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Parte II: Família, violência e justiça no centro-sul da América portuguesa

3.2. Contratos controversos

3.2.2. O negócio do tabaco

O primeiro dos dois contratos arrematados por membros da família Amaral Gurgel na virada do seiscentos foi o contrato do estanco do tabaco em 1699. Este contrato havia sido criado em 1695 na praça carioca para cobrir as despesas com os gastos de militares da Colônia do Sacramento.49 Seu contratador, Salvador Viana da Rocha, era um

47 DHBNRJ, vol. 98, pp. 154-155, 07/07/1703. Bem como a resolução régia que a seguiu.

48 ANRJ, Códice 77, vol. 13, fls. 59-60, 16/10/1702 e ANRJ, Códice 77, vol. 13, fls. 239-243, 05/11/1703. Na década seguinte em Minas algumas cartas régias reforçavam a importância do plantio local. Cf. APM, Secretaria de Governo da Capitania, Códice 03, fl. 3v, 13/10/1712.

49 O acerto do novo contrato foi realizado pelo Senado da Câmara, o provedor da Fazenda e outras autoridades civis e religiosas. Com seu rendimento pretendiam ser pagos os 5.000 cruzados de contribuição do Rio de Janeiro para a Nova Colônia. Cf. AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, cx. 66, doc. 15495, 16/01/1695. Menos de duas semanas após o acerto o contrato foi posto em pregão, o primeiro contratador foi Gaspar da Silva comprometendo-se no leilão com o valor de 13.750 cruzados anuais. Cf. AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, cx. 66, doc. 15498, 27/01/1695 e AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, cx. 66, doc. 15499, 20/06/1695. Tinha duração de quatro anos e portanto venceu em 1699 quando foi arrematado por Salvador Viana da Rocha e seus sócios. As condições de arrendamento diziam que qualquer transação de fumo na Repartição Sul realizada fora do contrato configurariam contrabando. Cf. AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, cx. 66, doc. 15500, 11/06/1695. Segundo Jean Baptiste Nardi o domínio territorial do contrato foi apenas “teórico” já que algumas regiões cobertas por ele possuíam zonas de plantação de fumo próprias para consumo local. Cf. NARDI, Jean-Baptiste. O fumo brasileiro no período

comerciante reinol estabelecido no Rio de Janeiro e casado com d. Antônia Correia do Amaral.50 Vindo de Lisboa tratou logo de envolver-se nos negócios locais e fez fortuna.

Dali em diante se notabilizaria pela grande gama de atividades comerciais, cargos na administração local, patentes militares e privilégios nobiliárquicos acumulados ao longo dos trinta anos em que viveu no recôncavo da Guanabara. Dono de algumas propriedades urbanas,51 também atuou como fiador em transações de homens

importantes;52 foi escrivão na Casa da Moeda do Rio de Janeiro onde possivelmente

valeu-se de alianças construídas com parentes de d. Antônia Correia do Amaral para ter acesso ao ofício;53 capitão dos mercadores do Rio de Janeiro e em sua carta patente

descrito como “um dos principais homens de negócio e fazenda desta praça”;54 sesmeiro

com terras nas margens do rio Bacaxá no distrito de Cabo Frio;55 além disso era familiar

do Santo Ofício e cavaleiro da Ordem de Cristo, mercês recebidas do rei d. João V.56

Vale ressaltar que o exercício de cargos na governança foi uma das principais estratégias desenvolvidas pelos comerciantes como forma de enobrecimento, bem como casamentos com mulheres pertencentes a troncos parentais de famílias da elite açucareira interessada em seus cabedais.57 Nesse sentido a trajetória de Salvador Viana da Rocha

converge em boa medida com as de seus contemporâneos.

50 D. Antônia Correia do Amaral era a filha mais velha de Maria do Amaral e do coronel Félix Correia de Castro Pinto Bragança. Cf. R RHEINGANTZ, Carlos G. As primeiras famílias do Rio de Janeiro (séculos

XVI e XVII). Rio de Janeiro: Brasiliana, 1967, vol. 2, p. 334.

51 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 77, 217v, 21/09/1709; ANRJ, 2º Ofício de Notas, liv. 14, fl. 73, 16/11/1710 e ANRJ, 2º Ofício de Notas, liv. 25, fl. 80, 03/09/1717. Consultados pelo BDEFRG.

52 Dentre as diversas escrituras em que aparece como fiador destacamos as que envolvem os provedores da Santa Casa de Misericórdia Antônio Rider e Gaspar de Azedias Machado. Cf. ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 76, fl. 77, 05/07/1708 e ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 77, fl. 181v, 21/08/1709. Consultados pelo BDEFRG.

53 AHU, Rio de Janeiro, Castro e Almeida, cx. 14, doc. 2894, 15/03/1705. Hipótese levantada por Grasiela Fragoso da Costa em seu estudo sobre esta instituição criada em 1702. Segundo ela o matrimônio de Salvador Viana e seu ingresso na família Amaral Gurgel possibilitou sua proximidade com Antônio Dias Delgado e José Carvalho de Oliveira, tesoureiros da Casa da Moeda. Cf. COSTA, Grasiela Fragoso da. A

Casa da Moeda do Rio de Janeiro: a instituição e seus membros, c. 1694 a c. 1750. Dissertação de

Mestrado, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006, pp. 77 e 151.

54 ANRJ, Códice 77, vol. 16, fls. 562-565, s.d. e ANTT, Registro Geral de Mercês, D. João V, liv. 7, fl. 506v, 24/01/1709.

55 ANRJ, Códice 61, vol. 16, fls. 333-335, 14/05/1720 e ANTT, Registro Geral de Mercês, D. João V, liv. 7, fl. 506v, 30/01/1721.

56 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, Salvador, mç. 1, doc. 22 e ANTT, Registro Geral de Mercês, D. João V, liv. 8, fl. 24v, 02/03/1720.

57 SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de. “Famílias e negócios: a formação da comunidade mercantil carioca na primeira metade do setecentos”. In: FRAGOSO, João; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de &

Nas capitanias do norte o tabaco começou a desenvolver-se ainda no início do século XVII.58 Pernambuco e suas capitanias anexas contribuíram significativamente para

o avanço do volume de produção. Mas foi o recôncavo baiano que acabou por se notabilizar como a área de cultivo preponderante, responsável por mais de metade da produção de todo o Estado do Brasil. Encabeçada pela vila de Cachoeira onde estavam sediados os maiores produtores e armazéns que estocavam o produto até sua ida para o porto de Salvador.59 O menor custo de investimentos em relação ao açúcar fez com que

pequenos agricultores pobres, e proprietários de poucos escravos optassem pela fumicultura, onde verifica-se uma parcela significativa de trabalhadores livres na lavoura.60

As melhores descrições sobre a cultura do tabaco nas capitanias do norte permanecem sendo do jesuíta André João Antonil. O padre elaborou uma descrição minuciosa dos processos de plantio, colheita e preparação do produto, incluindo os cálculos de armazenamento e transporte correntes na Bahia de seu tempo. Afirmava que o sucesso da fumicultura se devia ao,

[...] apetite de todas as nações, não só da Europa, mas também das outras partes do mundo, donde encarecidamente se procuram. [...] Nem hoje tem os príncipes da Europa, contrato de maior rendimento, pela muita quantidade de tabaco, que se gasta em todas as cidades, e vilas. [...] E a que soma chegará o que se vende cada ano em toda a Grã-Bretanha, em Flandres, em França, em toda a Espanha, e em Itália? Para não falar de outras partes, e do que vai para fora da Europa, particularmente as Índias Oriental e Ocidental; procurando-se o do Brasil por mais perfeito, melhor curado, em maior quantidade da que se lhe pode mandar, por não faltarem comissários aos mercadores, que tratam de prover as partes mais próximas.61

SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de. Conquistadores e negociantes. História das elites no Antigo Regime

nos trópicos. América lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, pp. 225-264.

58 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas..., p. 107 e PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 159-160.

59 As principais freguesias produtoras eram: São José de Itaporocas, São Gonçalo dos Campos, Cachoeira, São Pedro da Muritiba, Outeiro Redondo e Santo Estêvão do Jacuípe.Cf. NARDI, Jean-Baptiste. O fumo

brasileiro no período colonial..., pp. 36-41.

60 O estudo de Nardi aponta que na vila de Cachoeira os lavradores eram em sua maioria livres, rendeiros e imperava o minifúndio. Cf. Ibidem, pp. 59-69.

61 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas..., p. 125. Segundo seus cálculos na primeira década do século XVIII saiam para Lisboa aproximadamente 27.500 rolos de tabaco da Bahia, Pernambuco e Alagoas. A soma total dessas exportações era mensurada por ele em 344:650$000. Cf. Ibidem, p. 123.

Na narrativa acima sobre a penetração do tabaco produzido na América lusa nas mais diversas regiões do globo, Antonil não toca no papel desempenhado pelo tabaco nas trocas realizadas na África que viabilizavam o tráfico de escravos na Costa da Mina. A presença do tabaco brasileiro na Costa do Ouro serviu para quebrar a hegemonia holandesa consolidada naquele território e permitiu negociações com os soberanos africanos que tornaram-se grandes consumidores do produto.62

Voltando o olhar para dentro do Brasil, o contrato do estanco do tabaco servia para suprir a demanda do fumo sentida em todas as capitanias do sul. O pregão foi vencido por uma sociedade liderada por Salvador Viana da Rocha, mas que continha também outros homens de negócio. Os componentes dessa rede de sócios é sem dúvidas um indicativo bastante claro da extensão dessa rede não apenas comercial, mas com amigos, alguns possivelmente de longa data. Eram eles: Jorge Mainard, Manuel do Rego Bandeira e Gonçalo Ferreira Souto. Os parceiros ainda contavam com um procurador na Bahia, tratava-se de Nicolau Lopes Fiúza.63 Tais parcerias são características primordiais para o

entendimento das elites das sociedades de Antigo Regime ibero-americanas e um dos segredos de sua longevidade.64

O primeiro nome da lista acima é o de Jorge Mainard. O Tribunal do Santo Ofício o descreveu como homem de negócio e natural do Porto onde ainda conservava pais e um irmão, Samuel Palmer, que atuava igualmente como negociante naquela praça. Chegado ao Rio de Janeiro casou-se com Úrsula da Silva Pereira, filha do capitão Francisco de

62 FERREIRA, Roquinaldo. “A primeira partilha da África: decadência e ressurgência do comércio português na Costa do Ouro (ca. 1637 – ca. 1700)”. In: Varia História. Belo Horizonte, vol. 26, n. 44, 2010, pp. 479-498. Sobre a ligação do tabaco pernambucano com tráfico na mesma região ver: LOPES, Gustavo Acioli. Negócio da Costa da Mina e o comércio Atlântico: Pernambuco (1654-1760). Tese de Doutorado. São Paulo, Universidade de São Paulo, 2008, pp. 93-132. Até o fim do setecentos o fumo permanecia como produto regular no comércio baiano com o Oriente. Cf. LAPA, José Roberto do Amaral. A Bahia e a

Carreira da Índia. São Paulo: HUCITEC/Editora da UNICAMP, 2000, pp. 293-297.

63 DHBNRJ, vol. 64, pp. 370-371, s.d.

64 Nas palavras de Michel Bertrand: “si se admite que las élites coloniales constituían un grupo social dentro del cual muchos pretendieron integrarse o estabilizarse, el planteamiento em términos de redes permite reconstruir las múltiples estrategias que unos y otros fueron capaces de concebir teniendo en cuenta la especificidad de su propia situación. A un análisis centrado en los limites que permiten distinguir a los grupos sociales entre sí, la reconstitución de las redes sociales ofrece la posibilidad de identificar las conexiones que los distintos actores sociales fueron capaces de establecer tanto dentro de un grupo concreto como entre unos y otros”. Cf. BERTRAND, Michel. “Los modos relacionales de las elites hispanoamericanas coloniales: enfoques y posturas” In: Anuario IEHS. Tandil, n. 15, 2000, pp. 61-80, citação à p. 80.

Oliveira Leitão.65 Seu sogro era um reconhecido membro da elite fluminense, atuou em

ofícios auxiliares da administração fazendária e era arrendatário do único trapiche existente na cidade que pertencia aos viscondes de Asseca, o aforamento fora feito em 1678 por Salvador Correia de Sá e Benevides, avô e tutor do visconde na época.66

Jorge Mainard também atuou como moedeiro no Rio de Janeiro antes da instalação da Casa da Moeda, cargo “ocupado majoritariamente por homens de negócio e seus familiares”,67 nos anos seguintes estabeleceu-se em nas Minas com seu irmão

Guilherme Mainard.68 Por volta de 1720 os dois irmãos pediam ao rei d. João V licença

para não servirem de vereadores, juízes ordinários ou procuradores nas câmaras do Rio de Janeiro e Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo. Justificavam “pelo tempo que os tais cargos lhes tiram, fazendo-os faltar a boa administração dos negócios”.69

O segundo sócio de Salvador Viana da Rocha era Manuel do Rego Bandeira. Também reinol, natural da vila de Viana do Castelo, solteiro e sediado no Rio de Janeiro como homem de negócio. Assim como Jorge Mainard também possuía um irmão que permanecera no reino e atuava como homem de negócio, João de Morais Rego, comerciante na praça de Lisboa.70 Infelizmente não localizamos outras informações sobre

seus negócios e relações sociais no Brasil, diferentemente de Gonçalo Ferreira Souto, o terceiro sócio. Saído da freguesia de São Salvador de Ilhavo, no Arcebispado de Braga, era um mero “assistente” na cidade do Rio de Janeiro em meados da década de 1670.71

65 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, Jorge, mç. 2, doc. 51. No processo de habilitação como familiar seu nome é grafado como George Mainard. Isso se explica pela ascendência de seus avós paternos originários do reino da Inglaterra.

66 FRAGOSO, João. À espera das frotas: a micro-história tapuia e a nobreza principal da terra (Rio de

Janeiro, 1600-1750). Tese de Professor Titular, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro,

2005, p. 216. Em 1692 uma disputa opondo o Senado carioca e os proprietários do trapiche correu nas pautas do Conselho Ultramarino, os camaristas desejavam a construção de um novo trapiche, o que ao fim foi recusado pelo órgão. Essa querela pode ser vista em: cf. SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na

encruzilhada do império..., pp. 78-79.

67 SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de. “Famílias e negócios...”, p. 263.

68 Guilherme Mainard em sua passagem por Salvador atuou como agente de Francisco Pinheiro, grande homem de negócio sediado em Lisboa. Cf. LISANTI FILHO, Luís (Ed.). Negócios coloniais (Uma

correspondência comercial do século XVIII). Brasília/São Paulo: Ministério da Fazenda/Visão Editorial,

1973, vol. 1, pp. 39, 44 e 51 e vol. 4, pp. 574, 575 e 576.

69 O requerimento foi atendido pelo rei. Cf. AHU, Rio de Janeiro, Avulsos, cx. 12, doc. 15, 17/02/1720. Ao que parece os irmãos terminaram suas vidas nas Minas, em 1746 os dois ainda recebiam sesmarias no termo de Mariana nas proximidades do rio Gualaxo do Sul. Cf. CARTAS de sesmaria. In: RAPM, vol. 3, 1898, pp. 783-927, referência às pp. 902-903, 10/05/1746.

70 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, Manuel, mç. 43, doc. 951. 71 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, Gonçalo, mç. 3, doc. 68.

Sua situação porém era muito diferente em fins do seiscentos, nesse período tornou-se um dos procuradores de Luís César de Meneses no Rio de Janeiro. César de Meneses ex-governador do Rio de Janeiro e no momento em questão governador de Angola foi um administrador colonial profundamente envolvido no tráfico de escravos. Sua rede de agentes e parceiros comerciais nos negócios durante o período em que esteve à frente do governo angolano foi analisada por Leonardo Alexandre Oliveira. Neste estudo podemos ver o volume das remessas de marfim, açúcar e escravos que circularam pelo Atlântico com a coordenação do governador. Seus principais representantes estavam espalhados pela Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e Lisboa. Gonçalo Ferreira Souto era um dos cinco procuradores sediados no Rio de Janeiro.72

De fato, era um homem rico no início do século e já casado com d. Bárbara da Silveira, tornou-se senhor de engenho, dono de propriedades na cidade e benemérito da Santa Casa de Misericórdia.73 Embora seja difícil precisar, mas suas ligações com Luís

de César de Meneses foram fundamentais para seu enriquecimento. Ferreira Souto era dos três o que tinha ligações mais próximas com os Amaral Gurgel, serviu como testemunha do casamento de Salvador Viana da Rocha em 1702 na companhia do padre Cláudio do Amaral Gurgel e d. Antônia do Amaral.74 Alguns anos depois serviu como

fiador do padre Cláudio do Amaral Gurgel e outros irmãos da Ordem Terceira de São Francisco para o arrendamento de um trapiche nos pés da ladeira de Nossa Senhora da Conceição.75

O último vértice da rede comercial em torno do contrato do tabaco era o procurador Nicolau Lopes Fiúza. Este também era natural da vila de Viana do Castelo e em 1691 já encontrava-se estabelecido em Salvador como homem de negócios.76 Na

capital baiana casou-se com d. Isabel Barreto de Meneses, filha de Jerônimo Moniz

72 Nesse detalhado estudo é possível observar que Gonçalo Ferreira Souto era o segundo maior correspondente de Luís César de Meneses no Rio de Janeiro e o sexto maior correspondente de todas as suas cartas comerciais. OLIVEIRA, Leonardo Alexandre de Siqueira. Redes de poder em governanças do

Brasil à Angola: administração e comércio de escravos no Atlântico sul (Luís César de Meneses, 1697- 1701). Dissertação de Mestrado, Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2013, pp. 145-147.

73 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 73, fl. 177v, 06/10/1706; ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 76, fl. 147, 08/10/1708 e ANRJ, 2º Ofício de Notas, liv. 12, fl. 100v, 09/02/1710. Consultados pelo BDEFRG. Apesar de não conseguirmos identificar o nome de seu engenho, ele estava localizado em Piiba na Banda d’Além (atual Ipiiba no município de São Gonçalo).

74 ACMRJ, Livros de Matrimônios da Freguesia de Nossa Senhora da Candelária, liv. 2, fl. 16v, 05/08/1702. Consultado pelo FS.

75 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 69, fl. 76, 20/06/1704. Consultado pelo BDEFRG. 76 ANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, Nicolau, mç. 2, doc. 21.

Barreto,77 segundo Rae Flory e Stuart Schwartz um dos principais integrantes da

aristocracia do açúcar baiano. Em meados da década de 1690 quando seu irmão mais novo, João Lopes Fiúza, chegou de Portugal para a Bahia casou-se com uma das irmãs de sua cunhada, matrimônio arranjado pelas conexões que Nicolau Fiúza já possuía com as elites da terra. Não por acaso, João Lopes Fiúza tornou-se rapidamente senhor de engenho.78

Nicolau Fiúza fez grande fortuna e foi homem reconhecido não só na Bahia, tendo residido também em Recife. Nos últimos anos do seiscentos participou regularmente das sessões na Câmara de Salvador para regulamentação dos preços do açúcar, onde vereadores, lavradores, senhores de engenho e homens de negócio debatiam o tema.79 Foi

sesmeiro e dono de vastas terras no sertão do Ceará e Pernambuco, destinadas para a criação bovina, em 1706 ele e sua esposa afirmavam possuir mais de 14 mil cabeças de gado.80 Também aventurou-se no trato negreiro, aparece como proprietário de sete

embarcações que fizeram o circuito Bahia-Costa da Mina entre 1699 e 1706 para o resgate de africanos.81

De maneira geral podemos considerar que as trajetórias de Viana da Rocha, Mainard, Rego Bandeira, Ferreira Souto e Fiúza bem próximas. Todos egressos do norte do reino para o ultramar, envolvidos em diferentes áreas do comércio nas conquistas, contatos em diferentes partes do Atlântico, valendo-se oportunamente de casamentos bem arranjados com mulheres saídas de famílias das elites locais. Além disso, todos eram

77 JABOATÃO, Frei Antônio de Santa Maria. “Catalogo genealogico das principaes familias que procederam de Albuquerques e Cavalcantes em Pernambuco, e Caramurus na Bahia”. In: RIHGB, t. LII – Primeira Parte, 1889, pp. 5-484, referência à p. 163.

78 O nome da esposa de João Lopes Fiúza era d. Teresa Eugênia de Meneses, igualmente descendente da família Moniz Barreto. Cf. FLORY, Rae & SMITH, David Grant. “Merchants and planters in the seventeeth and early eighteenth centuries”. In: Hispanic American Historical Review. Durham, vol. 58, n. 4, 1978, pp. 571-594, referência à p. 576 e SCHWARTZ, Stuart. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade

colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 227.

79 ACS, vol. 6, pp. 338-339, 17/05/1697; pp. 356-358, 22/05/1698 e pp. 371-372, 06/04/1699.

80 O acesso a essas informações só foi possível através da Plataforma Sesmarias do Império Luso-Brasileiro. Nessas cartas de sesmarias as justificativas mais frequentes apresentadas eram: o “descobrimento” daquelas terras com sua própria fazenda, a conquista contra índios bravios na expansão da fronteira oeste rumo ao Ceará e necessidade de novos espaços para a criação de gado vacum. A maioria de suas sesmarias estão concentradas pelas margens do rio Jaguaribe. As referências das informações acima encontram-se em: Cf. CE 0098, 27/08/1704; PE 0039, 15/01/1705; CE 0119, 23/12/1706 e CE 0266, 25/09/1707. Consultados pela PSILB. Disponível em: http://www.silb.cchla.ufrn.br, consultas em nov/2016.