo autor. Pensar em quem
escreve, será nesta análise um ponto crucial: tanto o autor escrevendo seu primeiro romance, quanto o narrador escrevendo sua carta, são considerados como vozes constituintes da realidade do relato, sendo essa ambiguidade o eixo deste romance (TACCA, 1973, p. 69).
Já no primeiro capítulo de Maluco, quando antes de mais nada o narrador revela-se no que concerne à trama literal, percebe-se a relevância desta autoria. Introduzindo o texto, o narrador se apresenta expondo o motivo pelo qual decide contar a sua versão da história (tantos anos depois) em formato de carta, ao ex-monarca espanhol Carlos V. Sem muitos rodeios, nas primeiras páginas, permeadas da linguagem das cartas de serviço e das crônicas oficias, as principais chaves de leitura deste romance oferecem-se ao leitor.
A ironia e o diálogo com importantes obras literárias aparecem já nas primeiras linhas, entremeadas por fatos históricos e certo rigor formal característico de crônicas de navegação. Para um leitor experiente, desde o princípio esclarece-se que o texto que vem pela frente nada mais é que ficção. Apesar da trama aparentemente (re)contar um fato histórico, desde o título há uma advertência: trata-se de um romance (“la novela de los descubridores”), e não de um texto histórico. Nas palavras de Baccino3, “apesar de seguir a história de perto, Maluco é mera ficção.”4 Porém, aproveitando-se das tendências contemporâneas tanto da disciplina da história, quanto da ficção, Baccino constrói seu discurso de tal forma, que muitas vezes pode-se pensar ao longo da leitura que realmente muito daquilo aconteceu.
3
Usaremos comumente daqui em diante o sobrenome Baccino para nos referirmos ao autor.
4 Palavras de Baccino na entrevista de Marie-Lise Gazarian-Gautier. “A Coastal Sailor in Search of
Um aspecto muito marcado em Maluco é a referência a diversas obras literárias. Ainda no primeiro parágrafo, Lazarrillo de Tormes é indiretamente citado, quando o narrador conta sua origem e como foi chegar a integrar a expedição de Fernão de Magalhães. Juanillo, sob determinado ponto de vista, reúne várias características picarescas. O objetivo da carta que escreve a Carlos V é a obtenção de uma pensão, com a qual possa sobreviver. Possuir meios para alimentar-se é um de seus problemas centrais, e ele faz referência a esta necessidade diversas vezes ao longo do texto. Há estudos de Maluco que o consideram um romance picaresco5. No entanto, apesar de reconhecermos que há um viés representativo deste gênero no romance (e sobre alguns até falaremos brevemente adiante), este não será o foco da presente análise, até mesmo porque muitas outras grandes obras atravessam em determinado momento Maluco, como A Divina Comédia e Don Quijote, além de tantas crônicas e relatos de viagens de descobrimento, para citar apenas alguns dos mais explícitos.
Este narrador, que logo no princípio se revela uma amálgama de significados, é um bufão. Este fato não deve ser entendido como uma arbitrariedade. Neste caso, a figura do bufão tem um rol bastante especial no interior da obra.
Juanillo Ponce apresenta-se como o bufão da frota de Magalhães na primeira viagem de volta ao mundo. Apesar de sua estereotipada condição social – judeu convertido, filho de uma prostituta de pai desconhecido, anão, pobre, feio, deformado como se pode conferir abaixo –
Os juro Alteza que con ser mi madre judía y mi padre desconocido y yo algo enano y bastante contrahecho, y llevar en mis partes la seña del converso, y ser tenido por comunero a causa de mi señor don Juan, y no tener otro oficio que el de truhán y chocarrero, ni otra riqueza que vuestra generosidad (1992: 74)6
5
Ver FILER, Malva E., 1992.
6 Todas as citações de trechos de Maluco realizadas nesta dissertação aparecerão com uma notação do número da
– Juanillo ocupa na frota um papel tão importante, que possibilita a sua aproximação às mais altas esferas da hierarquia, durante e após a expedição. Esta importância deve-se ao seu ofício: o bufão é uma figura que goza de direitos e privilégios especiais. Ele é um contador de histórias, ou seja, um narrador nato; e é através de sua força narrativa que o bufão cria uma maneira peculiar de exteriorizar as situações vividas pelos homens, podendo inclusive denunciar a sociedade que o cerca. Sua narrativa é acessível, de forma que o conteúdo adquire um tom paródico.
Mais uma vez e além do próprio título, ainda no princípio do texto o leitor é alertado de que a narrativa que segue deve ser lida como ficção: sendo seu narrador um bufão, não se pode levar a sério tudo o que ele fala. Como ele próprio diz a Carlos V, a respeito de determinada conversa de Juanillo com o comandante Fernão de Magalhães: “No recuerdo exactamente el orden de los parlamentos ni tengo ganas de inventártelo, como hice y haré otras veces que sea menester” (1992: 105). Ou seja, o leitor (do romance, assim como o destinatário primeiro Carlos V quem lê a carta enviada pelo bufão) é informado de que sua narração é uma mistura de fatos que supostamente teriam acontecido, com outros puramente inventados sempre e quando ele tenha querido fazê-lo.
É preciso que fique claro, portanto, que não se pretende com esta análise fazer uma verificação dos fatos históricos, e nem tampouco contrastar este relato com outros, acatados pela história oficial como verdadeiros. Alguns destes relatos, como o de Pedro Martyr de Anglería e de Francesco Antonio Pigaffeta, são duramente criticados ao longo do romance. Não se pode, porém, afirmar que a intenção de Baccino tenha sido a de reescrever a história “oficial” como ela realmente aconteceu, e nem mesmo a de trazer à tona uma versão antes silenciada deste fato histórico. Entende-se as críticas feitas ao discurso oficial em Maluco
Uma vez que se esclareça que Maluco é uma ficção, e será analisado como tal, é interessante ressaltar que a tessitura narrativa constrói-se com base num terreno nada sólido, numa suspensão. Nas palavras de Roberto Ferro,
a leitura fica instalada num entre. [...] O leitor navega entre a literatura e a história, entre o sentido que se configura no tramado interminável de citações e o sentido como correspondência de uma marca referencial direta no discurso, entre a loucura e a razão, entre a palavra do bufão e a escuta do rei; entre uns e outros, o jogo de espelhos da alusão posterga a segurança de atingir a verdade em última instância, o que não implica que o narrado seja definitivamente falso, errado, ilusório, ou tão somente imaginativo. (FERRO, 2010, p.303).
Ao ganhar o prêmio Casa de las Américas, o juri aclamou Maluco por seu
tratamiento de un tema universal resuelto con notable profesionalismo en el que destaca la estilización del lenguaje de las crónicas del descubrimiento, el agudo sentido de humor, el alto vuelo imaginativo, con los que logra trascender la recreación de una época para convertirse en un texto de hondasignificación contemporánea(HERNÁNDEZ, 2001, p. 3, grifos nossos)
Esta significação contemporânea através de um tema universal destacada assim que Maluco
foi publicado, pode ser considerada o principal entre do romance, que possibilita a análise aqui tecida. O lugar do entre é o ponto de partida da narrativa e escrita de Maluco, no período de transição entre ditadura e redemocratização. Neste entre, o intelectual busca entender seu papel e lugar na sociedade que está atravessando mudanças severas.
Se na superfície o romance narra a primeira viagem de circunavegação, realizada por Fernão de Magalhães no século XVI, por outro lado, há uma mudança significativa de foco narrativo, uma vez que, como já foi dito, o narrador em Maluco é o suposto bufão da tropa.
como Maluco permite pensar o campo intelectual, em especial do campo literário, em países que, como o Uruguai, passaram pela traumática experiência de uma ditadura? Nesta dimensão, é importante que se analise como esta narrativa remete a uma situação contemporânea, de países em que, até muito recentemente, a historiografia se voltava de forma mais efetiva para os fatos narrados sob o ponto de vista oficial.
Sem perder de vista que se trata de uma ficção, ao recontar a primeira viagem de circunavegação no século XVI, Maluco propõe uma nova perspectiva de um fato histórico já consagrado pela história oficial agora a partir de um narrador subalterno –porém privilegiado– que vê os acontecimentos de “debajo de una mesa observando los pies de los comensales y siguiendo su conversasión” (1992: 129). A narrativa é feita através de uma carta, objetivando a legitimação de sua identidade, enquanto um participante ativo da expedição.
Pode-se dizer que a escolha de Baccino Ponce de León por este fato histórico, assim como a do seu narrador, não é aleatória. Como um palimpsesto, o texto ficcional é tecido sobre um fato histórico que, no entanto, mesmo em relação à história oficial, apresenta controvérsias, o que abre uma brecha para novas versões (ainda que sem intenção de autenticidade e verdade), aumentando ainda mais seu tom irônico. Esta brecha foi descrita pelo autor em uma entrevista, na qual disse que
la libertad, para un escritor que cultiva el género histórico [...] está justamente en aquellas lacunas, en aquellos silencios de la historia, que uno puede llenar con verosimilitud, con seriedad, con rigor intelectual pero que le dejan el margen. (BACCINO apud GOBBI, 1998)
O deslocamento do foco da narrativa será a chave de leitura no desenvolver desta dissertação, sendo o elemento que possibilita a transmissão da “perspectiva do autor” a respeito da “profunda significação contemporânea” (de acordo aos supracitados Malva Filer e crítica quando da vitória no Casa de las Américas respectivamente). Como mencionado anteriormente, este narrador-bufão é o fio condutor que atravessará todo o texto, possibilitando a análise aqui proposta e permitindo que se chegue às conclusões almejadas.
Este estudo se propõe a analisar o desdobramento que existe entre o narrador-bufão e o escritor do romance, com base na pergunta quem escreve? Ambos narradores apresentam uma série de características comuns que nos permitem pensar numa espécie de jogo de espelhos, no qual a perspectiva do autor sobre o mundo objetivo contemporâneo em que vive reflete-se no mundo criado imaginativa e alegoricamente no romance.
A estrutura deste estudo desenvolve-se em torno de três eixos principais: o tempo histórico de Baccino; as tendências literárias e históricas contemporâneas à escrita de Maluco; e a relação entre o narrador-bufão e o intelectual contemporâneo. Tendo a consciência de que os três eixos citados estão intimamente relacionados, proporcionando através da tripla articulação um mais profundo entendimento da obra, para fins metodológicos de análise, separou-se cada um deles em um capítulo para que se pudesse aprofundar seu estudo.
Em seguida, na segunda parte do primeiro capítulo “Tempos de ditadura”, expõe-se um panorama da ditadura cívico-militar no Uruguai. Apesar de esta não ser uma pesquisa na área de História, entender os principais passos e manobras políticas deste período permite que se entenda muito do que ocorreu também em outros setores sociais, como o cultural (e mais especificamente, o literário). Neste ponto, as principais fontes de apoio foram: a obra La
dictadura Cívico-Militar: Uruguay 1973-1985 (Damasi, Marchesi, Markarian, Rico e Yaffé,
2009); o artigo de Julio Marenales (2005), intitulado Breve historia del Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros; e a obra Breve historia de la dictadura (1973-1985), de Gerardo Caetano e José Rilla (2005).
No capítulo seguinte, chamado “Maluco e as tendências contemporâneas”, primeiramente traça-se um panorama das disciplinas da Literatura e da História, o qual articulado com o contexto histórico explicitado no capítulo anterior, nos permite pensar mais especificamente na representação em períodos ditatoriais.
Na primeira etapa deste capítulo, com o título de “Literatura e História”, traça-se um quadro geral da evolução literária latino-americana dos anos 60 aos 80, principalmente sob a luz das ideias de Jorge Ruffinelli (1995) em seu artigo Después de la ruptura: la ficción. Em seguida, comentamos sobre a influência da disciplina da História na literatura, tendo por base os ensaios trazidos por Peter Burke (1992) em A escrita da história. Ainda nesta seção, trata-se de um terceiro tópico: estuda-trata-se o romance histórico e sua vertente chamada de novo romance histórico latino-americano. Para isto, nosso marco teórico teve como base: La novela histórica (Georg Luckáks, 1977); La nueva novela histórica de la América Latina: 1979-1992
(Seymour Menton, 1993); La nueva novela histórica hispano-americana (Carlos Fuentes, 1972); e Historia e imaginación literaria (Noé Jitrik, 1995).
de crise (como é o caso da ditadura) é a alegoria, tal qual a define Walter Benjamin em
Origem do drama trágico alemão (1996), sem perder de vista os conceitos freudianos de Luto e Trauma (expostos em “Luto e Melancolia”). A este respeito, estamos de acordo com as ideias expostas por Idelber Avelarem Alegorías de la derrota: la ficción postdictatorial y el trabajo del duelo (2000), e na obra organizada por Arthur Nestrovski e Márcio Seligmann-Silva, em Catástrofe e representação (2000).
No terceiro e último capítulo chamado “O intelectual e o bufão”, buscaremos primeiramente analisar a figura do intelectual latino-americano contemporâneo, através de um panorama intitulado “Baccino e os intelectuais de seu tempo”. Procuraremos traçar um panorama das mudanças de papel e postura enfrentadas pela classe chamada ou considerada intelectual (especialmente latino-americano), em relação a seu rol na sociedade. Devido à vastidão do tema, usamos ampla fonte de pesquisa. As principais ideias aqui articuladas partem de: Paisagens imaginárias: intelectuais, arte e meios de comunicação (Beatriz Sarlo, 2005); Os intelectuais (Jean-François Sirinelli, 1996); Os intelectuais e o poder (Norberto Bobbio, 1997); Representaciones del intelectual (Edward Said, 1996); La ciudad letrada
(Ángel Rama, 1998). Destacaremos a relevância da Casa de las Américas, em Cuba, como um forte articulador intelectual da época, principalmente devido ao fato de Baccino inserir-se neste contexto. Para tanto, nos apoiamos na tese Intelectuais, política e literatura na América Latina, de Adriane Vidal Costa (2009). Também ressaltaremos a importância da produção literária dentro das cadeias ditatoriais, entrando mais especificamente no universo intelectual uruguaio da época ditatorial com base na obra Trincheras de Papel, de Alfredo Alzugarat (2007).
expressando seu conteúdo traumático, escrevendo para realizar seu trabalho de luto. Neste apartado, caracterizamos o bufão propriamente dito, analisamos muitas passagens de Maluco
e de grande valia foram os trabalhos específicos sobre o nosso romance, especialmente: La verdad es patrimonio de los locos (de Perla Elsa García Ramírez, 2003); Maluco: re-escritura de los relatos de la expedición de Magallanes e La historia apócrifa en las novelas de la postmodernidad rioplatense (Malva Filer, 1994-a e 1994-b respectivamente); Maluco. O romance dos descobridores de Napoleón Baccino Ponce de León (Roberto Ferro, 2010); El testimonio como elaboración del trauma en ‘Maluco: la novela de los descobridores’ (Paula Chiara, 2006); e as entrevistas com o autor de Catarina Gobbi (1998) e Cynthia Vich (El diálogo intertextual en Maluco, 1997).
2 CAPÍTULO 1: BACCINO E SEU TEMPO
2.1 A ARTE DE PERDER
Napoleón Baccino Ponce de León nasceu em Montevidéu em 1947. Antes dos trinta anos, começou a ensinar literatura no Instituto de Profesores Artigas7. Publicou muitos trabalhos sobre narradores uruguaios, em especial sobre Horacio Quiroga, autor que estudou a fundo por mais de uma década. Durante os anos da ditadura no Uruguai (1973 a 1984), abandonou a atividade docente e se mudou com a mulher e os três filhos pequenos para uma aldeia de pescadores, onde se dedicou a outras funções alheias à sua vocação. No entanto, este difícil tempo de isolamento e afastamento foram os anos nos quais Baccino escreveu Maluco, o primeiro romance que publicaria e com o qual foi premiado diversas vezes, incluindo o prestigioso Premio Casa de Las Américas de 1989, que acabou acarretando na publicação de
Maluco pela Seix Barral no ano seguinte.8 Sobre Maluco, Baccino afirmou que:
[e]ste livro foi escrito durante a ditadura uruguaia […]. Nós tínhamos uma forte tradição democrática. Tenho um mestrado em literatura, era professor, mas a ditadura não permitiu que eu ensinasse. Fui forçado a fazer outros tipos de trabalhos para viver. Trabalhei na indústria de comida congelada, trabalhei no campo, fiz tudo o que pude. Terminei meu romance em 1987. Levei pelo menos cinco anos para escrevê-lo; eu estava trabalhando em outras coisas ao mesmo tempo. (BACCINO apud GAZARIAN-GAUTIER, 1994. Tradução nossa)
Analisaremos alguns pontos de El arte de perder(BACCINO, 1995), outra obra do autor, no sentido de buscarmos caracterizar Baccino como um intelectual de sua época, e mais especificamente, como escritor de Maluco. El arte de perder é uma seleção de relatos cujas
7
O Instituto de Profesores Artigas foi criado em 1949 e teve seu funcionamento extremamente alterado durante o processo que acarretou no golpe militar. Teve suas atividades interrompidas pelo governo em 1977, voltando a funcionar plenamente somente após a ditadura. Ver artigo sobre a instituição disponível em <http://www.dfpd.edu.uy/ipa/institucional/historia_2.pdf>.
8A obra de Napoleón Baccino Ponce de León publicada, se resume em: Horacio Quiroga: Itinerarios (1979),
primeiras versões foram publicadas no Suplemento Dominical do jornal El País entre 1992 (quando Baccino foi convidado a escrever a coluna dominical) e 1995 (quando da publicação de El arte de perder). Baccino ressalta que
al trasladar a este otro soporte [do meio jornalístico ao livro] he introducido toda clase de modificaciones, – ni el lector memorioso reconocerá algunas de ellas –, a los efectos de adaptarlas a las reglas y códigos no escritos que rigen un libro y darle la cohesión y la unidad que me estaba vedada en principio. (BACCINO, 1995, p. 12)
Esta obra, que o próprio autor definiu como “una suerte de autobiografía apócrifa” ou “novela familiar”, é “inevitablemente fragmentaria” e segundo Baccino, sua “propia sensación de pérdida les confiere [aos relatos] su unidad” (BACCINO, 1995, p. 12). Os textos agrupados tentam recuperar as origens de um passado marcado pela história familiar: desde as memórias dos medos e fantasias que povoam a imaginação infantil e as lembranças de seu pai, até narrativas do jovem escritor que – com sua mulher (bióloga marinha) e seus filhos pequenos – vive cara a cara com o mar, em Punta del Diablo, uma pequena aldeia de pescadores no litoral uruguaio.
O poema “One Art” de Elizabeth Bishop9 que abre El arte de perder anuncia, que para Baccino, “dominar a arte de perder” é a maneira de não se deixar levar pelo “desastre”. Esta concepção constitui-se em um ponto chave desta pesquisa, uma vez que, como veremos adiante, interpretamos Maluco como uma representação de uma experiência traumática que permite uma reflexão sobre a mesma.
Entendemos que para Baccino, perder relaciona-se com o enfrentamento de dificuldades pessoais e com a consequente necessidade de tomar decisões para que estas difíceis situações se viabilizem enquanto vivência.
9 A tradução para o espanhol apresentada no próprio livro para o poema é: No es difícil dominar el arte de
Em El arte de perder, Baccino se pergunta: “con cuál de las dos máscaras representar mi vida; ¿la máscara de la tragedia o la máscara de la comedia? Ante la imposibilidad real de un balance, ¿qué hacer? ¿dar prioridad a las pérdidas o a las ganancias?” (BACCINO, 1995, p. 10). Diante da dúvida, o autor prefere representar sua vida através da "perda", e justifica sua escolha dizendo que “las pérdidas” guiam “la memoria por los laberintos del pasado” e acrescenta que
[d]esde el nacer, que entraña una pérdida, pasando por el reino perdido de la infancia, los sueños que se tornan sutilmente quebradizos sobre nuestros huesos adolescentes, el amor, duro aprendizaje de la realidad, los hijos que se nos parecen, los trabajos y los días que se nos parecen, la vida que pudo haber sido y que no fue, la muerte de seres queridos, ‘las caídas hondas de los Cristos del alma’ o ‘las crepitaciones de algún pan que en la puerta del horno se nos quema’, al decir de Vallejo [...]Cómo lo dice el título, este libro trata sobre todas esas cosas que la vida nos va enseñando a perder. [...] Es sólo una lectura posible. Un lado de la moneda de hierro. La faz oscura de la luna. Una interpretación a la luz enceguecedora de las pérdidas. La necesidad animal de lamerse las heridas para que sanen. Un gesto de autocompasión [...] (BACCINO, 1995, p. 11)
Vemos Baccino referindo-se à representação das perdas como uma “necesidad animal de lamerse las heridas para que sanen” e esta é a via pela qual fazemos a leitura de Maluco:
uma necessidade de assimilação para que as feridas causadas pelas perdas (neste caso, trabalharemos com as causadas pelo contexto histórico da ditadura no Uruguai) se curem, ou melhor, sejam assimiladas, para que possa seguir convivendo com as cicatrizes.
Para casi todos los escritores, la memoria es el punto de partida de la fantasía, el trampolín que dispara la imaginación, en su vuelo impredecible hacia la ficción. Recuerdos e invenciones se mezclan […] de manera a menudo inextricable para el propio autor, quién, aunque pretenda lo contrario, sabe que la recuperación del tiempo perdido que puede llevar a cabo la literatura es siempre un simulacro, una ficción en la que lo recordado se disuelva en lo soñado y viceversa. La fidelidad a los hechos de la propia historia personal, es por lo tanto, relativa; es decir, inevitablemente subjetiva. Un hecho en sí mismo no es nada; sólo existen las distintas versiones que sobre ese hecho tenemos. […] La verdad no existe, sólo existen verdades. Por eso la literatura es el reino por excelencia de la ambigüedad. Sus verdades son siempre subjetivas, verdades a medias, relativas, verdades literarias, que con frecuencia constituyen inexactitudes flagrantes o mentiras históricas. (VARGAS LLOSA apud BACCINO, 1995, p. 10)
E agrega ainda três versos de Antonio Machado, que dizem: “Se dicen muchas mentiras / por falta de fantasía, / la verdad también se inventa.” (MACHADO apud BACCINO, 1995, p. 10)
Desta forma, Baccino traça as coordenadas de sua maneira de escrever, delineando um possível estilo, que será fundamental para entender Maluco. Aparecem sinalizadas como características da escrita de Baccino em Maluco, de forma a também situá-lo como intelectual em sua época: a pluralidade de pontos de vista versus uma versão escolhida para a escrita, a ambiguidade, a superação da perda, e em suas próprias palavras, o “humor”, a “parodia”, “la mirada tierna, no nostálgica”, a memória como trampolim para a fantasia em direção à ficção, finalizando com sua noção de que “la memoria es un acto de amor. Y la ficción también”. (BACCINO, 1995, pp. 11-12)
Na parte IX de El arte de perder, intitulada “Los paraísos perdidos”, Baccino relata sua experiência de auto-confinamento em Punta del Diablo, ressaltando a importância do mar em sua vida e da impressão de estar vivendo em um barco, desertando do mundo real:
En ciertas noches de verano, cuando los insectos revoloteaban entorno a los faroles y no soplaba ni la más leve brisa, las olas mansas rompían tan cerca de nuestra ventana que teníamos la ilusión de estar a bordo de un gran barco que se alejaba para siempre de aquella costa hostil. […] Habíamos llegado a Punta del Diablo huyendo, de todo y de nada en especial, como se llega siempre, como llegan todos, porque Punta del Diablo es eso, un refugio para desertores.[…]Atrás, a nuestras espaldas quedaba el mundo real. Un país inhóspito, inseguro, difícil. Un régimen autoritario. Una vida sin mucho espacio para un aprendiz de escritor, una bióloga con vocación de naturalista y tres hijos pequeños, educados en ciertos valores que por entonces parecían haber desaparecido de la faz de la tierra.(BACCINO, 1995, pp. 236-237)
Eu fantasio sobre o mar. Sou um navegante da imaginação, um marinheiro da costa. Eu acho o mar fascinante: está em constante mudança. Eu aprendi a conhecê-lo com minha mulher ao meu lado. (BACCINO, apud GARZARIAN-GAUTIER, 1994. Tradução nossa)
A autoimagem de Baccino visto como um desertor refugiado, marinheiro em terra-firme, tripulando uma casa-barco que se afasta da hostilidade do mundo real onde um regime autoritário não deixa lugar para sua existência é fundamental na análise aqui proposta. No período da ditadura uruguaia, Baccino não pôde deixar o país, pois “não tinha passaporte, e como um intelectual seria muito suspeito [para conseguir um]” (BACCINO in GARZARIAN-GAUTIER, 1994. Tradução nossa), portanto, optou por ir junto com sua família para a aldeia de pescadores, numa espécie de insílio, onde se isolariam da dura realidade vivida em Montevidéu.
Em relação a esta posição suspeita mencionada por Baccino enquanto intelectual, Jorge Castañeda afirma que os intelectuais ocuparam por muito tempo um papel de destaque no campo social e político latino-americano. Através de seus escritos e outras atividades, substituíram muitas instituições e atores sociais, desempenhando papel fundamental em reformas, oposição a golpes militares e ditaduras, na educação e nos meios de comunicação. Para Castañeda, a explicação para esta substituição recorrente é que as sociedades latino-americanas
evoluíram sem que se desenvolvessem muitos dos seus setores fortes da sociedade civil que, em outros países, surgiram junto com as instituições representativas, pelo menos formalmente. Em parte, isto ocorreu porque, em quase todo o continente, o Estado surgiu antes que as nações estivessem de fato constituídas como tal, e uma vez criada a nação, o Estado acabou tornando-se demasiado poderoso em relação à sociedade civil. Embora o Estado [...] não fosse particularmente forte em termos absolutos, em termos relativos ele sobrepujava a sociedade civil. (CASTAÑEDA, 1994, p. 157)
Num continente como a América Latina, com países caracterizados por uma sociedade civil frágil, o intelectual acaba sendo alvo de responsabilidade exageradas que o transformam em tribuno, em membro do Parlamento, em dirigente sindical, em jornalista, em redentor de sua sociedade, devido à inexistência das funções que deveriam ser cumpridas pela sociedade civil. À medida que esta se fortalece, o papel do intelectual diminui. Mas, por enquanto, o intelectual é importante porque representa a outra elite. A América Latina foi um continente governado por elites, por uma elite do poder e por uma elite da crítica, com uma espécie de diálogo entre as duas. (FUENTES apud CASTAÑEDA, 1994, p. 158)
Este diálogo entre a elite do poder e a elite da crítica dá-se em um contexto histórico específico, o qual deve ser entendido, para que se possa compreender então o papel (ou papéis) cumprido por este grupo ao qual Carlos Fuentes chamou de “outra elite”. Assim, considerando-se a importância do contexto histórico em relação ao autor e à obra, passaremos a um panorama do contexto histórico aqui em questão: a ditadura cívico-militar no Uruguai.
2.2 TEMPOS DE DITADURA
De acordo com Alvaro Rico em “Sobre el autoritarismo y el golpe de Estado. La dictadura y el dictador”,
[e]l proceso de imposición de relaciones autoritarias de poder en el Uruguay es uno de los rasgos salientes de la crisis institucional por la que transitó el país en años 60 y principios de los 70, que finalmente desembocó en el golpe de Estado y la dictadura. Por eso mismo, las causas o el origen de la dictadura no pueden ser explicados “al margen” o en “forma paralela” al mismo proceso de crisis que recorre las institucuines democráticas y el Estado de derecho en la época, máxime cuando esas instituciones no pudieron absorver su crisis interna conservando el marco constitucional y legal vigentes, sino todo lo contrario. (RICO, 2009, p. 181)
Portanto, para entendermos a viabilização da implantação de um regime ditatorial no Uruguai, voltemos às origens da crise institucional.
XIX constituem-se seus partidos tradicionais –Blanco e Colorado – os quais se fortalecem nos anos que se seguem. Esta polarização entre Blancos e Colorados, marcou intensamente tanto a sociedade quanto a política uruguaias ao longo de sua história, até a década de 60, quando a população começou a sofrer uma opressão generalizada e teve suas liberdades restringidas.
Os governos de José Batlle y Ordoñez (1903-1907 e 1911-1915) lançaram as bases para o estabelecimento de um regime democrático e conseguinte estabilidade política. Durante seus dois mandatos José Batlle y Ordóñez transformou o Uruguai em um país no qual a economia e a sociedade se expandiam, mesmo diante do grande contraste entre as sociedades rural e urbana. Com uma emenda à constituição garantindo maior poder ao executivo, José Batlle estabeleceu a democracia no Uruguai através de um programa de bem-estar social e de industrialização. Entre suas medidas, destacam-se uma maior preocupação com a crescente população de Montevidéu, a aprovação de leis para separar o Estado e a Igreja, a legalização do divórcio, o estabelecimento do seguro-desemprego e a suspensão do ensino religioso das escolas públicas. Outra faceta de sua herança é o estabelecimento de muitas entidades autônomas. Batlle acreditava que os principais serviços públicos deveriam estar nas mãos do Estado para aumentar o investimento de capital e evitar o desequilíbrio nas divisas que poderia criar debilidades nas contas públicas.
Há vários fatores históricos que colocam o Uruguai na direção de uma ditadura. Os fracassos da economia aumentaram depois da guerra da Coréia e acabaram por acarretar na eleição dos Blancos. Estes passaram a fomentar a agricultura e a exportação, tornando a economia uruguaia cada vez mais dependente, a qual continuava a enfrentar problemas.
teatro, a atuação dos grupos musicais e a tradição do Carnaval. Pouco a pouco, o governo estava tomando o controle dos aspectos políticos, sociais e culturais no país.
Este processo de deterioração política, social e econômica na década de 60 acarretou num notável aumento de conflitos, o que inclui a luta armada através da guerra de guerrilhas protagonizada por grupos extremistas, entre os quais se destacou o Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros (MLN-T). Também contribuíram para o aumento das tensões e da fragilidade institucional outras organizações como a Convención Nacional de Trabajadores (CNT) e grupos de extrema direita, como o Escuadrón de la Muerte e a Juventud Uruguaya de Pie. As Forças Armadas foram assumindo um crescente protagonismo político até que, com o apoio do então presidente constitucional Juan María Bordaberry, optou-se por um golpe de Estado.
Segundo Julio Marenales10, havia vários motivos para que o Uruguai fosse considerado como a “Suíça da América”. Era um país com menos de 3 milhões de habitantes, com baixa densidade demográfica (dezesseis por quilômetro quadrado), com a maioria da população formada por descendentes de imigrantes europeus. Este fato proporcionou uma grande importância aos elementos culturais europeizantes, o que acarretou uma grande diferença em relação a boa parte do restante da América Latina com grandes influências afro-indígenas, já que no Uruguai a população indígena foi praticamente exterminada no século XIX.
A economia do Uruguai tinha suas bases no campo. Naquele momento, não havia indícios de minérios em quantidades exploráveis, nem de petróleo. Portanto, a única fonte de riqueza estava relacionada à terra, sendo que a principal atividade econômica era a criação extensiva de gado em pastos naturais. Desde os tempos coloniais até aproximadamente 1930,
10
Julio Marenales foi um dos fundadores do Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros, juntamente com Raúl Sendic. As ideias de Marenales aqui expostas estão em seu artigo “Breve historia del Movimiento de
Liberación Nacional – Tupamaros”, disponível em
o gado desenvolveu-se de maneira sustentável. Mas a partir daí estagnou-se de tal forma que só seria possível sair de tal situação se houvesse uma mudança profunda na maneira de fazê-lo. Houve então, uma drástica redução da entrada de capital no país, o que trouxe graves consequências a longo prazo, as quais no entanto, não foram notadas de imediato por conta da Segunda Guerra Mundial que, por um lado permitiu que toda a carne produzida no país fosse vendida, e por outro, reduziu drasticamente todos os tipos de importações, devido ao fato de que as grandes potências voltaram toda sua capacidade produtiva ao esforço da guerra. Assim, ocorreu uma espécie de economia forçada. Isto acarretou também no desenvolvimento de sua indústria (para suprir as necessidades que antes eram resolvidas a partir das importações), o que gerou muitos empregos e acabou por dinamizar o mercado interno.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os efeitos de certa forma benéficos para o Uruguai escassearam, e deu-se início a um processo inflacionário que passou a afetar seriamente o poder aquisitivo da população. A classe operária que havia crescido e se fortalecido bastante com o relativo desenvolvimento industrial, passou a resistir às medidas restritivas salariais, defendendo o poder de compra dos salários conseguido em anos de luta. Paralelamente, a classe operária também briga por uma organização e por pisos salariais dignos. As classes dirigentes do país acusam os trabalhadores organizados de serem os responsáveis pela inflação, pelos contínuos aumentos salariais que exigiam. Inicia-se aí uma escalada repressiva contra os grupos de trabalhadores organizados.
desapropriação de um latifúndio improdutivo, para que pudessem trabalhar. Foram quatro marchas em direção à capital Montevidéu, às quais receberam o apoio de muita gente: militantes provenientes tanto dos partidos de esquerda quanto dos sindicatos, juntamente com militantes independentes resolveram apoiar fortemente os trabalhadores da cana-de-açúcar. Neste processo de trabalho solidário, uma série de constatações vieram à tona, entre elas a de que o governo, diante das demandas de pessoal que queria trabalhar, respondia com dura repressão, inclusive violando a lei (a qual o próprio governo deveria ser o primeiro a respeitar). Por outro lado, esta repressão aos trabalhadores era generalizada: começaram a organizar-se grupos nazifascistas, foram realizados atentados às sedes dos partidos políticos de esquerda, assim como a pessoas relacionadas a estes partidos e aos trabalhadores; a Universidad de la República foi atacada por grupos fascistas com a cumplicidade do chefe da Polícia de Montevidéu. Dentro deste contexto, no ambiente político cogitava-se a possibilidade de um golpe militar, a tal ponto que a CNT (Convención Nacional de Trabajadores, única central sindical) aprovava um plano de resistência ao golpe de Estado em 1964.
Com a morte do General Gestido, novo presidente eleito em 1967, assumiu seu vice-presidente Pacheco Areco, quem atuou duramente. Governou com medidas permanentes de “Pronta Seguridad”, ou seja, estado de sítio. Segundo Julio Marenales, “fue una dictadura disfrazada. Tuvo la habilidad de no disolver el Parlamento, pero lo desconoció por completo y gobernó por decreto.” (MARENALES, 1997, p. 5)
O crescimento acelerado do MNL-T não permitiu a formação adequada dos militantes clandestinos e começaram a surgir os CAT (Comités de Apoyo a los Tupamaros), dos quais apenas alguns tinham contato com a Organização, sendo que a maioria atuava autonomamente, integrando-se intuitivamente às diretrizes estratégicas do MLN.
A ação clandestina em território dominado pelo inimigo foi muito cara aos Tupamaros, não somente em termos financeiros, mas também houve muita perda humana e material. Diante da necessidade de resgatar das cadeias a experiência acumulada dos militantes presos, a direção optou por organizar fugas de prisioneiros. Houve fugas em março de 1970, em julho e setembro de 1971. As fugas, de certo modo, resgataram uma organização clandestina dos integrantes, dos quais a maioria não estava na clandestinidade, apesar de fazerem parte da Organização ilegal.
Raúl Sendic, Eleuterio Fernández Huidobro, Mauricio Rosencof, José Mujica, Adolfo Wasem, Henry Engler, Jorge Zabalza e o próprio Julio Marenales, os quais permaneceram na cadeia desde este momento até o fim da ditadura. Eles foram recluídos praticamente incomunicáveis e sofreram torturas físicas e psicológicas (como ficou posteriormente comprovado). Com a maioria dos dirigentes presa ou morta, perdeu-se a capacidade de regeneração, uma vez que logo após esta derrota instaurou-se a ditadura militar, que acabou com o movimento popular, partidos políticos de esquerda e sindicatos. Mesmo os militantes que conseguiram exilar-se, apesar de terem contribuído muito, não foram capazes de reorganizar o MLN.
Segundo Geraldo Caetano e José Rilla em Breve historia de la dictadura, tem-se que
[h]acia comienzos de la década del 70, resultaba evidente que la evolución de la política gubernamental, así como el sostenimiento de una situación que presentaba serios desequilibrios, no podía sino tener el correlato político de la progresiva implantación del autoritarismo. Aun cuando la crisis económico-social antecedió en casi dos décadas a la quiebra final de las instituciones en 1973, ya a partir de 1968 podía perfilarse con nitidez la perspectiva dictatorial en el sistema político uruguayo. La trilogía de crisis económica, social y política se terminó de operar como corolario de un extenso período de deterioro en las condiciones generales del país. (CAETANO & RILLA, 2005, p. 19)
Nas eleições de novembro de 1971, assumiu um novo governo presidido por Juan María Bordaberry, e o papel das Forças Armadas na vida política do Uruguai foi intensificando-se.
realização das eleições nacionais em 1971, e antes mesmo do golpe de Estado. Inclusive, por conta disto, Alvaro Rico acredita que o golpe pode ser considerado como um momento dentro do contínuo institucional Estado de direito - Estado ditadura, não representando integralmente uma quebra da legalidade precedente.
Em 12 de fevereiro, Bordaberry reuniu-se com os militares e aceitou todas as exigências de seus líderes, fazendo com eles um pacto de continuidade ao seu governo na presidência. O Pacto de Boisso Lanza, como ficou conhecido, dava às Forças Armadas “la misión de brindar seguridad al desarrollo nacional” e estabelecia a participação dos militares na atividade político-administrativa. O Consejo de Seguridad Nacional (COSENA) foi fruto deste acordo, constituindo-se no órgão acessor do Poder Executivo, criado posteriormente, em 23 de fevereiro de 1973. No dia seguinte, novos Ministros do Interior e da Defesa foram designados, e com isto se completou o deslocamento em direção a um governo cívico-militar, no qual formalmente governavam os civis, enquanto que o centro do poder havia se transferido ao âmbito militar.
A respeito dos meses que antecederam o golpe, Caetano & Rilla (2005) afirmam que
[l]os meses que separan febrero y junio de 1973 no hicieron más que confirmar los pronósticos agoreros sobre la inminencia de la caída final de las instituciones. El sistema político todo presenció impotente un descaecimiento de sus más elementales normas de funcionamiento democrático. El intervencionismo de las FF.AA. en múltiples escenarios políticos se volvió cada vez más desembozado y prepotente, contando para ello con la defección de Bordaberry, pero también con el reconocimiento y aun la aceptación formales de otras fuerzas políticas y sociales. (CAETANO & RILLA, 2005, p. 21)
Dentro do exército era perceptível uma “derechización” dos comandantes e também no governo acontecia uma progressão militarista em suas ações. A justiça militar mostrava-se cada vez mais ativa, e as Forças Armadas replicaram praticamente todas as declarações políticas feitas na ocasião.
atitudes demonstravam que não sabiam como proceder neste caso, de forma que não houve efetivamente uma iniciativa no sentido da unificação para enfrentar a crise institucional.
A tensão política e social aumentava vertiginosamente, com o aumento rápido de denúncias de torturas e procedimentos ilegais por parte de integrantes das Forças Armadas, com o fechamento temporário de meios de comunicação de imprensa nacional e com a retirada de circulação de edições de jornais argentinos.
Alvaro Rico assinala uma particularidade do caso uruguaio: o golpe de Estado foi dado pelo próprio presidente constitucional (um civil, diga-se de passagem), que passou a ser o ditador. No princípio poderia afirmar-se que no caso uruguaio não se tratou de um típico golpe militar que deslocou a autoridade civil para usurpar o governo, como aconteceu nos demais países da região (Brasil, Argentina, Chile). Não obstante, no plano mais conceitual, a participação das Forças Armadas no golpe e na ditadura torna mais complexa a caracterização do processo autoritário no Uruguai, sobretudo no que concerne aos alcances do fenômeno da personificação do poder na figura única de um ditador, um traço inerente à instituição ditatorial.
Em 27 de junho de 1973, o presidente Juan María Bordaberry dissolve o Parlamento por decreto e cria em seu lugar um Consejo de Estado, com funções legislativas, administrativas e com a missão de planejar uma reforma constitucional que reafirmasse os princípios republicano-democráticos. A liberdade de pensamento foi restringida e às Forças Armadas e Policiais foi assegurada a prestação ininterrupta de serviços públicos. No decreto presidencial de Bordaberry, constavam
as seguintes justificativas para o golpe de estado:
E, estabelecia censura dos meios de comunicação, afirmando que estaria restrita
la divulgación por la prensa oral, escrita o televisada de todo tipo de información, comentario o grabación que, directa o indirectamente, mencione o se refiera a lo dispuesto por el decreto atribuyendo propósitos dictatoriales al Poder Ejecutivo o pueda perturbar la tranquilidad y el orden público.(Decreto presidencial de Bordaberry, 1973)
Três dias depois, ainda durante uma greve geral como resposta ao golpe de Estado, a CNT foi dissolvida, seus postos foram fechados, seus bens foram confiscados e seus dirigentes presos.
Ainda havia uma grande dificuldade em constituir-se uma frente de forças anti-ditatoriais11. O fato político-partidário de maior importância na luta inicial contra a ditadura foi o documento elaborado conjuntamente pelo Frente Amplio e Partido Nacional, de 5 de julho de 1973, intitulado “Bases para la salida de la actual situación”, no qual se levantava uma plataforma de seis pontos:
restablecimiento de libertades y derechos; restablecimiento de la actividad de los partidos y las asociaciones gremiales; recuperación de salarios y pasividades y contención de la carestía; compromiso en la promoción de un programa mínimo de transformaciones económicas y sociales; cese de Bordaberry y estabecimiento de un gobierno provisional; y, por último, instalación de una Asamblea Nacional Constituyente y Legislativa y convocatoria inmediata de elecciones. (CAETANO & RILLA, 2005, p. 25)
Nos meses seguintes ao golpe, uma série de medidas mostraram claramente qual seria o cunho do regime instaurado. Interferiu-se violentamente nos partidos políticos, na educação, na economia, na relação com os sindicatos, na forma de lidar com a oposição, nos meios de comunicação, nas decisões políticas em si e até mesmo na política externa.
11No Partido Colorado, o grupo político Unión Nacional Reeleccionista, representado por Jorge Pacheco Areco,
Os partidos políticos tiveram suas atividades imediatamente suspensas, passando para a ilegalidade, sendo dissolvidos além dos partidos, outros movimentos políticos (Partido Comunista, Partido Socialista, Unión Popular, Grupos de Acción Unificadora, Movimiento 26 de Marzo). Na educação, foram combinadas medidas extremamente repressivas com tentativas falidas de obter o controle por outras vias menos brutais (suspensão dos recreios e intervalos nas escolas, o fechamento do Instituto Normal e do Instituto de Profesores Artigas – onde ensinava Baccino –e diversas destituições de cargos). Na economia, a execução do
Plan Nacional de Desarrollo 1973-1977 (formulado em 1972) foi postergada, iniciando-se de certa forma, de acordo com Caetano & Rilla, a experiência neo-liberal uruguaia. A oposição viu-se obrigada a atuar cada vez mais na clandestinidade e seus dirigentes foram quase todos presos ou optaram pelo exílio. Progressivamente, as definições políticas adquiriram um cunho mais autoritário, diminuindo a expectativa em relação a uma possível abertura. Em 9 de dezembro, as eleições de 1976 foram suspensas e o Consejo de Estado foi oficialmente instalado em 19 de dezembro, deixando transparecer o endurecimento da posição do novo regime. Também na política externa as medidas tornaram-se mais duras, sendo o Uruguai um dos primeiros países a reconhecer formalmente a junta militar chilena presidida por Pinochet. Uma ofensiva publicitária evidenciava a preocupação do regime por melhorar sua imagem pública: campanhas antipornográficas, lançamento da chamada “Operación Aseo” que proibia qualquer inscrição em muros e paredes, publicação na imprensa de propaganda pró-governamental (com os dizeres “Ahora es diferente” e “Póngale el hombro al Uruguay”).
Durante 1974, o endurecimento do regime consolidou-se e a participação das Forças Armadas intensificou-se. Além disso, começaram a ser postos em prática outros mecanismos de controle autoritário sobre a sociedade civil.
partidos políticos dentro deste novo marco a se criado, Bordaberry sentenciou: “Estamos en el tiempo de la Nación y no en el de los partidos políticos [...]Por eso todos los que invocan el plazo constitucional de noviembre de 1976, soñando con volver a la caza de los votos, […] que hoy, esta noche, pierdan toda esperanza.”(BORDABERRY apud CAETANO & RILLA, 2005, p. 31)
Em 1975, as práticas repressivas do governo endureceram em relação aos anos anteriores. Houve um absoluto desmantelamento do Partido Comunista, seguido de uma violenta campanha anticomunista que alcançou todas as esferas da sociedade. A ofensiva propagandística se intensificou com a criação da Dirección Nacional de Relaciones Públicas
(DINARP) com o objetivo de ser o “organismo coordinador y rector de las relaciones públicas del Estado” (BORDABERRY apud CAETANO & RILLA, 2005, p. 35), que nada mais era do que um novo centro para o controle autoritário da sociedade civil.
Na periodização proposta por Luis Eduardo González12, o período que se estende de 1973 a 1976 é chamado de “dictadura comisarial”. Esta etapa caracteriza-se por uma carência de projeto político próprio do regime, e por uma intenção de “colocar a casa em ordem” para que se construísse posteriormente uma vida política mais “limpa”, mais ou menos democrática. Pensando-se nesta divisão do tempo, 1976 foi um ano crucial. Seria um “ano eleitoral”, o que por si só já forçava a definição de posições. A isto somava-se o avanço do projeto bordaberrista, que inclusive foi adquirindo ressonâncias públicas. No plano
12
Em relação à periodização da ditadura no Uruguai, o eixo orientador aqui será o mesmo adotado por Caetano & Rilla (2005), ou seja, aquele proposto pelo estudioso político uruguaio Luis Eduardo González, que acredita que os doze anos do regime autoritário reconheceriam três etapas claramente distinguíveis. São elas: “1) la etapa de la ‘dictadura comisarial’, que se extendería entre 1973 y 1976; 2) una segunda etapa que dicho autor denomina del ‘ensayo fundacional’, que se prolongaría hasta 1980; 3) y finalmente la última, denominada por la ‘transición democrática’ y que incluiría ‘formalmente’ – aunque no en muchos aspectos sustantivos – con la asunción de las autoridades legítimas en 1985. El registro de estas tres etapas sucesivas permite a nuestro juicio una aproximación valedera a lo que constituyó la trama y el itinerario fundamentales del régimen militar, al tiempo que también refiere a la evolución en las respuestas de la sociedad civil ante los desafíos supervivientes de los cambios de contexto. A su vez, cada una de esas tres etapas se identifican con ‘momentos’ y ‘proyectos’ especialmente significativos del período de la dictadura.” (CAETANO & RILLA, 2005, p. 13). Ver também Luis Eduardo González, “Transición y restauración democrática”. In: GILLESPIE, Charlie; GOODMAN, Louis; RIAL, Juan; WINN, Peter. Uruguay y la democracia. Tomo III. Montevidéu: The Wilson Center – Ediciones de la Banda Oriental, 1985.
internacional, alguns acontecimentos repercutiam no sentido de respaldar projetos “fundacionais” e de longo prazo. A própria evolução do regime obrigava a uma mudança, pois em 1976 pouco restava para ser feito por uma “dictadura comisarial”, sendo necessário que se fizesse uma escolha entre um enfoque mais ou menos centrado na abertura ou na fundação de algo novo.
A abertura estava descartada pelo governo, pelas Forças Armadas, e até mesmo pela oposição, que não podia abrigar esta expectativa. Se a questão era fundar algo novo, era preciso saber o que fundar e justificá-lo, porém ficou evidente que não havia consenso entre o presidente e os militares. A repressão, longe de perder intensidade, agravou-se novamente, gerando nas palavras de Caetano & Rilla “una serie de episodios que además de su efecto ‘terrorista’ sobre la población, alimentaban también las tendencias ‘fundacionales’”. A ditadura tinha entrado numa dinâmica de permanência, principalmente após os Atos Institucionais 1 e 2, através dos quais se suspendia a convocação de eleições gerais até novo pronunciamento, e se criava o Consejo de la Nación.
Esta mudança qualitativa do regime autoritário a partir de 1976abre a etapa seguinte, de acordo com a periodização de González já mencionada, chamada de “ensayo fundacional”, que se estende de 1976 a 1980, na qual se buscou estabelecer as bases da nova ordem política. Diferentemente do que ocorreu em outros países latino-americanos, no caso uruguaio a ditadura nunca chegou a configurar um verdadeiro projeto fundacional, e é por isso que González empregou a palavra “ensayo” para definir esta fase.
Administrativo e a Corte Electoral. O Consejo de Estado desempenharia a atividade legislativa, e as Forças Armadas se ocupariam da segurança nacional e das pautas da futura Constituição. A Asemblea Constituyente finalmente se integraria com o Consejo de la Nación
e o pleno Poder Ejecutivo.
Novos Atos Institucionais e mais fatos repressivos marcaram o novo ciclo ditatorial. No plano das relações internacionais residiram as maiores dificuldades para a fundação desta nova ordem. Os Estados Unidos suspenderam a ajuda militar ao Uruguai em setembro de 1976 e os laços com as ditaduras no Cone Sul se estreitaram, tornando ainda mais difícil as relações internacionais. A versão oficial em relação à violação dos direitos humanos era: “El Uruguay no tortura, no veja, no maltrata ni al más abyecto de los criminales” (MÉNDEZ apud CAETANO & RILLA, 2005, p. 66).
Entre 1978 e novembro de 1980, o governo se mostrou decidido a legitimar sua atuação mediante a convocatória dos cidadãos às urnas, processo que culminaria com o plebiscito constitucional. O plano político de “prudente abertura” supunha alguma reativação dos partidos tradicionais, uma vez que tivessem “limpado” seus quadros numa fase de ajuste em seus aspectos estruturais.
Durante o ano de 1979, a Junta de Oficiales Generales deliberou intensamente sobre o novo texto constitucional que deveria ser submetido à vontade da população. O governo militar tolerou que o jornal El día usasse o aniversário de morte de José Batlle y Ordóñez para transformar a lembrança em uma série de atos de claro conteúdo político e partidário.