Parte I: Família, linhagens e trajetórias do reino a América portuguesa
1.3. Matrimônios e batismos
1.3.3. Senhores da terra
Como já afirmamos acima, muitos dos Amaral Gurgel foram grandes proprietários de terras e escravos nas freguesias rurais do Rio de Janeiro. Nesse sentido, um primeiro levantamento que pode ser feito é a quantidade e localização dessas terras.
64 Essa genealogia que serviu de base para a análise empreendida engloba apenas os membros da primeira e segunda geração da família. Esta construção só foi possível a partir do trabalho de Carlos Rheingantz do qual retiramos a estrutura básica. Pequenas modificações e acréscimos foram feitos com a consulta de outros documentos, mas sem alterar de forma brusca os dados recolhidos por ele na Cúria do Rio de Janeiro. Em alguns momentos a seguir trajetórias de descendentes da terceira geração, embora estes não estejam inclusos na análise dos dados feita acima. Serão utilizados apenas para explorar aspectos que não encontramos informações documentais com seus ascendentes.
Para isso a Relação das Sesmarias feita pelo monsenhor Pizarro aparece com uma fonte fundamental para tanto. Recorrendo a ela encontramos os seguintes dados.
Tabela 1.1 - Relação das cartas de sesmarias recebidas pelos Amaral Gurgel
ARAÚJO, José Pizarro de Sousa Azevedo e. “Relação das sesmarias da capitania do Rio de Janeiro, extraída dos livros de sesmarias e registros do cartório do tabelião Antônio Teixeira Carvalho. De 1565 a 1796” In: RIHGB, t. LXIII – Primeira Parte, 1900, pp. 93-153.
Para facilidade de entendimento das localizações atualizamos as nomenclaturas usadas nas cartas de doação. Utilizando como base a divisão territorial do termo do Rio de Janeiro proposta por Maurício de Abreu chegamos a algumas conclusões sobre as cartas recebidas. Metade delas estavam localizadas na região de Irajá/Meriti que compreende os terrenos próximos aos rios Pavuna e Meriti e avança ao interior até o atual município de Nova Iguaçu. Duas outras sesmarias estavam localizadas no Fundo da Baía nas bacias dos rios Suruí e Inhomirim, hoje município de Magé.65 Outras duas estavam
descoladas destes blocos. João Batista Jordão, o primeiro a receber carta de sesmaria, foi proprietário em Macacu. Manuel Martins Quaresma em São Gonçalo, conhecida nos séculos XVI e XVII como Banda d’Além.
É interessante notar que o principal sesmeiro da família, João de Campos Mattos, possuía suas terras em três zonas distintas, configuram uma dispersão espacial de suas propriedades. Segundo Maurício de Abreu, durante os seiscentos foram distribuídas na capitania do Rio de Janeiro aproximadamente quatrocentas e cinquenta cartas de sesmarias, na primeira metade do século as melhores terras no arredor da cidade ganharam donos, já na segunda à apropriação do território foi basicamente para preencher os espaços que sobravam no termo da cidade e se iniciar a ocupação das serras de Caioaba,
65 ABREU, Maurício de Almeida. Geografia histórica do Rio de Janeiro..., vol. 2, p. 91-92.
Proprietário Localização Data
João Batista Jordão Macacu 13/01/1659
João Batista Jordão Magé 30/10/1668
Manuel Martins Quaresma Jacutinga 18/04/1674
João de Campos Mattos Meriti 17/11/1678
João de Campos Mattos Magé 25/01/1682
Antônio Rodrigues Tourinho Meriti 19/02/1686
João de Campos Mattos São Gonçalo 25/10/1694
Tinguá, Taocaia e Órgãos.66 Resta notar que as cartas concentram-se na segunda metade
do século XVII, quando os Amaral Gurgel estabelecem-se como uma família de prestígio na cidade.
Além de sesmeiros, muitos destacaram-se como senhores de engenho. Por isso, alguns casos podem ilustrar bem o perfil desses proprietários. O primeiro deles foi Claude Antoine Besançon. Este francês, natural da Borgonha se estabelecera como senhor de engenho comprando sua primeira fábrica no Rio de Janeiro em 1626, segundo Fragoso sendo este também integrante da primeira leva de produtores de açúcar da capitania do Rio de Janeiro.67
Besançon enriqueceu sendo proprietário posteriormente de outras moendas de açúcar no termo da cidade do Rio de Janeiro e em seu recôncavo. Entre suas propriedades se destacavam-se dois engenhos.68 Seu patrimônio fundiário se alastrava para o outro lado
da baía de Guanabara, na freguesia de São Gonçalo do Amarante. Naquela região estabeleceu-se como um dos maiores proprietários de escravos de seu tempo, com números próximos aos de Jerônimo Barbalho, o homem mais rico daquela localidade.69
Seu casamento com Isabel do Amaral não deixou geração, tendo ela falecido vinte anos após o matrimônio. Casou-se pela segunda vez com Maria de Carvalho, mulher com a qual viveu até o fim de sua vida, também sem deixar filhos. É difícil precisar a força dos laços familiares entre o Claude Besançon e os Amaral Gurgel após a morte de sua esposa já que constituiu novamente família, apesar de um segundo casamento não significar um rompimento absoluto com a linhagem à qual era anteriormente ligado.70
66 Ibidem, vol. 1, pp. 216-233.
67 RHEINGANTZ, Carlos G. As primeiras famílias do Rio de Janeiro..., vol. 2, p. 325 e FRAGOSO, João. “A nobreza da República...”, Anexo 1, p. 105.
68 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 35, p. s.n., 03/04/1641 e 1º Ofício de Notas, liv. 39, fl. 174v, 18/05/1652. Consultados pelo BDEFRG. Disponível em: http://mauricioabreu.com.br/escrituras/search.php.
69 AGUIAR, Júlia Ribeiro. Por entre as frestas das normas: nobreza da terra, elite das senzalas e pardos
forros em uma freguesia rural do Rio de Janeiro (São Gonçalo, sécs. XVII e XVIII). Dissertação de
Mestrado, Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2015, p. 105.
70 Analisando o testamento deixado por Besançon em 1654, Fernando da Motta revelou que entre as doações feitas às irmandades e ordens religiosas, o francês legou a seu sobrinho Cláudio Gurgel do Amaral 100$000 pagos em açúcar. Cf. MOTTA, Fernando Maia da. Do calabouço à elite da capitania: estratégias e
trajetórias sociais da família Gurgel do Amaral no Rio de Janeiro do século XVII. Dissertação de mestrado.
São Gonçalo, Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Faculdade de Formação de Professores, 2011, p. 98.
Outro caso que merece ser mencionado são os irmãos Jordão. Além de sesmeiro, João Batista Jordão também esteve envolvido nos negócios do açúcar. Em 1655 aparece como proprietário de um partido de cana dentro do engenho da Cruz, pertencente a Braz Pereira, que ficava localizado entre os rios Meriti e Pavuna.71 Anos mais tarde temos a
confirmação de que expandiu suas propriedades se tornando proprietário do engenho São Bernardo, na mesma localidade.72 Em setembro e novembro do mesmo ano adquiriu dois
novos partidos de cana no engenho do Campinho.73
Seu irmão mais novo, José Nunes da Silva, contraiu núpcias com Méssia Arão.74
José Nunes comprou um partido de cana de seu concunhado, o padre Francisco do Amaral e quatorze escravos, em Meriti onde seu irmão também foram proprietário.75 Foi
proprietário do engenho Jesus, Maria, José “sito nos Coqueiros” em sociedade com Manoel Teles de Meneses, revendido em 1685 pela quantia de dez mil cruzados.76
Essas informações nos levam a confirmar a grande parcela de importância das relações comerciais entre parentes. No que toca aos engenhos essa parece ter sido uma estratégia da elite escravista fluminense de circular e transmitir dentro das suas linhagens os motores da economia local àquela altura. Mais que isso, além dos ganhos econômicos do fabrico de açúcar ou cachaça, os engenhos eram produtores da “legitimidade social” que esses homens pretendiam monopolizar.77
O também sesmeiro João de Campos Mattos e casado com Isabel do Amaral, filha de João Batista Jordão, recebeu como dote um partido de canas no engenho de João Velho Prego e doze escravos, uma boa forma de iniciar sua trajetória como proprietário no Rio de Janeio.78 Logo depois de casado comprou o engenho da Santíssima Trindade em
71 FAZENDA, José Vieira. Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro..., pp. 46-47. A sesmaria recebida por Jordão era localizada em terras da Santa Casa do Rio de Janeiro e para recebe-la teve que passar por um longo litígio com a irmandade. Alguns documentos sobre ela estão em: cf. ASCMRJ, 5º Livro do Tombo, fl. 5v, 20/03/1662. Consultado pela BDEFRG e ANRJ, Códice 77, vol. 8, fls. 182v- 186v16/08/1701.
72 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 44, fl. 207, 29/06/1662. Consultado pelo BDEFRG.
73 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 44, fl. 232, 01/09/1662 e ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 45, fl. 25, 29/11/1662. Consultados pelo BDEFRG.
74 RHEINGANTZ, Carlos G. As primeiras famílias do Rio de Janeiro..., vol. 2, p. 75 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 55, fl. 125v, 10/12/1682. Consultado pelo BDEFRG. 76 BNRJ, Seção de Manuscritos, 12, 3, 14, fl. 114, 18/10/1685. Consultado pelo BDEFRG.
77 Ibidem, pp. 131-132. Ainda segundo Fragoso em fins do século XVII mais da metade das transações envolvendo engenhos eram feitas entre membros de um mesmo grupo familiar.
78 RHEINGANTZ, Carlos G. As primeiras famílias do Rio de Janeiro..., vol. 2, pp. 325-326; ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 47, fl. 51, 09/12/1665,
Guaxindiba que pertencera ao capitão Diogo Lobo Pereira, se tornando mais um senhor de engenho pertencente à família.79
Essas microbiografias são reflexo da centralidade que a terra, o açúcar e a escravidão possuíam na expansão da economia do recôncavo da Guanabara. Na segunda metade do século XVII a economia açucareira continuaria a crescer no Rio de Janeiro, embora num ritmo bem mais lento do que nos cinquenta anos anteriores, o número de moendas em funcionamento passou de cento e seis para cento e trinta e seis, partindo desses números acreditamos, assim como outros historiadores que os efeitos da crise dos preços do açúcar merece ser relativizada para as economias regionais frente às conjunturas internacionais, ao menos para o Rio de Janeiro.80
Gráfico 1.6 - Número de engenhos na capitania do Rio de Janeiro (1650-1700)
Fonte: ABREU, Maurício de Almeida. Geografia histórica do Rio de Janeiro..., vol. 2, pp. 94-95.
Em contrapartida novas áreas de atuação surgiram na capitania com o fortalecimento do comércio atlântico e a inserção definitiva do Rio de Janeiro dentro do Império português, acompanhando a reconquista de Angola por Salvador Correia de Sá e
79 ANRJ, 1º Ofício de Notas, liv. 49, p. 48v, 09/10/1669. Consultado pela BDEFRG.
80 ABREU, Maurício de Almeida. Geografia histórica do Rio de Janeiro..., vol. 2, p. 94 e SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Na encruzilhada do império: hierarquias sociais e conjunturas econômicas no Rio
de Janeiro (c. 1650-c. 1750). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003, pp. 113-115.
0 20 40 60 80 100 120 140 160 1650 1660 1670 1680 1690 1700
Benevides, o fim das guerras com os holandeses e a importância que a produção de cachaça alcançou para o tráfico de escravos que era a principal atividade dos primeiros negociantes cariocas.81